Sim, duas postagens! Pode fazer cara de WTF a vontade. Acontece que esse é um conto para participar de uma pauta do Blorkutando. Se você não quiser ler (e eu vou entender!), corre lá no
Você esqueceu quem você é, que é um texto mais para todo mundo. Com mais de mim e menos de The Rasmus.
Estava visitando a Bienal no sábado, quando no meio da confusão e empolgação, acabei presa lá durante a noite. O que não imaginava é que aquela noite não seria apenas eu e os livros. Algo impensável e que talvez você nem acredite aconteceu.
Você, provavelmente, pensou que vi um vulto ou senti a presença de mais alguém no grande espaço literário. Mas não, companheiro. Me senti completamente sozinha, emaranhada naquele vazio viscoso da solidão. Vazio esse, misturado com a pré-depressão de todos os sábados a noite, que precedem o frio ártico de todo domingo. Caminhei. É possível que esta seja uma história gigante, mesmo que sobre nada. Vai de você ter paciência para ler tudo ou abandonar o enredo pela metade. Não sou eu que irá obrigá-lo a acompanhar a incrível aventura de uma moça só que vagou por entre diversos stands habitados somente por livros. Claro que pensei em esconder muitos livros na minha bolsa para, assim que saísse dali de manhã, fosse nomeada a Anarquista Literal. Após colocar dois exemplares de Markus Zusak na bolsa, parei e pensei: "Será esse o meu único prazer em uma noite sozinha na Bienal?" Claro que não.
Tãnáááám! Trilha sonorizei minha própria guerra nas estrelas, vestida de Darth Vader, e pulando de um stand ao outro com um sabre de luz falso na mão. Tã nã nã nã náááá! A lanchonete que me vendeu, mais cedo naquele dia, uma garrafinha de água por R$5,00 era minha maior inimiga. Crystal, I'm your father!, não teve muito efeito. Resolvi animar as coisas. Olha, olha, olha, olha água mineral. Tsi! Água Mineral. Tsi A fantasia, infelizmente, comprometia a coreografia. Logo, tudo perdeu a graça. Fazer de conta que recebia uma fila imensa de fãs que queriam meu autógrafo, não fazia mais sentido. Comer de graça, ler de graça e dormir de graça estava chato. Retomei minha brincadeira de Star Wars e fiquei ali, deitada no chão, apertando o botão que emitia os sinais de asma de Darth Vader. Pensando no quão eu era imprestável para mim mesma. Daí eu ouvi um barulho.
Um barulho seguido de livros caindo. Todo bom leitor reconhece, não só o cheiro, mas também o som dos livros. Apesar da fantasia que impõe respeito até no ser mais indigno do mundo, eu fiquei com medo. "Mãe?", porque quem tem cu, tem medo. Não era mamãe. Fui pela sombra, procurando a feição do medo, com o sabre de luz firme nas mãos. Quando vi que o stand da Marvel estava praticamente virado do avesso, senti uma cutucada no ombro.
— Quem sois vós? - um cara fantasiado de Thor perguntou.
Pisquei.
— Sou Thor, o príncipe. Filho de Odin, o Deus supremo de Asgard! - glorificou levantando o martelo - Quem sois vós, - apontou o martelo para mim - figura exótica?
— Sou o Darth Vader. A única coisa que sei ao meu respeito é que sou pai do Luke Skywalker.
Ele meneou a cabeça, decepcionado.
— E sofro de asma - completei apertando o botão sonoro.
Eu poderia escrever, escrever e escrever sobre as personagens que escaparam de suas histórias para me fazer companhia, mas não. Sinto lhe informar que era somente um cara fantasiado de Thor. Essa também não será uma história de amor, onde o cara em questão é o X do meu bacon. Isso todo mundo pode fazer. Todo mundo pode se apaixonar ou permitir que coisas extraordinárias lhe aconteçam. Eu não. Comigo o buraco é mais embaixo. Tento fazer da minha vida o menos Sessão da Tarde possível. Poucas aventuras do barulho, nenhuma turminha atrapalhada e nada de você se apaixonar.
— Qual seu nome? - eu perguntei, em vão. O cara não respondeu.
— Prefiro saber o seu.
— Mas eu perguntei primeiro.
— Se você é teimosa, eu sou teimoso e meio.
Empate. Antes de irmos para a prorrogação e depois decidir nos pênaltis, resolvemos que eu seria o Darth e ele o Thor. Simples como a vida é. Ambos com suas armaduras de guerra e máscaras compradas no Ching Ling mais próximo. Simples como as pessoas são. Caminhamos com nossas mãos cruzadas nas costas, um ao lado do outro, conversando sobre aleatoriedades e por que raios estávamos ali afinal. Eu porque sou burra. Simples como sou. Ele porque havia recebido um chamado naquele local. Perguntei se era bombeiro. Não. Paramédico? Não. Técnico de qualquer coisa que pudesse dar problema em uma Bienal? Menos ainda. Quis tentar "motorista", mas algo apodrecendo dentro de mim não achou boa ideia.
— É seu bom senso - ele me respondeu, adivinhando meu pensamento - A coisa apodrecendo aí dentro.
Ótimo! Um vidente.
— E não, não sou motorista também. Sou só um cara que de vez enquando costuma atender seus chamados. Às vezes resolvo seus problemas, outras vezes não. Tem vezes que você não quer que eles sejam resolvidos, mas nós dois fazemos de conta que, na verdade, o problema que é muito difícil mesmo.
Falar o que? Tem resposta para esse tipo de coisa? Aliás, existe alguma fórmula para esse tipo de gente que volta e meia bate na nossa porta? Eles nem esperam por convite, batem, entram e servem um café. Até perguntam se aceitamos do nosso próprio café. E, sinceramente, a gente sabe disso, nem sempre estamos prontos para aceitar do nosso próprio gosto. Nem todo mundo consegue se aguentar. A verdade é que ele estava ali porque eu o chamei. Segundo o cara por debaixo de uma armadura nórdica, eu estava precisando de sua companhia. Claro que não recusei. Meu bom senso pode estar apodrecido, mas ainda sou capaz de me sentir melhor com uma voz rouca e um par de olhos verdes. Únicos itens que a fantasia me deixava conferir. Que garota não gostaria, né verdade? Então.
Conversamos sobre mim. O que nunca me agradou muito. Mas, curiosamente, o cara me disse palavras que eu já havia escutado antes, mas nunca prestado atenção. "Você é péssima em prestar atenção", ele reclamou. Ele me contou de como as pessoas o atinge de vez enquando, e de como ele fica chateado quando fica sozinho no seu quarto de hotel. "As pessoas não entendem, mas você sim", ele elogiou, "e isso me basta". Para ele, bastava que uma pessoa o entendesse ao invés de várias. "Eu sei que você também me entende", respondi para ele. E era verdade. Aquele cara me entende como ninguém. Nunca nos vimos, não. Nem conversamos. Não faço a menor ideia de qual é o endereço de email dele ou sua página no Facebook. Mas, caro leitor que ainda me lê nessa altura do texto, se chegou aqui, te ofereço um ensinamento: Há coisas que ultrapassam a compreensão lógica da Ciência. Uma dessas coisas sou eu e esse cara nórdico. É disso que eu e ele precisamos saber. E mais nada.
— Me sinto menos só agora - eu confidenciei.
— Eu sei - ele retrucou - Mas agora preciso ir. Tenho um compromisso marcado.
— Alguém mais te chamando?
E o cara foi embora. Com martelo e tudo. Fiquei sozinha, não, fiquei ali no meio daqueles livros comigo mesma. Uma ótima companhia. Ouvindo as canções que acompanhavam os passos dele que se distanciavam de mim. Mas, curiosamente, cada passo a mais, era uma distância a menos. Nunca descobri de fato quem era o cara fantasiado, mas a pena negra que lhe escapou por debaixo da armadura nórdica faz com que eu tenha certeza de que eu adoraria uma noite a mais de conversa. Foi sonho? Não faço a menor ideia, ainda não acordei para descobrir. Mas deixe a fantasia propagar. Não matemos o que de nós restou.