2 de dezembro de 2011

No meio do caminho havia um palhaço

Sabe como é, né? Nem sempre estou com saco para esse negócio de terapia. Há umas duas semanas, talvez mais, não tenho o que contar para minha terapeuta. Descobri que não tenho problemas, foi o que eu disse à ela. Não tenho problema nenhum. Mesmo. O problema são os outros, sempre eles, com seus infernos pendurados em colares lindos da Channel. Os outros enchem minha cabeça de porcaria, pesam o mundo deles nos meus ombros e ainda por cima me cobram muitas coisas e atitudes. Eles cobram desculpas. "Por que essa menina não pede desculpa? É falta de educação!" Não, é falta de porrete mesmo, para afundar a sua cabeça. Mas como minha terapeuta recomendou que eu domesticasse meu Monstro Interior, estou me valendo de sorrisos amarelos e desculpa, mas o meu pinico ficou na outra bolsa! Esse pinico, coitado, sempre cheio com as merdas dos outros. Enquanto eu, toda imbecil gentil, faço nas calças mesmo.

Veja você, domesticar meu Monstro Interior. Que coisa fina de se dizer. Eu faço o que? Dou Biscrok? Ensino a sentar e a grunhir? Acho que o meu caso é de abate mesmo, mas não tive coragem de demonstrar tamanha visão realista para minha terapeuta tão otimista. Talvez ela também não tenha coragem (ainda!) de ser franca comigo, de trabalhar com o preto no branco, de tacar fogo no circo e dizer "Querida...", com aquela voz serena de Papai Noel, "acho que devemos parar por aqui!" Porque, olha, eu sou uma raridade. Sem querer me gabar, mas ainda está para nascer pessoa tão apta quanto eu a encontrar sociopatas. Tudo bem que existem em maior número aqui, do outro lado do muro do hospício, mas todos concordamos que metade deles passou ou está passando lentamente pela minha vida. Matar assim, um tiro e pronto, não tem graça. Antes arrancamos as unhas, depois os dentes e então desfazemos o quebra-cabeça aos poucos.

Enfim.

O que eu queria contar é que estava lá, tentando encontrar qualquer coisa para desabafar ou contar para minha terapeuta, que esperava ansiosa por mais um capítulo da minha odisseia. Sou uma nova e reluzante enciclopédia da Psicologia, acreditem. Então, comecei a trabalhar meu lado sensitivo com ela. Eu tenho um. Claro. Não tenho problemas nem sou freak o suficiente para viver em paz daqui para frente. Eu precisava ser sensitiva também. Porque sim. Desse jeito tem mais graça para o cosmo. Comecei a contar que estava eu, sossegada em casa, pensando em desgraças (síndrome do pânico manda lembranças) quando penso, involuntariamente, em um amigo meu. Não o vejo há anos e nossos caminhos são dificílimos de se cruzarem nessa Sampa de meu Deus. Só Facebook ajuda de vez enquando. Daí contei tudo isso e no quanto foi estranho começar a pensar nele e ter a sensação de encontrá-lo logo.

— Quando desci do ônibus, quem estava lá?
A psicóloga anotando ferozmente para depois repassar para seus colegas psicólogos. Talvez pensando "Freud que me perdoe, mas ele não sabia de nada!"
— Esse meu amigo. Ele mesmo!

Foi pano para a manga. Até livro emprestado ganhei. Alguma coisa com Jung e símbolos, mas não lembro o título. Só sei que estou ansiosa para começar a lê-lo porque eu sou estranha. Sério. Tenho consciência disso, ninguém precisa ficar com vergonha de me dizer.

Com essa história de sensitividade e o escambal, acabei ficando um pouco agitada. Não tenho certeza, mas acho que comecei a falar alto e a rir assim, do nada. Sou dessas. Porque se eu não rir do nada, não vou rir nunca. Que lástima. Mas a terapeuta percebeu, óbvio, e perguntou se eu havia feito "técnica de relaxamento" antes. Não, nunca fiz. Até porque, pela altura dos meus ombros tensos e meu olho direito sempre pulando, fica explícito que sou o tipo de pessoa que vive na adrelina. Não me chamam de Porra Loca a toa, minha gente.

Levando uma resposta negativa cheia de risadas, minha terapeuta fechou a janela da varanda, desligou as luzes da sala deixando apenas um abajur fraquinho aceso, e pediu que eu me sentasse o mais confortável possível. Feito isso, ela começou a pedir que eu imaginasse certas cenas. E a vontade de rir? Só Jesus na minha causa. Fiquei ali, sentada de olhos fechados e pernas esticadas, me segurando forte para não rir da situação na qual me meti antes de chegar aos 30 anos. Em plenos 20 e poucos anos, fazendo relaxamento para não infartar.

Quem já fez terapia ou técnicas do tipo deve saber como funciona. É aquele negócio de imaginar um campo com flores, ventinho fresco e sol morno. Depois, ao longe, aparece uma montanha forte, bonita e imponente. Vou confessar que é genial as sensações dessa técnica, fora a tranquilidade que passa. Quando cheguei aos pés dessa montanha (que depois ela me contou ser meu subconsciente), havia um atalho que me levaria até uma caverna lá dentro. Fiquei meio atrapalhada de imaginar tantos detalhes assim, já que minha cabeça estava 100% ocupada com a decoração da montanha, colocando ninho de passarinhos, vegetação rasteira, até horta eu plantei. Mas tudo bem, fiz um atalho meia boca e consegui entrar na tal caverna que ficava dentro do meu subconsciente.

— Dentro dessa caverna há uma fogueira - a terapeuta disse - Há um sábio sentado ao lado dessa fogueira, consegue vê-lo? (sábio que, segundo o que ela explicou depois, representa meu Eu Interior ou alma, depende de como cada um prefere chamar esse troço ae.)

Franzi meu cenho no imaginário porque, opa, desculpa. Caverna errada?! Havia um palhaço sentado ao lado da fogueirinha. Um palhaço. Sabe palhaço? Esse mesmo. Todo chique, tipo Anitelli, em trajes dos bons com detalhes dourados e chapéu. Havia um palhaço sentado dentro do meu subconsciente, cutucando a minha fogueira. Por um tempo fiquei sem ouvir o que a terapeuta dizia, só saboreei esse momento... único. Como diabos posso descrever esse tipo de coisa? A terapeuta pediu para que eu me sentasse de frente para ele e lhe fizesse uma pergunta. Oi? Uma só? Foi um momento tenso, muito tenso. Fiquei sem saber se perguntava o que, meu Deus, ele estava fazendo ali ou, sei lá, por qual motivo sou assim. Por que estou imaginando um palhaço? Como esse palhaço foi parar aí? Exagerei na dose de Teatro Mágico? Eu sou doente assim, de um tipo irreversível? Todas as estações e reencarnações? Apodreci?

Fiz todas essas perguntas, e a terapeuta já narrando minha saída da montanha, enquanto o palhaço ficava quieto, sem me olhar nos olhos, só cutucando a fogueira. Até que ele deu uma risadinha de ombros e sentenciou: Vai ficar tudo bem!

... ?

Tapa na cara da sociedade. Transgredi a raça humana. Talvez ele quis dizer que "Fica tranquila que no hospício é todo mundo gente boa." Somos todos boníssimos, Seu Palhaço, só ainda não sabemos disso. E até descobrirmos, teremos que viver assim mesmo, na lei da caça. Mas ficarei tranquila, já que o palhaço dentro do meu subconsciente (presta atenção nessa frase!) disse que ficará tudo bem. Nem meus remédios controlados são capazes de discordar dele. Vou te contar, é uma coisa poderosa.

Ao abrir meus olhos, a terapeuta esperava ansiosa (claro) pela revelação do que há dentro dessa minha cabeça que, com certeza, ela jamais viu igual em mais de 30 anos de profissão. Como contar? Fiquei no conto/não conto. Se eu contasse, corria o risco de ir dali direto para o Gardenal na veia. Se eu não contasse, jamais iria descobrir o que acontece comigo. Mesmo com o medo dos remédios de tarja preta, acabei contando...

Logo depois de terminar a descrição dos fatos, ela se ajeitou na cadeira. Meio sem o que falar. "Cada um imagina esse sábio de um jeito diferente?", eu perguntei super esperançosa. Ela contou que o comum (hahaha adoro quando inserem a palavra "comum" na frase para me diferenciar das pessoas normais) era imaginar um velhinho de cabelos brancos e barba longa. Mas convenhamos que coisas comuns para mim, pessoa que transcende a Humanidade de tão errada que é, não são o suficiente. Nunca serão.

— Na próxima consulta vamos conversar sobre essa coisa de circo, tudo bem? - ela disse toda gentil.

Gentil, sim.
Porque, na dúvida, é melhor não me contrariar.

12 comentários:

nothingbutasong disse...

hahaha amei ! legal como seus textos me prendem e me fazem ficar pensando horas se era ficticio ou não e vir comentar isso aqui :P

Andreia disse...

Eu não faço terapia, mas faço Yoga (é mais meditação que Yoga em si, mas e interessa descobrir nosso 'eu interior'. 8D).

A respeito de reencarnações, já paraste para pensar que essa tua «fascinação» (deve estar mais para «obsessão» não?) pelo circo e afins, se calhar, tem qualquer coisa a ver com a probabilidade de tu trabalhaste nalgum circo numa outra existência?! Pensa só: podias ter sido uma palhaça!! :D #fogedoolharassassinodaDel

Ah, sim. As pessoas adoram usar a palavra 'comum'. :D

L.H.C disse...

Ai Del você consegue se superar a cada post, hein, menina! Eu acho que precisava de uma sessões de terapia, por que, sei lá, já tá muito batido falar das minhas neuroses com as pessoas que estão por perto, mas, isso são outros quinhentos.

Isadora disse...

Eu preciso ligar pra um psicólogo urgentemente (de verdade), e fico postergando, com medo. Me promete uma coisa? Quando eu for, não me deixa escrever no blog sobre isso, tá? Eu não tenho maturidade! Hahahaha!

No mais, você tá bem, a gente tá bem, tá tudo bem. Uhu.

gabs. disse...

Não importa a desgraça da vez, eu sempre dou risada quando venho aqui. E não diga que eu gosto de rir da desgraça alheia, fazer troça é o jeito mais fácil, eu acho ;s

E eu não consigo imaginar você toda bonitina e quietinha na terapia. OO'

Jana disse...

Se a tua terapeuta for querer questionar teu amor pelo circo, não vai prestar. kkkk Mas, tipo, um palhaço??? haha Que comédia, Del! Eu, talvez, teria ficado com o velhinho mesmo, por pura preguiça de imaginar outra coisa. =P

PS: mulé, pra seguir o blog, tu pode adicionar no teu painel (conta do blogger). No novo não sei onde fica, mas tem um botão ADICIONAR e é só colocar a URL do bloguxo. ;D Acho que funciona, não tenho certeza xD

PS: pois é, continua lá. Fazer o quê? T-T #chora

Thais disse...

Adoro o jeito como você fala das coisas! :D
Eu nunca fui a terapeutas, nem nada do genêro. Procuro afogar meus problemas todos na piscina da natação ou na esteira da academia! :)

http://thaisacorrea.com/b/

Thay disse...

Acho que meu 'sábio' viria vestido de Gandalf ou Dumbledore, então estou dentro do que sua terapeuta considera 'normal'. Mas acho que você imaginar um palhaço enquanto todos imaginam o eremita barbudinho, é sinal de uma criatividade e imaginação maiores do que a média. Não vejo isso como algo ruim, muito pelo contrário!
Beijo, Del! :)

Fran Carneiro disse...

Já comentamos sobre isso e se você falar de mim pra sua terapeuta, pergunta se posso fazer isso em casa porque morri de curiosidade de saber como é meu eu interior, rs.

Mas, brincadeiras a parte, sério. Adorei o post e a análise. Queria muito ter uma terapeuta também, sei lá. Pode ser engraçado se não for trágico, né? :P

Ana Lu disse...

Então é certo que se eu tivesse um terapeuta ele ia me chamar para conversar sobre teatro.. hahahaha

Gabriela, disse...

Ah meu deus, eu preciso fazer terapia. Quero fazer a muito tempo. E claro, quero ser psicóloga. Desde sempre. hahaha
Adorei o teu encontro com o palhaço. Que máximo!
Beijo.

Milena M. disse...

Olha, existem os prós e contras de uma pessoa imaginar um palhaço como sábio na caverna interior. Claro, pode indicar algo errado com a sua sanidade. Mas se em troca você encreve um texto desses e me faz rir em plena madrugada, ah Del, vale a pena. Ainda mais que palhaços são coloridos e amigáveis.
Beijo!

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