12 de janeiro de 2012

Sonífero social

A tia precisa explicar que no texto não há generalização? Não, né. Todo mundo fez o dever de casa :)

O indivíduo me conhece e descobre que gosto "de circo" (as pessoas não conseguem dizer Arte Circense). A primeira reação é: Por que? A segunda reação, depois da resposta, é uma cara de desconfiança. A terceira reação é, normalmente, mudar de assunto. As pessoas não esperam nada além do óbvio. Vão direto da maternidade para a banalidade. Não estou dizendo que uhul! vamos gostar de circo para sermos diferentes e legais. Não. Eu não quero que você encoste sequer um dedo na lona antes de compreender, pelo menos, o que é uma vida cigana. O que estou dizendo é que a maioria não gosta de palhaço porque sim. Porque viram algum filme de qualidade questionável ou esqueceram que a vida do Ensino Fundamental acabou, e nenhuma Kombi lotada de palhaços vai te sequestrar para vender seus órgãos no Mercado Negro.

Essa Kombi nunca existiu.
Porra.

Tempos atrás li uma pesquisa onde, uma universidade aí com verba e tempo de sobra, afirmou que o ser humano vive, por toda a vida, há tantos quilometros de onde mora. Não lembro o número, mas concordei. Ninguém se distancia da zona de conforto. Isso vale tanto para o emocional quanto para o físico. Vale muito para mim também. E para você. Somos condicionados a seguir padrões pré-estabelecidos. Convivemos com os familiares, com colegas de escola, com vizinhos e quando percebemos, pronto! Voltamos de um verão na casa dos primos gostando de metal. Voltamos da casa do coleguinha apaixonados por vídeo games. Emprestamos uma xícara de açúcar para a vizinha e, poxa, queremos uma grama mais verde também. Os pais vestiram uma camiseta dos Beatles em seus bebês e, quando esses crescem, dizem com orgulho que gostam de Beatles desde sempre! Mesmo que no começo desse Sempre tudo tenha sido um acidente, ou falta de bom senso dos pais, e o fã em questão não soubesse nem comer sozinho.

Por mais forte que a opinião seja, sempre terá alguém que não vive o que diz. Ninguém quer ficar sozinho, por isso inventaram a tendência. Por isso todo mundo assiste Globo e reclama dela nas mesas de bar e discussão. Por isso milhares de pessoas lotam shows de bandas miseráveis como Guns n' Roses. Mesmo sem Slash. Mesmo após Axl Rose cheirar todo o talento que restava a ele na chegada à terceira idade. Discernimento para que, não é verdade?

Você sai nas ruas para escutar o que as pessoas acham e pensam, mas só encontra frases decoradas de jornais. Cansado disso, você vai para o outro lado e encontra frases decoradas de Che Guevara. Mesmo ele não sendo brasileiro. Mesmo estando morto. Mesmo estando equivocado. Porque, sim, Che Guevara também errou.

Oh, sou polêmica!
Não, você que é meio vazio mesmo.

Muitos precisam se valer de citações para assegurarem que pensam. Precisam da ideia dos outros para não passarem vergonha em discussões políticas. Acham cansativo criar novos conceitos e caminhos. Vamos aproveitar e reaproveitar o que já tem por aí! Vamos nos unir as mesmas causas de sempre, com os mesmos gritos de guerra e jogando pedras uns contra os outros. Vamos amarrar a sociedade na mesma solução encardida. As donas de casa continuarão donas de casa. Seus filhos continuarão crescendo homens mimados e sem visão. As meninas continuarão se denominando putas ou santas na vã tentativa de chamar mais atenção. Na irrisória tentativa de estarem certas. Mas sem perceberem que só são mulheres, nada mais, que ainda acreditam em príncipe encantado e se tornaram frustradas por nunca encontrarem um.

Tudo é vício.
Muita dependência, muita gente, e poucas pessoas.

Então, eu entro em uma conversa e perguntam: Por que você gosta de circo? Pelo mesmo motivo de não gostar de Beatles nem de Lady Gaga nem de jiló: Porque eu tenho esse direito. Sou, apesar da população. Saí do medo infantil e da jocosidade despropositada, onde todos se escondem e se misturam, e fui conhecer qualéquié dessa tenda aí. Descobri porque usavam e maltratavam animais. Hoje, sei o que estou fazendo ao defender a lei que os protege, e não apenas levanto bandeiras do Greenpeace porque maltratar animais é errado e ponto. Não. Nada nem ninguém possui ponto final. Sei o que estou fazendo e é isso que me diferencia.

18 comentários:

Paloma disse...

E ainda dizem que o povo brasileiro não tem preconceito! Tem sim, só são preconceitos diferentes, ou melhor, com o diferente. É que a maioria de nós temos medo demais de não sermos aceitos para sequer descobrirmos do que a gente realmente gosta, e do que não gosta. A verdade é que poucas pessoas sabem o que querem.

Beijos

Mayra disse...

Caramba! Juro que é a primeira vez - que eu me lembre - que li um texto seu e foi bom o suficiente para me fazer voltar aqui sempre, hein? Disse MUITO. Mesmo. Concordo com tudo aí! Só a imagem inicial já diz muuuita coisa e tal, wow! Parabéns pelo texto e pelas ideias Del! E, se você não se importar, pode me mandar um e-mail explicando tudo que sabe sobre o circo? Interesso-me por todas as coisas e tal... (meu e-mail é mayra.resende@live.com) E como a Paloma disse, a maioria das pessoas não sabe do que realmente gosta e em meio à dúvida acaba gostando do que todos gostam só pra não ficar de fora. Coitado do amarelo, porque do jeito que tá daqui a pouco tá metade gostando do preto e a outra metade, sempre do contra, gostando do branco. Eu prefiro o amarelo, só por ser do meio termo mesmo, mas prefiro!

Ana Luísa disse...

E eu acho lindo essas paixões inusitadas que as pessoas tem! Sempre achei incrível todo esse seu amor por circo, e pelo seus posts e pelo seu tumblr, acabei pegando um pouquinho dessa paixão também! Adoro compartilhar paixões. "O que seria do azul se todos gostassem do amarelo"! E é por isso que todo mundo tem que amar coisas diferentes, e todo mundo ser feliz. Ué!
Beijos

Blank Space disse...

Ótimo o texto, adorei! É exatamente isso que me incomoda nas pessoas, e o que eu sempre tento dizer, mas sou mal interpretada. Muita gente acomodada com a vida, que não aceita o diferente e se torna apenas uma repetição de informações(superficiais, na maioria das vezes) que são bombeadas para seu cérebro.
E se incomodam enormemente quando você quer se destacar, ser diferente, ou até mostrar para essas pessoas que também há um terceiro caminho além daqueles dois já conhecidos.
"muita gente, e poucas pessoas" Acho que é bem por aí mesmo, tomara que isso mude.
Beijos

Andreia disse...

Eu tive uma época em que só gostava o que toda a gente gostava, acho que o fazia para agradar a alguém (à sociedade). Depois descobri que essa mesma sociedade que tanto me esforçava por agradar, não parava um único - e maldito - misero minuto para me agradar.

E depois alguém me disse (eu sei que a frase dita para o ar, mas eu a tomei como se fosse para mim xP) que não se pode agradar a gregos e troianos.

Hoje não consigo seguir essas tendências que toda a gente fica maluca por seguir. Não viro o mundo patas pro ar la porque saiu um filme, ou uma canção está a bombar em todas as rádios.

Quando o mundo parece enlouquecer por alguma serie nova (como essa 'Upon once a time' que tanto falam), eu só sinto vontade de voltar aos bons clássicos. (Ou de fugir, mas como não é uma opção...)

O mundo estaria condenado se não houvesse revolucionários corajoso o suficiente para bater o pé no chão, cruzar os braços sobre o peito e dizer: "nego-me a ser igual a todos vocês!"

Divaguei demais estava vez ne? :|

L.H.C disse...

é, com tanta necessidade de ser diferente muitas pessoas se tornam iguais; não tem personalidade ou até tem, mas prefere fingir ser diferente para fazer parte de determinados círculos.

Jay Andrade disse...

BRAVO! Cara, que texto incrivel. Não só pelas verdades que disse mas da forma como disse. Confesso estar "de cara", inclusive por ser das questionadoras com preguiça de questionar. Muitas vezes.

Só fiquei curiosa para saber, porque usavam animais no circo e por que os maltratavam. Até esbocei algo na imaginação, mas prefiro que me diga a verdade.

Renata disse...

Me perdi um pouco ao longo do texto tentando descobrir o motivo dele. É bacana gostar do diferente, fazer o diferente, mas porque isso é realmente o que você quer, e não só porque é diferente. Não há nada de errado em gostar do comum, e também não há nada de errado em não gostar. Mas as pessoas tem tando direito de não gostar de circo quanto você tem o direito de não gostar de Lady Gaga... Beijos

Kah disse...

Disse tudo, Del. Qualquer pessoa que goste de algo um pouco fora do comum deve ser perseguido por caras de desaprovação ou de sei lá, cara de gente que simplesmente não consegue entender. Mas é, todo mundo tem o direito de gostar de qualquer coisa. Só que tem gente que não se dá ao trabalho de descobrir do que é que gosta de verdade.
Beijo!

CharmerB disse...

Realmente seu ponto de vista é correto. Uma coisa que me irrita são como as pessoas conseguem superexpor isso na internet. Elas não conhecem nada direito e não querem, dizem é errado e ponto e ficam "bandeiras" de lutas. Também começam discussões sem argumentos algum e inventando coisas totalmente sem nexo... E para piorar há aquelas que acreditam nelas. Mas tudo bem, um dia eu vejo o que eu faço com o mundo, entre só observar a merda acontecer e tentar mudar.

Rúvila Magalhães disse...

Tendências e modas existem pra criar aquele sentimento de pertencer, fazer parte da sociedade e não há nada de ruim nisso. Acho legal ser diferente mas acho idiota apontar o dedo na cara dos outros e dizer "você é igual a todo mundo e isso é ridículo". As pessoas tem que fazer o que tem vontade e o que as torna feliz, desde que não prejudique quem está ao redor.

beijos

Isadora disse...

Poxa, tô pensando aqui... Eu concordo com a Ruvs: tendências e modas existem, pegam e, se pegam, é porque refletem alguma demanda que a sociedade tem. Não acho errado gostar "da mesma coisa". Por outro lado, concordo que hoje em dia é muito fácil "compartilhar" e "curtir", mas ninguém está muito preocupado em discutir, pensar ou tentar algo novo. Aliás, ouvi isso - como um elogio agradabilíssimo - do meu chefe: todos que entram aqui exatamente iguais, com as mesmas roupas, os mesmo cabelos, as mesmas tatuagens, os mesmos óculos.

Difícil, né?

Ah, só pra constar: acho linda sua paixão pelo circo. E acho circo lindo!

Pablo disse...

Hehehe... esse fim de semana tive uma overdose de circo. Encontrei um site para baixar todos os espetáculos do Cirque du Soleil, que eu AMO!

Acho muito bacana você defender com unhas e dentes o que gosta. Tenha preguiça desse povo que não tem opinião própria e estranha quando vê alguém que tem. = P

Pri Bragança disse...

Ah, Del. O que falar?

Amo seus textos. Aprecio a arte de quem consegue escrever tão claramente o que pensa.

Um beijão. Pri.

Flor disse...

Uai, deixa você gostar em paz. Mania chata que as pessoas tem de nos questionarem. Eu gosto das minhas coisas esquisitas, coisas que, na maioria das vezes, não tem nada a ver com o mundo real, aquele que eu vivo. Esquisito néan? Mas essa sou eu. Dane-se.

você me fez lembrar uma coisa quase engraçada.

Uma amiga internada estava fazendo xixi naquelas "comadres", rolando todo um constrangimento já que ela dividia o quarto com desconhecidos, pra piorar, entram três palhaços cantando "para bailar la bamba" (é isso, né?) enquanto a coitada tá la, numa posição altamente questionavel e né, nem preciso dizer que ela morre de medo de palhaço.

hahaha

beijinho

natália das luzes disse...

então : )
a banda chamava ridley - ou alguma coisa parecida.
eu tocava numa banda de melodic metal, aí a vocalista queria participar de um festival chamado covernation, e aí eu fui com ela pra fazer cover de the rasmus. eu nunca tinha ouvido a banda, mas um pouquinho depois ela ficou famosinha, mas também não ouvi mais. achei legal encontrar alguem que conhece ^^ - e que gosta bastate, pelo visto!

Loma Sernaiotto disse...

Poxa, esse post até me acordou. Sou do tipo que adora uma zona de conforto, mas talvez seja pelo excesso de ansiedade e pânico. Tenho medo da sociedade, por incrível que pareça. Sempre fui extrovertida, mas morro de medo da rua, das pessoas. E isso meio que me deixa no ninho. Super me culpo por ter medo de fazer qualquer coisa sozinha, sabe? De enfrentar o mundo? Mas é maior que eu. To na luta pra vencer isso... =/
Mas acho esse mundo, como ele está hoje, meio cheio de revolucionários do sofá. Aqueles que levantam a voz pra falar sobre utopias e sociedades justas mas que depois de terminar o discurso ligam no BBB ou no Faustão e tá tudo certo. Eu amei o seu post. E eu odeio a forma como as pessoas pensam pequeno. E como acham que todo mundo deve gostar do que o outro gosta, se não, não é bom. Ótimo post, parabéns!

del disse...
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