24 de outubro de 2011

E aí você entrou na minha vida

Minha vida precisava de um palhaço. Uma pessoa como eu, que adora e segue a arte circense, deveria estar cercada por pessoas envolvidas com o circo. Mas as pessoas que eu conhecia, deixei de conhecer. Quem nunca deixou de conhecer uma pessoa? A amizade é alimentada, as conexões estabelecidas e a dedicação regada, mas de repente tudo se desliga e, quem um dia foi amigo, se mistura na multidão. Acontece com todo mundo, a toda hora, sem precisar de alguém para querer isso. Simplesmente acontece. A vida leva embora do mesmo jeito que trouxe. São os ventos. Pois bem, devido ao mau tempo, desconheci as poucas pessoas que estavam ligadas ao circo e a mim ao mesmo tempo. Antes mesmo de aprender o truque mágico da caixa. Que lástima. É um tanto complicado manter contato com quem viaja muito, de canto à canto do país, ainda mais na época onde não existia Facebook (tão pouco Skype).

Anos atrás (não pergunte quantos, não sei) descobri um projeto independente chamado O Teatro Mágico. "Putz grila!", eu pensei, "Tem um cara de palhaço cantando! Tem menina no tecido! Tem violino! Tem letras bonitas! Tem circo nessa porra, playboy!" Baixei, então, o álbum chamado Entrada para Raros. Visitei a comunidade no Orkut, que dominava na época, e passei por alguns tópicos. Todo mundo se tratava por "raro" e eu, com minha melhor cara de whattafuck, visualizei fotos de pessoas no show com as caras pintadas de palhaço. Ideologia forte. Quem quer que fossem esses "raros", eles acreditavam mesmo no projeto. Só isso já havia me conquistado porque é difícil encontrar, hoje em dia, pessoas que realmente acreditam no que estão fazendo ou seguindo (e essas ganham minha simpatia instantânea). Então, restava ouvir as músicas que eu tinha baixado.

"Ah não!", eu choraminguei. Não rolou química. O cara vestido e pintado de palhaço, com uma trupe de verdade e uma boa vibe e autenticidade e o escambal não me conquistou pela música.

Que dó.

Deixei Teatro Mágico de lado, e continuei procurando por um palhaço em minha vida. Porque eu realmente precisava de um palhaço. Assim como leões de estimação e cavalgar em girafas como hobbie, conhecer engolidores de espada e viver um pouco do meu mundo no meu dia a dia cinzento. É extremamente desconfortável amar uma coisa e não poder vivê-la. Meu namorado é completamente aquem da minha paixão pelo circo, talvez ele nem saiba dessa minha fissura. Amigos, familiares, todos dão de ombros para a arte a qual me dedico. O Bonjour Circus já completou um ano e pouco e ainda não apareceu nem uma sombra de alguém que compartilhe as mesmas figurinhas. Um terror! Antes, posso confessar, em tempos de solteirice, eu jurava de pés juntos que eu iria casar com um palhaço, quiçá um malabarista. Nada deu certo. Namoro, e adoro, um advogado pragmático demais. Essas armadilhas do amor...

Lá pelo ano de dois mil e alguma coisa, não sei como, caiu em meus ouvidos uma música de violão com a voz do palhaço do Teatro. Menina, era o nome. Sei que me apaixonei à primeira ouvida e "Menina" estava presente em todos os cantos por onde eu passava. MP3, celular, notebook e até no computador dos meus pais. Tinha também direito a letra escrita nos cantos do livro no cursinho e notas no rodapé de poesias e crônicas que eu escrevia. Eu cantarolava, enchia o saco de todo mundo e, quando perguntada sobre Teatro Mágico: "Não, não gosto." E não gostava mesmo.

"Mas, nossa, você é tão a cara deles! Como assim?! Se você fosse uma banda, seria o Teatro Mágico. Você tem que assistir um show deles, é tão bonito, tão sua cara. Meu, mas eles são tão 'você'! Até seu jeito de escrever é parecido. Não pode ficar sem gostar deles, não!", eu ouvia complacente. Não xingava a pessoa porque ela tinha razão. Por que não gostar de Teatro Mágico? Logo eu!

Dias atrás, no Facebook, postei muito determinada que estava tentando gostar deles pela terceira vez. E quando eu coloco uma coisa na cabeça, perdeu playboy, sai da frente. Baixei, novamente, Entrada para Raros e Sociedade do Espetáculo, o novo trabalho. Assisti entrevistas. Assisti alguns shows. Li wikipédia, li site oficial, visitei o tumblr também. Quanto mais eu olhava para o palhaço e o escutava, mais eu me apaixonava por seu projeto que tem tudo a ver comigo. Coisa leve, coisa bonita, coisa verdadeira. Um teatro cheio de esperança e coisa boa para compartilhar. "Esse cara acredita no que faz", eu pensei enquanto assistia a mais uma entrevista. Anitelli acredita na arte circense, no espetáculo independente e nele mesmo. O ver lutar para conquistar um espaço com as próprias mãos iluminou um sorriso na minha cara. Porque é lindo. Porque eu finalmente compreendi que Anitelli é raro. Que pessoa bonita ele é. De atitude, de cara pintada. Assim como admiro quem sai de casa com penas de corvo na cabeça, admiro quem é autêntico o suficiente para acreditar no certo, no bom, no melhor.

Depois de me encontrar no palhaço trovador e em seu projeto, gostar das músicas foi fácil. Aí sim, eu compreendi o que ele tentava passar através das letras, e tudo fez sentido. Antes, bem tonta, eu procurava o que todo mundo espera encontrar. Aquela coisa sem nome. Qualquer coisa, menos eu. Esse foi meu maior erro: não me procurar no projeto O Teatro Mágico. Porque eu sempre estive bem ali, era só abrir os olhos. Procurar menos, sentir mais. Deixar se levar. O segredo é não ter segredo. É menos complicado do que você pensa, do que eu pensei que fosse. É muito mais lindo do que parece ser para você, que fica aí parado na porta, com vergonha de entrar. Finalmente tenho uma vida circense menos vazia. Se eu quiser, tenho toda uma trupe para conhecer, cheia de graça. Posso dizer, de peito aberto, que agora eu tenho um palhaço em minha vida!

É com todo carinho que te dedico, Fernando Anitelli, o meu raiar. Porque em mim, graças a você...

14 comentários:

Thay disse...

Já tinha ouvido falar do Teatro Mágico, mas não me animei a procurar saber mais sobre ele. Afinal, não sou uma pessoa tão circense quanto você - o que é bem estranho levando em consideração que minha festinha de 1 ano foi com tema de circo, uma graça de se ver! Mas eu mesma não me enveredei por esse lado da vida, hehe. Mas acho legal encontrar alguma coisa com a qual a gente pode se identificar tão verdadeiramente e por completo. É praticamente saber que, de alguma forma, tem mais pessoas pensando como a gente por aí. Beijo, Del!

L.H.C disse...

Já ouvir falar um monte do Teatro Mágico, conheço um guri que é bem fã; vou confessar que eu não sou a maior admiradora dos palhaços, e credito a culpa disso toda a Patati Patatá, mas acho tão legal o modo como você gosta, ama todo esse mundo circense Del, muito bacana mesmo.

Ba Moretti disse...

Não tem como fugir do que já faz parte da gente.
Adoro Teatro Mágico :)

Anna Vitória disse...

Ah Del, eu tenho uma preguiça gigantesca de Teatro Mágico. Já tentei ouvir, juro, mas não rola, sabe?
Não vou nem falar que tenho uma birrinha por eles pra você não ficar brava comigo, hahaha.
Mas acho que eles são diferentes mesmo. Por exemplo, uma menina que eu conheço, aqui de Uberlândia, dançou com eles em sua festa de 15 anos. Ela era super fã da banda e os pais conseguiram trazê-los para tocar na festa dela, com ela dançando sapateado junto. Acho até que eles viajaram juntos pra alguns lugares. E uma outra amiga viajou com eles numa turnê no litoral do Nordeste, também como presente de 15 anos. Achei bacana essa abertura que eles deram, e todas dizem que eles são incríveis, pessoas lindas. Acho bacana.
Beijo

Gabriela P. disse...

Tava falando hoje pra Milena que eu morro de orgulho quando ela fala de TM, porque foi eu quem fiz ela ouvir. Lembro que a primeira música que mandei pra ele foi Cidadão de Papelão.

Já fui a dois shows deles, nenhum dos dois teve direito a trupe completa, porque né, quem é que quer vir pra Maringá-terra-de-cowboy? Queria tanto que um dia eles tocassem Odeio Rodeio aqui, seria lindo! HASUIDHAISUHDISA

Mesmo que você tenha conhecido o TM por si só e não tenha precisado das minhas indicações, fico muito feliz que você tenha aprendido a gostar.

Nossa, depois que você for a um show, vai querer casar com o Fernando. Tenho uma foto com ele colada no meu mural. Coisa de raruxo, HASUIDHASIDHUISA.

Beijo, Del!

ps: você escreveu muito bonito, nunca consegui escrever nada assim sobre eles!

Laura K. disse...

Acho incrível como Fernando Anitelli brinca seriamente com as palavras.

Ana Lu disse...

Ai Del, nunca dei chance pra Teatro Mágico, sei lá porque, nunca consegui ouvir uma música.
Nem sabia que esse Fernando Anitelli era o vocalista, só sei que ele escreveu uma frase que eu amo: Borboleta parece flor que o vento tirou pra dançar..
Beijos, linda!

Jana disse...

Ih, Del, que nem a Ana Lu tbm nunca dei chance pro Teatro mágico e olha que eu gosto de coisas diferentes, hein? Aliás eu até confundi eles com o pessoal do 'finado' Cordel do fogo encantado que eu gosto um tico. =P
Olha, acho que você encontrou uma entusiasta circense por aqui, hein? Espero que sim pq é uma delícia fofocar sobre coisas que a gente gosta com alguém que gosta tanto quanto nós =D

Beijokas, Del! =*
Como tá o ex-José-Cândido-agora-Tony?

Renata disse...

Um dia eu ganhei um ingresso para um show. Já tinha ganhado tantos antes, nessas promoções que minha escola de inglês fazia. Escreva uma frase sobre tal coisa. Fui lá, escrevi, ganhei de novo. E era para um show dO Teatro Mágico. Liguei para a minha prima, companheira de shows ganhados (e lá está ela agora no meio da multidão, nas idas e vindas dos tempos e das pessoas que a gente deixa de conhecer - junto com tantos outros que eu lembrei enquanto lia suas linhas sobre isso) e ela me disse que era legal e que deveríamos ir. E fomos. Eu, apesar de ter amigos circences ótimos e cujos quais sou fã de carteirinha, nunca fui muito ligada ao circo em si (me lembro de ter ido duas vezes quando pequena e ter voltado chocada com os maus tratos aos animais). Cheguei lá e não gostei muito dessa coisa cara-pintada. Porque eu sou rock 'n roll e cara pintada pra mim é Kiss. E também não gostei muito do público meio Sandy e Junior. Mas concordo plenamente a respeito das músicas. E da atividade do show em si. A conclusão é que eu entrei naquele show me sentindo peixe fora d'água e saí cantando Ana e o Mar Mariaaaanaaaaaaaaa histórias que nos contam na cama antes da gente dormir.


Beijo!

Larissa L. disse...

Gostei muito do post!
Conheci o TM em 2007 e gostei bastante assim de ir sempre aos shows, comprar coisas e acompanhar até o ano passado.. Mas não rola mais aquela vibe comigo, embora eu goste muuuito das músicas antigas!
No caso o meu "e aí você entrou na minha vida" seria com a Gabi Veiga (a menina do tecido que saiu recentemente da banda), pois por causa dela me interessei mais pelo circo e comecei a fazer tecido! E agora que ela saiu também perdi um grande vínculo com o TM!
Mas legal vc curtir o Anitelli! =)
"Bons ventos para nós"
Beijosss!

Flá Costa disse...

Ai, adorei o post!
Eu fui fisgada pelo Teatro Mágico à primeira vista. Escutei, pá-púm. Amei. Eu sou apaixonada pela paixão das pessoas, sou mesmo, muito e acho que o Fernando, e enfim, toda a "banda" amam o que fazem, e acho que isso contagia.

Eles são muito especiais.

Beijoca.

Thaís disse...

Acho que quase nunca comento aqui, mesmo lendo sempre. Texto maravilhoso! Gosto muito de TM também, já fui a um show deles, incrível! Você escreve MUITO bem!

Nique disse...

Então tá...vou contar a minha história..Como eu vim parar aqui ? Assim, quase desse jeito...fui arrebata pela trupe quando ouvi O anjo mais velho, menina do balaio, bailarina soldado de chumbo e pedra mais alta... dei tum tempo..era amor demais...e então eles vieram pra cá esse mês ( São Luís)...fiquei pertinho do palhaço e aquele olhos de convite...e foi assim: paixão tão forte, tão desmedida que quando estou an internet é pra ler as letras ... e dar google no TM...também sou louca por esse palhaço raro...O Teatro mágico é a poesia tomando forma e eu adoro poesia...adoro essa engehosidade com as palavras. Lindo post o seu.

Del Santana disse...

olha, eu tenho algumas músicas deles no computador. lembro que consegui essas músicas pq ia ter show deles num festival aqui da cidade. tentei ouvir, mas não me agradou muito, sabe?
aí no festival eles foram a última atração. já estava amanhecendo quando eles subiram no palco. eu e meu namorado, que tínhamos decidido ir p/ casa sem vê-los, não conseguimos resistir ao encanto que foi o show deles. é lindo demais; as músicas encantavam também. ficamos até o final.

mas depois disso não ouvi mais qualquer música dessa banda. bem, agora que li do seu post, vou colocar O Teatro Mágico na minha playlist assim que chegar em casa.

beijo, del

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