9 de agosto de 2011

Ao escritor

Gostaria de agradecer muito aos comentários atenciosos e as estimas de melhoras no texto "A (não) arte de ser criminoso"! Me senti muito bem acolhida pelos leitores do BC e cada palavra de vocês fez com que eu me sentisse melhor e amparada. Seu lindos :*

Penso que, se você não tentasse sempre ser tão literário e poetico, conseguiria me alcançar. Atingir objetivos. Se você deixasse de lado a filosofia de vida e as palavras difíceis, poderia ganhar mais sorrisos do que icógnitas. De vez enquando vá lá um romance ou outro, mas toda vez? Não se sente escasso, esvaído, nem por um minuto? As pernas não lhe enganam, não lhe falham, sem aviso prévio? Os braços não se entregam, assim, do nada, deixando que a pena lhe caia aos pés? Não neva? Nunca? Jamais? Há sempre sol e borboletas sadias vagando nesta mente lúcida que não folga nem aos domingos?

Uma vez ou outra chamar-me de linda, vá lá. Uma vez ou outra.

Ainda ontem te vi, pé ante pé, atravessar o escritório com os dedos a palpitarem os lábios. Ah, eu sabia o que você caçava. Com tamanha sede, que nem o sertão é capaz de sentir, você caçava palavras rimadas, profundas, galantes. Procurava uma horizontal recheada de descobertas que qualquer reencarnação de Shakespeare invejaria. Eu observava quieta. Fiquei ali, caladinha, sentada em uma cadeira. Pernas cruzadas. Um gole de chá. Um arranjar de franja. Você, tão perdido entre cem caminhos, nem ao menos notou. Não me notar, vá lá, acontece com todo mundo. Talvez tenha sido culpa da falta de tosse singela, aquela de aviso. Culpa de um bater incessante de ponta de sapatilha, aquela batidinha alarmante. Talvez, por via das dúvidas, tenha sido sua cegueira crônica.

Nada pior para um poeta do que uma cegueira crônica. Aquela em que Deus lhe dá os olhos para você enxergar, mas não há natureza nesse mundo que o ajude. Uma ilusão incrustada que te faz pensar que tudo vê! Mas você não enxerga a um palmo de suas escritas. "Ela é linda, ela é linda!", por que ela é linda? Por que não feia, mas de bom coração? O que há de errado com o pobre coração? "Ela é insinuante e vasta de santidade!", eu lhe insinuo precipícios, como qualquer outro santo o faria.

Hoje, agora, sentada à beira do parapeito da janela e te observando castigar a pena à tinta, penso que seria cômodo aceitar suas súplicas e partidas como boa romântica criada à beira do fogão. Mas não sei. Estamos muito longe um do outro. Você de um lado procurando como sádico palavras e mais palavras para descreverem o que vê, mas não o que sente. Eu de um lado ao mesmo lado, em círculos, procurando por alguém que me veja. Como eu sou. Não como a poesia me inventa. Há tanto que nos separa. E esse tanto é você.

9 comentários:

Elizia Cavalcante disse...

Del, espero que vc e sua família estejam bem. E a respeito desse último post, vc escreve tão divinamente bem que ás vezes tenho dúvidas se entendi o que quis dizer. kkk

Andreia disse...

Não me fale em poetas que usam palavras difíceis!

Estes "artistas" que têm a mania de usar palavras caras sem ter em conta que o povo ignorante (!) são perfeitamente capazes de tirar do sério a qualquer um! >-<

Às vezes podemos estar perto de alguém e no haver um oceano a nos separar.

Anna Vitória disse...

Del, querida, li seu post passado e fico muito feliz em saber que você e seus pais estão bem. Como tem gente irresponsável e filha da mãe no mundo, né? Mas o que importa mesmo é que todo mundo está bem. Melhoras pra vocês!

E eu gostei muito desse post.
Beijo!

sobrefatalismos disse...

Epa! Quem é ele?
Olha, espero que vocês estejam bem. Um abraço forte.

Carol disse...

Del, legal o post, tô pensando aqui... entendi eu acho...

maria elis. disse...

compra um óculos pra ele ;)

beijas, Del :*

Leila Ice Girl disse...

Por nos honrar sempre com esses textos maravilhosos, você merece nosso carinho e preocupação, Del, sua fofa.
Sobre o escritor, também precisamos ver que às vezes ele usa palavras bonitas para ilustrar uma situação não tão bela, o que ajuda a aceitar a situaçao, não sei se eu fui clara nesse comentário, mas enfim

Clara disse...

Nem todo poeta é bom amante, como era de se esperar. Porque o romance que se inventa não é o mesmo que se vive e doa, acho que é isso.

Marcela Pedrosa disse...

Del,
Cheguei aqui por engano, mas gostei tanto desse texto que voltei outras vezes. Tambem já senti essa necessidade de ser inventada, de ser vista pra existir, enfim se foi isso que você quis dizer...
Parabens pelo blog

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