10 de dezembro de 2010

Morreu de Raio e Zé Trovão

Os vizinhos decidiram que seria de bom tom transformar o sobrado deles em um prediozinho de três andares, adicionando assim mais um andar na casa. Isso porque um dos filhos do casal vai juntar as escovas de dente com a namorada que mora fora de São Paulo. Hoje é moda "se casar" mas continuar morando na casa dos pais ou ir morar na casa dos sogros, seja em cima, no quintal dos fundos ou na casinha do cachorro. Lógico que com eles não seria diferente.

Reformas implicam muitos projetos, muitos cálculos e muita sujeira, mas levando em consideração que moro no suburbio posso dizer que não houve muitos projetos, provavelmente cálculo nenhum e com certeza mais sujeira que o previsto. As reclamações também chegaram, não da nossa parte por conta do barulho, da poeira, do cimento na água dos cachorros ou da irregularidade da coisa toda (porque decisões da subprefeitura é coisa pros fracos), mas sim deles porque, apesar de estarem construindo quase em cima do nosso quintal, eles não querem conviver com nossos cachorros que estão ali a) porque é o quintal deles e b) é o único lugar que existe para cagarem. Segundo a vizinha é um absurdo os cachorros cagarem no lugar que tem por direito já que ela resolveu abrigar seu filho desempregado mais "namorida" debaixo de suas asas por mais, não sei, mil anos e isso bem no nosso quintal. Para ela não é o suficiente o que já fazemos: limpar o quintal de duas a três vezes por dia (limpando tanto cocô quanto cimento e restos de obras). Não. Assim como para nós não é o suficiente perder nosso quintal, queremos mais, queremos um "Pesque e Pague" bem nas janelas de nossos quartos. Sim!

De qualquer forma, o que mais me chamou atenção nessa obra, acredite, foram os pedreiros. Como eles trabalham bem ao lado de uma das janelas do meu quarto volta e meia consigo ouvir uma conversa ou outra. Acordar de manhã com "CUIDADO, MULEQUE!" é um de meus desejos sendo realizado. Então, em um fim de tarde nublado, eu em casa, os pedreiros trabalhando no que costumava ser meu quintal - bem em frente à janela do banheiro porque desgraça pouca é bobagem - aconteceu, digamos assim, uma linha cruzada, um conflito de interesses. Eu queria fazer xixi, eles queriam ganhar o dinheirinho do mês, e a janela impedia ambos de seguirem com seus sonhos de uma vida mais digna. Você que reclama dos banheiros da cidade ou do seu trabalho ou, sei lá, da buatchi não sabe o que é dividir um banheiro com pedreiros desconhecidos.

Fechei a janela e ainda pendurei uma toalha para não restar dúvidas quanto a minha privacidade e a deles. E dai a gente senta e reza, meu filho. Foi nesse momento de pura compreensão humana e filosofia transcendental que eu ouvi mais um dialogo, o dialogo. Imagine um barulho corriqueiro de obras, cimento sendo remexido, pás, coisas caindo e alguns trovões avulsos para incorporar a situação (dispense o barulho de xixi):

Fulano 01: Acho que vai chover...
Fulano 02: Não gosto disso, não.
Fulano 01: E tu tem medo de raio, é!?
Fulano 02: 'Cê num ouviu sobre o cara que fez aquela obra lá em Santos!?

Olha, é meio delicado dizer isso, eles eram pessoas do norte ou nordeste do país. Complicado dizer porque as pessoas acham que é comum ou engraçado tirar sarro/ter preconceito dessas pessoas, mas não é para mim. Fato é que eles eram de outra região e, como todo mundo sabe, eles tem um sotaque bem enrolado, portanto nem sempre é possível entender tudo, apenas 50% da conversa. Só entendi que era em Santos, o resto deduzi ser um cara fazendo uma obra lá, não poderia ser algo muito diferente disso...

Fulano 01: Ele tinha medo de raio?
Fulano 02: Ele morreu de raio, cabra!
Fulano 01: E foi!?!
Fulano 02: Foi! 'Tava no telhado e o raio pegou ele.

Reticências pausaram a conversa. A janela estava fechada, mas consegui imaginar a cara do Fulano 02 olhando para o céu meio ressabiado, assim como quem quer sair correndo com as calças na mão. Dei descarga - é meio constrangedor dar descarga, não acha? - e sai do banheiro prontíssima para imortalizar o Morreu de Raio e Zé Trovão.

7 comentários:

Michele disse...

Hahahaha! Gente, que situação!
Isso parece aqueles casos de acordo jurídico que vemos no Fantástico, sabe? Pois então! Também estou com o vizinho em obras e hoje dei de cara com um pintor dentro do meu quintal; como se fosse uma extensão da casa do outro sabe? Mas NADA comparável ao que vocês estão tendo de passar. Porque pior do que a sujeira e o barulho, é esse povo querer tomar conta de um espaço que não é deles!

Eu poderia dizer que o jeito é tentar resolver na diplomacia, mas... tem como conversar com gente assim?

Do jeito que sou neurótica, eu sinceramente temeria pelos meus cachorros. Tome cuidado e fique de olho para que eles não façam nada contra os bichinhos!

E boa sorte, com o uso do banheiro, o compartilhamento de quintais e todo o resto! :)

Obrigada pelo apoio moral, viu?


Um beijo!

Thay disse...

Hauheuaa, nossa, contanto ninguém acredita, não é mesmo? Me lembrei da história do Benjamin Button (acho que é desse filme), que o carinha foi atingindo por raios a vida toda. Não lembro os detalhes, mas era engraçado de ver aquelas cenas.

E você contanto da obra do terceiro andar, haha, meu sensor de arquiteta quase formada apitou na hora, e muito alto! Espero que nada despenque, rache ou desmorone. Esses "puxadinhos" são fim mesmo.

Até mais! =*

Thais disse...

Morrer de raio?! Uhauhauhauhauha
Assim, não deixa de ser engraçado né? Huhu.
Mas não é preconceito mesmo não né, é porque fica fora da nossa realidade, cara! Tipo, é igual chegar um gaúcho aqui. A gente fica olhando, rindo do sotaque e tal. Quando a gente pisa na rodoviária então? Parece que estamos em outro mundo. Só pessoas estranhas e que falam desse jeitinho aí... "Ai meu Pai, como sou intolerante!" Hehehe.

http://thaisacorrea.com/b/

Clara disse...

Sempre achei descargas muito constrangedoras, achava que era só eu :X

Sotaque nortista é a coisa mais engraçada do mundo, juntando isso com uma história engraçada (apesar de que morrer de raio não é nada engraçado, acontece sabia?) vira uma piada literalmente.

Odeio obras, odeio pedreiros (principalmente aqueles que fazem fiu fiu) e odeio vizinho folgado. Resumindo, odiaria estar na sua pele!
Sorte aí! :D

Quareesma disse...

eu gosto de sotaques, principalmente dessa gente que vem do norte/nordeste *-*
dizem até que eu tenho sotaque de baiana, mas é intriga da oposição ._.

beijas, moça :*

Flor disse...

Flor, to passando só pra desejar um natal com muito peru (haha) e um 2011 maravilhoso!
To de mudança (no blog explico tudo) e vou ficar sem net provavelmente.
Então, se cuida.

Beijo, té breve :*

Anna Vitória disse...

Gente, que caos!!!
O melhor são os vizinhos reclamando dos SEUS cachorros no SEU quintal. Cada pessoa inacreditável que aparece...
Muito engraçada a conversa dos pedreiros, eu vivo pra pegar esses fragmentos de conversa curiosos, hahaha
beijo!

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