Matando cachorro a grito

09/07/2011

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As pessoas andam histéricas. Espaçosas e paranóicas também. Não sei se é obra de Força Maior ou karma ou simplesmente o cosmo, mas tenho topado com muitas pessoas se esgoelando nos celulares. Se esgoelando em conversas cotidianas com pessoas que estão bem pertinho. Se esgoelando com conhecidos transeuntes que passam do outro lado da rua. Se esgoelando com objetos inanimados. Eu não sei qual é a razão disso, desconheço o que leva as pessoas a acharem que o telefone e a educação ainda não foram inventados. Quando esse tipo de dúvida surge, levanto a cabeça e digo: Deus, tem que ver isso aí. Nunca obtenho resposta, o cosmo corta a ligação.

Estou me tornando o tipo de pessoa analisada que sempre tem um conselho do psicólogo para compartilhar. Isso é tão chato, mas é inevitável. Aliás, conselho de psicólogo é o único que você pode seguir sem medo de terminar atropelado pelo trem no fim do túnel. Vai por mim, aprendi à duras penas (eu sei, minha tataravó foi a última pessoa a usar essa expressão). Enfim, comentei com minha psicóloga o quanto as pessoas me deixam indignada e o quanto me atingem com seus egos espalhafatosos. Quando topo com aposentados e seus estereotipos, a única coisa que penso enquanto a pessoa grita com funcionários é que, em 70/80 anos, o mané não aprendeu porcaria nenhuma com a vida. Não aprendeu que filas demoram, que preguiçosos existem, que as pessoas erram, se desculpam, tentam de novo.

E é isso. Ninguém aprende. Quando um idoso chega perto o suficiente para seus remungos serem ouvidos até na China, você percebe que, putz! é mesmo, ninguém quer saber de aprender alguma coisa. Não, eu não generalizo, mas também não mordo a língua para dizer que esses são a maioria. Seja no meu círculo social, seja mundialmente. A psicóloga só meneou a cabeça concordando. Nem sempre ela tem uma resposta terapeutica padrão para me oferecer, assim como a vida. "É verdade", as pessoas dizem, e acabou. A verdade absoluta e inexplicável muitas vezes é o ponto final. Se alguém mata um cachorro, sequestra uma mulher gestante, afoga o colega de escritório ou atira em uma escola pública acertando várias crianças todo mundo balança a cabeça. "Isso não pode". Não pode, é isso que precisamos saber, que não pode. Prevenir ninguém está afim, mas todo mundo quer ser o primeiro a achar um absurdo e dizer "meu deus, isso não pode".

Isso não é sobre sair nas ruas com cara pintada e enfrentar cachorros raivosos ou militares escondidos atrás de proteções. É sobre nada. Um nada bem grande que não quer entender que, na verdade, é o tudo. É a gente.

As pessoas acreditam que os problemas só se resolvem com pancadaria, no 8 ou 80, na revolução bruta. É pegar um pedaço de pau e descer o cacete em todo mundo que atravessar o caminho, porque assim tudo fica bem, tudo volta ao lugar. Já reparou? Problemas, desgostos, desagrados, incômodos e qualquer desarranjo de barriga é motivo para gritar. "Você quer o que?", dizem, "Que eu saia por aí jogando pedras, lutando? Por que não vai você!?". É sempre assim. A gente sempre se esconde atrás dos nossos lobos intolerantes. Escondemos o medo e a sensação de impotência e inutilidade atrás de toda uma alcateia furiosa prontíssima para atacar qualquer um que tente cutucar o ego ferido. A gente se esgoela e briga um com o outro. O problema sentado lá no canto dele, lendo jornal, tomando café. A gente aqui escolhendo no uni-dune-tê quem vai para as ruas se jogar na frente de carros policiais.

Será o medo da morte?, eu perguntei. Da morte ou de tudo. Medo de errar, de deixar o erro alheio nos atingir. De qualquer forma, no fim eu dei de ombros. Disse que estava tudo perdido mesmo e daqui para frente é ladeira abaixo. Estou perdida em um mar agitado de pessoas enlouquecidas e nada posso fazer contra elas. Aí eu senti aquele aperto na mão. Dela mesma, a autopiedade. Essa moça volta e meia aparece nas consultas, sem ser chamada, e aperta minha mão. "Muito bem", ela diz, "é assim mesmo que você deve fazer, senão o lobo mau te engole". Eu digo para ela calar a boca, mas nem sempre ela está disposta a voltar para a casinha e catar piolho. Se a psicóloga a percebe ou não, isso não posso responder, mas antes do meu tempo terminar ela me deu a resposta que eu precisava muito ouvir.

De um jeito ou de outro, as pessoas são o que são porque sim. E ninguém vai mudar só porque eu preciso delas de um modo diferente. É verdade, eu respondi à ela, isso não pode.

7 comentários:

Babi disse...

de ver gente pirando, tenho impressão de que piro também. mas por dentro, uma desgraça. e a autopiedade nunca vem pr'essas bandas (minha tataravó também já o disse)...

maria elis disse...

será que todo psicólogo só sabe balançar a cabeça?! na dúvida, eu arrumei um invisível que sempre interage comigo (:

beijas, Del :*

Leila Ice Girl disse...

É isso mesmo, Del, não tem muito o que dizer sobre as pessoas não.

Flor disse...

Del, estou num momento de preguiça social tão grande, que por mais que eu me sinta sozinha, estou cagando pra qualquer coisa que não seja eu. Queria me sentir egoísta por isso, mas não, é que eu já tenho tantas reclamações, vizinhos funkeiros e forrozeiros, clientes insuportáveis pra atender e os meus problemas martelando o dia inteiro, então, sorry, to com preguiça pra aprender qualquer coisa também, fazer o que?A gente sabe, dificilmente algo vai mudar.

Olha, amei seu comentário. Super acreditei que todo mundo ia me achar alouca, mas nossa, vocês me apoiaram! s2 isso me faz querer ser sociável e tals, você entende né?! Obrigada mesmo, não vejo a hora de me mudar e ai sim, ter paz.

Mega beijo

sobrefatalismos disse...

Também vejo uma falta de educação enorme, e de um modo geral. Sabe o que eu faço? Falo mais alto do que a pessoa que grita e mando-a calar a boca. Muitas vezes resolve.

Pra pedir silêncio, eu berro.

Carol disse...

não tenho o que dizer das pessoas tambem não, isso, não pode...

sarahb. disse...

Muito bom!

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