Oito horas e trinta minutos. No ingresso, o começo do espetáculo para o respeitável público estava marcado para as oito horas. Antes disso, às 6hrs 30min, eu já estava do lado de fora, debaixo de chuva, esperando os portões se abrirem. Três dias antes, o show d'O Teatro Mágico já havia sido motivo de discussão. Enquanto eu olhava para o relógio, mal sabia que seria motivo de chateação até o dia seguinte, ou seja, hoje.
Eu jamais pensei que a simples decisão de ir a um show poderia tomar proporções estratosféricas. Muita briga com o namorado, que não podia me acompanhar, e portanto não queria que eu fosse. Eu bati o pé. Comprei o ingresso e o informei que no domingo estaria no Citi Bank Hall me divertindo muito. No domingo, ele resolveu me acompanhar até a casa de show. Na fila, ele resolveu que assistiria o show, mesmo pagando um preço altíssimo para quem sequer gosta da apresentação. Eu não queria. Não queria porque, desde o começo, sabia que aquilo se voltaria contra mim. Mas entramos, os dois, na casa de show e no meio da plateia (sob protestos dele) nos acomodamos. De 5 em 5 minutos, sem exageiros, eu olhava para o relógio. Não estava ansiosa, no mau sentido, só queria que começasse logo. Ainda mais por causa das minhas costas que, depois do acidente de carro, não aguentam mais do que 1hr em pé. Dei de ombros porque, aleijada ou não, eu assistiria de qualquer jeito aquele show! Oito horas chegaram e foram embora, como eu disse no começo do texto. Nada da trupe entrar. A plateia, então, começou a se irritar e a chamar por eles com gritos, assovios e palmas.
Não vou resenhar o espetáculo aqui, palavra por palavra, porque acredito que ninguém esteja interessado. Apesar dos comentários lindos que muita gente deixou no meu texto sobre O Teatro Mágico, acho que a maioria não está interessada em ler cada ponto e vírgula da noite de domingo. Espetáculo (ainda mais tão lindo como esse) deve ser apreciado e não lido. Porém, não posso deixar de contar o quanto fiquei emocionada ao ver a trupe entrar! Um por um, todos se acomodaram aos seus postos e finalmente começaram a tocar. Daí para frente, mandei à merda tudo e todos. Porque sim. Porque era um momento só meu. Porque, poxa vida, mal encontro um palhaço para minha vida e já consigo assistí-lo ao vivo! Muitas lágrimas rolaram. Muitos gritos, aplausos e pulos também. Não interagi com ninguém da plateia porque todos tinham suas caras de eu compreendo O Teatro Mágico até a raíz! Não que eu quisesse. Paguei um bom ingresso para assistir minha trupe mesmo.
A despedida da Gabi, claro, foi emocionante. Mesmo não acompanhando a carreira dela desde o começo, deu para sentir uma dorzinha no coração. Era visível, quase tocável, a admiração que todos tem por ela. Tanto a trupe quanto a plateia. Ela também se emocionou, fez um discurso muito do fofo e se apresentou com a alma. É, eu prometi que não escreveria uma resenha, então vamos pular para o mais importante.
No fim do show, não teve jeito. Meu namorado me pegou pelo braço, dizendo que era tarde e tínhamos que ir correndo para casa. Bem o coelho da Alice mesmo. Bem coisa de gente descontrolada mesmo. Bem coisa que só acontece comigo.
— Mas eu quero conversar com eles! - resmunguei.
Não adiantou. Quando notei, já estávamos na calçada, procurando por um táxi ou o que valesse para nos levar para casa. Sequer uma camiseta consegui comprar. No ônibus (não haviam táxis disponíveis) ainda levei bronca! Não era para fazer esse tipo de coisa, porque estamos em um momento decisivo de concurso público e não podemos nos preocupar assim, tão pouco passar nervosismos por conta de shows! Da próxima vez, temos que nos controlar! Porque senão, SENÃO, não sabemos o que vai acontecer! Só sabemos que assim não dá! Ou seja, cala a boca aí que o mundo não foi feito para você. Cala a boca que você deve se contentar com o pouco e ainda ser muito feliz por, pelo menos, ter esse pouco. Fiquei calada, com algumas lágrimas restantes da emoção do show marejando os olhos. Eu não estava triste. Estava feliz! Tão feliz, que não cabia no peito, tive que chorar a alegria. Deixei falando sozinho. Pela janela repleta de pingos de chuva, lamentei sim não ter falado com ninguém da trupe, mas ao mesmo tempo muitas palavras se formaram na minha cabeça, até eu ter dito para o Fernando, em pensamento, que...
— Eu sei que me emocionaria ao vê-lo e a todos os outros, assim como me emocionei durante o espetáculo. Talvez, eu conseguiria apenas lhe dar um abraço, mas tenha certeza de que, tudo o que O Teatro Mágico significa para mim, estaria resumido nesse único abraço sem palavras. Ou talvez, eu poderia dizer à vocês que o amor é pouco. Eu poderia lhes dizer que O Teatro Mágico inventou um novo sentimento em mim. Sem nome, mas muito intenso. Um sentimento lindo e exclusivo, que a humanidade não tocou e, graças a Deus, ainda não descobriu. Um sentimento meu que mesmo se alguém quisesse sentí-lo não conseguiria, porque só existe com a conexão entre vocês e eu. Eu diria o mais clichê: Muito obrigada por tudo. Obrigada por me presentearem com esse sentimento novo, que transcede o amor. Obrigada por serem pessoas de carne e osso, e não por serem produtos industrializados prontos para o consumo. Obrigada, Anitelli, por encher a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar.



















