4 de fevereiro de 2012

Crise existencial

Sentei na janela do ônibus toda esbaforida porque tive que fazer aquela corridinha típica paulistana para alcançar o Seu Motorista, que estava doido para sair do corredor e ultrapassar os ônibus parados à sua frente. Mas pensei: Não será hoje que o senhor me deixará aqui, sozinha em meio a desértica cidade em férias! O cosmo não triunfará! Então, corri. Até onde consegui porque, como eu já disse no twitter, há uma teoria rondando Sampa. Se eu estivesse afim de perder tempo procuraria a frase, mas foi algo assim: "A calçada é como a vida: sempre haverá alguém na sua frente para te atrasar." Olha, tão verdade.

Do nada apareceu na minha frente uma moça de vestidinho, sandália e sem bolsa. Bem aquele estilo não sou paulistana. Ela desceu do ônibus na minha frente e lá ela ficou com todo o tempo do mundo nas mãos, sem saber ao certo que destino tomaria: se para trás ou para frente; a calçada não proporcionava as opções laterais. Eu, sempre muito elegante, dei uma cotovelada e rosnei "com licença". Empinei o beiço e fui catar o ônibus à unha. Estiquei meu braço dando aquela corridinha miserável, enquanto o motorista virava o volante se preparando para a fuga. Fiz cara de quem correria atrás dele até ser atropelada em plena Vereador José Diniz, e ele parou meio a contra-gosto; a porta se abriu e entrei.


Sentei e lamentei muito ter esquecido meu bom e velho MP3 em casa. O caminho para a terapia sem As Claves da Gaveta ou Hide From The Sun não é a mesma coisa. Enfim, pelo menos comemorei o fato do ônibus estar vazio (alegria da plebe). Minhas preocupações, porém, murcharam quando presenciei uma cena e tanto no cruzamento com a Bandeirantes. Preocupações, hunf!, agora sinto vergonha delas. Por entre os carros andava uma menina segurando uma boneca em uma das mãos. A menina tinha, se muito, quatro aninhos. A mão livre ela usava para pedir dinheiro aos motoristas. Logo depois, quando o farol abriu, mais duas crianças se juntaram a ela: um menino ainda menor e outra garota de, talvez, 10 anos. Eu sei que isso não é novidade na cidade, mas a menininha com a boneca realmente mexeu comigo.

Ela serviu de estopim para uma série de pensamentos que me levaram, quase inconscientemente, para a terapia. Quando cheguei e cumprimentei minha terapeuta, disse: Olha, estou sem vontade nenhuma de deitar nesse divã e reclamar das mesmas coisas de sempre. Nenhuma vontade. Não comentei sobre a menina do farol porque isso seria o cúmulo do egoísmo. É muito fácil sentar em um divã e falar da pobreza alheia. Não, eu me sentiria a pessoa mais suja do mundo se tivesse feito isso; usado do sofrimento da menina para ser ainda mais fraca e hipócrita. Pagando ainda por cima. Quando aquela menina terá a mesma soma de dinheiro que vale uma sessão de terapia? E o que ela faria com esse dinheiro (se nenhum adulto filho da puta tirasse antes das mãos dela)? Senti que um saco de lixo reciclável valeria muito mais do que eu naquele momento.

Mas como disse antes: a menina serviu de estopim para meus pensamentos. Após descer do ônibus e caminhar pela calçada, passei por uma moça com uniforme de hospital ou qualquer firma que o valha. Não notei. Ela andava com os ombros caídos para frente, os cabelos ao vento; metade presos, metade soltos pelo rosto. Os olhos apagados, de quem há muito tempo se esqueceu que um dia foi jovem. Um rosto sem expressão alguma, de quem já se esqueceu da última vez que riu até perder o ar. Fiquei bagunçada, por assim dizer. Fiquei realmente bagunçada com aquela moça. Olhei para trás e ela seguia como um robô, só Deus sabe para onde e por qual razão. Só espero que ela saiba o que está fazendo. De verdade.

As pessoas perderam suas personalidades. Perderam a sede das perguntas e vivem, simplesmente, porque são condicionadas a isso. Felicidade: às custas do quê? Olhando para aquela menininha no farol, suja e com uma boneca sem cabelos e desnuda nos braços: felicidade às custas de quem? Nos sobrepomos uns por cima dos outros tentando alcançar a cereja do topo, mas gente, à troco de quê? Não pude deixar de lembrar da música O Mérito e o Monstro. Para onde essas pessoas estão indo e o que, afinal de contas, estão fazendo com suas vidas? Chegamos ao ponto de barbarizar vidas que sequer são nossas. Chegamos ao ponto de nos escondermos por trás da resposta "Mas eu não pedi para nascer". Já não sei mais se as pessoas estão caminhando para algum lugar ou fugindo de alguma coisa.

Felicidade? Para quem?!

10 comentários:

Ana Luísa disse...

Fiquei sem comentários, Del. O mundo está em uma eterna crise existencial, isso sim! :(

Carol disse...

Nossa é o tipo de coisa que também me chama atenção sempre que vejo na rua. Ao contrário do que a maioria das pessoas acham, pra mim não é algo banal. Sou/fui voluntária com crianças carentes e é simplesmente constrangedor (talvez essa não seja a palavra rs) saber do que crianças passam. E pior é saber que o ser humano continua extremamente ignorante e nem tem capacidade de enxergar isso.

L disse...

esses baques durante o dia realmente mexem com a gente,tornam a viagem as vezes sofridas. Mas o melhor talvez vc tenha feito que é passar pro papel o que sentiu e o que pensou. gostei do jeito que vc questionou tudo. ^^

Carol disse...

às vezes também vejo uma cena e começo a fazer um monte de perguntas pra mim mesma e fico refletindo enquanto posso. belo texto :)

Andreia disse...

Nem sei o que dizer depois de ler o post... Estamos tão aconchegados na zona de conforto reclamando sobre o quanto a vida está sendo injusta connosco, que tudo nos acontecer de mal, que Deus é isto, que Deus é aquilo que esquecemos que há gente em pior condições que nós.

Como passar por uma criança com cara de "estou a morrer de fome" e simplesmente fingir que não é nada connosco? :/

Sei que não é possível ajudar toda a gente, que há muita miséria escondida, daquele que ao simples olhar ninguém pensaria que mal tem o que comer em casa, que a única refeição que faz por dia é um simples prato de sopa - ou no pior dos casos - um pão sem nada.

Acho que é mais fácil dar um cêntimo a um mendigo que está a pedir na rua - que pode nem precisar tanto assim dele (por aqui há bastante assim) - do que entrar numa casa 'imundo' e dar um pouco de consolo a uma família que mal sabe como raios vão arranjar comida para alimentar os filhos que estão cheio de fome (Sim, estou a falar de uma parábola do Cristo! X_x). Ah, eu nem vou falar dos orfãos, porque então nunca mais me calaria!

Falaste em algum post que gostarias de criar uma ONG ou pelo fazer qualquer tipo e acho que aquele tópico combinava com tópico. Nada melhor que ajudar sem esperar nada em troca ne?

PRONTO, eu já me vou calar. Também, quem te mandar criar posts assim ne? =-= Pões os meus - poucos - neurónios a pensar, porra!!

Fran Carneiro disse...

Eu comecei a ler o seu post e quando você mencionou a menininha também lembrei de O Mérito e o Monstro.
E sinceramente, Del, não sei o que dizer. Mesmo. Gostaria muito, mas tenho a sensação de que nada será o suficiente para demonstrar o que sinto quando vejo cenas assim (ou leio descrições como a sua) ou então, que seja lá o que eu disser, soará hipócrita.

Paulinha disse...

Eu sempre leio seus textos (assino seu feed no reader) e acabo deixando de comentar aqui :/ Hoje, não deu. Acho que assim como a menina parada no meio da rua mexeu contigo de uma forma inexplicável, teu texto fez o mesmo comigo. Eu sou uma pessoa extremamente otimista, do tipo que muita gente pergunta 'porque raios essa menina tá tão feliz?'. Acho que é uma necessidade que eu tenho de me alegrar com tudo de pequeno que atravessa meu caminho, porque durante um tempo só conseguia ver o mundo em preto e branco. Daí que quando eu leio teus textos e/ou vejo cenas como as que tu descreveu nesse post, eu vejo meu mundo mais cinza, esse mundo que mesmo tão negro, eu como jornalista tento pintar de cores mil. E nessas horas não dá pra olhar de outro forma. Eu não acho ruim ver o mundo colorido e nem ruim que, de vez em quando, ele fique um pouco cinza. Mas acho péssimo essa sensação estúpida de descrença na humanidade que bate junto com ele e que me faz perguntar, afinal, como foi que tudo isso começou. Lamentável :/

Elizia Cavalcante disse...

Esse negócio de crise existencial é mesmo uma coisa, e fica ainda pior quando a gente escapa do círculo egoística dos nossos problemas e quer mudar o mundo, aí é que nos sentimos incapazes.

Camila disse...

"São tempos difíceis para os sonhadores"
E não são? :(

L.H.C disse...

Ontem quando entrei no ônibus entrou tbm um garoto de uns oito anos talvez pedindo esmola, não sei se eu fiquei meio assim pelo menino ou por mim por não ter nenhuma prata pra dar o garoto, ai falei pra Carol que tava comigo que dar uma esmola a ele não resolve o problema. Não sei, não consigo me sentir melhor por que alguém sempre vai estar numa situação pior =(

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