22 de fevereiro de 2012

O barulho da porta 15

O cara do 15. A única coisa que conheci desse cara foi o topo da cabeça começando a ficar careca quando o vi sair do prédio uma vez. Não, mentira, também conheci seu gosto musical. Todo sábado e domingo de manhã ele colocava Chico Buarque para tocar. As músicas eram repetidas várias e várias vezes. Eu, deitada na minha cama, ficava olhando para o teto e escutando. Virei fã de Chico Buarque por osmose, digamos assim. Também descobri que ele pedia pizza toda sexta-feira à noite. O motoboy subia ao nosso andar, tocava a campainha do 15 e sempre falava muito alto. "Sua pizza, senhor!". O andar ficava lotado com a voz do motoboy e com o cheiro da pizza. Só não sei o sabor; toda pizza tem cheiro de queijo quente, mesmo que seja de catupiry. Tirando esses detalhes, vejamos, acho que não sei mais nada sobre ele. Ah, sim! Os bilhetes.

Todo dia, ao acordar e ir para minha cozinha, eu encontrava um papel rosado na soleira da porta. Dobrado ao meio, o papel tinha cheiro de Bom Ar. No primeiro veio escrito "Bom dia!". É claro que eu não entendi de onde o recado vinha, quem havia escrito e qual era o motivo. Poderiam ser as crianças que moravam no mesmo andar que o meu, o porteiro sempre muito galanteador (apesar do bigodinho ridículo) ou engano. Minha autoestima, de prontidão, levantou a mãozinha e disse que era engano. Joguei fora. Mas a entrega do bilhete anônimo se repetiu na manhã seguinte e na outra. Reapareceu na soleira da minha porta frequentemente e quando vi, estava incluído na minha rotina. Quando dei por mim, levantava de manhã e corria para a porta de entrada do meu apartamento ansiosa para ler a mensagem do dia. Se quer saber, as entregas não falharam nem um dia sequer.

Sim, fiquei preocupada, curiosa, ressabiada. Queria descobrir e não queria ao mesmo tempo, porque se fosse realmente o porteiro... poxa vida, que tragédia. Caligrafia e mensagens tão doces não combinavam com aquele maldito bigode. Não que fosse algo extremamente poético, mas "você é linda, tenha um bom dia" e "se você sorriu agora, saiba que meu sol raiou" são frases mais lindas e sinceras do que qualquer rima. Não acha? Eu achei. Desvendar o mistério, então, não era simplesmente matar a curiosidade. Saber de tudo e todo era mudar minha vida. Era incluir alguém tão importante que se fez presente através de um pedaço de papel. O bichinho curió, porém, cutucou tão forte que um dia bem cedo acordei e fiquei de guarda na minha porta. Ela fechada, eu de braços cruzados sem saber exatamente o que estava fazendo.

Foi então que, em um domingo de inverno com o dia lá fora banhado em neblina, que assisti pela primeira vez o papel entrar pela soleira. Não, não abri a porta. A sensação gigantesca engoliu qualquer reação. Foi como ver meu coração entrar, se como alguém estivesse o devolvendo. Peguei o bilhete e ouvi os passos. Tênis. Ouvi a porta fechar e Chico Buarque tocar. Segui com o mesmo plano dias seguintes e não tive dúvida: sabe-se lá por que meu vizinho, o cara do 15, mandava em anônimo aqueles recados para mim. "Nas entrelinhas moramos você e eu" ele mandou uma vez, mas e explicação? Por que entrelinhas e não um parágrafo? "Do céu ao mar, teu olhar mergulha e voa em mim". O rosto! Eu tentei imaginar o rosto, e nada.

Tentei ver o rosto, e nada. Toquei, bati, chamei à porta do 15; o vizinho nunca estava e sempre fingiu não estar. Na portaria. De prontidão no corredor. Nada. Não me fiz de detetive para não me afundar no poço escuro da falta de respeito próprio. Não parei em frente ao prédio escondida. Ok, eu tentei, mas o porteiro veio puxar conversa e jogar seu olhar 42 e meio para cima de mim. Tática falha. Sim, claro que eu também mandei bilhetes por debaixo da porta dele! Uns ele respondia, outros não. "Por que não fala comigo?", eu escrevi. "Se a Humanidade te tocar é capaz de fugir, serena pombinha". Sempre assim, aéreo, perdido no mundo dele.

Em um dia de verão, quente, escaldante, havia um papel branco. Nele, nada além de "Devo ir. Levo você no bolso da camisa, do lado esquerdo. Ponto final". Fiquei pendurada na tênue linha do vou/não vou. Não fui. Esperei pelo dia seguinte. Nada de mensagem, e mais nada pelo resto da semana. Foi em uma tarde que o porteiro chegou e me pegou empurrando um bilhete por debaixo da porta 15. Ele perguntou, lógico, eu respondi (fazer o quê?). O porteiro retrucou "mas ele se mudou", e eu gelei. A felicidade fez as malas e foi embora. Fiquei sem entender. De todas as coisas que precisavam ser entendidas, não entendi nenhuma. O apartamento vazio, chave na minha mão. Procuravam um novo locador, e eu procurava tudo. Chico Buarque, caixas de pizza, uma mesa repleta de amor e pedaços de papel rosado. Um recipiente vazio de Bom Ar esquecido em qualquer espaço. Como sempre, nada. Um nada dentro do tudo que senti e sinto.

E não esqueço do barulho do papel deslizando para dentro do meu apartamento, o mísero 13. A canção. Dos barcos dele nos bilhetes, que sempre navegavam para "o bravo sorriso de menina corajosa". Muitas perguntas ficaram e machucam, é verdade, mas machuca - principalmente - o barulho que a porta 15 fez ao você sair da minha vida.

Texto grande, eu sei. Dá preguiça de ler tudo isso e, provavelmente, está bem chato. Não gosto de publicar histórias assim, mas essa achei valer a pena. Escrevo tão pouco dessa forma, não custa nada registrar no BC. Caro leitor, não tenha vergonha de dizer que não leu tudo, é melhor do que fazer um comentário genérico. A única coisa que exijo de quem comenta é a sinceridade. Pense nisso!

9 comentários:

Ana Luísa disse...

É verdade isso tudo? Fiquei super curiosa! Eu amei o texto e aguentaria firme se houvessem muito mais paragráfos! Me rendi totalmente à história da porta 15! É real?
Beijos!

Larissa L. disse...

Ai que curiosidade, Del!!!
Fiquei imaginando um cara de 30 e poucos anos, ainda usando all star da adolescência perdida...
De qualquer forma, é uma bonita história! Mas fiquei triste pelo desfecho, pois, por mais que ele fosse romântico, ele não teve coragem de se mostrar...!
Beijo grande!

Thay disse...

Agora fiquei pensando: será que ele estava apaixonado ou só queria deixar sorrisos na vida de alguém? Gostei muito do texto e continuaria lendo se tivesse mais parágrafos sem o menor problema. =]

Andreia disse...

Ah sim... A felicidade adora fazer as malas e ir embora, sem nem ao menos dizer adeus. D: Triste isto ne? C'est la vie. >.<

Eu gostei do texto. E devo ser das poucas (!!!) que o leu até ao fim. :P

E agora que o li, fiquei a imaginar se é verdade ou se é tudo tirado da tua imaginação. Porque tem tanto de verdade nele... '-'

Beijokas

Pri Bragança disse...

Del, eu li tudo e gostei. Fiquei tão curiosa em saber mais sobre o vizinho do 15. O texto não está nada chato, e você devia escrever mais assim.

:*

Um beijo, Pri.

L.H.C disse...

Yes, eu li tudo sim! Sabe eu adoro historinhas assim, também gosto de escrevê-las, mas não publico no IMP também, sei lá, enfim, você deveria escrever mais desse tipo, adorei!

nothingbutasong disse...

o texto me envolveu, não deu pra ler só o primeiro paragrafo e pular pro ultimo, me desculpa mas eu tive que ler todo :P

Voce tem uma super versatilidade pra escrever hein ?!

chico buarque, pizza e bilhetes misteriosos, uma mistura muito bacana !

enfim, dizer que gosto dos seus textos é cliche (;

Pablo disse...

que história linda, Del! li tudo sim, viu? SEMPRE leio!
fiquei imaginando como seria essa pessoa, hehehe! a curiosidade às vezes quase mata, né? mas às vezes é mais gostoso quase morrer todos os dias e ter um motivo pra sorrir, do que apenas viver sem papéis cheirando à bom ar!
gosto muito de quando posta assim! ",

Pablo disse...

a vírgula do emoction era pra parecer um sorrisinho de canto de boca... por algum motivo não pareceu!

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