Eu não ia atualizar o blog antes do dia 3 de janeiro (retrospectiva literária 2010) porque a) me torno uma massa desforme de mau humor intenso durante as festas de final de ano, b) não tinha a menor ideia de como me expressar sem ferir tradições e alegrias alheias e c) eu me escondo como um animal acuado com medo de fogos de artifício. Eu odeio fogos de artifício mais do que carioca odeia dia nublado. Só que achei falta de educação não desejar nada a ninguém nem que seja um "desejo que você morra engasgado com o próprio vômito". Apesar de estar indo contra meus princípios natalianos, é de bom tom um post intuitivo antes da chegada do senhor 2011.
Meu asco com o final de ano é uma história já gastada que cultivei desde que meu cérebro se tornou capaz de gravar recordações. Conforme os anos foram e vieram, eu alimentei também uma ideia de que tudo isso não passa de uma desculpa para diversas coisas. Desculpa para comer mais, gastar mais, ganhar mais e mentir mais. A gente mente que gosta das pessoas, que tem um espírito natalino empoeirado em algum canto da alma e que Jesus nasceu em dezembro. Jesus não nasceu em dezembro. As pessoas são as mesmas que foram durante o ano. Espírito natalino é um cartão de visita que oferecemos como trégua. Eu não consigo participar desse tipo de coisa, não tenho coordenação motora para ser três ou quatro pessoas diferentes. Compro presentes para os mais íntimos e vez ou outra para um amigo secreto, janto com meus pais, resmungo, tomo meu remédio, deito, durmo. Não ligo para ninguém e ninguém nos liga. Tanto porque meu pai afastou todos os parentes e amigos da família com seu caráter ímpar quanto porque tenho um inseticida natural que repele pessoas. No Ano Novo eu ouço The Rasmus, brindo com meus pais bebendo suco ou qualquer refrigerante, ligo para meu namorado, tomo meu remédio, deito, durmo.
Em 23 anos de comemorações e anos novos, minha única exceção foi o ano passado onde passei as festas fora de casa. Sozinha no meio de uma família estranha, um país esquisito, uma cultura duvidável e sem o menor apreço por ninguém. Ainda assim foi o melhor ano que tive, o mais próximo de "isso é Natal" que eu consegui chegar. Meu Ano Novo foi digno de violinos tocando e um navio afundando, o único em que passei acordada enquanto os outros dormiam. Eu fiquei parada na janela aberta por um longo tempo esperando aparecer uns fogos de artifício para pelo menos um medinho eu sentir, mas estava vazio lá fora, e aqui dentro também. Eu não sentia nada, e pior, descobri que nunca iria sentir. Não importa quantos anos eu ganhe ou perca, ou a mudança começa de dentro para fora ou todos os anos se resumirão em um só, naquela única virada de ano em que eu descobri que a vida é uma merda mesmo e pronto, eu cai em uma armadilha achando que as coisas seriam diferentes naturalmente.
Só que osso quebrado não se conserta sozinho.
Eu não desejo nada de bom à ninguém, porque coisas boas são abstratas demais. Ninguém sabe o que é bom para si quanto mais para seu próximo. Eu queria ir além de prosperidade já que um espirro a menos para quem vive resfriado é considerado um avanço e tanto. Não é assim que a banda toca. Com a vida fodida que levo posso afirmar que os limites estão muito mais fora de nosso alcance do que possamos imaginar. Festas e comemorações nem de perto são a resolução que procuramos como cura. Em 2010 aprendi que a cura somos nós. Você, camarada, que é a única companhia para si durante todo o ano e os próximos que virão, é a cura para todos os problemas e prosperidades. Olha, de coração, que a virada de 2011 seja do avesso para que as pessoas olhem menos e observem mais. O ano que vem jamais irá existir se você viver incansavelmente o mesmo ano, infinitamente, com as mesmas pessoas, a mesma rotina, o mesmo você. Não resuma suas implosões e explosões com crendices, simpatias, promessas ou superstições. Até porque não lhe adianta pular sete ondas e continuar morrendo afogado ano após ano.
Feliz virada do avesso para vocês.
Meu asco com o final de ano é uma história já gastada que cultivei desde que meu cérebro se tornou capaz de gravar recordações. Conforme os anos foram e vieram, eu alimentei também uma ideia de que tudo isso não passa de uma desculpa para diversas coisas. Desculpa para comer mais, gastar mais, ganhar mais e mentir mais. A gente mente que gosta das pessoas, que tem um espírito natalino empoeirado em algum canto da alma e que Jesus nasceu em dezembro. Jesus não nasceu em dezembro. As pessoas são as mesmas que foram durante o ano. Espírito natalino é um cartão de visita que oferecemos como trégua. Eu não consigo participar desse tipo de coisa, não tenho coordenação motora para ser três ou quatro pessoas diferentes. Compro presentes para os mais íntimos e vez ou outra para um amigo secreto, janto com meus pais, resmungo, tomo meu remédio, deito, durmo. Não ligo para ninguém e ninguém nos liga. Tanto porque meu pai afastou todos os parentes e amigos da família com seu caráter ímpar quanto porque tenho um inseticida natural que repele pessoas. No Ano Novo eu ouço The Rasmus, brindo com meus pais bebendo suco ou qualquer refrigerante, ligo para meu namorado, tomo meu remédio, deito, durmo.
Em 23 anos de comemorações e anos novos, minha única exceção foi o ano passado onde passei as festas fora de casa. Sozinha no meio de uma família estranha, um país esquisito, uma cultura duvidável e sem o menor apreço por ninguém. Ainda assim foi o melhor ano que tive, o mais próximo de "isso é Natal" que eu consegui chegar. Meu Ano Novo foi digno de violinos tocando e um navio afundando, o único em que passei acordada enquanto os outros dormiam. Eu fiquei parada na janela aberta por um longo tempo esperando aparecer uns fogos de artifício para pelo menos um medinho eu sentir, mas estava vazio lá fora, e aqui dentro também. Eu não sentia nada, e pior, descobri que nunca iria sentir. Não importa quantos anos eu ganhe ou perca, ou a mudança começa de dentro para fora ou todos os anos se resumirão em um só, naquela única virada de ano em que eu descobri que a vida é uma merda mesmo e pronto, eu cai em uma armadilha achando que as coisas seriam diferentes naturalmente.
Só que osso quebrado não se conserta sozinho.
Eu não desejo nada de bom à ninguém, porque coisas boas são abstratas demais. Ninguém sabe o que é bom para si quanto mais para seu próximo. Eu queria ir além de prosperidade já que um espirro a menos para quem vive resfriado é considerado um avanço e tanto. Não é assim que a banda toca. Com a vida fodida que levo posso afirmar que os limites estão muito mais fora de nosso alcance do que possamos imaginar. Festas e comemorações nem de perto são a resolução que procuramos como cura. Em 2010 aprendi que a cura somos nós. Você, camarada, que é a única companhia para si durante todo o ano e os próximos que virão, é a cura para todos os problemas e prosperidades. Olha, de coração, que a virada de 2011 seja do avesso para que as pessoas olhem menos e observem mais. O ano que vem jamais irá existir se você viver incansavelmente o mesmo ano, infinitamente, com as mesmas pessoas, a mesma rotina, o mesmo você. Não resuma suas implosões e explosões com crendices, simpatias, promessas ou superstições. Até porque não lhe adianta pular sete ondas e continuar morrendo afogado ano após ano.
Feliz virada do avesso para vocês.



