15 de março de 2012

E tenho raiva de quem sabe

Texto escrito na terça-feira e postado só agora porque... sim.

Assim que abri os olhos, ainda deitada na cama, os fechei imediatamente logo depois. Não conseguia mantê-los abertos por causa de uma tontura; tudo girava e eu não conseguia me equilibrar. Chamei minha mãe, que insistiu em ser um sintoma de gripe, e continuei deitada até depois do almoço. Levantei, liguei o notebook e comecei a escrever. Em seguida, não sei que caralhada houve, o Tony avançou no Benjamin, que estava atrás de mim, me arrancando de uma das mais profundas concentrações. Meu coração disparou e meu tórax aqueceu. Esqueci de mencionar que meu humor não anda nos seus melhores dias, e ando irritada (TPM ou qualquer bosta que o valha). Deitei, com dor de cabeça e ainda zonza por causa da forte tontura. Nada de produtividade, nenhum sinal de vida inteligente. Desci e sentei na sala querendo relaxar um pouco. Assim que fechei os olhos e comecei a cair numa soneca, o Benjamin soltou um latido altíssimo, me fazendo pular do sofá a beira de um semi-ataque-cardíaco. Olha, eu detesto brigar com ele, mas esse cachorro foi digno de ouvir um "Filho da puta!"

Subi, entrei no meu quarto, e comecei a escrever novamente para sentir ao menos o sangue correndo nas veias. Visitei o Bonjour Circus, o senti vazio como nunca antes e quase deletei os poucos textos prontos. Minha mãe começou a se remexer pela casa, inquieta, cutucando aqui e acolá até que parou no meu quarto. Ocupou-se com qualquer coisa enquanto eu me ocupei com uma pesquisa qualquer no Google. De repente, ela grita. Eu, de sobressalto, quase caio da cadeira e sofro o segundo mini-infarto do dia.

— O que foi? - eu perguntei, crente de que ela havia perdido um braço devido ao grito.
— Nada, só derrubei água no chão!
— Vocês querem me matar... - eu comentei assim como quem não quer nada (porque nunca consegue porra nenhuma mesmo).

Agora, cá estou escrevendo este texto, com uma leve dor estomacal e a cabeça ainda mergulhada em um aquário (é a impressão que dá). Devo enfatizar que meu ciclo está atrasado há um mês, mas não é caso de preocupação; a única possibilidade paterna seria o Espírito Santo. Também preciso contar (apesar de ter um texto sobre isso jogado por aí), que semana passada passei muito nervoso em uma UBS onde me consulto com uma psiquiatra. E por fim, preciso avisar que comecei este texto pelo fim porque, afinal de contas, hoje é só um resultado do que venho passando a vida inteira mimimi nessa última semana.

Ontem foi a gota d'água. Comentei em outro texto que começaria a estudar novamente. Pois bem, o curso pré-vestibular era gratuito e tinha a duração de um ano. Mas, noite passada, recebi um email avisando que a escola está passando por reformas e os organizadores foram obrigados a reduzir a turma e, de forma legal (oui!), fizeram um sorteio. Preciso dizer que eu não estava na lista dos sorteados? Preciso contar que não vou mais fazer curso? Preciso explicar que o email estava banhado em sarcasmo cósmico e fedia a desculpa esfarrapada? Não, eu sei que não. Vocês já estão familiarizados com meu estilo de sobrevivência. Um simples email e a desorganização da organização (perceba) me colocaram, pela milionésima vez, de fora da competição.

Veja bem, eu vou completar 25 anos. Você até pode pensar diferente de mim, mas cursinho pré-vestibular e curso (tapa buraco) técnico não condizem mais com minha pressa de ser gente grande. Eu preciso de especialização para ontem. Aliás, tudo nesta idade deve estar pronto e mastigado para o dia anterior, qualquer exceção a regra é motivo para se desesperar. Mas eu havia me dado mais esta chance, na esperança de me animar ao longo do ano e confiar mais no meu potencial. Tomei esta decisão, apoiada por todo mundo, na tentativa de retomar o caminho que escolhi a ser trilhado. "Você não pode ser tão pessimista", eu disse para mim mesma. "Todo mundo merece mais uma chance", eu repito todas as vezes enquanto volto da terapia para casa. "Vai lá, é gratuito! Bem longe da sua casa, mas o que não é longe daquele buraco?", eu me encorajava. Eu estava pronta! Vivia a última semana que antecipava o início das aulas com ansiedade e altas expectativas. Dentro de mim, eu sempre soube, esta seria a última tentativa de entrar no mundo dos humanos.

Mas que tragédia, não entrei. Pela incapacidade alheia, mais uma vez. Eu gostaria de pedir ao cosmo para bater os pratos da bateria e reforçar a piada. Muito obrigada!

Enfim, meu estômago está me atacando como forma de protesto ao nervosismo o qual não posso sentir. Infelizmente, meu emocional não aguenta mais demanda alguma. Mesmo assim, eu ainda me enfio nessa roubada de fazer de conta que sou gente, e posso valer alguma coisa no futuro. Mesmo assim, coloco em risco minha fraqueza e aposto errado. E as pessoas ao meu redor continuam vivendo suas vidas e comprando seus carros. Enquanto estou de luto e todas as manhãs, ao acordar, faço um minuto de silêncio pelo meu próprio luto, o mundo insiste em girar. Cada vez mais me convenço de que nasci para ser palhaça, e que minha vida é de fato um circo. E é por aqui que eu fico. Sem querer escrever, sem ânimo para elaborar livros, sem vontade de alimentar o Bonjour Circus e querendo saber de merda nenhuma. O meu telefone está desligado, o quarto trancado, e eu cansei de brincar. Não sei nem quero saber onde estou ou em qual bueiro me enfiei; e tenho raiva de quem sabe!

11 comentários:

Thay disse...

Poxa Del... sinto muitíssimo pelo o que aconteceu no curso (e sobre os mini-infartos também, porque são terríveis)! Você estava tão animada para ter as aulas! Será que não existem outros cursinhos? Ou, não sei, alguma coisa on-line? Nossa, fiquei triste com a notícia - e furiosa também, que organização mequetrefe é essa? E sortear quem permanece é o cúmulo da sem-vergonhice! Sei lá, que dessem um jeito mas que não fizessem dessa forma amadora, deixando pessoas como você de fora. Queria ter coisas bonitas pra te dizer e que elas te confortassem, mas, poxa, eu realmente não tenho palavras. Só me resta te dizer que estou torcendo por você, tá bom? E que o mundo dá voltas, também. E, sei lá, precisando de alguma coisa é só dizer. Não há muito o que eu possa fazer via internet e tal, mas é só dizer. Fique firme! =]

Yuu disse...

Tem uma frase que a minha amiga sempre falava em ocasiões negativas: "o mundo conspira contra mim". Pouco depois, adotei essa frase como um lema. No terceiro ano do Ensino Médio, passei por uma situação similar a sua. No meio do ano, fiz uma prova de bolsa num cursinho pré-vestibular particular. Consegui 53% de desconto e me matriculei no período vespertino, que era o mais adequado para mim. Com a ansiedade mil, eu contava os dias para iniciar o cursinho e conseguir almejada a tão sonhada vaga na USP. Só que no dia anterior ao início das aulas a coordenadora me ligou, dizendo que eles não conseguiram um número x de alunos para abrir a sala e cancelaram a minha matrícula. E a minha reação foi de pura revolta.

Enfim, meu ano terminou pessimamente, mas atualmente estou conseguindo contornar os estragos e correr atrás do prejuízo. Torço para que você consiga fazer isso também. Independente da idade, acredito que o segredo não está em quando você faz, mas sim em como você faz. Não deixe o universo rir de você. :)

E desculpe pelo longo comentário!

Andreia disse...

Não há nada pior do que colocar as nossas expectativas em alguma coisa e descobri que não valia a pena fazer isso.

Imagino a tua frustração por saberes que fostes excluída antes de ter entrado, porque é o que me acontece com as ofertas de trabalho. ("Vamos escolher aquela porque está vestida com uma mini-saia e um decote enooooorme!!")

Mas olha pelo lado bom: se te fecharam a porta na cara antes mesmo de teres aberto a boca é porque há coisa melhor por aí. Muito melhor!

Não deves ficar desanimada e menos ainda desistir! Porque dizem por aí (tá, quem disse foi o Cristo) que quem busca achará. E eu acredito piamente nesta frase!

Coragem, Del! ;)

Nick Soad disse...

Del, isso já aconteceu comigo por 5 vezes.
E desde que, me entendo por gente, desconheço pessoa mais sem-sorte do que eu.
Veja bem, já ganhei 3 bolsas integrais em uma universidade particular. (Pelo Prouni) Da primeira vez, meu pai esqueceu de me avisar. Fiquei sabendo que tinha ganhado semanas depois. Já não dava mais. Tinha que comparecer no prazo.
As outras duas vezes, eu fui toda empolgada, estava feliz pela nota alta do Enem. Achei que daria certo.
Chegando lá, depois da mulher colocar a carroça na frente dos bois e dizer que não dava para fazer o curso que tinha escolhido. Me empurrou 2 cursos que jamais pensaria em fazer. E eu não quis.
Eu estava empolgada, eufórica, feliz da vida. Mas, não podia fazer um curso só para dizer "eu faço facul".
Queria cursar o que gosto, o que quero.
Esse ano, sabe-se lá porque, não consegui ver minha nota do Enem. Não me inscrevi no Prouni e não ganhei bolsa nenhuma.
Resultado: Mais um ano sem estudar.
Terminei meus estudos em 2007. Já estamos em 2012. E eu entendo muito bem a tua revolta, e o teu receio.
Mas, olha Del. Eu acredito que para tudo, tem a hora certa. Se não for para acontecer, não acontece.
Nós, seres-humanos, não temos a capacidade de entender o tempo, o destino e quando estamos prontos. A vontade que dá, é chutar o balde, mesmo.
Mas, se a nossa reação for essa, e desistirmos de lutar, não conseguiremos nada.
Desde pequena, eu sempre coloquei na minha cabeça, que só recebemos um presente, quando merecemos. E para merecer, devemos mostrar que realmente é aquilo que queremos. E que podemos fazer de tudo por aquilo e que vamos lutar até conseguir.
E podemos provar nosso real interesse, não desistindo. Não abandonando nossos sonhos.
Tente mais uma vez. Faça o Enem, consiga uma bolsa pelo Prouni. Tente em outro lugar. Mas, NÃO DESISTA!
Essas coisas acontecem. Muitas pessoas já passaram, passam ou vão passar por isso.
O que cabe a nós, é continuar lutando. Desistir no meio do caminho, não leva ninguém a nada.
Continuar tentando sim! Quando for a hora, dará certo.
Um pouquinho mais de paciência. Pois, há algo melhor reservado para você.

Del, me desculpe. Escrevi demais, agora. Se eu não estiver falando 'nada com nada', ignore. Sou rainha nisso. rs
Um beijo, boa sorte! Vai dar tudo certo! Acredite!

P.S: Estou digitando tão rápido, pois o pc fica desligando toda hora. Então, se tiver algo escrito errado. Ignore, também. :)

Camila disse...

Que mancada esse cursinho aí heim!
Se fosse só pra causar estresse era melhor nem ter aparecido ¬¬
Tomara, tomara mesmo que você consiga alguma outra coisa muito melhor que isso aí, e tomara que esse aí nem dure tempo nenhum. HUM! Sorteio... que vergonha alheia.

"A única possibilidade paterna seria o espirito santo."
hahaha não pude deixar de rir ^^

L.H.C disse...

'...eu ainda me enfio nessa roubada de fazer de conta que sou gente", desculpa a expressão, mas que bosta hein? Afinal, quando é que as coisas vão começar a dar certo para nós ham?

nothingbutasong disse...

aaaaaaaaaaaaaaaaah del :( ia dizer que estava torcendo tanto pra que tudo desse certo, mas é mentira, eu continuo torcendo, voce é muito mais inteligente que muita gente que eu convivo no colégio e cursinho, é uma pena que aqui seja uma droga e os filhinhos de papai monopolizem as universidades, bom, tem um site que disponibiliza videos e apolstilas que voce pode baixar e estudar, é tudo de graça, o link dele é esse aqui http://www.enemdicas.com/

Pri Bragança disse...

Pô, nessas horas eu sempre, sempre, fico sem palavras. Se nos conhecêssemos pessoalmente faria o meu bico, assim, meio de lado e, provavelmente contaria alguma piadinha sem graça.

Preciso te dizer que lembrei de você. Estava na Livraria Saraiva e vi um livro com alguma hist[oria sobre o circo.

Babi disse...

me sinto de forma parecida, mas sem razões concretas. às vezes eu queria entender se meu humor piora por coisas que aconteceram ou se meu mau-humor transforma em ruins as coisas que assim eu não deveria ver. não tenho solução pros seus problemas, del, mas também não sou dos que sabe (portanto, não há por que ter raiva de mim). e você sabe (e se não sabe, deveria saber) que é uma boa humana e que faz coisas boas; mas há coisas que o mundo nos cobra de modo cruel. como ter 25 anos e precisar dum curso disso ou de um certificado daquilo. e mesmo que isso não prove muito, a gente tem que ir atrás e às vezes provar pra nós mesmo. essa é a parte mais cruel. a de não fazer sentido e, mesmo assim, precisarmos dar um sentido a essa existência.

nothingbutasong disse...

del, li isso e lembrei de voce ! http://vestibular.brasilescola.com/noticias/cursinho-popular-usp-recebe-inscricoes-ate-26-marco/318769.html não sei onde voce mora, mas tem final de semana tambem (:

Duda - @cha_para_dois disse...

Durante muito tempo vivi no circo e fui a palhaça principal, digo, muito tempo (anos), eu já não fazia mais ninguém sorrir e não faz muito tempo as cobranças para fazer o meu papel de palhaça começaram.
Eu queria ser outra atração do circo, tudo menos ser palhaça... tinha cansado daquela maré de azar... Antes fossem leões, assim eu poderia ter pedido ajuda ao domador ou simplesmente ter me oferecido como prato principal.

Mas quando achei que aquele espetáculo sem fim estava longe de terminar, as cortinas se fecharam e o circo foi embora.
Pela primeira vez em muito tempo passei da atração principal para ser a espectadora e assim estou até então.

viva! agora eu posso aplaudir.

sei que uma hora você vai aplaudir, de pé e emocionada por você estar na platéia. Não desista :)

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