26 de março de 2011

Vou árvore, obrigada

Quando sofro de bloqueio mental o único remédio é sentar e esperar. Isso vale também para meu problema activiano. Eu sento, abro o bloco de notas e ele fica ali me espiando. Eu olho para ele. O bloco de notas olha para mim. Ás vezes o deixo aberto o dia inteiro, saio e volto, vou e não volto, o bloco de notas permanece aberto esperando por um título, começo, meio e fim. Acontece que estou nessa há dias e isso é incomum. Dois ou três dias vá lá, mas dias, assim, no enfático plural? Super estranho, desconfortável e desesperador. Se eu paro de escrever das duas, uma: a) estou escondendo de mim mesma um sentimento/ideia que causará impacto negativo em minha pessoa ou b) É CÂNCER!1

Foi então que parei para pensar o quão impactante poderia ser esse texto que se esconde atrás do meu silêncio. Seria mesmo, assim, mais impactante do que o fato de ficar sem escrever? Tenho como filosofia "dos males, o menor". Portanto, seja lá o que for, eu deveria escrever para fora e sofrer as consequências de ser eu.

Pois bem.

Me ocorreu que a coisa mais emocionante que aconteceu em minha vida nos últimos meses foi uma gripe. Ficar de cama espirrando, tossindo e morrendo foi o mais afastada que consegui ficar da Senhora Rotina. Sentiu o drama? Eu não teria coragem - tão pouco vontade - de mudar minha rotina a ponto de não ter volta para o formato original. Não quero e não vou pular de paraquedas, nem voar em um balão de ar quente e nem fazer uma tatuagem do filme Crepúsculo na minha testa. Veja bem, estou falando sobre marcar um jantar na agenda para variar. Ir ao zoológico, ao Museu Paulista, ao centrão ou à Pinacoteca. Usar meia-arrastão, sei lá. Ser mais gente e menos árvore.

Sabe a tia árvore? É, aquela pobre criatura plantada e enraizada no mesmo lugar por todos os séculos restantes de sua vida vegetativa. Existem pessoas árvore, caso não saibam, e eu sou um fiel exemplar. Posso ter consciência de que há dezenas de pessoas que se identificam comigo, mas, vamos combinar, o mundo por vezes resume-se a nós e somente nós. Um pingo além de nós já é considerado excesso desnecessário, e o copo transborda. Então né, menina árvore vos fala. Reclamo e clamo por ser capaz de me dar ao direito de podar, regar e sustentar ninhos em meus galhos juvenis. É disso que falo, todo o tempo. Buscar em mim a fechadura que tranca do outro lado uma desconhecida que anceia pela chave.

Só que eu sou birrenta. Não entrego a chave por puro estrelismo. Me acho boa demais para me tornar alguém melhor. Como assim melhor? Você já é perfeita! Eu sei, também me mando tomar no cu, mas o buraco é mais em baixo. Sempre é. No meu caso, o buraco é tão embaixo que meu braço não alcança a chave lá jogada. E minhas raízes não me permitem movimentar. Meu tronco desenganado pelos ambientalistas não me permite curvar. Não posso curvar diante a possibilidade de me tornar algo além - muito além - de árvore. Eu, árvore florida? Jamais. O mais impactante é perceber que sei disso. Sou contra isso. E ainda assim, não permito a reciclagem, me impesso de me tornar papel para me esclarecer.

14 comentários:

Renata disse...

eu sou uma menina árvore.
não sei te falar qual foi a coisa interessante nos últimos três meses porque nem gripe eu tive. estou precisando viver, mas não quero virar papel, porque tenho medo de que façam aviãozinhos de mim.

Alessandra Jungs de Almeida disse...

Pois fique sabendo que você não é a única árvore juvenil existente, e olhe que eu até tento mudar.

Gabriela Petrucci disse...

O buraco, realmente, é mais embaixo. Malditas raízes.

Milena' disse...

Eu sei, todo mundo se identifica, mas ainda assim ninguém realmente entende. Huum, confusa essa frase.
Mas enfim, eu morro de medo de ser árvore pra sempre. Tenho épocas MUITO enraizadas, tipo a atual. Odeio com todas as minhas forças, mas não consigo mudar. Simplesmente não consigo dar aquela reviravolta esperada e dizer 'bora lá pra nova vida empolgante'.
Vivo esperando encontrar meu novo eu, mas aí deito no sofá de novo e deixo pra amanhã.
Como lidar?
:*

Jana disse...

não sei... eu gosto de ser meio árvore. Estou bem assim, é sério. Uma vida tranquila, calma e com aquele barulhinho que mais parece que as folhas estão conversando. É bom. Sou doida por isso? =P Mas, cada qual com seu cada qual, né? Se você acha que tá na hora de se mexer mais, então vai, comadre. ;)

Beijos ;*

Juliane disse...

Já eu espero ficar gripada para ter uma boa desculpa para fugir dessa rotina maluca que tomou conta de mim, já estou quase louca.

Mas ó, eu gosto de rotina, acho normal você se sentir assim... claro, é sempre bom mudar de perspectiva antes que a vida faça isso por ela mesmo né? Espero que você consiga alcançar a chave. :)

Michele disse...

Acho que todos nós temos um pouco de árvore. A mania de fincar raízes e querer morar pra sempre no mesmo lugar, exatamente do mesmo modo. Mas reconhecer isso já é um grande passo para mudar, para se permitir e se reciclar. Hoje talvez não. Mas amanhã, quem sabe, você possa florir...

Um beijo e boa semana!

Caroline Araújo disse...

Devo confessar que todos os seus textos me tomam pela mão e desfilam suas teorias excelentes diante dos meus olhos, e eu sempre o aplaudo de pé. Mas, esse foi com certeza um dos que eu mais me identifiquei (sei que sempre falo isso, e já está ficando chato), mas verdade seja dita não é mesmo?
Senti-me a própria árvore velha, tão presa ao solo e teimosa quanto a aceitar até mesmo as novas folhas. Não, não quero a primavera onde tudo floresce e renasce - e muda; Eu quero é o outono, tão ameno e calmo, tão sem folhas novas. Sou assim também, tão árvore.
Adorei mesmo, você é uma querida aos meus olhos.
Grande beijo.

Tiêgo R. Alencar disse...

ARRASOU! Não tem como nao se sentir uma árvore na maioria das vezes. Principalmente quando as raízes fincam cada vez mais fundo a medida que vamos crescendo - e aprendendo - com tudo.

Um beijo, muito bom MESMO seu texto! ;)

Alice Voll disse...

Olha, eu amo árvores,mas definitivamente não quero ser uma.
Estou cá a refletir se sou uma, e caso eu chegue a essa conclusão, vou desenraizar NOW, me recuso!
Obrigada por me fazer refletir, e ah, o seu conselho sobre paixão foi o mais sábio, obrigada!

Rodolpho Padovani disse...

Eu devo ser um transmorfo, só pode. Tenho dias de árvores, curtindo, ainda que pouco, a rotina e com as coisas organizadas e sem imprevisto, mas num rompante alucinado viro tornado, arranco as raízes e revoluciono (ainda que mentalmente), tenho os desejos mais insanos e penso em milhares de maneiras de atendê-los, abomino a rotina e qualquer coisa que me lembre a ela, logo em seguida me encaixo na terra outra vez e fico ali... a espera de algo, ponderando se devo ou não mudar, observando as pessoas-árvores e não-árvores ao redor e assim vou vivendo a vida.
Viajei no comentário e adorei vir refletir por aqui, hehe.

Beijos.

maria elis disse...

eu gosto de árvores e se eu for pensar assim, estou na 'temporada das flores' :)

beijas, Del :*

Leila Ice Girl disse...

Eu tenho cá meus dias de árvore, rotina, status quo, muitas vezes ter raízes seguras é legal, elas nos tornam fortes, impedindo qualquer ventinho de nos levar para longe. sa também é preciso ser uma muda,e crscer em outro lugar.
Texto lindo!
Beijo, Del.

Lusinha disse...

É, fiquei muito tempo sem escrever também por essa questão de esconder... No meu caso não era bem uma questão de esconder, mas tinha um pouco a ver com isso...
Bjitos!

Postar um comentário