Lésbica não é sapatão. Gay não é bicha nem viado. Camisa rosa não define sexualidade. O número do calçado não indica a opção de ninguém. Beijos são demonstrações de afeto e não desaforo. Acredite, ninguém se preocuparia em beijar alguém do mesmo sexo só para te contrariar. Sua existência não é tão importante assim. Sua opinião menos ainda. Quatro paredes te separam da sua ignorância e curiosidade mórbida, ainda assim, você insiste em apontar seu dedo podre. Olha que um dia ele cai! Quem se preocupa com a opção sexual alheia deve ter tempo de sobra e prazer de menos. Quem se acha engraçado com seus comentários preconceituosos deve ter humor barato demais e cultura de menos. Se você é esse tipo de pessoa, lamento, mas seu mundo talvez não tenha mais do que dois palmos de comprimento. Rir, caçoar, ridicularizar, encriminar e sofrer com a opção sexual de alguém é sua maior miséria. A vontade de estar presente dentro do quarto de cada homossexual para castrá-lo é tão forte, mas tão forte, que chega a te cegar. Afinal, é o seu cu ou o deles?
Porquê estou de mal da Kate Middleton
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| Grace Kelly e Mr. Mustache |
Essa foi a primeira foto de casamento que vi na minha vida. Pelo menos é a primeira que minha memória fez questão de gravar. Vai ver as fotos de família cheirando a mentiras não foram dignas de um espaço dourado na minha - super ocupada - cabeça de vento. A segunda, sim, foi a fantástica foto do fantástico vestido de noiva da Diana. A partir desses dois grandes acontecimentos oculares foi só ladeira abaixo. Me abstenho. Enfim, o que quero dizer é que Grace Kelly influenciou diretamente em meu gosto matrimonial. Quando vi a foto de seu casório soube na hora o que queria para o meu dia: aquele vestido. Com algumas modificações, sim, mas toda a simplicidade e elegância que só uma boa renda pode oferecer. A gola, juro, eu nunca vi gola tão perfeita. Já conheceu alguma noiva que se preocupou, tipo, muito com a gola do vestido? Não, né. Não porque você não me conhece. Posso engordar 10 quilos e perder a cintura, ficar parecendo o bolo do casamento ao invés da noiva, mas o vestido tem que ser igual o da tia Grace. Caso contrário não caso.
Pronto.
Quando vi essa foto? Não lembro, desculpa, esqueci de registrar o dia no cartório. Sei que eu era pequena o suficiente para acreditar mesmo em casamento de princesas. Se como eu fosse prometida para um duque norueguês e minha mãe tivesse esquecido de deixar anotado na geladeira. Portanto, desde pequena guardo meu vestido de noiva desenhado na memória. Posso falhar (muito) e esquecer de outras mil coisas, mas o desenho do vestido e a inspiração da tia Grace eu.não.esqueço. Noivo? Que noivo!? Igreja? Festa? Amor!? Puff. Eu posso me casar com um sósia gordo e brega do Elvis Presley, não me importo, eu só quero uma oportunidade para usar e abusar do meu vestido.
Agora pare e pense.
Na reação da pobre garota inocente.
Quando liga a televisão ansiosa pelo casamento real.
E vê seu vestido entrando na igreja.
Em outro corpo.
Muito drama, Brasil. Muitas lágrimas. Muita indignação. Muito xingo na orelha do cosmo que, claro né, tirou sarro. O que evitou um suicídio foi a gola. Imagina a importância da pobre da gola daquela usurpadora. Não satisfeita em roubar o noivo em potencial, Kate Middleton roubou minhas rendas, véu, calda e dignidade. Lógico que esperei a notícia do casamento esfriar para escrever esse desabafo. Além de roubar minha ideia, Kate colocou o gosto na boca do bueiro. Em todos os canais, estações de rádio e blogs (que se acham) de moda só se fala em rendas e no quanto elas voltaram a ficar na moda. Começaram a usar rendas até em biquínis. Biquínis.
Enquanto eu desfiava impropérios para a televisão, minha cabeça passava o filme da discórdia. O dia do meu casamento. Eu entrando na igreja, usando o vestido finalmente tirado da memória. As pessoas olham. As pessoas se encatam. As pessoas comentam entre si como a noiva está linda. Eu estou linda. Aí as pessoas sabem, né, porque as pessoas não deixam essas coisas serem esquecidas. Os convidados sabem que a noiva copiou o vestido da princesa. Quiçá rainha. Como fica a cara da plebe? Cara de cu. A plebe não está podendo casar em paz. Tem que ver isso aí, Deus.
A pergunta que fica: e agora, José? O bolo estragou e a noiva não vai ficar para a festa.
A Raiva e sua cortina de retalhos
Todo mundo aprende, desde pequeno, que raiva não é um sentimento nobre e não deve ser alimentada. Raiva nos leva a cometer delitos e desencadeia guerras. Está um passo atrás do Ódio, e esse sim, não devemos nem dizer em voz alta. Se em casa a gente não aprende, tudo bem, tem o cosmo ou a religião que não nos deixa escapar. Ira é pecado. Um dos sete capitais. Quer argumento maior que esse? Lógico que queremos ir para o céu depois de uma estadia cheia de armadilhas e funcionários públicos. Ninguém quer deslizar por descuido na raiva e depois passar a eternidade ouvindo discursos nazistas ou comendo camarão (porque eu sou alérgica). O que nos resta é absorver o ensinamento e balançar a cabeça como bom carneiro. Mas como eu sou bem contramão - por puro prazer - acabei cometendo um pequeno engano cristão: eu convidei a Raiva para entrar e ofereci suco de limão sem açúcar. E não é que ela gostou de ficar!?
Existem acontecimentos na vida que nos obrigam a rever nossos conceitos sobre certo e errado. Isso as professorinhas do jardim de infância não contam para a gente. Sobre semáforo, faixa de pedestre e o segredo de como escrever o danado do número 2 elas insistem em achar que é urgente, mas nos alertar sobre a desgraça da vida neguinho não quer. "Hoje, alunos, vamos aprender o jogo de cintura para sobrevivermos à sociedade canibal". Não, todo mundo se abstem. "Tsc, ah! Deixa que eles aprendem na prática". É como na selva, você tem que enfiar a mão na boca do crocodilo para ver se dói mesmo. A gente acaba descobrindo que o cipó é sempre mais frágil do que parece. Nessas experiências importantíssimas para nossa formação pessoal também descobrimos que, além de sermos atropelados ao atravessar a avenida em horário de pico com o farol verde, somos obrigados a abrir as portas de casa à visitas indesejadas. E não estou falando da sua tia que cheira à naftalina.
Como qualquer mortal, passei por testes de fé e paciência ao longo dos anos. Desde cedo me coloquei - me colocaram - à prova de fogo. Nem preciso dizer no que isso terminou, preciso? Em raiva, muita raiva. Aquela raiva afogada pelos "nãos" de quem teme a força maior. "Você não pode ter raiva dessa pessoa", sempre me disseram, "porque essa pessoa é seu pai". Para muitos gados desse mundo velho sem porteira, o título de "pai" é tudo o que importa para que limites sejam impostos à crianças. Só que, enquanto a gente cresce, aprendemos - veja só você - que nem todo provedor masculino é capaz de se tornar pai. Fazer o que? Coitado, #epicfail na paternidade, 'bóra tocar o bonde então. O bonde não vai. O bonde emperra. A criança tem que aceitar a hierarquia familiar antes que se torne uma pecadora de alma condenada. A criança, então, cresce de mãos dadas com a Raiva, mas essa coitada, fica sufocada em um canto que ninguém pode tocar. E é nesse canto que a pessoa alimenta e cuida da pobre Raiva. Com carinho, acredite, muito carinho.
Aí a Raiva se cansa, né. "Chega! Vou tomar um ar. Já estou cheirando à mofo.", e sai. A Raiva sai. Depois de muitos anos sendo tratada a pão-de-ló, é claro que ela não vai querer sair do conforto. Ela se instala a sua volta. Prende ao seu redor uma cortina muito bonita que não te deixa ver nada. Bem prendada, a Raiva pegou retalho por retalho da sua vida que foi despedaçada aos poucos e com eles costurou a sua janela coberta. "Não é bonita minha cortina?", a raiva pergunta. "É sim", a gente responde em transe. E do lado de dentro da cortina que nos tampa os olhos a gente não vê nem sente mais nada, só a raiva ali, admirando com você todos os retalhos maltrapilhos que um dia foram seus sonhos, crenças e esperanças. Todos ali costurados um junto ao outro, sujos, rasgados, desfigurados, irreconhecíveis.
A cortina da prendada raiva é linda, mas tão linda, que a gente se distrai.
E nem percebe a tragédia iminente se aproximar.
Valvekooma não me deixa escrever
Existe uma banda muito linda e muito finlandesa que, com seu último álbum lançado em 2010, me impede com força de escrever. Uniklubi parou minha vida quando baixei o Kultakalat. De cabo à rabo, esse álbum simplesmente me obriga a ficar ali, com fones de ouvido e uma air guitar. Bom, de cabo à rabo quando "Valvekooma", a faixa 3, me deixa passar para as outras músicas. Não é de hoje que Uniklubi faz de mim um vegetal quando escuto seus álbuns. Não consigo fazer nada além de gritar que putaquepariu, isso é bom demais e sentir toda a essência das músicas, deixando os pensamentos que elas trazem rolarem soltos. Kultakalat chutou o pau da barraca, "Valvekooma" tocou o terror no meu iTunes. Não consigo, desculpe, voltar a viver para atualizações. Deixemos isso para depois. Quer cantar finlandês errado comigo? Então vem:
Tiemme vie kauemmas auringosta
toivomme kaaoksen armoilla
vaan toivo ja rakkaus ei kuole koskaan
tuhkasta nousemme vastarintaan
Aika koittanut on uuden vallankumouksen
ja näytää ketkä hallitsee
mustan auran ympäröimät kivisydämineen
vie meitä valvekoomaan
Jos löydämme paikkamme auringosta
niin kultaiset portit kutsuu luokseen
A arte de correr
Até meus 10 anos de idade eu tinha absoluta certeza de que queria ser professora. Dos 11 aos 13 eu queria ser secretária. Aos 14 anos passei rápido pelo desejo de ser veterinária. Desejo esse que minguou logo depois de acompanhar o tratamento de vermes em um cachorro. Aos 14 me foquei na carreira de Pneumologista. Dos 16 em diante eu descobri que, na verdade, eu nunca quis ser nada disso. O que eu queria mesmo da vida era escrever. Então meu leque de opções se abriu fazendo aquele barulho: jornalismo? Não, não tenho o pique de um repórter tão pouco paciência para correr atrás de fatos e notícias plantadas. Publicidade? Sou boa em texto, mas não em ideias com foco em vendas. Pior, vendas em grande escala. Tudo o que envolve texto, no fundo, sempre me interessou. Escrevendo, eu posso ser qualquer coisa. Escrever o prato do dia na lousa em frente ao restaurante? Escrevo. A bula de letras miúdas que todo mundo deve, mas não consegue ler? Escrevo também. Daí eu parei e olhei para trás: dei um giro de 360° e voltei à ideia de ser professora. Não tem tu, vai tu mesmo.
Quando dei por mim, estava tão cheia de possibilidades e tão sem elas ao mesmo tempo. O caminho está devidamente pavimentado, mas e a rota? Trabalhei, viajei e guardei. Ainda assim, não arrecadei verba para meus estudos. USP? Tentei. Como tentei. Bolsa? Consegui. O PROUNI reconheceu meu suor estudantil com uma bolsa parcial em Direito. Entregou o pirulito na minha mão. Logo quando estiquei a língua para sentir o gostinho doce, o PROUNI foi e tirou o pirulito dando risada. Eu não tinha um dos 500 documentos e cópias e autenticações exigidas pela universidade. 1, esse foi o meu número de azar. Perdi a bolsa. Pior do que isso, perdi a confiança no meu potencial. A bolsa foi minha última tentativa e, desde então, a única coisa que quero fazer é trabalhar no primeiro emprego que me aparecer. Isso e sarar a Ansiedade. Não peço nada mais do que isso ao cosmo, mas até para esse grão de areia ele se faz de mal comido para liberar.
Agora em tratamento, não posso estudar. Nem meus livros posso ler. Simplesmente não dá. Concurso público? Me inscrevi. Passei mal no segundo dia de estudos para a prova e ainda levei advertência da terapeuta. Isso não pode. Não posso mesmo. Ansiedade é uma coisa que vai além da compreensão dos humanos normais, só desenvolvendo para saber do que se trata. Alguém pode dizer "você é jovem", mas não é esse o X da questão. Minha juventude não é uma peça do jogo. Ela chegou e irá embora sem o meu consentimento, sem sequer pedir licença, eu querendo ou não. Xeque-mate e pronto. A vida funciona assim, para todo mundo. A única peça do jogo aqui sou eu, o peão. Do sonho de entrar na USP e usar jaleco branco em um hospital lotado de crianças com bronquite e asma, eu fui para a simples escritora que só quer deixar no mundo um pouco do seu particular. De escritora humilde que, provavelmente, morrerá de alguma doença respiratória à beira do Sena, eu fui para a garota que só quer trabalhar de qualquer coisa aí.
Isso não é uma reclamação.
Estou satisfeita e muito bem acomodada na primeira classe dessa situação, comendo amendoins e tomando champagne. Eu sobrevoo meu antigo sonho, sim, de usar uma beca em frente à um público que aplaude aqueles que não se enforcaram durante o projeto do TCC. Meu curso de Letras - seja na USP, seja na UniQualquerCoisa - continua sendo um ponto brilhante no fim do túnel. Mas eu gostaria, de verdade, que as pessoas entendessem que correr atrás do sonho nem sempre significa estar participando da maratona. A gente pára, toma um gole d'água, observa a paisagem. A gente até senta e assiste os outros correrem. Torcemos por eles, e tomara que consigam. Às vezes essa maratona toma proporções exageradas, como a minha, e eu fico sem saber para onde correr com todo o tamanho do mundo a me esperar.
Favicon no Blogger
Fiquei tão serelepe com a novidade do Blogger, que resolvi postar logo de uma vez e compartilhar com quem ainda não sabe. Agora, na aba Design, você pode editar seu favicon diretamente pelo painel. Favicon é a imagem que fica ao lado da barra de endereços:
Para editar basta ir “Design” = “Elementos da página” e clique em “Editar”. Taí a imagem como exemplo:
Caso você precise converter sua imagem para a extensão .ico, é só visitar o site ConvertIcon :)
E sim, por enquanto é só aqui no BC. Ando sem assunto e trancada na vida pelo cosmo. Acho que volto logo com um assunto que preste (ou não)
Para editar basta ir “Design” = “Elementos da página” e clique em “Editar”. Taí a imagem como exemplo:
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E sim, por enquanto é só aqui no BC. Ando sem assunto e trancada na vida pelo cosmo. Acho que volto logo com um assunto que preste (ou não)
Matando cachorro a grito
As pessoas andam histéricas. Espaçosas e paranóicas também. Não sei se é obra de Força Maior ou karma ou simplesmente o cosmo, mas tenho topado com muitas pessoas se esgoelando nos celulares. Se esgoelando em conversas cotidianas com pessoas que estão bem pertinho. Se esgoelando com conhecidos transeuntes que passam do outro lado da rua. Se esgoelando com objetos inanimados. Eu não sei qual é a razão disso, desconheço o que leva as pessoas a acharem que o telefone e a educação ainda não foram inventados. Quando esse tipo de dúvida surge, levanto a cabeça e digo: Deus, tem que ver isso aí. Nunca obtenho resposta, o cosmo corta a ligação.
Estou me tornando o tipo de pessoa analisada que sempre tem um conselho do psicólogo para compartilhar. Isso é tão chato, mas é inevitável. Aliás, conselho de psicólogo é o único que você pode seguir sem medo de terminar atropelado pelo trem no fim do túnel. Vai por mim, aprendi à duras penas (eu sei, minha tataravó foi a última pessoa a usar essa expressão). Enfim, comentei com minha psicóloga o quanto as pessoas me deixam indignada e o quanto me atingem com seus egos espalhafatosos. Quando topo com aposentados e seus estereotipos, a única coisa que penso enquanto a pessoa grita com funcionários é que, em 70/80 anos, o mané não aprendeu porcaria nenhuma com a vida. Não aprendeu que filas demoram, que preguiçosos existem, que as pessoas erram, se desculpam, tentam de novo.
E é isso. Ninguém aprende. Quando um idoso chega perto o suficiente para seus remungos serem ouvidos até na China, você percebe que, putz! é mesmo, ninguém quer saber de aprender alguma coisa. Não, eu não generalizo, mas também não mordo a língua para dizer que esses são a maioria. Seja no meu círculo social, seja mundialmente. A psicóloga só meneou a cabeça concordando. Nem sempre ela tem uma resposta terapeutica padrão para me oferecer, assim como a vida. "É verdade", as pessoas dizem, e acabou. A verdade absoluta e inexplicável muitas vezes é o ponto final. Se alguém mata um cachorro, sequestra uma mulher gestante, afoga o colega de escritório ou atira em uma escola pública acertando várias crianças todo mundo balança a cabeça. "Isso não pode". Não pode, é isso que precisamos saber, que não pode. Prevenir ninguém está afim, mas todo mundo quer ser o primeiro a achar um absurdo e dizer "meu deus, isso não pode".
Isso não é sobre sair nas ruas com cara pintada e enfrentar cachorros raivosos ou militares escondidos atrás de proteções. É sobre nada. Um nada bem grande que não quer entender que, na verdade, é o tudo. É a gente.
As pessoas acreditam que os problemas só se resolvem com pancadaria, no 8 ou 80, na revolução bruta. É pegar um pedaço de pau e descer o cacete em todo mundo que atravessar o caminho, porque assim tudo fica bem, tudo volta ao lugar. Já reparou? Problemas, desgostos, desagrados, incômodos e qualquer desarranjo de barriga é motivo para gritar. "Você quer o que?", dizem, "Que eu saia por aí jogando pedras, lutando? Por que não vai você!?". É sempre assim. A gente sempre se esconde atrás dos nossos lobos intolerantes. Escondemos o medo e a sensação de impotência e inutilidade atrás de toda uma alcateia furiosa prontíssima para atacar qualquer um que tente cutucar o ego ferido. A gente se esgoela e briga um com o outro. O problema sentado lá no canto dele, lendo jornal, tomando café. A gente aqui escolhendo no uni-dune-tê quem vai para as ruas se jogar na frente de carros policiais.
Será o medo da morte?, eu perguntei. Da morte ou de tudo. Medo de errar, de deixar o erro alheio nos atingir. De qualquer forma, no fim eu dei de ombros. Disse que estava tudo perdido mesmo e daqui para frente é ladeira abaixo. Estou perdida em um mar agitado de pessoas enlouquecidas e nada posso fazer contra elas. Aí eu senti aquele aperto na mão. Dela mesma, a autopiedade. Essa moça volta e meia aparece nas consultas, sem ser chamada, e aperta minha mão. "Muito bem", ela diz, "é assim mesmo que você deve fazer, senão o lobo mau te engole". Eu digo para ela calar a boca, mas nem sempre ela está disposta a voltar para a casinha e catar piolho. Se a psicóloga a percebe ou não, isso não posso responder, mas antes do meu tempo terminar ela me deu a resposta que eu precisava muito ouvir.
De um jeito ou de outro, as pessoas são o que são porque sim. E ninguém vai mudar só porque eu preciso delas de um modo diferente. É verdade, eu respondi à ela, isso não pode.
Benjamin - A Saga Final
Depois de longa demora, aqui vai a atualização da saga mais querida do Brasil (ou não). Benjamin, para quem não acompanhou desde o início, foi adotado por mim meses após a morte da minha Laika, que viveu comigo por 16 anos. Eu queria um cachorro pequeno para ficar dentro de casa e em cima da cama junto comigo. Queria, principalmente, um cachorro que não me lembrasse muito da Laika, mas que preenchesse o vazio que ela deixou em mim. Benjamin, junto com seus irmãos, foi abandonado dentro de uma caixa em um terreno baldio. O tipo de coisa que só macacos mal evoluídos fazem. Lembro se como fosse ontem, o peguei nas mãos - das quais ele quase caía de tão pequeno - e ele mordia meu dedo. Era ele. É ela, ele pensou.
O bicho foi crescendo como se não houvesse o amanhã, foi ganhando peso, foi preenchendo meu vazio e a casa toda. Por pouco ele não preencheu o quintal. Postei aqui minhas desconfianças quanto a decendência do pequeno notável, já que a cada dia suas cores e formas se transformavam em um Rottweiler, provavelmente, feroz e sem estribeiras. Benjamin engordou quilos e mais quilos em semanas, mas hoje me encontro tranquila. O Caveirão (como é carinhosamente chamado pela sua habilidade de destruir tudo pelo caminho) parou de crescer e está em torno de 20 quilos e tanto. Marlon Brando (outro apelido carinhoso em menção a sua fofura e beleza viciantes) se tornou um Negão Paixão (eu que inventei esse para enfatizar esse amor todo) de patas longas e cabeça à 1000km por hora que nunca pára de confabular aventuras.
Resolvi atualizar a saga hoje porque Benjamin finalmente chegou no ápice de seu crescimento: ele levantou a perninha para fazer xixi. Meu filhote que caía de minhas mãos agora é um moço apresentável à sociedade canina. As almofadas da casa, onde antes ele dormia em cima por horas e horas, agora são suas namoradas. O sofá é seu mictório. Meu quarto é onde ocorre o concurso aquático, patrocinado pelas babadas de Benjamin após ele beber água. A cestinha onde antes ele dormia durante a noite, transformamos no lugar onde se guarda todos os brinquedinhos (que sobreviveram). A cama, aquela mesma de quase R$100, é um objeto obsoleto que permanece em cima do armário para não me deixar esquecer de como fui babaca um dia.
Agora Benjamin já passeia pelas ruas do bairro se como fosse o dono delas. Fareja tudo e pára em todos os portões querendo brincar com os cachorros que latem querendo o pegar pela garganta e mostrar quem manda. Claro que Benjamin, sempre otimista e faceiro, acha mesmo que os cachorros querem é brincar. Eu vou percebendo que estou adiando o dia de sua castração. Por medo? Não sei. Me corta o coração imaginá-lo deitadinho na maca, ainda zonzo por culpa da anestesia. Me corta o coração lembrar que Laika, meses atrás, estava na maca adormecida para todo o sempre. Não importava o quanto eu a beijava e dizia que ela era demais. A Laika não me ouvia mais. Esse é o próximo desafio pelo qual tenho que passar fazendo de conta que sou gente grande, e não mais a menininha que 16 anos atrás adotou seu primeiro cachorro. Não vai ser fácil encarar outro centro cirúrgico, assim, em tão pouco tempo. Mesmo sendo por causas extremamente opostas.
Enfim.
Benjamin me lembra muito o Porteiro. Quem leu Eu Sou o Mensageiro conhece essa figura. Benjamin anda viciado em café e fica deitado bem preguiçoso em frente à porta do meu quarto. Ele, aliás, anda cada vez mais tranquilão. Eu ando cada vez mais apaixonada pela personalidade excêntrica desse que nem de longe lembra um Rottweiler, mas tem a imensidão nos olhos. Olhos que me fazem sentir completa, mesmo aos pedaços.
PS.: A Marí deixou um comentário fofíssimo no post passado, mas não encontrei nenhum link onde eu pudesse devolver o carinho. Também não saí mandando email porque, né. É. Então fica assim: obrigada à Marí por ter saído do fog dos visitantes calados e ter deixado sua visita aqui marcada por um comentário super legal :)
Por que ser amiga dos homens?
Desde os tempos de antigamente sou mais amiga dos homens do que das mulheres. Eu poderia sentar em frente ao meu computador, abrir o bloco de notas e digitar trezentos motivos, mas acontece que eu não sei os motivos. O bloco de notas branquinho à minha frente dá altas gargalhadas por eu não saber como preenchê-lo. Vou e não vou, vou e não vou, vou e não vou. Seria fácil inventar os motivos, mas isso faria do BC um blog sem credibilidade (não que ele tenha alguma agora). Para clarear um pouco as coisas, resolvi refrescar vossa memória com esse texto que escrevi um tempo atrás, onde eu questionava determinados comportamentos femininos. A partir daí, eu acho que consigo concretizar meu ponto de vista.
Nunca, jamé, curti essa vibe cor de rosa que é ser menina. Não me compreenda mal, só nunca gostei desse universo paralelo que é a infância feminina. Neca de pitibiriba! Sim, eu brincava com bonecas, desenhava, fazia de conta que era secretária, professora, tinha ursinhos e prendia o cabelo, mas desde cedo detestei gloss e aquele batonzinho vermelho que vinha dentro de um morango (era uma delícia para comer, assumo). Quando as coleguinhas se empolgavam com a ideia de brincarem de salão de beleza, pronto, eu não brincava mais. Primeiro porque alguém perderia metade do cabelo na empolgação, depois porque sou regida pela força de Miranda Hart. Se a maquiagem insiste em ter um relacionamento comigo, eu acabo virando travesti. Sério. Eu não combino com maquiagens.
Os homens, não. Com os meninos era tudo mais resumido e direto ao ponto. "Nós vamos brincar de pega-pega, polícia e ladrão ou esconde-esconde?", todo mundo escolhia, todo mundo satisfeito. Sem contar as inúmeras vezes que fui protegida por coleguinhas heroicos. Quando me tornei aborrecente aí sim que não quis mais saber de garotas em meu círculo social escolar. Argh! Com a novidade da coisa toda, só se falava em axilas depiladas, absorventes e Backstreet Boys. Veja você, eu gostava de BSB, mas não queria comentar sobre quem era mais lindo e qual seria meu marido. Marido? Get a life, bitch! Então, no intervalo, eu corria para perto dos meus amigos e conversava sobre aleatoriedades insanas, corriqueiras e engraçadíssimas. De vez enquando rolava conselhos femininos que eles pediam aos montes.
Foram intermináveis e bem sucedidos anos em que partilhamos ambos universos e crescemos aprendendo a respeitá-los mutuamente. Partindo a faixa da chegada à vida adulta, pensei que seria trabalhoso conviver com homens sem transparecer segundas intenções subentendidas na amizade. Engano meu. Além de ser tão simples quanto antes, descobri o total desespero masculino em encontrar uma amiga mulher, centrada, auto-controlada e mesmo assim inteligente. "As mulheres só querem sacanagem", eles reclamavam para mim. "Não dá nem para abraçar que elas já acham que estamos afim", afim do que? Eu perguntava. "Afim de sacanagem, ué!", entendi. Tudo indicava que as mulheres sofriam uma anomalia comum da espécie: a solteirice aguda. Um distúrbio hormonal e psicológico que as fazem correr para o abraço na primeira micareta que rolar ou no primeiro cara que sorrir meio torto. Deixo meu estudo científico para outro post.
Os homens olhavam para mim como para um messias de tanga no meio do rio. Eu os olhava como quem olha para a última refeição que antecede a execussão. Poxa, nunca mais terei que fingir que me importo com a vida alheia de quem pegou dez caras, terminou com o namoro de seis meses ou comenta a vida ainda mais alheia de uma terceira pessoa! Open your wings, America, you are free! A amizade masculina é baseada somente em conversas boas e proveitosas, enquanto que a amizade feminina envolve competição, dissimulação e simpatia. Eu não sei ser simpática. At all. Sou travada demais para competir. Quesito dissimulação pode passar com no - ta SEEEIS, mas me abstenho. Prefiro e irei preferir a honestidade ácida de quem pensa com duas cabeças e ainda assim não completa o pensamento. "O que você acha que ela vai pensar de mim?", os homens me perguntam, ao que eu respondo "Não faço a menor ideia. Mulher é bicho complicado."
De mulher basta eu.
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