24 de agosto de 2011

Todo dia é dia de circo

Senão a melhor manhã, aquela fez parte dentre as mais especiais. De cócoras à beira do rio, a moça lavava seu colã cor de carne que usava nos espetáculos do Rasmus' Circus. Fantasia aposentada há nove meses por conta de sua barriga avantajada, o colã implorava por um tratamento carinhoso para manter seu brilho e suas lantejoulas. Todo o circo, cercando um enorme terreno abandonado, se preparava naquela manhã para seu espetáculo de estreia em uma grande e movimentada cidade. A moça, por um lado saudosa de sua apresentação, por outro ansiosa pelo nascimento, observava seus cabelos no reflexo do rio. Foi então que uma pontada ela sentiu, tão rápida quanto um pensamento novo.

Pontinho por pontinho as estrelas estrelaram o céu de azul escuro. A lua, com seu meio sorriso, iluminava a entrada de uma tenda erguida em suas cores vermelha e amarela. Casa cheia. Caipira por caipira, o público adentrava o Rasmus' Circus alvoroçado pelo picadeiro forrado em palha que lhes oferecia entretenimento naquela noite ímpar. O dono do circo jamais havia presenciado tamanha venda e se empoleirou em seu orgulho, tocando com as pontas de seus bigodes as orelhas vermelhas de contentamento. Espetáculo vai, elefanta vem, a moça que costurava a fantasia de um palhaço franziu as sobrancelhas como quem descobre algo que mudaria o mundo.

— A minha bolsa estourou!

O palhaço, que esperava sua fantasia sentado no trailer ao lado da moça, levantou de súbito batendo com a cabeça no varal de roupas. O anão, correndo e tropeçando, correndo e tropeçando e correndo muito e tropeçando cada vez mais ficou na ponta dos pés para cochichar no ouvido alheio que havia alguém ali ansioso para causar sua própria estreia. "A estreia!", todos murmuraram já reunidos em volta da moça que se encontrava confortável em um canto da tenda, almofadado por tufos e mais tufos de feno. Os conselhos eram muitos. Os medos eram enormes. As dançarinas do cabaré (oferecido gentilmente após o espetáculo para os adultos por 50 centavos), sentadas lado a lado da moça com o corpo suado, seguravam sua mão e lhe imploravam que empurrasse como se não houvesse o amanhã.

— Tá entortado - comentou a velha cigana com uma colher de pau nas mãos, tentando tirar uma casca de feijão dos dentes.
— Dessa mágica eu não entendo.
— C'est la vie!
— Isso sim levaria a plateia à loucura.
— Nunca mais vou querer ver uma mulher nua.
— Mon cherie, força!

Na tenda principal o espetáculo caminhava para seu desfexo. Elefanta, cavalos, macacos, leões mau humorados e palhaços com suas calças pelos calcanhares erguiam a plateia em aplausos e reverências. Choviam-lhes flores colhidas dos campos próximos ainda com o cheiro da frescura primaveril. That's all folks!, e as cortinas escarlates fecharam-se dizendo muito obrigado, muito obrigado, dirijam-se aos espetáculos secundários, por favor! E a moça arfava. Arfava como se o mundo estivesse querendo lhe arrancar as entranhas pelas ancas que, sim, eram acostumadas a galopar no trote fixo dos cavalos, mas não encontravam manobras o suficiente para tamanha dor.

— Eu disse! Tá entortado.
— Mergulha em uma banheira com azeite quente que resolve.
— O que está acontecendo? - o dono do circo entrou no meio dos rodeados trazendo consigo o resto dos circenses desgarrados daquela vida.
— Ah, mas isso é novidade pra nós!
— Toalhas!
— Não temos toalhas.
— Fantasias!

E então todos gritavam eufóricos por fantasias, todas elas, grandes, pequenas, de algodão, de lantejoula, e perucas e chapéus de palhaço de mágico de domador de leões. Um amontoado colorido foi se formando entre as pernas da moça circense que jogava pulmão afora seus últimos esforços. Ali, envolta em feno, velada pela elefanta curiosa e o macaco treinado, rodeada pela trupe circense escondida por detrás de suas personagens, bem ali, sob a tenda e os olhos celestiais, a moça deu à luz a uma preciosidade que seria sua alegria e seu porto seguro.

— Mon diê!
— Desentortou.
— Alguém fala latim? Precisamos batizar!
— O trapezista fala latim. Ele ia ser padre... - um palhaço comentou como quem acha um absurdo alguém querer ser padre.
— Olha só pra ele, é tão colorido quanto nós!
— É a coisa mais pequenina que já vi - um dos anões sentiu ciúmes.
— Signo de Leão. Esse vai ter uma baita personalidade! - disse a cigana pincelando o recém nascido com galhos de arruda.
— E o nome?
— Rasmus!
— Valeu a tentativa.

Os olhares dirigidos à moça preencheram as expectativas. Qual seria o nome? Qual nome dar ao rebento, o marco do recomeço? Qual nome? Qual nome!?

— Qual nome? - a trupe perguntou reunindo-se em suspense e enforcando mais o círculo em volta da moça.
— Bonjour... - ela disse em êxtase - Bonjour Circus!

A trupe, formando plateia, suspirou em uníssono.
Feliz 1 ano de Bonjour Circus para nós!

6 comentários:

Elizia Cavalcante disse...

Bonjour parabéns! e parabéns Dell pelas ótimas postagens! *---*

Andreia disse...

Parabéns, BC! Oxalá que cumpras muitos anos de vida. E parabéns, Del, pelos óptimos post que com tanta gentileza partilhas connosco. <3

Clara disse...

Ahhh, que máximo esse texto! Do tipo que se demora dias pra fazer, muito maravilhoso! Achei ótimo os nomes, os personagens, a confusão... Parabéns pro pequenito!

sobrefatalismos disse...

Maravilha de texto, adorei a narrativa. E parabéns ao teu blog, mas principalmente para quem o escreve, que faz com que tudo por aqui seja possível. Um beijo!

Leila Ice Girl disse...

Que riqueza Del, parabéns ao BC, sempre é um prazer passar por aqui e ler seus textos incrivelmente maravilhosos (quando os elogios se tornarem redundantes e com a aparência de puxação de saco, me avisa ok?)

Babi disse...

Melhor festa de um ano a que já estive presente! :) Espero que a segunda seja tão prazerosa (de ser lida) como têm sido esses tempos que descobri teu blog e venho aqui bater na porta pedir uma xícara de açúcar.

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