16 de novembro de 2011

O rato come queijo, o gato bebe leite...

A Ulli Uldiery comentou em algum texto que eu deveria escrever sobre o filme dirigido por Selton Mello, "O Palhaço", já que tem tudo a ver comigo e com o BC. Respondi que sim, com certeza, mas que escreveria só depois de assistí-lo porque quando o assunto é circense, vocês sabem, derreto antes mesmo de conferir o produto. Domingo passado fui com meu namorado ao Playarte assistir, por cortesia da Porto Seguro, o filme que esperei por um ano ou mais.

O palhaço triste que faz todos rirem não é novidade no mundo circense. Pode ser considerado clichê, mas ainda assim é uma das mais belas formas de praticar tal arte. Benjamin administra o Circo Esperança ao lado de seu pai, Valdemar (Paulo José), e ambos promovem o ato central do espetáculo com a interpretação da dupla Pangaré e Puro-Sangue. Apesar da clara homenagem que Selton Mello faz aos comediantes brasileiros (porque eu não tenho coragem de chamar Didi Mocó de palhaço), posso dizer que tanto ele quanto Paulo José usaram da vertente Tramp (ou "vagabundo"). Palhaços de andar pesado, cara entristecida e de pouca habilidade social. O que deu o toque final que a história precisava.

A história, porém, gira em torno de Benjamin que, ao meu ver, resolve os problemas de todo mundo menos os seus. Arrastando os pés e de maquiagem simplificada, ele perambula de uma cidade a outra, no Brasil dos anos 70, com um pedaço de papel envelhecido que diz ser sua Certidão de Nascimento. Ela representa sua frustração e falta de identidade. Não digo o documento, mas sim a personalidade. No começo do filme, Lola (Giselle Motta) se aproxima de Benjamin com a desculpa do calor, dizendo que ele precisava de um ventilador em seu cômodo, e deixa um convite para ele observá-la. Benjamin, então, olha para si mesmo no espelho. Ao meu ver, é o ponto de partida para sua busca de auto-conhecimento. Estando praticamente toda sua vida escondido atrás da maquiagem e roupa de palhaço, Benjamin semeia a decisão de se encontrar. O ventilador nada mais é do que seu desejo de sair do Circo Esperança para conhecer outra vida e, principalmente, outro Benjamin.

Sei que posso estar viajando na mensagem que O Palhaço quis transmitir, mas na verdade me identifiquei muito com os dilemas do personagem de Selton Mello. Um Zé Ninguém que não sabe ao certo quem é, o que quer e muito menos por onde começar um novo caminho. Enquanto todos ao seu redor lhe pedem coisas e soluções, Benjamin não consegue conquistar seu espaço para realizar suas vontades nem seus problemas pessoais (representados pela Certidão de Nascimento envelhecida e o ventilador). Enquanto ele interpreta seu alter ego ao lado de seu pai, Benjamin não arranja tempo para se desfazer de Pangaré e ser ele mesmo. Enquanto a trupe circense sobrevive como pode com o dinheiro dos espetáculos capengas, Benjamin não encontra brechas para que alguém o faça rir.

É clichê, mas Selton Mello interpretou um dos palhaços mais melancólicos e maravilhosos que já vi.

Infelizmente, achei que não exploraram a parte em que ele sai do circo para viver uma vida "comum". Senti falta de mais acontecimentos e dilemas entre a identidade, o emprego e sua volta para o Circo Esperança. Houve também um erro terrível, onde todos lhe pediam CPF sendo que na década de 70 o Brasil ainda usava o sistema CIC. Mas nada que não seja digno de perdão já que a fotografia, os outros personagens, as tiradas cômicas e todo o resto estava perfeito. Até linguagem circense usaram ao mencionar o "enterrar defunto"! Assim como a preocupação com o vento, o estilo cigano e o jogo de cintura que toda trupe deve ter (se quiser sobreviver). Também senti falta dos espetáculos, mas como eu disse, o filme gira em torno da melancolia de Benjamin. Não é um filme altamente circense, com intenção de homenagear a arte.

Saí do cinema secando os olhos, porque se eu derreto antes mesmo de conferir o produto circense, imagine depois! Voltando para casa, percebi que todos nós temos um pouco de Benjamin. Todos queremos nos descobrir, nos aventurar, nos experimentar. Todos queremos "um ventilador", mas quase sempre não temos condições de comprá-lo. Muitos de nós, e aí eu me encaixo, fazemos os outros rirem. Palhaçamos nosso cotidiano com a intenção de alegrar aos outros, mas anda difícil encontrar quem nos alegre. Existe um palhaço em mim. Existe um em vocês. Seja ele Augusto, Carabranca, Pierrot ou de qualquer estilo, todos os nossos palhaços internos se perguntam:

 "Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?"

11 comentários:

Ana Lu disse...

Ei Del! Deve ser lindo o filme! E realmente, todos nós temos nosso momentos de Benjamin, onde sentimos a repentina necessidade de um ventilador... Beijos!

Luciana Brito disse...

Olha, depois desse teu texto eu até fiquei com vontade de assistir o filme. Nem tinha dado tanta atenção a ele, mas agora está parecendo bom.

Beijo!

Thay disse...

Quando assisti ao trailer desse filme lembrei de você na hora! O mesmo aconteceu algumas semanas atrás quando a Globo exibiu um 'Profissão Repórter' sobre artistas circenses - circo é totalmente a sua marca! Fiquei curiosa pra assistir ao filme, mesmo não sendo muito o gênero que geralmente procuro. Mas acho importante estar aberta a coisas novas. :)
Beijo, Del!

Dani disse...

Tenho muita vontade de assistir esse filme, me parece muito bom. Depois do seu post, minha vontade aumentou. Você escreve muito bem. (:

Jay A. disse...

Confesso que andava com um pouco de preconceito em relação a esse filme, porque a única coisa que vi sobre foi um painel na estação da Luz. Logo, pelos últimos do Selton serem bem comerciais eu imaginei ver uma comédia que explorasse o riso. Adoro circo, mas até participar de um improvisado tinha um grande problema com palhaços, não gostava e ponto. Ainda não rio, mas admiro.

Seu texto me deixou cheia de vontade de ir ao cinema!

PS: Esse erro do CPF foi tenso, tsc.

Patrícia Sousa disse...

Gostei tanto, mas tanto da sua interpretação, que acabou me dando vontade de ver o filme, que quando eu ouvi falar, não dei a mínima. E não por ser brasileiro, pois apesar de assistir muita coisa estrangeira, eu vejo muito filmes daqui também, e tem muitos que eu gosto.
Acredito na sua palavra que o filme é bonito e passa uma atmosfera de descobrir sobre nós mesmos, o que volta e meia tem tudo a ver comigo, e vou assistir assim que possível hehe Beijo.

Bruna Morgan disse...

Passando por curiosidade: ainda não encontraste o dono do cachorro?

Flá Costa* disse...

ai Del, acabei de ver outra blogueira também falando sobre o assunto.

to morrendo de vontade de assistir porque antes de mais nada sou gamada no Selton - acho tudo o que ele faz primoroso. Esses dias vi ele comentando do filme na ana maria braga (não me julgue! rs) e me deparei com essa ideia toda de ele se descobrir e mesmo sem assistir pensei: acho que todos nós temos um pouco disso..

Bom saber que você gostou, só dá mais vontade ainda de assistir.

Beijoca

Karina disse...

Tenho que dizer que não estava afim de assistir esse filme. Não tinha me interessado e só. Mas agora fiquei com vontade, de verdade. Sou dessas. E fiquei toda comovida com o seu post. Assistirei.
Beijo, Del!

Babi disse...

tinha deixado pra ler esse post depois que visse o filme, coisa que aconteceu anteontem. achei muito bom como você o analisou, del. só não tonha ficado claro pra mim que o filme se passava na década de 70. minha impressão é de que se passa em tempo nenhum, sabe? uma idéia de atemporalidade que às vezes a gente encontra nos caminhos do interior brasileiro. se passar em minas gerais foi um dos motivos que fez com que eu me apaixonasse instantaneamente, e a fotografia me cativou bastante. isso da homenagem para os comediantes brasileiros pra mim ficou ainda mais claro com a escolha de moacir franco e zé bonitinho para atuarem como coadjuvantes. o próprio filme é o palhaço triste, que diverte e nos angustia, com um humor pastelão e um drama sutil.

Ulli Uldiery disse...

Delll, nossa, fiquei dias sem internet e só agora andei lendo os blogs que gosto,li vários textos mais recentes, e achei até que você não tivesse escrito sobre o filme...já assisti e senti exatamente tudo o que você descreveu, é um filme simples, mas que revela aos poucos uma visão humana e poética do ser. Me encantei mt, só não superou todas as expectativas, porque também pensei que fosse mostrar mais a arte circense. Obrigada por ter dado atenção a minha sugestão. Gostei mt do texto e nem preciso dizer que adoro a forma como você escreve. Beijos

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