12 de outubro de 2011

A quimera de primavera

Sim, dois posts em um dia no BC de novo. Não gosto de fazer isso, mas a fila de textos está atrasada! Como eu não queria deixar de participar do meme do Dia das Crianças, aproveitei para publicá-lo e publico também sobre a primavera (para você ver que estou atrasada meeesmo). Espero que gostem, mas não é necessário comentar nos dois, basta ler e se divertir. Feliz Dia das Crianças para vocês! :D

23 de setembro de 2011. 266º dia do ano. O dia do sorvete e o equinócio da primavera. A mudança de clima marca a época onde depilamos as pernas, finalmente, após um longo inverno. Usamos sandálias, vestidos, saias e óculos escuros. Suamos. Ao contrário do inverno, na primavera temos algo para abrir mão de: o dia bonito. Todo mundo abre mão do dia bonito para ficar no computador ou trabalhando no escritório climatizado. No inverno, não. Enquanto é frio, ficamos no computador ou escondidos por falta de opção. Ficamos, todos, emaranhados um por cima do outro, baforando no cangote alheio e nos acumulando. Nossa, como a gente acumula durante o inverno! Gordura, resfriados, xixi preso na bexiga, camadas e mais camadas de roupas e lixo. Por isso, todo começo de primavera é ocupado por completo pela faxina.

Todo ano, religiosamente, eu e minha mãe arrumamos a casa no equinócio de primavera. Nada é marcado, planejado ou combinado. Quando percebemos, estamos com a casa virada do avesso coincidentemente no primeiro dia primaveril. Acho que é coisa de instinto. Com o calor, sentimos necessidade de chacoalhar as coisas e tirar a poeira que se acumulou durante o frio. Porque não há como escapar, a casa sempre está fechada e despreparada para o veraneio. Não só aqui no Brasil, mas na Europa também. No ano em que morei lá, aconteceu a maior faxina de primavera de todos os tempos! Na chegada do outono também, resolveram que o lar não seria mais doce se não jogassem quase todo o sótão no meio da rua, para o caminhão de lixo levar. Mesmo São Paulo infringindo a regra básica da Mãe Natureza, e só alternando entre muito quente e muito frio, é possível sentir a mudança de estação e perceber que tudo voltou a florescer.

Então, no dia 23/09 estávamos bancando as housewives prendadas da década de 50. Mais para Lucy do que para pin-ups. Entrei em meu quarto com o olhar de "isso irá doer mais em mim do que em você", munida de água e sabão. Eu estava decidida. E olha que "estar decidida" não é meu forte (em qualquer setor da vida). Tirei a poeira (pura poluição!) dos meus livros na estante, dos cds e dvds, revistas e também joguei minha mesa, praticamente inteira, em cima da minha cama. Esvaziei gavetas. Dissequei meu armário. Arrastei a cama e todos os outros móveis. Nessas horas a gente se assusta com o volume de pêlos e ácaros. Sei que 'pêlos' não tem mais acento, mas não consigo viver assim. Principalmente atrás das coisas, onde nunca ninguém chega, e na parte de baixo da cabeceira da cama. Levei um susto. Mais um pouco, e eu estaria cobrando aluguel do cortiço deles. Talvez até reclamando do funk.

O engraçado é o que encontramos no meio da limpeza. Jornais velhos, notas fiscais desbotadas, embalagens de balas ou bombons que não foram para o lixo por pura preguiça de minha parte, envelopes de correspondências misteriosas (nunca consigo descubrir o que havia dentro do envelope) e guardanapos do Mc Donald's ainda dentro do plástico. Encontrei, também, um boleto bancário vencido. Consta nos altos sempre quis dizer isso! que eu deveria ter pago minha inscrição em um concurso público. Eu em concurso público?! Desde quando? Para vocês terem ideia, havia até anotações minhas sobre a primavera ali, mofando na gaveta.
Capítulo I
Primavera! É assim que enxergo meus dias agora. Uma grande Primavera, deitada perpetuamente, coroada pela aurora.
Não pergunte o que isso significa, entendi menos do que você. Ao que tudo indica, enquanto os ursos hibernam, eu gozo de uma vida paralela a essa. Curto uma espécie de transe. As coisas encontradas todos os anos na preparação para receber Dona Primavera, não condizem comigo. São caixas de chocolate que não lembro ter comido, folhetos de rua que se materializaram nas gavetas, etiquetas de roupas que nunca usei, amostras grátis de produtos que eu jamais usaria e centenas de unicórnios, duendes e índios que não sei há quanto tempo estão morando no meu quarto. No fim, a sujeira fica em segundo plano. Sempre acabo me distraindo com os tesouros que topam no meu dedinho do pé. Demoro um dia inteiro para terminar a arrumação. O saldo fica no corredor cuja passagem é bloqueada por sacos e mais sacos de lixo lotados com quinquilharias que irão para a igreja ou para o lixão da cidade.

Mas uma pequena parte fica agregada, com carinho, em um cantinho reservado. Deixo ali só o que faço questão de tentar lembrar o lugar de procedência. As coisas ficam ali, paradas. Na primavera seguinte, não faço a menor ideia do motivo de estarem guardadas, e começo por elas a faxina do ano. Desmontando assim, pouco a pouco, aquele mundo secundário, construido durante o inverno. Do qual não gravei nada de minha estadia.

É uma pena nunca encontrar minha memória no meio da bagunça.

6 comentários:

Ana Lu disse...

Lindo, Del! A chegada da primavera realmente dá aquele incentivo aos nossos ânimos!! E seu texto me mostro a quantidade de coisas que a gente passa a abrir mão... fiquei triste, HAHAH.
Beijos

Leila Ice Girl disse...

normalmente a gente gasta mais tempo vendo essas coisas que ficam guardadas do que com a faxina, é realmente agradável remexer nessas memórias.

Luciana Brito disse...

Ah, essas faxinas sempre revelam coisas que a gente nem lembrava mais. Chega a ser engraçado. A gente tenta relembrar alguma coisa e até consegue. Quando faço faxina sempre me dá nostalgia kkkkkk

Quanto ao teu post do dia das crianças, adorei! Tanto que resolvi me render e fiz também.

Beijo!

Andreia disse...

Por aqui está a chegar o Outono, e com jeitinho o Inverno bate jajá à porta. Então, nós estamo-nos a preparar para o 'grande frio'. Curiosamente continua estando tanto calor como se ainda estivéssemos no Verão. Tempo mais maluco!

É. A mim também me acontece de encontrar fadas nos sítios mais remotos do quarto, e unicórnios que eu nem sequer sei como os consegui.

É bom relembrar velhos tempos.

Thay disse...

Acho que nunca fiz limpeza no começo da primavera, mas sempre é a primeira coisa que faço quando entro de férias. Sei lá, sinto que se não me desfizer daquelas coisas acumuladas durante o semestre letivo não serão férias verdadeiras. Aí acontece praticamente o mesmo que com você: pacotes de coisas aleatórias são encontrados, guardanapos do Mc (sim! HAHA)... sem falar das pilhas de xerox da faculdade que não mais serão utilizados. Enfim, gosto da limpeza, parece que com ele vão se embora não só as coisas inúteis, mas alguns sentimentos pesados também. ^^

Ah, não tem o que agradecer Del! Espero que José Cândido reencontre seu dono ou um novo lar! E divulgar não custa nada, né? E sempre que me lembro visito seu outro blog, gosto de como escreve, então é sempre um prazer. :)

Beijo!

sobrefatalismos disse...

A sua primavera é idêntica ao meu final de ano: faço faxina 31 de dezembro, re-li-gi-o-sa-men-te, talvez em uma pretensão absurda e desnecessária de iniciar bem o ano por vir. Arrumo principalmente as gavetas. Minha memória costumar habitá-las. Beijos.

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