19 de setembro de 2011

O circo do sol e a circense

Varekai (pronunciado ver·ay·’kie) significa "onde quer que seja" na linguagem cigana, os eternos viajantes. Criado e dirigido por Dominic Champagne, esta produção presta homenagem à alma nômade, ao espírito e arte da tradição circense e a todos aqueles que desafiam com infinita paixão os longos caminhos que levam a Varekai.
Em 1984, Cirque du Soleil foi fundado. 18 anos depois, Varekai foi criado em homenagem à alma nômade. Domingo, dia 18 de setembro de 2011, eu o assisti. De frente para o palco, fomos eu, namorido, sogra, sogrão e cunhada, todos juntos, realizar um dos meus maiores sonhos. Conheci a compania circense em meados dos anos 90, com o espetáculo "Alegría". Eu ainda era uma criança, mas já sabia muito bem que meu lugar era no circo. Desde então, alimentei o sonho (caro) de presenciar ao menos uma apresentação na enorme tenda azul e amarela do maior e mais lindo circo. Claro que sou completamente apaixonada por Alegría (o espetáculo mais famoso), mas qualquer espetáculo intinerante me deixaria de boca aberta e com o coração na mão.

Quando meu namorado me deu a notícia de que um ingresso para Varekai me esperava, eu fiquei sem reação. Fiquei sem saber se chorava, tremia ou comemorava. No fim, fiz de tudo. Deixei a adrelina percorrer o corpo para ver até onde eu chegaria. O único problema era a espera. Havia um mês ou um pouco mais para a data do espetáculo. Como lidar? Fingi que não era comigo. Usei todas as técnicas teatrais (que eu não tenho) para fazer de conta que o Cirque nem estava na cidade. Não havia ingresso. E se nada daquilo existia, logo, não havia espectativa alguma. Deu certo por um bom tempo, mas quando setembro e seus primeiros dias dançaram no calendário, ninguém segurou minha ansiedade. Nem eu mesma.

Por fora, uma perfeita lady tomando chá com o dedinho levantado. Por dentro, uma descontrolada em chamas. Os vídeos no Youtube já não davam conta do recado. Acompanhar mensagens no Facebook e no Orkut só pioravam a situação caótica. Eu não tinha para onde ir! Minha terapeuta, coitada, fazia de conta que não era com ela. Mas bem que acabou comprando um ingresso também, de tanto eu encher seus ouvidos com Varekai. E por mais que eu tentasse expor minha alegria, ainda que de forma contida, ninguém enxergou a profundidade da emoção. Porque todo mundo sabe desse meu lado circense, mas às vezes tenho a impressão de que nem eu tenho completo conhecimento dessa ligação.

Você acredita em vidas passadas? Eu confesso que não. Mas acredite se quiser, o circo sempre faz com que eu morda minha língua.

Ao entrar no estacionamento e ver pela primeira vez as cores azul e amarelo, meu coração deu uma cambalhota. Esfreguei os olhos, apertei uma mão na outra sem parar, mas não acreditei que estava realmente de frente para o sonho que alimentei com tanto carinho desde criança. As bandeirinhas no topo da tenda balançavam perfeitamente com o vento. As luzes brilhavam do jeito certo. Eu, trêmula feito vara verde, achei que não conseguiria entrar. Olhei para os lados esperando que alguma coisa acontecesse, qualquer coisa que me impediria de entrar. Porque era bom demais. Era surreal! Mas entrei. Entrei e chorei.

Chorei como um filho que não sentia o aconchego do lar há muito, muito tempo. Meu namorado falava ao pé do ouvido que não havia motivos para chorar, era um momento de alegria, mas não era algo que eu pudesse controlar. O choro estava represado há tantos séculos, acumulado há tantas vidas, que não pude segurá-lo. Não nesse corpo que chamo de casa agora. Você pode não estar entendendo nada do que eu digo, e nem poderia, mas não ligo. De verdade.

Enquanto as pessoas se ocupavam com o espetáculo secundário lotado de camisetas e souvenirs, eu olhava para cima. Eu checava os mastros, as fendas da tenda, as instalações e tentava descobrir como tudo aquilo era transportado pelo mundo. Não demorou muito, eu já estava calculando tempo, gastos e imprevistos. 10 minutos depois, estava desenrolando a tenda e carregando rolos e mais rolos enormes e pesados. Pensei no preparo dos artistas, do palco e nas estruturas. Por pouco, muito pouco, não fui para os bastidores dizer que tinha mais caipira do que talento. E quando vi, eu estava mentalmente trabalhando na noite que deveria ser somente de diversão. Apesar de hoje ser tudo mais moderno e fácil, tive a coragem de me perguntar como raios aquilo se sustentava sem mastro central, e quem foram os cabeças de vento que levantaram aquilo no braço. Meu namorado nem me cutucava mais. Eu não estava mais ali.

Quando a moça desamarrou a tenda e permitiu nossa entrada, eu soube que não sairia a mesma dali. Sentei, me acomodei e assisti. Eu assisti ao Cirque du Soleil. Preciso repetir isso milhares de vezes para a ficha cair. A boa filha à casa retornou. E onde quer que seja, eu sempre voltarei. As lágrimas quase atrapalharam, mas aproveitei cada instante desse reecontro!

Varekai - Funambul

6 comentários:

Thay disse...

Olá Del!

Nossa, deve ter sido um momento emocionante pra você! Os espetáculos são lindíssimos vistos em uma televisão, ao vivo, então, nossa, deve ser inesquecível. Vou tentar ir quando eles vierem se apresentar em Curitiba. O problema é que, se bem me lembro, o Cirque só vai passar por aqui no meio do ano de 2012! Haha, haja espera!

Ah, e preciso dizer que ADOREI a tática kamikase de supermercado, vou começar a adotar nas minhas idas até lá! Quem sabe assim eu consigo alguma paz de espírito, rs.

Beijo!

Ana Lu disse...

Que relato emocionado, Del! Eu amava circo quando era criança, depois foi perdendo a magia, mas sempre quis ver um Circo de Solei. Infelizmente, minhas 2 vezes não foram perfeitas. Da primeira vez foi nos Eua, eu comprei em cima da hora, era o La Nouba, e eu sentei longe das minhas amigas, no canto, perto da pilastra, super longe do palco, do lado de um casal de namoradinhos americanos que não paravam de se agarrar. Não tinha ninguém com quem comentar, e perdi a paciência rapidinho. Além do que, a apresentação era em um local tipo um teatro, não era um circo com sua lona e suas magias. Da segunda vez, foi em São Paulo, eu não lembro qual era o espetáculo (me bata), mas o pai das minhas amigas super atrasou com o horário para nos levar, e chegamos 5 minutos antes do intervalo. Ou seja, perdemos metade. Mas na outra metade, eu juro, sai de órbita. Me apaixonei COMPLETAMENTE. Ou seja, o negócio é fantástico mesmo. Eu só preciso ter mais sorte com a logística de ir assistir, hahaha. Beijos, Del!

Leila Ice Girl disse...

Que lindo, ah, imagino como deve ter sido tudo perfeito! Que maravilha!

Andreia disse...

Para a minha vergonha, nunca vi nenhum espectáculo do Cirque du Suleil. De qualquer forma, desde pequena que fiquei traumatizada com o circo.

O que para muita gente é arte pura, para mim é um espectáculo de aberrações. A começar pelos animais. (Acho que meu trauma tem mais a ver com eles... 'será que estão a sofrer?'); por outro lado foi graças ao circo que ganhei fobia a reptei ou em qualquer caso a cobras. ~.~'

sobrefatalismos disse...

De todas as blogueiras que já encontrei, acho que você é a mais original. Não conheço pessoas que gostam de circo. Eu mesma, de certa forma, desprezava-o. Acho que você me ensinou a gostar, só por apreciar assim, tão displicentemente. Parabéns. Beijão.

Carol disse...

Awn que lindo, nunca fui num circo, ou parque ou parquinho, pessoas sem infância... Que lindo Del!

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