9 de janeiro de 2012

Sob(re) as estrelas

Do tanto que caminhei só me sobraram os pés. Nem pedras, nem paisagens, nem caminho. Só os pés. Uma longa jornada, sim, porém insignificante. De bagagem vazia, entrei em casa descalça. Joguei a mala de um lado, joguei o chapéu do outro, e o orgulho ficou minguando os últimos suspiros na porta. Humilhado, não quis entrar. Talvez eu tenha vivido mais do que meus 20 e poucos anos são capazes de suportar. A bagagem pode estar pesada ou a alma leve demais. E agora importa? De fato, não. Os detalhes também, todos mortos de sede, foram pingando e marcando o caminho. Bati nessa porta já sem nenhum. Carreguei por muitos passos, todos eles, como mãe desesperada sem saber o que fazer. Mas os soltei. Os deixei para trás, porque a vida também é morrer.

Quero sentar e te contar, que aprendi a guiar as estrelas e levá-las onde eu queria chegar. E elas ainda estão lá, duras e secas, só esperando alguém para iluminar. No quintal, vá lá! Estão todas nos olhando com os olhos fixos e atrevidos. Ah, as estrelas... Uma delas, a menor, tinha nome. Falava baixinho, tão baixinho, que fingi entender qual era. Tagarela, conversou o caminho inteiro, perguntando para onde eu estava indo e se havia fugido de alguém. Dei um sorriso. Aquele no canto da boca.

— Fugindo, eu sempre estou! - exclamei - Porque se não fugirmos, o que há de vir atrás de nós? Nada! As borboletas voam porque querem ser vigiadas, e precisam mudar de flor. Pois! - eu sorri - Aí de cima, é possível ver de um tudo. Aqui embaixo, pobre de nós, há quem não enxergue a um palmo do nariz. O que dirá de enxergar a si mesmo!

Fugi, eu respondi à estrelinha. E fujo sempre que há oportunidade. Por mais detalhes que eu perca, por mais passos que eu enfraqueça, hei de ver o Tudo. Quero ver o Inominável com esses olhos que a Terra há de comer! E a estrelinha ficou calada, prestando atenção nesses meus olhos que não brilham mais.

— Sem orgulho, mas de pedregulho na mão! Porque sei me defender, dos outros e de mim. E sabendo isso, o resto se aprende andando. Ainda tenho os pés e esses não me falham, estrela.

O céu abriu seu melhor sorriso. Aquele celestial. E caminhei de volta para cá, mais vazia do que fui, mas os pés sobraram. Os 20 e poucos anos ficaram, se acumularam, e curtem com minha cara. Não sou nada nem serei. Agora eu sei! Voltei com as estrelas de guarda-chuva, menos do que costumava ser. Viagem insignificante, sim. Mas escute as estrelas contarem. Elas nos dizem, serenas, que o Inominável não tem significado e não há caminho que nos leve ao seu encontro. Sinta apenas entrar pelas narinas e navegar nos pulmões, o sopro do Tudo. Porque esse Tudo, de muito bom grado, se você deixar, vai querer caminhar em você e te descobrir.

A vida cansou bastante, mas cá estou. Logo, logo, eu fujo de novo.

PS:Como podem ver, acabei mudando de novo a fonte do blog. Também estou acostumada com essa, é cheia de charme :)
P.P.S: Decidi cancelar a Cápsula do Tempo desse ano. Peço desculpas a quem já inscreveu, mas acho necessário colocar algumas mudanças para que o projeto funcione melhor. Mesmo assim, dia 31 de janeiro ainda está de pé, e quem participou deve publicar sua cápsula!

7 comentários:

chico disse...

sendo verdadeira ou não, essas estrelas por hora, não saem do meu pensamento.E esse seu layout é uma delícia Del :)

Ana Luísa disse...

"se não fugirmos, quem virá atrás de nós?" amei, amei, amei!

Andreia disse...

Que texto lindo, Del. Maravilhoso.

Gostei tanto dele que mal tenho palavras para descrever o quanto me tocou. *-*

Beijokas.

Pri Bragança disse...

Oi Del. Gostei muito do texto. Lindo.

Pablo disse...

Interessante. Nos faz pensar de outra forma.

L.H.C disse...

Que lindo Del, me lembrou a poesa de Olavo Bilac, "ouvir estrelas" muito profundo!

Ju Lemos disse...

Me soa triste, mas não somos todos o tempo todo felizes. Me soa solitário, na verdade creio que vivemos o tempo inteiro solitários, temos um certo brilho e vivemos por um tempo... alguns curtos outros mais longos, mas no fim de tudo somos todos estrelinhas perguntadeiras e fugitivas. Adorei o seu texto e fiquei bastante curiosa sobre a capsula

Parabéns pela escrita
Bjus

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