9 de junho de 2011

Minha doce moça

Há gotículas de sangue em meu colo, amor. Ao lado, sobre a mesa, meu coração morimbundo recusa-se a bater dentro do jarro opaco. O tirei de meu peito. O traí. Lá fora, na garoa fina deitando-se à lama, meus acenos não murmuram mais adeus, não murmuram mais o amor esvaído. Não me sinto mais só, acompanha-me agora uma gentil e inquieta Melancolia. Como uma doce moça, que lembra-me o que já fui antes de tua partida. Ela aquece a casa e preenche as rachaduras do que me sobrou. Nós conversamos, mudamos de uma cadeira à outra, apagamos e acendemos a lareira. Dócil, sempre muito dócil, a Melancolia mantem as cortinas da janela abertas que é para não perdermos sequer um instante do que de nós restou.

Não foi muito, eu sei, quase nada. Restou um beijo que perde-se mais a cada dia no vácuo entre nós. O beijo emagrece, desnutre-se. O vácuo engrandece, torna-se vil. Contemplo também tuas pegadas de grandes passadas pela lama que embranquece. Neva, amor. Neva muito aqui deste lado de nós que mingua febril. Meus esforços já não demonstram cura, apenas tempo perdido. Não há o que se fazer, não há o que nutrir. Diante da janela embaçada de vidros trincados pelo choro vejo, sem esforço, tua silhueta a me namorar na distância incrédula de nosso romance que tende a desintegrar. Tudo acaba-se em Melancolia. Esta doce moça que apoia-me a cabeça em seu ombro, eu a soluçar. Acaba-se nela o pôr e nascer do sol como horizonte que tu deixou-me para amargurar.

Faz tanto tempo, amor. Tanto, tanto, tanto tempo que encontro-me sem coragem de contar. Sonho vez ou outra contigo. Ambos corremos campos de girassóis afora permitindo ao vento nos guiar. Mas é tão raro. É tão escassa a esperança nesta casa. É tão perdida a tênue linha que costuro nos lábios meus. Esta linha não sorri mais. O mundo perde-se em si mesmo, querido, girando atrás de mim à procura das estrelas que roube-lhe para me enfeitar. Não adiantou, se lhe interessa saber. No espelho não há sequer um desenho de minha presença sôfrega. Há somente minha Melancolia, ingênua moça, que insiste dia após dia em me desenhar. Quanto mais ela pressiona o batom avermelhado contra o espelho, mais eu sangro. Mais eu sinto-me, amor, e sentir-me tem sido doloroso. Sinto o que de mim ficou, sinto o que de mim levou. E esta falta faz-me mórbida.

O céu hoje pela manhã fechou-se ríspido e trovejou. Estremeci contra o medo. O medo estremeceu-se de volta para dentro de mim. Nevou tanto. Tanto, tanto, mas tanto, que temi não mais te enxergar. Hoje tirei meu coração e o guardei no jarro opaco que é para o vigiar. De perto, assim, não há como me enganar. Retorne para cá. Retorne de imediato, posto que a neve tranca-me dentro desta casa. Neva cada vez mais, tranco-me cada vez mais. A Melancolia, fatal moça, sufoca-me em desespero querendo que eu reaja, mas não irei reagir. O inverno é decidido eterno até tua volta. Há nevasca n'alma que dediquei a ti. Neva neve negra, amor.

9 comentários:

Leila Ice Girl disse...

Muito bom Del, nem sei o que dizer! Acho perfeita a forma como você usa as palavras, sou sua fã e tu sabe, se não sabia agora sabe! hehe

Thais disse...

Que lindo! :D
E olha que eu sou chata pra ler textos assim. Adorei adorei!

http://thaisacorrea.com/b/

Luís disse...

Esse inverno me lembrou A menina que roubava livros. E eu imaginei a Melancolia como um personagem do Neil Gaiman. Só que nenhum dos que já existem: imaginei uma moça extremamente delicada, com uma voz de sereia e cheia de sardas.

Seu texto tá muito, muito lindo. Parabéns pelo uso incrível das palavras.

Beijo.

Kamilla Barcelos disse...

Caraca, seu texto ficou lindo de morrer! Poesia pura.

Rodolpho Padovani disse...

A Melancolia muitas vezes chega e se acomoda, como aquela visita chata que queremos despachar, mas mais cedo ou mais tarde ela vai embora. Dizem que tudo na vida passa, certo? Então que a passagem da melancolia seja efêmera.

Ah, lembrei de ti esses dias quando assisti "Água para elefantes", que por sinal eu adorei.

Saudades de passar por aqui.

Beijos.

Clara disse...

Melancolia, neve, falta... Três coisas tristes, geladas, e bonitas para uma poesia ou história tristemente romântica. Gostei muito, acho que nunca tinha lido um texto seu nesse estilo. Inspirador, mesmo sendo triste.

Jana disse...

Ai, Del, me dá até uma dor no coração ler essas coisas bonitas que você escreve. Tão triste mas tão bonito! Acho muito atraente textos doces que transbordam essa melancolia. Não é bom de sentir, mas é uma delícia de ler. Já me senti assim, portanto, me identifiquei muitíssimo... E nevou, nevou, choveu... E depois fez sol, graça à Deus, senão eu não estaria mais aqui. :)

PS: saí daquele blog, mas estou em endereço novo (endereço novo, mesmo propósito). Ei, não esqueci, cadê meu bolo, hein? :D

Beijo desse tamanho!

sobrefatalismos disse...

O seu texto (excelente, por sinal) me permite uma dica que lhe trago: leia Lolita, de Vladimir Nabokov. O que você acaba deescrever tanto pode ser uma carta de Charlotte quanto um epílogo do narrador-personagem.
Abraços.

Jade Amorim disse...

Menina, que coisa mais linda, amei!

Profundo e perfeitamente melancólico. (adoro textos regados a boas doses de melancolia)

Perder quem se ama é ruim, definhar por causa dela é pior ainda. Reagir também é difícil. Falo por experiência própria de um passado a muito distante e superado. (Graças às palavras, devo acrescentar).

Amei aqui, estou seguindo.

Beeijos.

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