8 de maio de 2011

Eu mãe!?

Não muito tempo atrás, passei pelo susto mais diferente de minha vida até então: meu ciclo extremamente atrasado. Semanas, vá lá, mas quase dois meses? Assim que informei o atraso, a correria começou. Namorado vagando de um lado ao outro arrancando os cabelos, mas ao mesmo tempo prometendo todo o amor do mundo para a suposta criança. Mãe, sempre ela, com seus "calma, filha, para tudo dá-se um jeito". Eu? Não tive muito tempo para tempestades, corri para o médico pedir exame de sangue e corri para acudir o namorado. Quando fiquei sabendo da demora para sair o resultado, exclamei um "Porra! Até lá já tive o bebê", SUS é uma bosta mesmo. A solução, no fim das contas, foi gastar o dinheiro que eu não tenho no melhor exame caseiro oferecido pela mocinha da farmácia. Cheguei em casa, passei como um raio no meio de todo mundo e fui para o banheiro. Fiz o exame. Namorado no telefone parindo todos os cabelos brancos a que tem direito e eu lá, pacata.

Normalmente, em situações de tensão, procuro a sensatez. Essa porcaria é ausente em 99% da minha vida, mas não nega abrigo quando estou prestes a enfiar o pé na jaca. Sempre gostei de perguntar para minha mãe sobre a gravidez dela, sempre tentei entender o que faz uma mulher querer tanto um filho. Essa resposta eu nunca encontrei. Talvez nasci sem esse instinto, mas minha mãe e a calma dela me garantem que um dia vou entender. Me imaginei, então, sendo mãe. Bebê no colo e tudo. Fraldas, chupetas, modificações corporais, hormonais, matrimoniais e até modificações cristãs. Transformar esse marasmo em completa dedicação pareceu muito contraditório ao que costumo ser. Dizem que ser mãe é ser outra pessoa, talvez seja isso mesmo. Talvez, ser mãe seja ser todas as pessoas. Enquanto eu esperava, sentada sozinha em meu quarto com o telefone em mãos, pelo resultado negativo ou positivo, pensei que ser como minha mãe foi e é para mim só poderia me engrandecer como pessoa.

Fazer das tripas, coração. Dar uma de deusa hindu multiplicando os braços. Ser poeta todo dia. Lírica em canções de ninar. Sacrificar... não, se doar voluntariamente. Esquentar o feijão separado do jantar porque a filha não gosta do resultado do microondas. Fazer bolo de aniversário. Para um montão de crianças! Conferir a febre com a testa enrrugada. Dar beijinho nas bochechas, "hum, tá quente". Ter a testa lisinha pela última vez assim que se perceber mãe. Não dormir como anjinho nunca mais. Madrugar. Se emocionar com os passinhos indo pelo corredor e a mãozinha segurando a mão da professora. "Nem olhou para trás". Brigar e ter a paciência que só a intimidade de quem já carregou a pessoa do lado de dentro tem. Escolher o certo, mesmo que o certo seja errado, mas sempre será o melhor. Oferecer companhia. Oferecer um copo de suco. Oferecer a liberdade de escolha.

Quandos os minutos se passaram e havia uma única fitinha aparecendo para mim, eu já não sabia mais se estava feliz, aliviada ou decepcionada. Quando a médica abriu o exame e me disse com um sorriso, "negativo!", eu não compartilhei o sorriso. Foi um susto, sim. Um susto branco. O primeiro dos sustos de ser mãe. Então, compreendi o que muitas só compreendem quando dão netos aos pais, mãe não é palavra, pessoa, substantivo, matéria nem título familiar. Mãe é a minha mãe. O centro insubstituível do universo. A pessoa que muitas vezes encontro ao me olhar para o espelho. A razão. Por isso, se me pego boba com um bebê alheio, se me imagino com o meu, eu sorrio e sei: Sim, eu mãe.

12 comentários:

Tary disse...

Que texto emocionante, nossa. Estava precisando ler algo tão íntimo, bem escrito e tocante desse jeito. Impressionante como alguns acontecimentos nas nossas vidas contribuem para mudanças, pontos de vista alterados, pensamentos diversos.

P.S: Feliz dia pra sua mãe :*

Jana Barreto disse...

Cara, acho que eu é que nasci sem esse instinto de mãe. Não tenho paciência pra crianças. Nem as alheias, quanto mais se fossem minhas. kkkk Tá, não sou bruxa que as maltrata, mas prefiro manter uma distância segura, sabe? Não nasci pra isso não. Acho todos lindos, mas não sendo meus. haha

Feliz dia das mães pra nossas mães! ^^

Jay A. disse...

Ser mãe é ser outra pessoa. Estava pensando nisso durante o almoço tradicional hoje, sempre me pego nessa dúvida de se um dia chegarei a querer ter filhos. Aí vejo minha priminha correndo e abraçando minha tia pelas pernas (é só até aonde ela alcança), e parece que até valeria a pena.

Só pra constar, eu chorei.

Nanda Matos disse...

Me peguei agora mim questionando.
será?
Lindo texto.

leila disse...

lindo Del!
Acho que um filho é um presente, ser capaz de gerar uma vida torna uma mulher deusa mesmo.

Renata disse...

Sempre me questionei também, o que leva as mulheres a terem filhos? Ás vezes eu me imagino sendo mãe, assim com todas essas coisas bonitas.

Acho que toda menina/moça/mulher já se imaginou nessa situação.

Agora eu acho lindo. Mas ainda acho que não é para mim.

Michele disse...

Que lindo texto, querida!

Uma mãe nasce muito antes do filho. É o desejo de ter um filho que inicia o processo da maternidade. E você, sem dúvida, com toda essa disposição, amor e exemplo, viverá essa experiência na hora certa de maneira muito especial!

Um beijo e boa semana!

Thiago disse...

no fundo no fundo, toda mulher já nasce com esse instinto 'mãe'

Juliane disse...

Posso dizer que o texto me tocou muito? Adorei, de uma sensibilidade incrível!

Sempre achei que não seria boa mãe, e confesso que até um ano atrás jurava que nem queria ser mãe, e sei lá o que mudou, só sei que comecei a olhar mais para bebês e agora to com medo, hahaha, já me peguei pensando em ter filhos várias vezes nos últimos meses (isso não é bom sinal, haha).

Nathy disse...

Que lindo!!! Adorei suas palavras....que esse amor possa crescer cada dia mais. Tenho certeza que você será uma excelente mãe, quando esse dia chegar. Pois como a Michelle disse: o desejo de ter o filho já inicia a maternidade.

Grande beijo!

Ba Moretti disse...

Senti o desespero lendo o seu texto. De vez em quando me pego imaginando ser mãe e nunca decido se fico no assustador ou encantador. Um dia quem sabe eu chegue a uma conclusão...

E, ó, tem selinho pra você lá no blog.

Anna Vitória disse...

Nunca havia tido essa coisa de mãe dentro de mim, até o dia que eu sonhei que estava grávida. E o sonho foi tão maluco e lindo que eu juro que acordei chateada por não estar grávida de verdade.
Lindíssimo o texto!
beijo

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