A arte do Ano Novo

Eu não ia atualizar o blog antes do dia 3 de janeiro (retrospectiva literária 2010) porque a) me torno uma massa desforme de mau humor intenso durante as festas de final de ano, b) não tinha a menor ideia de como me expressar sem ferir tradições e alegrias alheias e c) eu me escondo como um animal acuado com medo de fogos de artifício. Eu odeio fogos de artifício mais do que carioca odeia dia nublado. Só que achei falta de educação não desejar nada a ninguém nem que seja um "desejo que você morra engasgado com o próprio vômito". Apesar de estar indo contra meus princípios natalianos, é de bom tom um post intuitivo antes da chegada do senhor 2011.

Meu asco com o final de ano é uma história já gastada que cultivei desde que meu cérebro se tornou capaz de gravar recordações. Conforme os anos foram e vieram, eu alimentei também uma ideia de que tudo isso não passa de uma desculpa para diversas coisas. Desculpa para comer mais, gastar mais, ganhar mais e mentir mais. A gente mente que gosta das pessoas, que tem um espírito natalino empoeirado em algum canto da alma e que Jesus nasceu em dezembro. Jesus não nasceu em dezembro. As pessoas são as mesmas que foram durante o ano. Espírito natalino é um cartão de visita que oferecemos como trégua. Eu não consigo participar desse tipo de coisa, não tenho coordenação motora para ser três ou quatro pessoas diferentes. Compro presentes para os mais íntimos e vez ou outra para um amigo secreto, janto com meus pais, resmungo, tomo meu remédio, deito, durmo. Não ligo para ninguém e ninguém nos liga. Tanto porque meu pai afastou todos os parentes e amigos da família com seu caráter ímpar quanto porque tenho um inseticida natural que repele pessoas. No Ano Novo eu ouço The Rasmus, brindo com meus pais bebendo suco ou qualquer refrigerante, ligo para meu namorado, tomo meu remédio, deito, durmo.

Em 23 anos de comemorações e anos novos, minha única exceção foi o ano passado onde passei as festas fora de casa. Sozinha no meio de uma família estranha, um país esquisito, uma cultura duvidável e sem o menor apreço por ninguém. Ainda assim foi o melhor ano que tive, o mais próximo de "isso é Natal" que eu consegui chegar. Meu Ano Novo foi digno de violinos tocando e um navio afundando, o único em que passei acordada enquanto os outros dormiam. Eu fiquei parada na janela aberta por um longo tempo esperando aparecer uns fogos de artifício para pelo menos um medinho eu sentir, mas estava vazio lá fora, e aqui dentro também. Eu não sentia nada, e pior, descobri que nunca iria sentir. Não importa quantos anos eu ganhe ou perca, ou a mudança começa de dentro para fora ou todos os anos se resumirão em um só, naquela única virada de ano em que eu descobri que a vida é uma merda mesmo e pronto, eu cai em uma armadilha achando que as coisas seriam diferentes naturalmente.

Só que osso quebrado não se conserta sozinho.

Eu não desejo nada de bom à ninguém, porque coisas boas são abstratas demais. Ninguém sabe o que é bom para si quanto mais para seu próximo. Eu queria ir além de prosperidade já que um espirro a menos para quem vive resfriado é considerado um avanço e tanto. Não é assim que a banda toca. Com a vida fodida que levo posso afirmar que os limites estão muito mais fora de nosso alcance do que possamos imaginar. Festas e comemorações nem de perto são a resolução que procuramos como cura. Em 2010 aprendi que a cura somos nós. Você, camarada, que é a única companhia para si durante todo o ano e os próximos que virão, é a cura para todos os problemas e prosperidades. Olha, de coração, que a virada de 2011 seja do avesso para que as pessoas olhem menos e observem mais. O ano que vem jamais irá existir se você viver incansavelmente o mesmo ano, infinitamente, com as mesmas pessoas, a mesma rotina, o mesmo você. Não resuma suas implosões e explosões com crendices, simpatias, promessas ou superstições. Até porque não lhe adianta pular sete ondas e continuar morrendo afogado ano após ano.

Feliz virada do avesso para vocês.

Carta ao São Nicolau

Caro senhor santo,

Firmo aqui nesta carta minha presença adulto-juvenil, um tanto herege outro tanto desiquilibrada mentalmente, mas que seja, para fazer meu balanço anual e também entregar-lhe minha carga pessoal de pedidos fúteis e com extremos exageros. Eu sei que com essa primeira sentença já lhe chamei a atenção, portanto, merecendo vosso digno gesto de colocar os óculos e apertar as vistas para ler, continuo minha humilde carta destinada ao senhor. Deixemos os pedidos para depois, o que eu quero mesmo é abrir vossos olhos para o mundo real e lhe tornar atento ao que ronda vossa reputação. Não sei o que houve nem mesmo quando ocorreu, mas o senhor tem sido plageado por um camarada vestido com roupas vermelhas e que anda de trenó. É, ele anda de trenó, no Brasil até! Sem a menor preocupação com os direitos dos animais ele também escraviza um punhado de renas e as obriga a puxarem um trenó com bilhões de presentes mais ele, que está acima do peso, tudo isso há muitos pés do chão onde a temperatura é menor e os atropelamentos aereos assustam as pesquisas anuais, mas não, nenhuma casa ou apartamento foram atingidos por defuntos natalinos causando tragédias maiores.

Como se plágio fosse pouco, o camarada ainda se valeu da crença popular facilmente maleável e trocou vossa data de comemoração! De 6 de dezembro as pessoas passaram a te esperar (esperar ele) na noite de 24 para 25 de dezembro, provocando assim, uma vergonhosa e desleal concorrência com o menino Cristo. O senhor é capaz de se imaginar concorrendo contra Jesus? E olha que ele não anda sobre as águas. De qualquer forma, Jesus não entra por chaminés nas casas alheias, não é? Pois sim, o camarada se diz capaz de entrar por chaminés - que existem em mínimas quantidades no Brasil e dezenas de outros países - mesmo com uma barriga fora dos limites de qualquer calça que indica diabetes, chopp e falta de bons costumes alimentares. Não termina por ai, o camarada acima do peso, resolveu que seria de bom tom passar a rasteira no membro premium da família judaica-cristã (se é que isso existe): Deus. Sim, senhor Nicolau, Deus! Há milhares de gerações, entra guerra e sai guerra, crianças e toda a Humanidade o chamam de Papai, assim, com p maiusculo. Se quiser guilhotinar culpados, indico os franceses, pois em certas nações é acrescentado "Noel", sabe né, Natal em francês. Nada de romanos, nada de nazistas, franceses.

Imagino que o senhor deve estar ai, no além ou na locação particular de santos, lendo minha carta horrorizado, boquiaberto e com taquicardia, talvez. Não é para qualquer um descobrir tal atrocidade após... erm... mais de 1600 anos segundo meus cálculos. Lamento informá-lo, mas sou obrigada a lhe aplicar o golpe final: Big Daddy ou Papai Noel ou papis cometeu, além do pecado da gula, o pecado Capitalista. As crianças foram educadas segundo os ensinamentos de Big Daddy e não querem castanhas, frutas ou abraços, elas querem celulares e bonecas. As crianças não querem ser pobres, aliás, ser pobre não significa passar fome e frio, mas sim não ter brinquedos no dia do Natal.

Fazendo uma pequena análise caso o senhor já esteja perdido ou tenha desmaiado em trechos importantes: Nós, humanos, comemoramos vosso dia no mesmo dia do nascimento de Jesus Cristo que - me permita dizer - acaba sendo desfocado do centro da festa por mais que eu não queira isso (cof cof). Comemos pernil ou peru ou frango ou bacalhau, talvez porque Big Daddy ache isso uma homenagem à altura para as centenas de mortes de renas por ano ou nos quer tão gordos quanto ele. Bebemos Coca Cola para marcar a presença errónea deste capitalista cara de pau. Trocamos presentes alimentando uma economia a qual o senhor, eu sei, desaprova pois faz com que vendemos nossas almas à perdição. E, no fim das contas, passamos a vida sem ao menos sentir um gostinho da migalha de vossa santa existência na história real da Humanidade, um ser que pisou a terra que pisamos, apertou as mãos que apertamos e abraçou quem nunca nos importamos em abraçar.

É possível que o senhor tenha parado de ler minha carta já no meio das ocorrências mencionadas. É possível que os leitores arcaicos deste blog também tenham abandonado o texto já na terceira sentença, mas quer saber? Eu não me importo. De verdade. E antes que eu me esqueça de meus pedidos fúteis e exagerados, aqui os menciono:
1. Tenha fé na gente, se não por todos, por aqueles que tem fé entre nós.
2. Não coma muitas laranjas. Não é por nada, mas quando ainda visita algumas poucas crianças que acreditam no senhor, o hálito é um cartão de visita.
3. Sabe, eu o ajudei, dei umas dicas das tretas terrestres e tal... é complicado descolar um Sony Ericsson Xperia? Para lhe provar que tenho minha alma reservada da tentação, aceito um usado!

De férias? Forever alone...

Enquanto ainda estava na barriga de mamãe um anjo me cochichava aos ouvidos: "Do lado de cá existem muitas desgraças e tristezas, mas nada se compara as férias"; Eu não dei ouvidos a ele. Quando cheguei ao lado de cá e entrei na 1ª série do ensino fundamental, as férias foram a primeira amostra grátis que Deus me enviou como prévia da vida encarnada. Mesmo prevendo a tormenta iminente eu desejava o começo das férias com todo fervor que nenhum evangélico é capaz de ter. Acredite. Ao invés de aprender a ler a história da galinha Zaza e a escrever três linhas seguidas de C, eu queria férias, sem saber muito bem como funcionava isso, mas eu sabia que não tinha que acordar cedo para ir à escola.

Ah, a inocência...

Na primeira semana eu acordava de madrugada para por o pé na estrada para visitar os parentes gauchos por parte de pai (é, tenho um pai, por mais que eu queira ter nascido de chocadeira). Passavamos quatro dias, se não me engano, dormindo em hoteis duvidosos, meu pai achava uma viagem de carro muito mais proveitosa. Nem se eu quisesse muito poderia brincar de alguma forma indo do carro para o hotel e vice versa, para completar cobravam caro pelas barras de chocolate do quarto e eu não tomava banho de jeito nenhum nas espeluncas de beira de estrada. Já era cheia de "não-me-toque" desde pequena. Resumindo então, eu passava uma semana acordando de madrugada, sem banho e sem doces e sem vida saudável para uma criança. Tudo isso para chegar em um fim de mundo no RS onde não havia energia nem água quente, só um primo um tanto mais velho que eu que adorava brincar com armas de brinquedo e terra. Muita terra.

Eu presenciava ovelhas sendo abatidas e suas peles arrancadas, ovos pobres sendo estourados e minha tia perdendo a dentadura por conta das nauseas provocadas pelo cheiro. "Cagaram no mundo!", meu primo gritava pela fazenda. Minha mãe, sempre muito bem aventurada desde que conheceu meu pai, teve a sorte de encontrar uma cabeça de ovelha com os olhos esbugalhados na geladeira da casa de titia em plena madrugada. Não dormi naquela noite por causa da sede e vontade de fazer xixi. Minha mãe não pregou o olho pelo resto dos dias no cu do mundo, suas únicas palavras foram "São Paulo, quero ir". Dias depois, indo embora e com uma bagagem invejável de desgraças, eu brincava com meu primo e seus coleguinhas pseudoalemães quando, por força do Mal, topei meu dedo no degrau da casa e arranquei a unha do meu dedão do pé. Dali seriam mais quatro dias sem sono nem banho para chegar em casa e voltar a estudar.

Do final do ensino fundamental para o começo do ensino médio meus pais resolveram mudar a rota. Minha avó paterna (que não era um Chacal embora isso ainda seja questionável) havia falecido e meu pai perdera o interesse em visitar seus parentes gauchos. "Estou livre!", pensei. O cosmo deu uma risada sarcástica sabendo de algo que eu não havia percebido ainda. As férias começadas e eu ainda em casa com meus pais sem rota definida. "Amanhã a gente resolve", eles me disseram. Como de costume dos Lang (minha família, fazer o que?) o dia seguinte não havia despontado por completo no horizonte e minha mãe me cutucava na cama, eu estava acordando de madrugada para viajar. O apartamento virado do avesso com malas por cima de mim. minha mãe metade descabelada outra metade suicída, me dizia que estavamos indo para a praia. "Mas por que de madrugada?", eu perguntava sendo atingida por peças de roupa, "Porque é assim que tem que ser".

Acontece que na idade em que eu estava tudo era porque tinha que ser. Como meus braços finos demais, pernas longas demais, sem bunda nem peitos e virando um patinho feio para só depois me tornar um pato não tão feio assim. Eu não queria usar biquini. Eu não queria ficar exposta a luz do sol para que todos soubessem de minha existência, mas estávamos indo à praia. Era Natal e todos queriam ir à praia, entenda, SP tem milhões de habitantes. Todos esses milhões queriam passar de uma vez em uma única rodovia. Todos esses milhões iriam entupir a rodovia. Eu e mais todos esses milhões iriamos passar uma madrugada nublada inteira na estrada, dentro de nossos carros, ouvindo nossa música e, quem sabe, presenciando uma briga familiar. Isso nunca me deixou muito contente. Meu pai se achava muito esperto saindo de casa na madrugada achando burlar todo um sistema anarquista que mantém as férias um pesadelo. Ele e mais outro milhão de pais se achavam realmente muito espertos.

Chovia. Uma vez minha mãe apontou uma coisa estranha na areia e achou legal, eu não achei nada legal, mas ela insistiu que aquele brinquedo era meu e me obrigou a pegá-lo. "Não!", moças gritaram ao longe, "Isso é uma água-viva!", eu meio que sempre dependi de terceiros para sobreviver. Todas as vezes, sem uma única falha, peguei virose e mais uma semana de férias da escola porque estava vomitando a alma. O único momento digno de memória, mas que mesmo assim não me lembro, foi quando mamãe encontrou uma nota de 200 Cruzados rolando nas ondas do mar (sim, sou da époda do Cruzado mesmo, mas e você que é feio?) e com ela nos comprou picolés. De todas minhas férias escolares tenho somente uma recordação agradável e, digamos, duvidosa já que não me lembro e minha mãe talvez tenha inventado só para que eu não tenha mais um trauma.

O preço pelos meus desejos atendidos de férias foram míseros Cruzados que hoje não compram nem conselho de padre e a constatação de que o Inferno é aqui e agora.

NOTA:
Eu queria agradecer a equipe do Blorkutando pelo primeiro lugar com Afinal, o que querem os homens? e De férias? Forever alone..., é gratificante ter um texto reconhecido e bem aceito pelos leitores.

Morreu de Raio e Zé Trovão

Os vizinhos decidiram que seria de bom tom transformar o sobrado deles em um prediozinho de três andares, adicionando assim mais um andar na casa. Isso porque um dos filhos do casal vai juntar as escovas de dente com a namorada que mora fora de São Paulo. Hoje é moda "se casar" mas continuar morando na casa dos pais ou ir morar na casa dos sogros, seja em cima, no quintal dos fundos ou na casinha do cachorro. Lógico que com eles não seria diferente.

Reformas implicam muitos projetos, muitos cálculos e muita sujeira, mas levando em consideração que moro no suburbio posso dizer que não houve muitos projetos, provavelmente cálculo nenhum e com certeza mais sujeira que o previsto. As reclamações também chegaram, não da nossa parte por conta do barulho, da poeira, do cimento na água dos cachorros ou da irregularidade da coisa toda (porque decisões da subprefeitura é coisa pros fracos), mas sim deles porque, apesar de estarem construindo quase em cima do nosso quintal, eles não querem conviver com nossos cachorros que estão ali a) porque é o quintal deles e b) é o único lugar que existe para cagarem. Segundo a vizinha é um absurdo os cachorros cagarem no lugar que tem por direito já que ela resolveu abrigar seu filho desempregado mais "namorida" debaixo de suas asas por mais, não sei, mil anos e isso bem no nosso quintal. Para ela não é o suficiente o que já fazemos: limpar o quintal de duas a três vezes por dia (limpando tanto cocô quanto cimento e restos de obras). Não. Assim como para nós não é o suficiente perder nosso quintal, queremos mais, queremos um "Pesque e Pague" bem nas janelas de nossos quartos. Sim!

De qualquer forma, o que mais me chamou atenção nessa obra, acredite, foram os pedreiros. Como eles trabalham bem ao lado de uma das janelas do meu quarto volta e meia consigo ouvir uma conversa ou outra. Acordar de manhã com "CUIDADO, MULEQUE!" é um de meus desejos sendo realizado. Então, em um fim de tarde nublado, eu em casa, os pedreiros trabalhando no que costumava ser meu quintal - bem em frente à janela do banheiro porque desgraça pouca é bobagem - aconteceu, digamos assim, uma linha cruzada, um conflito de interesses. Eu queria fazer xixi, eles queriam ganhar o dinheirinho do mês, e a janela impedia ambos de seguirem com seus sonhos de uma vida mais digna. Você que reclama dos banheiros da cidade ou do seu trabalho ou, sei lá, da buatchi não sabe o que é dividir um banheiro com pedreiros desconhecidos.

Fechei a janela e ainda pendurei uma toalha para não restar dúvidas quanto a minha privacidade e a deles. E dai a gente senta e reza, meu filho. Foi nesse momento de pura compreensão humana e filosofia transcendental que eu ouvi mais um dialogo, o dialogo. Imagine um barulho corriqueiro de obras, cimento sendo remexido, pás, coisas caindo e alguns trovões avulsos para incorporar a situação (dispense o barulho de xixi):

Fulano 01: Acho que vai chover...
Fulano 02: Não gosto disso, não.
Fulano 01: E tu tem medo de raio, é!?
Fulano 02: 'Cê num ouviu sobre o cara que fez aquela obra lá em Santos!?

Olha, é meio delicado dizer isso, eles eram pessoas do norte ou nordeste do país. Complicado dizer porque as pessoas acham que é comum ou engraçado tirar sarro/ter preconceito dessas pessoas, mas não é para mim. Fato é que eles eram de outra região e, como todo mundo sabe, eles tem um sotaque bem enrolado, portanto nem sempre é possível entender tudo, apenas 50% da conversa. Só entendi que era em Santos, o resto deduzi ser um cara fazendo uma obra lá, não poderia ser algo muito diferente disso...

Fulano 01: Ele tinha medo de raio?
Fulano 02: Ele morreu de raio, cabra!
Fulano 01: E foi!?!
Fulano 02: Foi! 'Tava no telhado e o raio pegou ele.

Reticências pausaram a conversa. A janela estava fechada, mas consegui imaginar a cara do Fulano 02 olhando para o céu meio ressabiado, assim como quem quer sair correndo com as calças na mão. Dei descarga - é meio constrangedor dar descarga, não acha? - e sai do banheiro prontíssima para imortalizar o Morreu de Raio e Zé Trovão.

Afinal, o que querem os homens?

Eu sei o que eles não querem. Homens não querem pintar as unhas, depilação com cera quente nem chapinha. Não querem cor de rosa, cor calsinha ou cor bebê. Sem titubear, homens não querem compromissos, filhos, entrar em uma igreja e trabalhar para o sogro. Não querem discutir a relação, definitivamente. Não querem responder perguntas complicadas, por favor. Não querem explicar o que é impedimento, Deus do céu. Ah é?

Homens, biblicamente, são as costelas femininas. Cientificamente são a evolução. Femininamente, o macho dominante. Para a Sociologia eles inventaram a eletricidade, afundaram um navio em 1912, guerrearam por todo o mundo e não gostam de aprender a trocar fraldas. Para a Mitologia os homens lutaram contra dragões, serpentes, deusas, mas não contra a sogra. Para nós mulheres, os homens são todo o significado que "instável" possa ter. Não emocionalmente falando, mas de uma forma existencial.

Perguntar para uma mulher o que um homem quer pode ser fatal ou, digamos, decepcionante. Nós não temos testosterona o suficiente para sabermos o que eles querem, desejam ou sonham. Não somos nem mesmo onipresentes para presenciarmos uma súplica sequer deles. Posso afirmar, apenas, que homens querem privacidade com suas emoções e fantasmas. Querem demonstrar ter capacidade para serem o sexo dominante da espécie porque, afinal, a espécie sucumbiria sem os homens. Não que seja questão de estufar o peito como um galo e cacarejar que, sim, vocês homens sabem disso, é só uma afirmação biológica que indicou a milhões de anos que nós, mulheres, precisamos mesmo de seus espermatozoides e sem eles, enfim, nós acabariamos. Homens querem, antes de tudo, estarem certos. Antes de tudo, mais do que nada, apesar de e exceto que.

Muito antes de descobrirmos que experimentar roupas é coisa muito boa, os homens já sabiam que mereciam pertencer a um lugar ao lado de Deus, em um podium dourado. Então eles começaram a provar que são os mais fortes, os mais valentes, mais inteligentes e vale a pena até ser o mais estúpido. Provar para a esposa que um atalho é o melhor caminho, que o encanamento não está de todo mau, as crianças gostam sim de cereal sabor laranja e o peru de Natal vai caber no forno. Muito além de Deus, os homens querem afirmar que controlam, sim, a natureza. São capazes de criar remédios para a TPM, a AIDS e o câncer, podem tapar qualquer buraco com uma rolha gigantesca, lixo nunca foi nem será problema e com algumas partículas à toa se faz um novo planeta. Querem provar, além de tudo, que são autossuficientes para caminharem com as próprias leis e sobreviverem às próprias regras. Além de tudo, ao invés de e acima de.

Criando costumes e modos de vida ou criando quadros e arquitetura, homens almejam deixar suas marcas na Terra para que outros homens sigam o exemplo. Não se preocupando nem com cosmética ou moda, muito menos filhos ou vizinhos. Uma vez acima das tradições e leis, sempre submisso a si mesmo. Se existe medo em um mundo que eles insistem em criar e ditar carreira, esse medo pode ser denominado "adrenalina". Como qualquer heroi, homens tem calcanhares de Aquiles. Aquele ponto fraco que os fazem falhar. Homens temem, por mais trágico que possa parecer, a própria vontade de ser homem. Quanto mais alta a subida, maior a queda, e os homens tropeçam na avidez de demonstrarem ser o braço direito de Deus. Enquanto que eles são apenas homens. De carne, esqueleto e fé. Preenchidos com fraquezas, choros e dúvidas. Mas eles querem, perdidamente, abraçar nós mulheres e dizerem que estão bem e nós estamos bem. E querem que tudo fique bem. Perdidamente, universalmente, apaixonadamente.

Nada de galáxias, equações ou o que se passa em suas cabeças, homens querem a compreensão da vida e do universo. A própria compreensão. Basta entender que um bom momento nunca pode chegar a ser um bom momento, seja para o que for. Flores, definitivamente, não são as únicas belezas do mundo. O cabelo feminino, um perfume, pares de brincos novos ou vestidos não são as diferenças que estremecem os eixos da Terra. Relações, filhos, casamentos não são um término que todo homem quer para si, depois de percorrer a mente tentando encontrar respostas.
Os homens querem, por fim, que nós mulheres entendamos que impedimento (a regra 11) é quando um atacante não pode estar mais perto da linha do gol do que seu adversário - contando com o goleiro adversário - e a bola.

Por que você reclama da Globo?

O brasileiro tem muitas manias, muitas mesmo. A mania que ganha mais destaque é a de reclamar. Brasileiro reclama do clima, da fila no banco, do ônibus cheio, dos políticos, ah! os políticos, e quando não tem do que reclamarem eles inventam. Se o ônibus anda rápido perguntam para o motorista se ele acha estar carregando porcos, se anda devagar perguntam se ele está carregando joias. Se político não responde a perguntas é burro ou sem educação, se responde é pretencioso ou sarcástico. Se está chovendo querem sol para vestirem suas roupas tropicais, se está calor precisa chover porque o clima está muito seco e eles não param de suar. Seguindo essa linha de raciocínio, eu poderia afirmar que a nação brasileira está entre as cinco mais desgostosas com a vida, sendo passada para trás apenas pela Finlândia, já que ainda não cortamos os pulsos. Trágico se não fosse cômico.

Quando criança o único canal de televisão aberta que eu assistia era a TV Cultura (que após vinte anos transmite a mesma programação ad infinitum), raras vezes eu assistia Xuxa ou TV Colosso porque me sentia uma débil assistindo cachorros gigantes feitos de acrílico ou mulheres de quarenta anos querendo ter a minha idade. Os programas não eram ruins, quero dizer, eram ruins para mim mas não para a maioria das crianças. Uma escolha minha não é a absoluta verdade sobre o mundo. As crianças preferiam assistir televisão, eu preferia aprender a escrever, desenhar, brincar de professora com meus ursinhos e vez ou outra assistir Castelo Rá Tim Bum. Depois que cresci continuei com esse mesmo pensamento: vou manipular a televisão e não deixar que ela me manipule.

Conforme o tempo passa, entra moda e sai moda, as coisas mudam naturalmente e a televisão acompanha essa mudança. Passamos por uma febre sertaneja, pagodeira, lutas em banheiras, aviõesinhos de dinheiro e dezenas de outras febres, o que cheguei a acompanhar foi a febre do Mamonas Assassinas, e olhe lá. Porém, se não me falha a memória, a Globo (tirando do foco a TV Cultura) foi uma das únicas que manteve uma programação um tanto mais variada e decente. Então volto ao começo do texto: se a televisão só mostra bundas e sensacionalismo eles reclamam, se mostra uma programação variada para todos os gostos eles também reclamam. O Jornal Nacional é um dos menos sensacionalistas que conheço, sim, ele pode ter como editor-chefe um cara formado em publicidade, pode ser tendencioso, mas ainda assim não vive da desgraça alheia como a Record, o SBT e a Band. Não sei vocês, mas sinto nauseas quando passo por esses canais, e não preciso mencionar a Sônia Urubu Abrão da Rede TV. Essa mulher é uma mensageira do Satã.

Sinceramente não entendo onde o brasileiro quer chegar. Ou o povo gosta de assistir esses programas categoria C e tem vergonha de assumir, preferem ser hipocritas, ou realmente não gostam, mas continuam dando audiência porque não tem outra coisa para assistir. Que beleza! Ser manipulado é uma escolha, colega. A Globo, tão "odiada" e manipuladora, tem os maiores índices de audiência da televisão brasileira, o que significa que nosso país é habitado por acéfalos que são desprovidos de self respect. Assistir não é uma obrigação, caso não esteja óbvio. Existem livros, filmes, seriados e outras opções disponíveis em download ou por troca de míseros R$5,00 que é o custo de um filme alugado ou um livro em sebos.

Nesses últimos meses a Globo lançou em sua programação diversas minisséries, repaginou (meio sôfrega) o Globo Repórter, mantém o Fantástico e o Faustão com pautas bem atualizadas e ainda tem o Jô Soares e o Altas Horas para manter o que resta de cultura na sociedade. Enquanto isso a Record jogou uma meia dúzia de celebridades nível três em uma fazenda (?) e se empenha em copiar a Globo nem que perca a pouca dignidade que lhe resta, a Rede TV se glorifica com o Pânico na TV que se alimenta tirando sarro dos outros, assim como a Band que se sente orgulhosa se rebaixando ao nível de palhaço dos nossos políticos com o incrível CQC que me faz ter vergonha do pobre Marcelo Taz. É, aonde nós chegamos? Reclamamos tanto que conseguimos chegar onde queríamos? Talvez. A bem da verdade, repito que assistir televisão é uma escolha, os canais e suas programações estão lá para quem quiser assistí-los. Que mais não seja, você é o que absorve do que te oferecem.