Ode à Clara Bow

She was her own man. She didn’t care what people thought of her, and she was resented for it.
— Dorothy Mackaill
No dia 27 de setembro fez 46 anos da morte de Clara Bow. A minha atriz favorita de todos os tempos! Só não postei o texto no mesmo dia porque não estava em casa, e depois que cheguei fiquei com preguiça. Pega eu! Mas não quis deixar passar a chance de escrever sobre ela, que foi a "It Girl" do cinema mudo.

Tenho muita admiração e identificação pela história de Clara Bow. Na infância, ela sofreu muito com a pobreza e violência que veio de seus próprios pais. Sua mãe era prostituta e sofria de problemas mentais, assim como seu pai. Um porco que abusou da própria filha. Depois de tentar matar Clara, a mãe acabou parando em um sanatório. Clara só viu sua vida mudar depois de ganhar um concurso cujo prêmio era a participação em um filme. Apesar do sofrimento, Clara Bow se manteve forte, decidida e construiu uma bela carreira na Paramount. Estrelou no primeiro filme a ganhar um Oscar, o "Wings". Do jeito dela, deu a volta por cima.

Não é nada fácil passar por problemas familiares desde a infância. E para ela, deve ter sido terrível conviver com o fantasma da doença mental de seus pais. Clara sabia que mais cedo ou mais tarde seria afetada por alguma doença também. E acabou por lutar contra a esquizofrenia a vida inteira. Meus problemas não chegam nem aos pés dos problemas pelos quais ela passou, o que me faz refletir muitas vezes. Se ela conseguiu ser tudo aquilo e muito mais, eu - mesmo com meus problemas emocionais e familiares - também posso ser alguém.

Para os filmes mudos fazerem sucesso, logicamente era necessário artistas de grande porte. As expressões faciais faziam a arte. Clara Bow, com aquele par de olhos presunçosos, não precisou de muito para deixar seu rosto marcado em alguns dos filmes mais clássicos, como o próprio "Wings". Eu adoro a alegria dela, a inocência que ela transparecia mesmo com toda a sensualidade. Confesso que cinema mudo não é meu forte, mas não abro mão dos primeiros filmes dela. Clara Bow tinha mesmo algo subentendido, que não só aprisionava os homens como as mulheres também. Todas nós queremos possuir aquele inexplicável que faz cair o queixo de todo mundo! Mas ainda acho que é acessório exclusivo das ruivas.

Meu filme favorito é "Dangerous Curves", de 1929, e eu duvido você adivinhar sobre o que se trata! Isso mesmo, a vida no circo. Quase chorei ao ouvir a voz dela pela primeira vez! Juro que só descobri esse filme depois de ter me apaixonado por ela em "Wings", que foi o primeiro de todos que assisti. Cheguei a sofrer espasmos quando vi Clara Bow no circo! Fiquei semanas andando de um lado ao outro no meu escritório vitoriano conversando baixinho comigo mesma, dedilhando os lábios, e filosofando sobre coincidências. Depois, lotei meu notebook com fotos do filme e, quando dei por mim, estava mais do que fascinada por ela.

Em 1933 ela gravou seu último filme, o "Hoop-La". Clara Bow não se adaptou muito bem ao cinema sonorizado. Parece que Charles Chaplin também não gostou nada da tecnologia, mas também continuou gravando filmes. É engraçado pensar nessas coisas, no quanto as pessoas reclamavam do cinema sonorizado da mesma forma que nós reclamamos do 3D hoje em dia ou de outras modernidades.

Em 27 de setembro de 1965, Clara Bow morreu aos 60 anos vítima de ataque cardíaco. Mesmo com a vida turbulenta que teve, mesmo com todos os obstáculos impostos em seu caminho, ela me ensinou - acima de tudo - que podemos ser grandes pessoas sem a necessidade de grandes palavras.

Pânico do ataque de esferas

Fui com meu namorado curtir um domingo no Parque da Independência, e só não entramos no Museu Paulista porque nenhum de nós tinha dinheiro trocado para pagar a entrada. É bem o tipo de coisa que acontece com a gente mesmo. Então, sentamos em um banco perto do jardim e ficamos saboreando o sol de geladeira. Nossa trilha sonora foi o apito do guarda que não parava um minuto sequer, tirando todos os analfabetos da grama. É incrível a quantidade de visitantes analfabetos que visitam o museu. Apesar das centenas de avisos, eles continuam pisando na grama, tocando nas peças, tentando subir na varanda. Eu e meu namorado ficamos sentados contando quantas vezes um único cara levou apito no ouvido.

Às vezes observo os jardins e a subida do museu até o monumento. Falando sério, toda a má educação do brasileiro se acumula ali.
Trágico.

E falando na grande subidona larga que nos leva do museu ao monumento de cobre envelhecido, falemos também de seus transeuntes. Sempre rola algum esporte por lá. Carrinho de rolimã é o principal. Mas por incrível que pareça, rola futebol também. De uma maneira ou de outra, o pessoal consegue equilibrar um jogo básico no topo da subida. E é aqui que meu pânico começa.

Quando criança, levei uma bolada na cara. Daquelas de doer. Daquelas de fazerem os olhos lagrimejarem. Até hoje tenho um desvio no septo por conta disso. Também tenho a desconfiança - nunca confirmada - de ter sido puro bullying. Na minha época era cada um por si, não tinha essa de bullying mimimi. Enfim, desde então tenho pavor de me aproximar das pessoas que estão jogando bola. Seja vôlei, futebol ou o escambal. Porque, assim como tenho ímã para atrair merda, tenho ímã para atrair bolas. E sempre, sempre, acho que alguma desgraça enorme irá me acontecer caso eu descuide um minuto sequer do pular daquela esfera maldita. Por isso, é um tanto sofrido passar do Parque da Independência para o jardim do museu sem retrair meus músculos e tentar afastar a bola de mim com a força do pensamento. A todo instante, seja ele onde for, tenho plena certeza de que serei alvo do corpo esférico tomado pelo Pai da Mentira e, depois, motivo de chacota.

— HAHAHA, acertamos a bola nela!

E daí toda aquela fase de ensino fundamental assolaria minha pessoa sem deixar vestígios. Eu ganharia uma marca rouxa, meu nariz voltaria ao lugar ou seria arrancado por completo (terminando o trabalho sujo). Por mais que eu tente ser otimista, não há jeito. Toda vez que passo perto do aglomerado de pessoas ensandecidas que correm atrás da bola como quem corre atrás do jantar, meu mecanismo de defesa grita em câmera lenta. Pobre coitado. Ele levanta os braços, fecha os olhos e sofre por antecipação. Mozart até rege uma orquestra. Por fora, claro, sou uma muralha intransponível. Faço cara de "se acertar em mim...". Mas por dentro, com o mecanismo de defesa aos prantos, eu repito:

— Não me acerta, não me acerta. Por favor, não me ACERTAAAA!1

Todas as vezes me safei, mas a gente nunca sabe o dia de amanhã.
Mais vale a bola no chão, do que te acertando.

Muito obrigada a todos os comentários no post anterior! Fiquei muito feliz com o carinho de vocês, e ao saber também que novos leitores chegaram para ficar!

19,000 e lá vai pedrada

Escrever se tornou uma solução. Quando os problemas são muitos e não apresentam um rápido e duradouro final, abrir o bloco de notas ou o caderno é o melhor que há para fazer. De uns meses para cá, sinto uma vontade absurda de escrever. Veja bem, desde pequena amo colocar no papel o que sinto, penso, vivo ou ideias aleatórias. Mas nesses últimos meses essa vontade ganhou mais cores e razões. Quase se tornou um vício, e isso assusta. A explicação é simples: além de não andar bem das pernas, o meu mundo tem se fechado a cada dia mais. Ando calada, sem graça nem humor. Nada parece interessante o suficiente para prender minha atenção, e essa, também resmunga das pernas bambas. Minha cabeça se transforma, aos poucos, em um espetáculo mudo. Chego a fugir de perguntas e assuntos. Chego a ter medo de perder a sanidade.

Portanto, o que me mantém lúcida nesses meses é escrever. Isso e o Bonjour Circus, claro. Porque de nada adiante escrever para ninguém ler. Por mais que eu tenha muitos textos e poesias escondidas a sete chaves, há muitas coisas que merecem ser compartilhadas. E essas coisas tem destino certo. Seladas e carimbadas, voam diretamente para o blog. Na casa de vocês, o header colorido entra sem pedir licença. Ele entra de peito estufado, puxa uma cadeira, faz pose de Pensador e dá-lhe conversa. Conto para vocês de tudo um pouco e muito do pouco. Dos meus meros detalhes às coisas mais absurdas, eu escrevo sem me cansar. De um lado, porque necessito da exposição. Preciso encontrar nem que muito longe daqui, uma pessoa que se identifique. Estar sozinha é a pior das sensações. E por outro lado, preciso me esclarecer.

Talvez não seja possível entender isso, mas quando escrevo torno as coisas muito mais legíveis. As crônicas, poesias e tudo o mais são minha Euréka particular. Quando divido com vocês a descoberta, sinto que um pedaço colou de volta no lugar. O Bonjour Circus, então, tem sido minha melhor companhia. E a extensão perfeita das terapias semanais. Conversar com quem não tem intimidade nem sempre é confortável. Às vezes minha fofoca inocente gera resultados melhores.

Então, quando entro no Bonjour Circus e me deparo com a marca de 19,000 visualizações (and couting), percebo que de alguma coisa adiantou. Os números não me preocupam. Sei que cada número desses 19,000 foi uma pessoa. Ou até a mesma pessoa que voltou várias e várias vezes. Uma pessoa nova que chega, uma já velha conhecida que volta ou os anônimos que entram todos os dias, são o que conta. Não me importa se comentam ou se tem vergonha de comentar. Também não ligo se você não sabe o que dizer. A única coisa que faço questão, é que a sinceridade fale mais alto. Só preciso de um lugar para desaguar, isso não significa que você seja obrigado a me esperar com um copo na mão. Basta, caro leitor, que você esteja na plateia. O resto, a gente inventa.

Muito obrigada a todos vocês!

O circo do sol e a circense

Varekai (pronunciado ver·ay·’kie) significa "onde quer que seja" na linguagem cigana, os eternos viajantes. Criado e dirigido por Dominic Champagne, esta produção presta homenagem à alma nômade, ao espírito e arte da tradição circense e a todos aqueles que desafiam com infinita paixão os longos caminhos que levam a Varekai.
Em 1984, Cirque du Soleil foi fundado. 18 anos depois, Varekai foi criado em homenagem à alma nômade. Domingo, dia 18 de setembro de 2011, eu o assisti. De frente para o palco, fomos eu, namorido, sogra, sogrão e cunhada, todos juntos, realizar um dos meus maiores sonhos. Conheci a compania circense em meados dos anos 90, com o espetáculo "Alegría". Eu ainda era uma criança, mas já sabia muito bem que meu lugar era no circo. Desde então, alimentei o sonho (caro) de presenciar ao menos uma apresentação na enorme tenda azul e amarela do maior e mais lindo circo. Claro que sou completamente apaixonada por Alegría (o espetáculo mais famoso), mas qualquer espetáculo intinerante me deixaria de boca aberta e com o coração na mão.

Quando meu namorado me deu a notícia de que um ingresso para Varekai me esperava, eu fiquei sem reação. Fiquei sem saber se chorava, tremia ou comemorava. No fim, fiz de tudo. Deixei a adrelina percorrer o corpo para ver até onde eu chegaria. O único problema era a espera. Havia um mês ou um pouco mais para a data do espetáculo. Como lidar? Fingi que não era comigo. Usei todas as técnicas teatrais (que eu não tenho) para fazer de conta que o Cirque nem estava na cidade. Não havia ingresso. E se nada daquilo existia, logo, não havia espectativa alguma. Deu certo por um bom tempo, mas quando setembro e seus primeiros dias dançaram no calendário, ninguém segurou minha ansiedade. Nem eu mesma.

Por fora, uma perfeita lady tomando chá com o dedinho levantado. Por dentro, uma descontrolada em chamas. Os vídeos no Youtube já não davam conta do recado. Acompanhar mensagens no Facebook e no Orkut só pioravam a situação caótica. Eu não tinha para onde ir! Minha terapeuta, coitada, fazia de conta que não era com ela. Mas bem que acabou comprando um ingresso também, de tanto eu encher seus ouvidos com Varekai. E por mais que eu tentasse expor minha alegria, ainda que de forma contida, ninguém enxergou a profundidade da emoção. Porque todo mundo sabe desse meu lado circense, mas às vezes tenho a impressão de que nem eu tenho completo conhecimento dessa ligação.

Você acredita em vidas passadas? Eu confesso que não. Mas acredite se quiser, o circo sempre faz com que eu morda minha língua.

Ao entrar no estacionamento e ver pela primeira vez as cores azul e amarelo, meu coração deu uma cambalhota. Esfreguei os olhos, apertei uma mão na outra sem parar, mas não acreditei que estava realmente de frente para o sonho que alimentei com tanto carinho desde criança. As bandeirinhas no topo da tenda balançavam perfeitamente com o vento. As luzes brilhavam do jeito certo. Eu, trêmula feito vara verde, achei que não conseguiria entrar. Olhei para os lados esperando que alguma coisa acontecesse, qualquer coisa que me impediria de entrar. Porque era bom demais. Era surreal! Mas entrei. Entrei e chorei.

Chorei como um filho que não sentia o aconchego do lar há muito, muito tempo. Meu namorado falava ao pé do ouvido que não havia motivos para chorar, era um momento de alegria, mas não era algo que eu pudesse controlar. O choro estava represado há tantos séculos, acumulado há tantas vidas, que não pude segurá-lo. Não nesse corpo que chamo de casa agora. Você pode não estar entendendo nada do que eu digo, e nem poderia, mas não ligo. De verdade.

Enquanto as pessoas se ocupavam com o espetáculo secundário lotado de camisetas e souvenirs, eu olhava para cima. Eu checava os mastros, as fendas da tenda, as instalações e tentava descobrir como tudo aquilo era transportado pelo mundo. Não demorou muito, eu já estava calculando tempo, gastos e imprevistos. 10 minutos depois, estava desenrolando a tenda e carregando rolos e mais rolos enormes e pesados. Pensei no preparo dos artistas, do palco e nas estruturas. Por pouco, muito pouco, não fui para os bastidores dizer que tinha mais caipira do que talento. E quando vi, eu estava mentalmente trabalhando na noite que deveria ser somente de diversão. Apesar de hoje ser tudo mais moderno e fácil, tive a coragem de me perguntar como raios aquilo se sustentava sem mastro central, e quem foram os cabeças de vento que levantaram aquilo no braço. Meu namorado nem me cutucava mais. Eu não estava mais ali.

Quando a moça desamarrou a tenda e permitiu nossa entrada, eu soube que não sairia a mesma dali. Sentei, me acomodei e assisti. Eu assisti ao Cirque du Soleil. Preciso repetir isso milhares de vezes para a ficha cair. A boa filha à casa retornou. E onde quer que seja, eu sempre voltarei. As lágrimas quase atrapalharam, mas aproveitei cada instante desse reecontro!

Varekai - Funambul

Relacionamentos e cristais

Dei para filosofar sobre relacionamentos agora. Não sei se é culpa do Tumblr ou do meu DNA de procedência duvidosa, mas não há ocupação nessa vida que me faça parar de pensar nesse assunto. Relacionamentos amorosos, estou dizendo. Até porque, é a única experiência válida que entra no meu currículo espiritual. Outros tipos de relacionamento? Pode não. Sempre tem alguma coisa fora do lugar ou fontes não confirmadas que deixam meu trabalho uma porcaria. Então, relacionamentos entre homem e mulher ou mulher com mulher, homem com homem, homem com cabra, mulher com cartão de crédito, vaca com jegue, essas coisas normais do século corrente. Essa diversidade (agora se chama assim, na minha época tinha outro nome).

Tenho um namoro de seis anos. As adolescentes de bom coração devem achar que sou muito sortuda, mas as outras pessoas já um tanto vividas sabem que a coisa não vai pela sorte, vai pela sombra. Nesses seis anos aprendi que um relacionamento não é cálculo matématico. Uma hora o resultado é assim, n'outra hora é assado. Um namoro fica na categoria Humanas, onde tudo é porque sim e pronto, você é um artista. Nada do que foi idealizado é possível de se tornar realidade porque - por mais que você tente não aceitar - as pessoas são diferentes umas das outras. Por mais que seja ridículo, as pessoas não são iguais e algumas nem gostam de The Rasmus. Fazer o quê? Te resta cruzar os braços e balançar a cabeça negativamente. Por mais que você não queira, as pessoas vão usar nicknames na internet do tipo "angel666_sweetkiss". É a incoerência do planeta que se equilibra no universo em expansão e alimenta uma vida farta de opções.

Mas os relacionamentos, né. Nesses seis anos aprendi que a individualidade dos meus sonhos não serve para nada, nem para começar uma DR. Em um relacionamento nada é mais importante do que a cumplicidade. Por mais que você queira ir para a Disney abraçar o Mickey, por mais que você queira comida chinesa, de nada adianta se seu par detestar ratos ou for alérgico a rolinho primavera. Seu desejo não terá o mínimo gosto de prazer pela simples cara amarrada de contrariedade da pessoa amada à sua frente. E contrariedade, quando muito insistente, é o tipo de coisa que leva seu amor em três dias. Por isso, quando avistamos um casal idoso de mãos dadas, achamos lindo. Porque só Deus sabe o quão tiveram que abrir mão de diversas coisas para estarem no parque de mãos dadas.

Percebeu a profundidade dessa frase?

Nada é fácil na vida, companheiros e companheiras. Encontrar sua cara metade envolve todo um preparo psiológico. Não adianta desejar um namoro sem antes estar preparado para tal. Você irá, infelizmente, falhar. É como andar míope pela Av. Paulista em pleno horário de pico. Você vai tropeçar. Sei que os contos de fadas são todos muito lindos, muito tocantes, mas não se esqueça de que quem os escreveu estava, no mínimo, chapadão. Príncipes encatados não existem. O "felizes para sempre" é construido tijolo por tijolo, para o resto da vida. A única coisa que seu parceiro, ou parceira, espera de você é uma mãozinha na hora de nivelar tudo. Mas não espere dos outros o que você não os oferece. Relacionamento é, acima de tudo, uma troca.

E se ainda assim quiser viver um conto de fadas, pense bem. Cinderella trocou sua independência por um príncipe que lhe ofereceu um reino, mas não, ele não quis lhe comprar um sapatinho mais confortável.

Aconteceu na Bienal - O conto

Sim, duas postagens! Pode fazer cara de WTF a vontade. Acontece que esse é um conto para participar de uma pauta do Blorkutando. Se você não quiser ler (e eu vou entender!), corre lá no Você esqueceu quem você é, que é um texto mais para todo mundo. Com mais de mim e menos de The Rasmus.
Estava visitando a Bienal no sábado, quando no meio da confusão e empolgação, acabei presa lá durante a noite. O que não imaginava é que aquela noite não seria apenas eu e os livros. Algo impensável e que talvez você nem acredite aconteceu.
Você, provavelmente, pensou que vi um vulto ou senti a presença de mais alguém no grande espaço literário. Mas não, companheiro. Me senti completamente sozinha, emaranhada naquele vazio viscoso da solidão. Vazio esse, misturado com a pré-depressão de todos os sábados a noite, que precedem o frio ártico de todo domingo. Caminhei. É possível que esta seja uma história gigante, mesmo que sobre nada. Vai de você ter paciência para ler tudo ou abandonar o enredo pela metade. Não sou eu que irá obrigá-lo a acompanhar a incrível aventura de uma moça só que vagou por entre diversos stands habitados somente por livros. Claro que pensei em esconder muitos livros na minha bolsa para, assim que saísse dali de manhã, fosse nomeada a Anarquista Literal. Após colocar dois exemplares de Markus Zusak na bolsa, parei e pensei: "Será esse o meu único prazer em uma noite sozinha na Bienal?" Claro que não.

Tãnáááám! Trilha sonorizei minha própria guerra nas estrelas, vestida de Darth Vader, e pulando de um stand ao outro com um sabre de luz falso na mão. Tã nã nã nã náááá! A lanchonete que me vendeu, mais cedo naquele dia, uma garrafinha de água por R$5,00 era minha maior inimiga. Crystal, I'm your father!, não teve muito efeito. Resolvi animar as coisas. Olha, olha, olha, olha água mineral. Tsi! Água Mineral. Tsi A fantasia, infelizmente, comprometia a coreografia. Logo, tudo perdeu a graça. Fazer de conta que recebia uma fila imensa de fãs que queriam meu autógrafo, não fazia mais sentido. Comer de graça, ler de graça e dormir de graça estava chato. Retomei minha brincadeira de Star Wars e fiquei ali, deitada no chão, apertando o botão que emitia os sinais de asma de Darth Vader. Pensando no quão eu era imprestável para mim mesma. Daí eu ouvi um barulho.

Um barulho seguido de livros caindo. Todo bom leitor reconhece, não só o cheiro, mas também o som dos livros. Apesar da fantasia que impõe respeito até no ser mais indigno do mundo, eu fiquei com medo. "Mãe?", porque quem tem cu, tem medo. Não era mamãe. Fui pela sombra, procurando a feição do medo, com o sabre de luz firme nas mãos. Quando vi que o stand da Marvel estava praticamente virado do avesso, senti uma cutucada no ombro.

— Quem sois vós? - um cara fantasiado de Thor perguntou.
Pisquei.
— Sou Thor, o príncipe. Filho de Odin, o Deus supremo de Asgard! - glorificou levantando o martelo - Quem sois vós, - apontou o martelo para mim - figura exótica?
— Sou o Darth Vader. A única coisa que sei ao meu respeito é que sou pai do Luke Skywalker.
Ele meneou a cabeça, decepcionado.
— E sofro de asma - completei apertando o botão sonoro.

Eu poderia escrever, escrever e escrever sobre as personagens que escaparam de suas histórias para me fazer companhia, mas não. Sinto lhe informar que era somente um cara fantasiado de Thor. Essa também não será uma história de amor, onde o cara em questão é o X do meu bacon. Isso todo mundo pode fazer. Todo mundo pode se apaixonar ou permitir que coisas extraordinárias lhe aconteçam. Eu não. Comigo o buraco é mais embaixo. Tento fazer da minha vida o menos Sessão da Tarde possível. Poucas aventuras do barulho, nenhuma turminha atrapalhada e nada de você se apaixonar.

— Qual seu nome? - eu perguntei, em vão. O cara não respondeu.
— Prefiro saber o seu.
— Mas eu perguntei primeiro.
— Se você é teimosa, eu sou teimoso e meio.

Empate. Antes de irmos para a prorrogação e depois decidir nos pênaltis, resolvemos que eu seria o Darth e ele o Thor. Simples como a vida é. Ambos com suas armaduras de guerra e máscaras compradas no Ching Ling mais próximo. Simples como as pessoas são. Caminhamos com nossas mãos cruzadas nas costas, um ao lado do outro, conversando sobre aleatoriedades e por que raios estávamos ali afinal. Eu porque sou burra. Simples como sou. Ele porque havia recebido um chamado naquele local. Perguntei se era bombeiro. Não. Paramédico? Não. Técnico de qualquer coisa que pudesse dar problema em uma Bienal? Menos ainda. Quis tentar "motorista", mas algo apodrecendo dentro de mim não achou boa ideia.

— É seu bom senso - ele me respondeu, adivinhando meu pensamento - A coisa apodrecendo aí dentro.
Ótimo! Um vidente.
— E não, não sou motorista também. Sou só um cara que de vez enquando costuma atender seus chamados. Às vezes resolvo seus problemas, outras vezes não. Tem vezes que você não quer que eles sejam resolvidos, mas nós dois fazemos de conta que, na verdade, o problema que é muito difícil mesmo.

Falar o que? Tem resposta para esse tipo de coisa? Aliás, existe alguma fórmula para esse tipo de gente que volta e meia bate na nossa porta? Eles nem esperam por convite, batem, entram e servem um café. Até perguntam se aceitamos do nosso próprio café. E, sinceramente, a gente sabe disso, nem sempre estamos prontos para aceitar do nosso próprio gosto. Nem todo mundo consegue se aguentar. A verdade é que ele estava ali porque eu o chamei. Segundo o cara por debaixo de uma armadura nórdica, eu estava precisando de sua companhia. Claro que não recusei. Meu bom senso pode estar apodrecido, mas ainda sou capaz de me sentir melhor com uma voz rouca e um par de olhos verdes. Únicos itens que a fantasia me deixava conferir. Que garota não gostaria, né verdade? Então.

Conversamos sobre mim. O que nunca me agradou muito. Mas, curiosamente, o cara me disse palavras que eu já havia escutado antes, mas nunca prestado atenção. "Você é péssima em prestar atenção", ele reclamou. Ele me contou de como as pessoas o atinge de vez enquando, e de como ele fica chateado quando fica sozinho no seu quarto de hotel. "As pessoas não entendem, mas você sim", ele elogiou, "e isso me basta". Para ele, bastava que uma pessoa o entendesse ao invés de várias. "Eu sei que você também me entende", respondi para ele. E era verdade. Aquele cara me entende como ninguém. Nunca nos vimos, não. Nem conversamos. Não faço a menor ideia de qual é o endereço de email dele ou sua página no Facebook. Mas, caro leitor que ainda me lê nessa altura do texto, se chegou aqui, te ofereço um ensinamento: Há coisas que ultrapassam a compreensão lógica da Ciência. Uma dessas coisas sou eu e esse cara nórdico. É disso que eu e ele precisamos saber. E mais nada.

— Me sinto menos só agora - eu confidenciei.
— Eu sei - ele retrucou - Mas agora preciso ir. Tenho um compromisso marcado.
— Alguém mais te chamando?
— Não, preciso compor uma música para você!

E o cara foi embora. Com martelo e tudo. Fiquei sozinha, não, fiquei ali no meio daqueles livros comigo mesma. Uma ótima companhia. Ouvindo as canções que acompanhavam os passos dele que se distanciavam de mim. Mas, curiosamente, cada passo a mais, era uma distância a menos. Nunca descobri de fato quem era o cara fantasiado, mas a pena negra que lhe escapou por debaixo da armadura nórdica faz com que eu tenha certeza de que eu adoraria uma noite a mais de conversa. Foi sonho? Não faço a menor ideia, ainda não acordei para descobrir. Mas deixe a fantasia propagar. Não matemos o que de nós restou.

Você esqueceu quem você é

Eu chorei ao assistir "O Rei Leão", e não compreendo as pessoas que não choraram. Simplesmente porque não quero. Pronto. Tinha sete anos de idade quando o filme foi lançado, mas só o assisti meses depois. Na época em que os filmes demoravam séculos para serem transferidos para uma fita VHS e, só então, distribuídos para locadoras. Assisti na escola, ensino fundamental, me lembro bem. De todas as crianças sentadas ao redor da televisão na biblioteca, eu fui a única que chorou na morte de Mufasa. Não porque o pai do leãozinho estava morrendo, mas porque aquilo significava muito para mim. Eu ainda era muito pequena para saber, mas havia algo em mim que entendia por completo o subentendido da cena. Claro que eu adoraria te explicar, palavra por palavra, o que diabos tem de subentendido ali. Se eu ao menos soubesse o que é. Desculpe, ainda não sei.

Todo mundo está comentando da versão 3D lançada no cinema. Eu odeio 3D com todas as minhas forças. Não por isso deixei de assistir ao filme, mas sim porque a criança em mim está morrendo de medo de chorar de novo. Com um dedo na boca e a outra mão agarrando com força minha perna, a Del de sete anos de idade pede, por favor! Não vamos assistir esse filme! Ela morre de medo de voltar a ser quem era e nunca mais voltar. Porque a vida é agora e não há 17 anos atrás. Onde uma menina enxergava muito mais do que um desenho morrendo. A menina enxergava toda a dor. A dor do filhote órfão, do filhote perdido e a dor de saber que ela não estava livre de sentir aquilo. A minha vida naquela altura era tão complicada, que um filme passou a ser um presságio.

Eu tenho medo da dor. Não há o que a faça acreditar que a dor passa. Porque nunca passou. Porque o mundo é cruel e ponto final. Enquanto as crianças acompanhavam, inconscientes, a traição chacoalhar suas sete cabeças por cima de um filhote que chorava indefeso, aquela menininha de sete anos chorava tão indefesa quanto. E ninguém lhe dava a mão. Nada de "Hakuna Matata". E era sofrido perceber naquela idade que mesmo com pai vivo, eu era órfã. Não órfã de figura paterna ou aconchego familiar. Órfã de inocência. E isso, não tem lágrima que cure. Não há passado que esqueça. Crescer de mãos dadas com Simba não foi nada fácil. Carrego ainda muitos fantasmas do passado que se divertem em me assustar. "O Rei Leão", para mim, não foi um filme. Foi a coragem que precisei para seguir em frente. Como uma leoa, sim, e sem olhar para trás.

A dor existe. A morte te abraça e te leva embora. A traição lhe arranca o chão dos pés. A vida continua, apesar de você.

Se hoje Musafa abrisse as nuvens para conversar comigo e dissesse que me esqueci da criança que fui. Eu o olharia nos olhos, com a determinação de quem cresceu depressa demais, e lhe diria sem chorar que a dor é a mesma e o medo também. Não, eu não me esqueci.

The Big Bran Hypothesis

Estou aqui dando uma segunda chance ao seriado The Big Bang Theory. Confesso que sou uma preguiçosa que deveria ser banida da face da Terra, mas é sem querer. Sou assim, desculpa. Assisti ao pilot do seriado e desencanei: "The Big Bang Theory não é para mim". Após uma maratona de Seinfeld, decidi que eu necessitava de uma outra série, já que Miranda ainda não voltou ao ar. Como todo mundo - todo mundo - anda falando desse seriado sem parar, bazinga para lá e para cá, resolvi baixar o segundo episódio da primeira temporada. Eu esperava a mesma semgracisse do primeiro episódio, para você ver o quão tapada eu sou. Ninguém critica um seriado assistindo só o piloto. Pois bem, critiquei e torci o nariz, mas tenho que ser uma pessoa melhor, meu Deus. Baixei The Big Bran Hypothesis e comecei a assistir. Não, melhor, comecei a rir.

Para quem não lembra (ou não viu), nesse episódio Sheldon invade o apartamento da vizinha no meio da noite e, enquanto ela dorme, ele arruma a bagunça catastrófica do lugar. Para os normais isso pode parecer loucura, inadequado ou improvável. Para Sheldon e eu, isso é um ato cívico. Somos cidadãos preocupados com o bem estar e equilíbrio universal das sociedades contemporâneas que afundam no mar agitado da desorganização. Você há de convir que tudo depende da organização. Instituições públicas devem ser organizadas, caso contrário seus processos, exames médicos, pedidos de socorro, busca de pessoas desaparecidas e visitas anuais ao museu levariam anos para serem concluídas. Assim como o mau uso dos marcadores nos levam a fotos de gatos adormecidos enquanto buscamos por "Vintage". Sou obrigada a lembrá-lo dos preciosos minutos que você perde procurando seu tênis, relógio, celular ou chave ao invés de se encaminhar diretamente para o compromisso marcado?

É certo que "organização" tem vários significados. O que é organizado para mim, com certeza não será organizado para outra pessoa aleatória. Há quem prefira as meias junto com as cuecas ou as cuecas junto com os cintos ou os cintos junto com os sapatos. Já eu prefiro não conhecer uma pessoa assim porque, obviamente, é mais higiênico seguro as cuecas estarem sozinhas em uma gaveta. Agora, imagine a confusão se todos os maníacos por organização como eu resolvessem começar uma revolução. Imagine se Sheldon Cooper corre pelas casas e pelas ruas arrumando tudo e todos. Lógico que no mínimo eu sairia correndo atrás dele desarrumando tudo e arrumando de novo, só que do meu jeito. E assim seguiríamos para o horizonte, em um self bazinga eterno.

Pensando bem, eu já corro atrás de mim mesma arrumando, desarrumando e reorganizando tudo.
Oh, organization. Thou art a heartless bitch!

Oi! Há um tempo atrás criei um blog para não ficar enchendo o ouvido de vocês sobre The Rasmus. Olha como eu sou generosa, minha gente! Então, acontece que ele foi criado no começo desse ano, mas o abandonei por completo. Achei que era um projeto falido antes mesmo de começado. Só que eu mudei de ideia, e o The Rasmusologia voltou para a ativa! Visite, pessoa bonita. Quem sabe você não se encanta de uma vez, ou sinta-se vencido pela teimosia.