16 de dezembro de 2010

De férias? Forever alone...

Enquanto ainda estava na barriga de mamãe um anjo me cochichava aos ouvidos: "Do lado de cá existem muitas desgraças e tristezas, mas nada se compara as férias"; Eu não dei ouvidos a ele. Quando cheguei ao lado de cá e entrei na 1ª série do ensino fundamental, as férias foram a primeira amostra grátis que Deus me enviou como prévia da vida encarnada. Mesmo prevendo a tormenta iminente eu desejava o começo das férias com todo fervor que nenhum evangélico é capaz de ter. Acredite. Ao invés de aprender a ler a história da galinha Zaza e a escrever três linhas seguidas de C, eu queria férias, sem saber muito bem como funcionava isso, mas eu sabia que não tinha que acordar cedo para ir à escola.

Ah, a inocência...

Na primeira semana eu acordava de madrugada para por o pé na estrada para visitar os parentes gauchos por parte de pai (é, tenho um pai, por mais que eu queira ter nascido de chocadeira). Passavamos quatro dias, se não me engano, dormindo em hoteis duvidosos, meu pai achava uma viagem de carro muito mais proveitosa. Nem se eu quisesse muito poderia brincar de alguma forma indo do carro para o hotel e vice versa, para completar cobravam caro pelas barras de chocolate do quarto e eu não tomava banho de jeito nenhum nas espeluncas de beira de estrada. Já era cheia de "não-me-toque" desde pequena. Resumindo então, eu passava uma semana acordando de madrugada, sem banho e sem doces e sem vida saudável para uma criança. Tudo isso para chegar em um fim de mundo no RS onde não havia energia nem água quente, só um primo um tanto mais velho que eu que adorava brincar com armas de brinquedo e terra. Muita terra.

Eu presenciava ovelhas sendo abatidas e suas peles arrancadas, ovos pobres sendo estourados e minha tia perdendo a dentadura por conta das nauseas provocadas pelo cheiro. "Cagaram no mundo!", meu primo gritava pela fazenda. Minha mãe, sempre muito bem aventurada desde que conheceu meu pai, teve a sorte de encontrar uma cabeça de ovelha com os olhos esbugalhados na geladeira da casa de titia em plena madrugada. Não dormi naquela noite por causa da sede e vontade de fazer xixi. Minha mãe não pregou o olho pelo resto dos dias no cu do mundo, suas únicas palavras foram "São Paulo, quero ir". Dias depois, indo embora e com uma bagagem invejável de desgraças, eu brincava com meu primo e seus coleguinhas pseudoalemães quando, por força do Mal, topei meu dedo no degrau da casa e arranquei a unha do meu dedão do pé. Dali seriam mais quatro dias sem sono nem banho para chegar em casa e voltar a estudar.

Do final do ensino fundamental para o começo do ensino médio meus pais resolveram mudar a rota. Minha avó paterna (que não era um Chacal embora isso ainda seja questionável) havia falecido e meu pai perdera o interesse em visitar seus parentes gauchos. "Estou livre!", pensei. O cosmo deu uma risada sarcástica sabendo de algo que eu não havia percebido ainda. As férias começadas e eu ainda em casa com meus pais sem rota definida. "Amanhã a gente resolve", eles me disseram. Como de costume dos Lang (minha família, fazer o que?) o dia seguinte não havia despontado por completo no horizonte e minha mãe me cutucava na cama, eu estava acordando de madrugada para viajar. O apartamento virado do avesso com malas por cima de mim. minha mãe metade descabelada outra metade suicída, me dizia que estavamos indo para a praia. "Mas por que de madrugada?", eu perguntava sendo atingida por peças de roupa, "Porque é assim que tem que ser".

Acontece que na idade em que eu estava tudo era porque tinha que ser. Como meus braços finos demais, pernas longas demais, sem bunda nem peitos e virando um patinho feio para só depois me tornar um pato não tão feio assim. Eu não queria usar biquini. Eu não queria ficar exposta a luz do sol para que todos soubessem de minha existência, mas estávamos indo à praia. Era Natal e todos queriam ir à praia, entenda, SP tem milhões de habitantes. Todos esses milhões queriam passar de uma vez em uma única rodovia. Todos esses milhões iriam entupir a rodovia. Eu e mais todos esses milhões iriamos passar uma madrugada nublada inteira na estrada, dentro de nossos carros, ouvindo nossa música e, quem sabe, presenciando uma briga familiar. Isso nunca me deixou muito contente. Meu pai se achava muito esperto saindo de casa na madrugada achando burlar todo um sistema anarquista que mantém as férias um pesadelo. Ele e mais outro milhão de pais se achavam realmente muito espertos.

Chovia. Uma vez minha mãe apontou uma coisa estranha na areia e achou legal, eu não achei nada legal, mas ela insistiu que aquele brinquedo era meu e me obrigou a pegá-lo. "Não!", moças gritaram ao longe, "Isso é uma água-viva!", eu meio que sempre dependi de terceiros para sobreviver. Todas as vezes, sem uma única falha, peguei virose e mais uma semana de férias da escola porque estava vomitando a alma. O único momento digno de memória, mas que mesmo assim não me lembro, foi quando mamãe encontrou uma nota de 200 Cruzados rolando nas ondas do mar (sim, sou da époda do Cruzado mesmo, mas e você que é feio?) e com ela nos comprou picolés. De todas minhas férias escolares tenho somente uma recordação agradável e, digamos, duvidosa já que não me lembro e minha mãe talvez tenha inventado só para que eu não tenha mais um trauma.

O preço pelos meus desejos atendidos de férias foram míseros Cruzados que hoje não compram nem conselho de padre e a constatação de que o Inferno é aqui e agora.

NOTA:
Eu queria agradecer a equipe do Blorkutando pelo primeiro lugar com Afinal, o que querem os homens? e De férias? Forever alone..., é gratificante ter um texto reconhecido e bem aceito pelos leitores.

7 comentários:

Michele disse...

Hahahaha! Eu AMO esse seu sarcasmo! Você fala das suas memórias e do seu cotidiano que foram ou são um pé, mas de uma maneira que é impossível ler sem rir!

Ninguém merece ir ao fim do mundo pra ver ovelhas sendo abatidas e encontrar uma cabeça dentro da geladeira com o agravante-mor: SEM BANHO!

Sinto muito, amiga! Suas lembranças de férias são realmente... hm... difíceis! rss

Um beijo, querida!


(E a reforma no vizinho? Terminou?)

Rafa disse...

Gostei do teu jeito de ver as férias. Alias, gostei muito do teu jeito de escrever. Parabéns! :D
Tô te seguindo. ;)
Alias, espero que essas férias sejam melhores... Porque ninguém merece férias assim.
Beijos!

Thay disse...

Hauheua, gente, que férias macabras foram essas? Cabeças de ovelha na geladeira, viroses e falta de banho! Acho que eu não seria uma adulta muito normal se tivesse vivenciado essas coisas. XD Bem, espero que as férias atuais sejam bem melhores! \o/

Beijo!

Au disse...

Em vinte e dois anos de vida, nunca li nada parecido sobre as Férias!
Você é realmente muito engraçada (concordo com a Michele, seu sarcasmo é demais!).
E completamente compreensível essa sua revolta, só te levavam para lugares estranhos e com gente mais estranha ainda...
Espero que essas férias sejam melhores agora!


Beijo

Thais disse...

Muito engraçado esse post! Me identifiquei muito com "três linhas seguidas de C". Me lembro dos caderninhos... Passávamos o ano inteiro só fazendo isso, praticamente! :D
200 Cruzados?! Eu não lembro dessa época. Comecei a ter consciência de mim logo no plano Real. :)

http://thaisacorrea.com/b/

gabs. disse...

Eita, eu ri do começo ao fim.
Também detesto férias, mas viajar pra ser assim, é melhor ficar em casa. Rá, eu e minha TV, rá! ¬¬'

Tem selo pra vc:*

Janaina Barreto disse...

kkkk
Cara, eu sabia que tu ia levar todas no blorkutando! Teus textos são muito engraçados, naturalmente engraçados. haha Amo muito.
Inferno na terra, hein? tava pagando os pecados. Isso é Karma?! rs

Graças à Deus minhas férias sempre foram calmas, não férias dos sonhos, mas não foram ruins. Saudade da casa de praia mesmo que eu ficasse infurnada na rede da varanda. Tem coisa melhor?! ;-p

Parabéns pelos pódios. Você mereceu ;*

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