A vida

Outro dia uma garota estava em um ponto de ônibus esperando por um Terminal de algum santo por aí. Um garoto sentado ao seu lado observava o balançar das copas das árvores que o vento provocava. Todos os ônibus indo para todos os cantos da cidade passavam, menos o esperado. Foi então que o garoto perguntou, assim como quem não quer nada:

- E a vida, hein!?
- O que tem ela?
- Passa rápido demais...
- Passa devagar demais para alguns. Já estou aqui há quinze minutos.
- Não tem problema, estou há vinte minutos.

Os ônibus passavam como se a pressa fosse inimiga, mas também se arrastavam só para garantir a rivalidade. Um garoto ainda olhava para as árvores com suas copas inquietas, como se a vida fosse simples daquele jeito. A garota olhava para seu relógio no pulso, observando os ponteiros indo um contra o outro, como se a vida fosse apenas aquilo.

- O que você pensa da vida?
- Tempo demais, vida de menos.
- Vida demais, tempo de menos, eu diria. Porque amanhã completarei vinte anos e ainda não tive tempo para pular de paraquedas...
- Medo demais?
- Trabalho demais.
- Horas e prazer de menos.

O engarrafamento era tanto na avenida quanto na calçada do ponto de ônibus. Um passo a mais para direita e disputavam espaço com motoqueiros, um passo a menos, indo para a esquerda, e um guarda-sol lhes furavam os olhos. Mas as árvores, é, ainda eram árvores, e um garoto se aproximou.

- O que é a vida para você?
- Um punhado mal calculado de segundos, dias e noites. E para você?
- Um momento que passa.
- Que momento?

Os ônibus formavam fila, os passageiros também. Era um show de buzinas, pisadas nos pés, desculpa, com licença, você vai pegar esse ônibus? posso passar? licença!! olha o sorvete um reaaaal! e os carros não iam e os ônibus queriam ir e a moça foi. Um garoto, meio dormindo meio filosofando respondeu ao nada:

- Esse momento.
- Droga, ele passou!
- O momento?
- Não, o ônibus!
- Droga!

Um garoto e uma garota sairam correndo pela calçada erguendo os braços e mandando um Terminal de algum santo por aí parar. Aliás, eles corriam como se suas vidas dependessem daquilo, mas não estavam indo a lugar nenhum. Como se a pressa fosse inimiga. Mas mantinham-se àvidos...

Só para garantirem a rivalidade.

O Brasil é um "cool"

Este post não contém generalizações. Generalizar é crime.

A FUVEST está ai para incluir na lista de livros dos juvenis brasileiros uma quantidade questionável de cultura brasileira, já que se dependessemos da vontade deles seríamos Ph.D em história americana. Qualquer um que tenha lido José de Alencar ou Aluísio Azevedo sabe que o Brasil desde que é Brasil não mudou nem mudará. Com O Cortiço aprendemos de onde viemos e poderíamos até parar de questionar para onde vamos. Iracema também está presente para não esquecermos de nossa mistura. O problema é que brasileiro, muito nostálgico, se agarra ao mínimo de identidade que lhe cae ao colo e se sente incapaz de progedir, deixando suas raízes no lugar que tem por direito.

Para os estrangeiros basta saber que o Brasil é constituido por apenas duas cidades (Érre Jota ou 'RJ' e Rio de Janeiro), uma capital (Copacabana) e dois pontos turísticos (o cara de pedra com os braços abertos e as mulatas com tetas de fora). Para nós brasileiros basta que os estrangeiros saibam que a) nós possuímos o segredo da magia "jeitinho brasileiro", b) nossos pés se movimentam de maneira demoníaca, c) temos em nosso poder a cachaça e d) nós trepamos o ano inteiro sem interrupção. Como atrativo oferecemos macacos treinados que perambulam pelas ruas e nosso diferencial é um sorriso banguela bem convidativo. Então, quando os estrangeiros publicam matérias nos nomeando de legais ou festivos, a gente celebra porque o objetivo foi alcançado com sucesso.

O objetivo foi alcançado com sucesso? Não.
Então aquieta o rabo e me escuta:

Quando eu digo que brasileiro é um povo nostálgico quero dizer que, em sua maioria, o povo se esquece que não pertence mais a nenhuma tribo, precisa cobrir o corpo com roupas e espelho - definitivamente - não é magia negra. Nos esquecemos que não é mais necessário agradar Caras Pálidas já que há mais de 200 anos nos transformamos neles. Aliás, conta-se em uma folha os decendentes de indígenas brasileiros. Todo mundo aqui é africano, europeu ou asiático. Todo mundo é escravo ou camponês de fazendas de café ou cacau. Todos os brasileiros, e então eu generalizo, são pessoas providas de Deus sabe aonde ou do que. Samba, capoeira, feijoada, carnaval ou qualquer coisa que seja ligada a nossa cultura não é nossa cultura. Nudez, sim, é nossa cultura, já que o que encontraram aqui foi, nada a mais nem a menos, do que ÍNDIOS.

Senta e chora.

Vagamos por 500 anos na História sendo colonizados, vendidos, arrastados e guerreados pelos cantos mundiais sem ao menos ter a força de vontade de dizer "Solta que eu não sou puta!" porque, sim companheiros, podemos ser filhos delas, mas não somos elas. Costumam dizer que o Brasil é um país sem pai mencionando a época da alta do café, quando as escravas tinham filhos com os Barões e fazendeiros. Esses filhos não eram reconhecidos, eram bastardos e são até os dias de hoje. Ou você acha que famílias simplesmente tornam-se pó com o tempo? Sangue não é pó. Os fazendeiros e Importantes Caras Pálidas apadrinhavam os pobres moleques e os transformavam em lacaios quando atingiam a maturidade. Os transformavam em capacho. Pardos até os dias de hoje são capachos para muito branco com cara azeda de estrangeiro. Estou mentindo? Já viu o quanto gente parda tem que ralar para conseguir algum sucesso nesse país? Perdi a conta de quantas pessoas pardas conheço, o quanto são esforçadas, inteligentes, o quanto são pessoas como as outras pessoas. O destino da maioria delas não foi muito diferente do que um emprego como subordinado e a conformidade. Enquanto filhos brancos de decendentes europeus ganham promoções e altos cargos por simplesmente serem filhos de seus pais. Olhos claros compram clareza na terra dos tupiniquins.

Eu sou Pró Brasil, sempre fui apesar dos escárnios que sofri dos europeus e seus decendentes. Sim, eu, A Brasileira, ou você acha que brasileiro tem passe-livre lá fora? Não tem, meu amor. Não tem porque não se dá valor. Eu não era eu, a Del, a esforçada que gostava de trabalhar e fazia o melhor possível. Eu era A Brasileira que gostava de samba, cachaça e mostrar os peitos em público, que não merecia respeito e mais nada além do que uns trocados caso eu trepasse com um deles. Eu não sou assim, estou muito longe disso, mas continuo brasileira. O pior de ser brasileira? Meu próprio povo me julga assim, logo, o que eles farão para mudar nossa característica lá fora? Nada. Está bom assim. Nos idolatram assim. Nos fodem assim. E foder é gostoso, né Brasil? Não é essa a base do jeitinho brasileiro, foder com os outros? Sintam-se a vontade.

Continuemos enfiando o pau-brasil no cool.

O trem paulistano

O tilintar do trem corre morro e foge morro sem respirar. Eu lá dentro me sinto eu lá fora ao olhar pela janela o borrão da cidade passar. Cá dentro voa bilhetinhos com corações rabiscados e atrás deles uma mocinha colegial a chorar. Fala conversa para cá, sussurra conversa para lá, ao meu lado graceja uma senhorinha de sotaque arrastado que conta os pontos do crochê sem errar. De mim para cá, de mim para lá, corro morros e movo pátios. Piso estrategicamente o marco zero sem desequilibrar. Acompanho o trem sem confundir seu tilintar.

Faz frio e garoa enquanto entra no trem mais de 1.500 pessoas de uma só vez, de uma só porta. Eu olho rápido que é para não perder a página que leio do meu livro. Eu sempre olhei rápido fosse para o que fosse, como raposa que escapa do caçador. Não é coisa de contar tempo, mas as portas fecham e uma gravata sempre teima em ficar entre elas. A gente nunca teima em deixar de usar gravata. Pensei rápido porque, realmente, não é coisa que se pare para contar o tempo. "Anhangabaú" a voz eterna que vem (de onde?) do além diz, mas eu só consigo pensar em um largo e volumoso rio a engolir eu, meu livro e a gravata. O moço da gravata, talvez, afogue também. O trem tilintou e fomos.

Para onde? Para o Anhangabaú. Ainda assim não é Tamanduateí com nuvens a espreita de quem acertar ou do que inundar, somente um rio que nos engole para onde o tempo foge à vista e não volta nunca mais. Página 25 e um moço carcareja balas de bom hálito para quem quiser comprar. R$1,50 ele diz. É um roubo, eu digo para dentro, que é para não chatear. Balas, canetas ou música, sempre tem o que vender nesse trem que, sem resfolegar, adentra as entranhas de qualquer um que deseje à ele as mesmas boas vindas. Seja olhando rápido, seja olhando de soslaio, seja não olhando, qualquer um nota o trabalhador adormecer diante de sonhos que contém terras secas e família infeliz. Que será? Este trem de garoa só me faz conhecer guarda-chuvas a disperdiçar as águas entre os trilhos ferventes.

A água some aqui. Para onde vai? Garoa dia sim e dia sim. Quando é dia não garoa também. Os índios andavam de guarda-chuvas afundando os pés na lama da rua principal e carregavam pedras e vidros e arte nos braços coloniais de quem constroe a cristandade de grão em grão.

O trem sacode como mãe que quer nos acordar e levantamos os olhos sonolentos como quem quer dizer que é inútil dispertar, posto que o tempo passa veloz, mas deixa no calço da porta cinco minutos para nosso bocejar. Sai 500 pessoas, entra mais 200. Eu fecho o livro que não evolue leitura e empaca na 25ª página. O moço soltou a gravata, mas deixou a maleta cair aos pés de um caboclo que bota medo só impondo presença.
- Desculpa.
Ele não vai desculpar.
- Desculpado.
Ele desculpa. Desculpas são aceitas assim como quem aceita um bom dia.
- Não me diga o que fazer com o meu dia!
Tem humor para toda gente.

Sede de individualismo é o que temos para hoje e, com grandes possibilidades, para amanhã também. Conforme carregamos o mundo e suas nacionalidades dentro do trem, vamos descarregando identidade e nos suprindo de mutações. Todos ambulantes e retirantes de terras que só Deus mesmo para reconhecer assim, viradas de ponta cabeça. O trem partir ou o trem chegar, ninguém dá bola, o que importa é estar indo à algum lugar e, logicamente, estar dentro do horário proposto pelo sistema. Chovendo chuva ou chovendo esperança, o trem continua na fé, firme e forte. O povo continua firme e forte entrando e saindo pela mesma porta, mas por motivos astronomicamente diversos. O moço consegue lugar para sentar. O moço da gravata, é, consegue lugar para sentar ao meu lado. Ele senta e eu nem olho, nem mexo, nem pisco. Ele também não olha, não há tempo. É chegada a Tamanduateí que nos engole de uma vez só.

Porque destino de trem e de gente é a solidão da imensa cidade de pedra que não dorme, como mãe a zelar um filho febril. Uma mãe que agrega todos os colegas do trabalho de sobrevivência e os amigos da escola da vida. Que cede lugar aos retirantes dos dentes caninos do diabo e dos imigrantes ávidos por consolo. Mãe que encaminha o trem por toda sua extensão junto com nós que acreditamos em qualquer mãe quando ela diz qual o caminho melhor e que é sensato levar um guarda-chuva porque vai chover.

Feliz aniversário, São Paulo!

NOTA:
25 de janeiro é aniversário de Sampa e, apesar de cansativo (eu sei), o texto saiu com um tiquinho de tudo que eu queria expressar, mas sempre me falta palavras. E as inscrições para a cápsula do tempo continuam até 20/02!

Meu pai e a discórdia

Meus pais estão passando por um tipo de Guerra Fria do Paisagismo, e eu me senti afim de registrar isso no BC por um motivo ainda desconhecido. Talvez para servir de prova à polícia caso isso tome proporções extremas. Afinal de contas meu pai é um sociopata em potencial. Minha mãe, quando o assunto é planta ou decoração da casa, também não fica muito consiliadora. De qualquer forma, vale o registro de mais uma Guerra Fria em família, nunca deixa de ser divertido.

O problema começou há anos atrás quando meu pai resolveu nascer em uma colônia alemã em RS. Ser criado assim vá lá, mas permanecer colono após se mudar para SP é suicídio social. Queria deixar claro que sou fortemente influenciada pelo meu desgosto com os gaúchos de minha família, portanto, ignore alguns comentários avulsos de raiva instantânea. Meu pai tem necessidade de ser cercado por mato, não jardins, mato. Tudo tem que ser verde, muito verde, úmido, fechado e longe do mundo. Eu avisei que ele era um sociopata. Então, o que ele fez? Anos atrás ele decidiu que nosso lar não seria doce se as grades da frente continuassem sendo grades, não, elas deveriam ser árvores, cipós, esconderijo de bichos provavelmente nojentos. Ai ele arranjou aquela planta que tem uma flor pequena e lilás. Conhece? Não sei o nome, mas sei que é uma praga e isso me basta.

Se tem uma coisa que herdei de minha mãe foi a cara de cu quando desprezo alguma coisa. A planta começou a crescer desordenadamente tomando conta da frente de nossa casa por completo. O Satã em forma de vegetal chegou a se enrolar nos fios do poste na calçada, eu estava vendo a hora que a Eletropaulo viria aqui nos prender por nossa planta ter provocado incêndio em todas as casas da rua. Se é que restasse algo de nossos corpos carbonizados. "Mas era uma planta bonita", diria meu pai no inferno. O pior é que a peste verde invadiu o terreno alheio e, claro, incomodou os vizinhos que varrem as folhas e flores várias vezes por dia. Fora os mosquitos que essa maldição acumula. Sim, isso mesmo, e a dengue. Mas o sociopata segue achando lindo.

Um crítico erro de DNA faz com que meu pai pense que ele é o centro do universo e que a verdade absoluta lhe pertence, então ele protege a planta como se fosse sua vida e não permite que minha mãe arranque ela pela raiz. Só que enquanto meu pai fala, a única coisa que ela escuta é: Blá blá blá blá. Naturalmente a planta perdeu metade de seu espaço conquistado e agora se sente intimidada pela tesourona enferrujada de minha mãe. Dona Mãe se empolgou tanto que chegou a comprar um par de luvas de jardinagem novas e não se desconecta mais da internet atrás de informações diversas sobre plantas e cuidados com as mesmas. Até se viciou na Mini Fazenda do Orkut para aprender mais sobre agricultura também.

Eu não tinha motivo algum no início do texto para publicá-lo aqui, no BC, mas agora me veio à cabeça uma luz dizendo que, sim, eu tenho motivo. Primeiro eu gostaria de perguntar se alguém conhece a planta e se existe veneno potente contra o Mal encarnado em meu portão ou qualquer macumba que funcione sem deixar rastros. Segundo eu queria esclarecer, mais para mim mesma, que eu tenho todo o direito de ser um tanto amarga outro tanto ressabiada com a vida, já que meu pai é uma pessoa realmente difícil de se lidar. Terceiro, e por último, essa publicação serve mesmo como prova caso eu enforque meu pai com os caules de sua planta preferida.

NOTA:
As inscrições para a Cápsula 2012 continuam ;)

Cápsula do Tempo

 Participantes Cápsula do Tempo 2011 (em andamento):
  1. Renata - Sem Calendários
  2. Moara Ribeiro - Pulando a Todo Instante
  3. Thais - Thaizíssima
  4. Quareesma - Tá Lento
  5. Flor - Flores Atiradas
  6. Alice - Normal, eu?
  7. Júlia - W Up
  8. Evelyne Lucena - Isso é só um Sonho
  9. Anna Vitória - So Contagious
  10. Caroline Araújo - Violetas que Plantei
  11. Leila - In my Place
  12. Amanda - Primeiro Livro
  13. Auricio - Sentar e esperar ver o mundo de novo
  14. Janaina Barreto - Alma e Coração
  15. Alessandra Jungs de Almeida - Pensamentos de uma Banana Transgênica


Desde criança um dos meus hobbies favoritos é colecionar pedaços do passado. Quando digo "pedaços", digo cartas, bilhetes, papel de bala, folhas, pedrinhas, velinhas de aniversário, etc. Guardo algo tocável que estava presente em um momento que foi especial ou digno de valer um espaço no meu pequeno reservatório de lembranças. Tenho todas as cartas que recebi de amigas desde o Ensino Fundamental, isso garante ótimas risadas. Cartões de Natal de pessoas singulares que os mandaram para mim uma única vez na vida. Cartinha do primeiro beijo. Cartinha do namorido. Pedrinhas do Rio Reno, folhas dos Alpes Suíços. Bilhete do bonde. Areia de Sardegna. Tudo em uma caixa enfeitada por colagens de revistas que picotei pela casa.

Ontem, dando uma olhada nessas recordações e jogando fora balas estragas, pensei no quanto seria interessante propor à meia dúzia de leitores (ou menos) um projeto para o futuro 2012. Não é nada de extraordinário e participa quem quiser, quem se sentir a vontade ou gostar desse tipo de recordação. Não é necessário seguir publicamente o Bonjour Circus nem comentar nem porra nenhuma. Divulgações vão ao gosto do freguês (mas quanto mais gente, mais recordações, mais diversão).

Quando Shakespeare traiu

Otelo, para quem não sabe, é um grande clássico do mano Shakespeare. Uma história que decorreu em torno de 1600e tanto. Otelo, cego de ira por achar que havia sido traido por sua esposa Desdêmona, a asfixia com um travesseiro causando a morte da pobre coitada. Otelo, claro, só descobre isso tarde demais quando Emília confessa a ele que tudo não passou de um engano corriqueiro, coisa boba. Otelo, então cego de desespero, se mata, e morre sobre os lábios de sua amada e fúnebre esposa.

Um corno em ação.
Et tu, Brute?, disse Júlio César ao ser assassinado por companheiros e seu filho. Caio Júlio César foi um ditador romano nos tempos anteriores ao mano J. Cristo e também ganhou espaço nas obras de Shakespeare que - segundo alguns - colocou a celebre frase nos lábios de Júlio César: "Até tu, Bruto, meu filho?". Traido e assassinado por compas e Bruto, Júlio César cedeu ao próprio sangue e deu lugar para a República romana.
Bruto, seu féladaputa! Tá sem Playstation por um mês!
 Shakespeare, por si só, é uma obra completa e patenteada de traições, mortes e desamores. Eu poderia citá-lo mais, mas não vou, porque o post é sobre traição. Sentimento, ato e efeito de passar a rasteira. Repúdio que vaga pela Terra entre nós desde que o mundo é mundo. Má fé que assolou e assola muito mais do que a Peste Negra ou a AIDS, entristece e enoja muito mais do que uma decepção ou expectativa frustrada. Trair não é covardia, falta de caráter ou impiedade. Trair é uma arte esculpida em faces de pau. Você já ouviu falar em Judas?

"A Captura de Cristo", por Caravaggio. Somos traidores por instinto e história.
Infidelidade, ao contrário do que muitos pensam, não é traição, mas sim um adultério (ou prostituição se você estiver em um dia ruim e quiser chutar o pau da barraca). Para cometer traição precisamos conquistar a confiança do alvo a ser atingido e, convenhamos, esposas e maridos nunca depositam confiança no casamento. Como já dizia Voltaire: "Os desconfiados desafiam a traição." E ele não estava errado. Há muitos anos atrás, Voltaire e milhões de outros tinham a mesma visão do que nós temos hoje em dia. Traição é um vírus imutável sem antídoto ou cristandade que o cure. Existiu, existe e existirá você querendo ou não. Alguns entusiasmados chegam a dizer que uma simples mentira pode ser uma traição, por exemplo, quando você diz para sua mãe que está estudando química na casa da Vê, mas na verdade está transando com o Pê na cama dos pais dele. Vai do ponto de vista de cada um.

Hitler traiu a pátria alemã. Gustave Flaubert deu um belo trato no termo traição com seu livro "Madame Bovary". Marechal Pétain traiu a França. A balança me traiu hoje cedo ao mostrar dois quilos a mais que juro não ter consumido. Não se sabe se Capitu traiu Bentinho, mas sei que Bentinho traiu a si mesmo. Todo mundo generaliza e só pensa em relacionamentos quando se fala em traição, é a única coisa que conseguem pensar, mas a pior traição de todas é aquela em que temos falsa fé em nós mesmos. Traimos nossos limites, capacidade e nossas próprias vidas. Nos sabotamos, por assim dizer. Não é algo raro de se ver, alguém se traindo, mentindo para si. O princípio da traição, muitas vezes, começa com uma semente plantada em nós. Cultivamos essa semente e caimos em nossa traição.

Otelo, em primeiro, traiu sua confiança na esposa. Júlio César sabotou o próprio filho. Judas traiu sua dignidade. Hitler foi traido por sua mente. Eu me trai ao comer chocolate demais. Traição é implosão que nosso consciente não nos deixa notar. É uma falha na humanidade que nos faz incapaz de seguir um ciclo natural como os animais, é o que nos diferencia dos irracionais. Além de bípedes somos traiçoeiros. Construir um planeta não é inteligência, posto que esse mesmo ser que levanta prédios não tem uma visão para um futuro longínquo e destroi tudo ao seu redor. Fomos racionais na única vez em que conseguimos chegar ao topo da cadeia alimentar primeiro. O resto? Só traição ladeira abaixo. Traimos um aos outros, traimos a nós mesmos porque somos escravos de sentimentos um tanto mais nobres, outro tanto tão erróneos quanto, mas de uma forma ou de outra, é um defeito de fábrica. No fim, tudo se resume a uma ilusão de trapaçear a morte e trair, trair!, até não ter cova que nos cubra os corpos.

Traição não é consequência, mas sim a ação. Não é necessário motivo, basta o desejo. Se fosse um ser mitológico teria o rosto de bode, um par de chifres e corpo de sereia. É o único sentimento que se materializa na alma das pessoas e age por elas, fala por elas, trae por elas. Seja relacionamentos, seja guerra. Pode ser considerado ato de sobrevivência, medo ou indecisão. Pelo bem, pelo mal. Não tem precedentes nem culpados. Traição gera-se e nasce em si mesma se tornando hospedeira de nossas amardilhas. Tomamos nosso veneno esperando que os outros morram...

"A minha consciência tem milhares de vozes
E cada voz traz-me milhares de histórias,
E de cada história sou o vilão condenado."
─ William Shakespeare

Ressaca

NOTA:
Em dia de Reis porque é propício. Ano novo, mau humor antigo.

Um post pós Natal, pós Ano Novo e pós retrospectiva literária que é pra ilustrar minha cara pós atropelamento agropecuario (leia-se: por um trator). Olha, eu  não gosto de mudanças, e não gostar de mudanças entende-se por detestar qualquer tipo de mudança, seja ela interior ou exterior ou alheia. Não gosto quando as pessoas mudam, quando eu mudo, quando as coisas mudam, quando o ano muda. Meu processo de adaptação é muito lento, o que provoca um ciclo vicioso: quando finalmente me adapto tenho que me readaptar e ad infinitum. Por essas e outras meu humor fica insuportável em época de festas.

Já comentei que minhas festas não tem nada em particular, aliás elas não tem nada at all, mas mesmo não existindo comemoração alguma uma certa muvuca se instala aqui em casa. Quando dezembro chega parece que traz com ele uma mala de acontecimentos hiperativos doidos para me entortar a cara. A árvore de Natal artificial e seus penduricalhos descem armário abaixo e correm para a sala para se instalaram no mesmo canto de todo ano. Só que como temos um bebê em casa que viveu pela primeira vez o encanto natalino, tivemos que colocá-la um tanto mais alto, né. Quando a árvore sai do armário eu sei que uma série de descobertas e decepções irão acontecer porque a) um punhado de bolinhas estarão quebradas ou sem linha para pendurá-las, b) nenhum pisca-pisca estará funcionando e c) meu pai me perguntará, como todo santo ano, se eu tenho certeza de que não gosto de cabelo de anjo. EU.NÃO.GOSTO.

Eu nunca sei para onde foram as linhas das bolinhas, também não sei explicar como elas quebraram, já que nunca saíram do lugarzinho durante o ano. Os pisca-piscas funcionavam perfeitamente no Natal passado, não pegaram chuva nem sofreram qualquer tipo de abuso, mas Natal novo significa pisca-pisca novo, porque todos os anos eles decidem entrar em greve. Cabelo de anjo é a segunda pior coisa inventada para dias comemorativos (sendo a primeira os cartões bregas de Dia dos Namorados). Você nunca consegue recuperar todos depois das festas e no fim acaba com menos da metade de um saquinho que comprou por um preço injusto. Sem dizer que você passa o resto do ano encontrando cabelo de anjo até embaixo das almoçadas do sofá ou volta e meia seu cachorro vomita/caga um montinho degustado.

Tem também a neve. Ah, meu pai sente falta da neve! Ele acha coerente nevar algodão de farmácia em pleno e escaldante verão. Mas da neve ele abriu mão desde que voltei da Europa, talvez por um coma induzido, talvez por doses cavalares de equilíbrio mental.

Por um motivo desconhecido sempre tem salada de batata com maionese no nosso jantar. Isso não combina com peru, isso não combina com nada. Salada de batata com maionese não combina com a vida, mas todo ano tem. Pelo menos não tem farofa porque, sinceramente, deve ser uma desgraça comer peru com farofa.

Daí acaba o Natal, né, e todo mundo fica com cara de morto-vivo pensando em quantas bobagens aconteceram. Quase mataram velhinhas nos shoppings, quase roubaram caixas de pisca-pisca que ficam dando sopa na entrada das lojas, quase socaram os caixas de supermercado. Deram um presente escolhido com carinho e caro para alguém, mas só ganharam um vinho de R$19,90. Comeram batata com maionese na ceia de Natal e se perguntam qual a finalidade disso.

Então o Ano Novo renova as energias e esquisitices diversas. O povo gasta o 13º em fogos de artifício. O povo solta os fogos e comemora. Daí o povo olha para o céu negro e se pergunta qual a finalidade daquilo. O povo fica bêbado, fica depressivo, fica alegre e beija o chefe na boca. O povo paga mico na festa da tia gostosa. O povo não faz mais sentido. E todo ano - t.o.d.o a.n.o - a gente repete as mesmas coisas, contra as mesmas pessoas ou princípios, e faz as mesmas perguntas: O que demônios aconteceu com os enfeites natalinos?

Retrospectiva Literária 2010

Oi, eu sou um post programado. A moça circense está impossibilitada de estar presente nesta data devido a reuniões não mais secretas com membros finlandeses da ONU para resolver o problema de imigração de corvos no verão brasileiro de 2011, portanto, cá estou autometicamente caindo de paraquedas no BC. Tá. Eu só temi esquecer de postar isso na data certa mesmo.

O livro infanto-juvenil que mais gostei:
Fui obrigada a dar uma boa remexida no baú empoirado pra descobrir essa (rinite manda beijo). Sem sombra de dúvida foi A Garota das Laranjas (Jostein Gaarder). Eu não queria ler O Mundo de Sofia por várias razões, dentre elas a filosofia que na época me incomodava muito, mas eu queria ler um livro do Gaarder pra pelo menos poder falar mal conhecer algum trabalho do autor. Na livraria A Garota das Laranjas sorriu pra mim e eu levei comigo pra casa. Em três dias eu devorei o livro e cheguei a marejar os olhos. Acho que foi a primeira vez que me emocionei a esse ponto com um livro. Me lembro que escrevi uma espécie de "resenha" com um quê de eu-lírico (confesso que viajei com força nessa resenha):



"Vou olhar mais vezes para o céu. Sempre tive vontade de fazer isso, lá em cima, depois do céu escuro, muita coisa me espera. Mas neblinas encobrem minhas vontades. Muito presa na cozinha da Gata Borralheira, não vejo nada nem mesmo me lembro de olhar mais atenta. Sei lá, eu simplesmente existo, de uma forma muito injusta."


A aventura que me tirou o fôlego:
O Circo (Gary Jennings). O título continua com "As aventuras de um circo viajando pela Europa do séc. XIX ", ficando proporcional as 1.024 páginas. Não sei quantos anos Jennings gastou nesse livro, mas deve ter perdido família e vida social se empenhando em escrever páginas e mais páginas de aventuras crueis e extremamente realistas. O Circo não tem um enredo cheio de dóceis amores e aventuras super bacanas com uma turminha do barulho, não, o livro toca o terror. Ás vezes, lendo no ônibus, eu fazia caretas de dor, nojo e assombro e - talvez - eu tenha perdido metade da minha vida social com isso.

O terror que me deixou sem dormir:
Um terror chamado O Vendedor de Sonhos (Augusto Cury). Sério.
Ele olhou pra mim na prateleira da FNAC e eu o olhei, de um minuto ao outro, o livro estava me convidando pra tomar um drink e depois dançar e depois trocar telefones e ai ele jogou, sedutor, um sotaque italiano ao pé do meu ouvido. Levei o livro pra casa porque a capa era sugestiva, não tenho vergonha de assumir. No meio da leitura, já possessa querendo meus Reais de volta, eu fechei o livro e anunciei em voz alta: Essa porra é autoajuda! Perdoem a redundância, mas um péssimo livro de autoajuda. Perdi duas noites tentando encontrar respostas. Por que aquele livro estava em minha prateleira? Por que Cury não economizou esse tempo pra usá-lo mais tarde em ajudar de verdade? Por que eu o comprei!? Sua idiota. Sua estúpida. Sua anta!

O suspense mais eletrizante:
Antes de responder gostaria de informar que finalmente aprendi que Sidney Sheldon não é suspense.
A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón). Foi o único livro que manteu o suspense até as últimas páginas. Eu tenho uma chata mania de desvendar os mistérios já na metade da leitura, imagine o quanto eu ficava frustrada com suspenses! Mas A Sombra do Vento mudou minha vida e mostrou que ainda há esperanças.

O romance que me fez suspirar:
Sempre tenho um pé atrás com essa história de suspirar... Serve Camões? Tenho um mega crush pelo caolho.

A saga que me conquistou:
Não cheguei a acompanhar sagas, mas se a preguiça me permitisse seria As Crônicas de Nárnia. Um dia eu consigo!

O clássico que me marcou:
O Crime do Padre Amaro (Eça de Queirós).
Começou com o filme, pra ser sincera. É, aquele mesmo que você tá pensando, com o Gael García Bernal. Eu tinha 16 (ou 17?) anos quando a professora de Português resolveu nos enfurnar na minúscula sala de vídeo pra assistí-lo (ela sempre fazia isso quando tinha preguiça de dar aula, e isso é sério). Imagine uma garota de 16 (Jesus, seria 17!?) anos assistindo o Gael cometendo pecados? Porra, né! Enfim, depois busquei pelo livro, não era tão emocionante quanto, mas ainda assim uma leitura muito proveitosa.

O livro que me fez refletir:
Como Viver Eternamente (Sally Nicholls).
Foi o primeiro romance de Nicholls (e acho que o único pelo andar da carroagem), mas o enredo é maduro ao contrário de outras escritoras. A história contada por Sam faz qualquer um parar pra refletir na vida, nas reclamações, preocupações e rotina diária. Terminei o livro em um dia, mas refleti por semanas no assunto. É um enredo extremamente tocante. Além de me fazer pensar em coisas que normalmente ficam de lado esquecidas, Nicholls fez com que eu tivesse ainda mais vontade de escrever e passar ao mundo lições como essa.

O livro que me fez rir:
Eu sou o Mensageiro (Markus Zusak).
Santo Deus, como eu ri com esse livro! Não digo aquele meio sorriso no canto da boca ou um abrir de lábios mostrando timidamente uma fila de dentes brancos, quando digo que ri estou dizendo que gargalhei! Sonorizei "hahaha" e bati no meu joelho repetidas vezes. Vez ou outra ainda escapava um "ai, caralho" acompanhado pelo gesto de secar o olho lagrimejado.

O livro que me fez chorar:
Marley & Eu (John Grogan).
Pode me chamar de burra ou do que quiser, mas eu não sabia que o cachorro morria no final (isso foi um spoiler? devo pedir desculpas? corro perigo?). Comprei o livro e comecei a leitura na mais completa ignorância. Nas últimas páginas, com Marley velho e doente, um alarme começou a soar e foi ai que minha ficha caiu: "Ele tá morrendo...", eu disse já com lágrimas nos olhos e assustei minha mãe. Até ela entender que quem morria era apenas uma personagem não-fictícia no livro eu já estava às lágrimas abraçando minha falecida Laika como se não houvesse o amanhã.

O melhor livro de fantasia:
O único livro de "fantasia" que li foi O Dia do Curinga (Jostein Gaarder), mas ele tá longe de ser o melhor. Na verdade foi o livro culpado por eu jamais querer ler outro da mesma categoria. Eu poderia jogar uma piada dizendo que o melhor livro de fantasia seria o do Corinthians? Não? Tarde demais.

O livro que me decepcionou:
Graças a Deus eu baixei o livro ao invés de comprá-lo! Sabe quando você vai seco em algum assunto que adora e dá com os burros n'água? Não sabe? Só eu faço dessas cagadas mesmo, né? Enfim. Eu amo qualquer assunto relacionado à guerras mundiais, principalmente a segunda guerra, ou seja, fui louca baixar O Menino do Pijama Listrado. Quando comecei a dormir na terceira tentativa de lê-lo ainda empacada na 11ª página convenci a mim mesma que havia errado e que o livro era completamente FAIL. Não tinha emoção, faltava detalhes, faltava um toque mais infantil já que a personagem era uma criança, não teve aquele olhar ingênuo (entrar em um campo de concentração não é ingenuidade, é burrice mesmo). Faltou muita coisa pra ser um enredo ocorrido durante uma guerra.

O(a) personagem do ano:
Isso é covardia! Não consigo ter uma resposta singular. Ed e Porteiro, ambos de Eu sou o Mensageiro, que deixaram sua marca na literatura como inovadores. A morte de A Menina que Roubava Livros, a narradora mais encantadora que eu poderia conhecer. Kolya de Cidade de Ladrões (David Benioff), foi o único que salvou o livro.

O(a) autor(a) revelação:
MARKUS ZUSAK! #tietagem

O melhor livro nacional:
Dom Casmurro (Machado de Assis). Sempre!

O melhor livro que li em 2010:
Lido pela quinta vez: Auto da Barca do Inferno (Gil Vincente). Não li livros em 2010, a ansiedade não me permitiu, mas antes que ela me atrapalhasse consegui reler o livro no começo de março e sempre gosto dele, não sei porquê exatamente, mas é um livro cativante. Ele está acima da FUVEST!