Onde está o nosso pai?


Via Trabalho Sujo.

Eu não gosto de falar sobre assuntos polêmicos. Tenho minhas opiniões formadas, acho importantíssima a discussão entre ambas as partes, mas o debate sempre termina em uma guerra de egos; as pessoas acreditam estar 100% corretas em sua posição, ninguém dá o braço a torcer e todos permanecem sentados em suas latrinas da Verdade Absoluta. Não adianta, perdemos a prática da argumentação. Estamos mais preocupados em demonstrar nosso nível intelectual do que defender qualquer que seja a causa. Por isso, prefiro manter certa distância da intolerância alheia, que só fomenta o politicamente correto (com valores equivocados, na maioria das vezes). Mas após assistir ao vídeo acima, senti uma leve vontade de partilhar com os leitores circenses de plantão a minha visão sobre o aborto; e ainda a respeito do próprio protesto.

Elisa é vocalista de uma banda feminista (nossa, que rima!) chamada Dominatrix. Na quarta-feira, dia 21, havia um protesto contra o aborto comandado por um bispo na Praça da Sé, aqui em Sampa. Não achei muitas informações sobre a notícia, senão essas que citei, mas talvez seja o bastante. O que importa de verdade é O Protesto Solitário de Elisa; nome que o vídeo recebeu em diversos blogs que comentaram o assunto. Com um cartaz escrito "Em memória as mulheres vítimas do aborto ilegal", a moça caminhou (de modo confiante, devo frisar!) dentre os participantes da manifestação do bispo e foi a única que levantou a opinião contrária, de quem apoia o aborto legalizado. Esse ato isolado me conquistou a atenção mais do que o objetivo em si. Indiferente do ponto de vista de cada um, qualquer corajoso o suficiente para tal atitude merece ser ouvido por quem tem o poder, ou a aproximação necessária, para solucionar o problema em questão. Eu penso assim. Nossa cidade, você há de convir, anda carente de heróis urbanos. Não estou falando sobre andar por aí usando uma capa ou fantasia de Batman, mas sobre enfrentar o absurdo.
É preciso ter pra ser ou não ser? Eis a questão. Ter direito ao corpo e ao proceder, sem inquisição. A impostura cega, absurda e imunda, a quem convém? Esta hetero-intolerância branca te faz refém.
Esse Mundo não Vale o Mundo, O Teatro Mágico.
Sejamos francos, o Brasil está crescendo economicamente, mas há muito tempo estagnou na cultura e educação. Sim, acredito que o aborto seja uma questão educacional, posto que a falta de conhecimento no assunto seja espantosa! Quase caí na bobagem de citar países que o legalizaram, porém preferi manter as ideias em terras tupiniquins; se acabo de dizer que estamos estacionados intelectualmente, é evidente que não há comparações com o Velho Mundo. De qualquer forma, o aborto não é considerado um crime se efetuado por um médico, quando a gravidez causa riscos a vida da mulher ou em decorrência de um estupro. Caso contrário, a mulher pode ser presa por até quatro anos (a pena chega a dez anos em alguns casos). Eu até poderia escrever algum clichê do tipo: "O Estado prefere que as mães abandonem seus bebês em um saco de lixo por não ter condições de criá-los", mas isto é uma desculpa tão cabível ao governo!

É imensamente mais fácil remediar um abandono do que prevenir o controle de natalidade. Basta cadastrar a criança e, se não houver um responsável para acolher, o incapaz é encaminhado ao conselho tutelar; um abrigo (porque somos tão primitivos que sequer chamamos de orfanato). Convenhamos, meus queridos bonjour circenses. Não digo que sou contra nem a favor do aborto, simplesmente porque isto diz respeito a cada um. É tão íntimo, que deve ser discutido apenas entre os interessados, ou somente entre a mulher e si mesma. Portanto, a proibição pode ser considerada inconstitucional. Impedir a mulher de comandar o próprio corpo e administrar sua vida contraria o direito de autonomia. Vocês sabem, vivemos na sociedade do cada um por si e Deus por todos. Não preciso exemplificar nossas dificuldades diárias e a luta por dignidade. Temos um salário mínimo de R$500, o sistema judiciário é falho, favelas ganham espaço e a única conduta do Estado é renomiar as "comunidades" e tampá-las com prédios miseráveis e sujos (os famosos Cingapuras). É isto que decência significa para o Poder. A indecência fica por nossa conta, que somos obrigados a passar por poucas e boas antes de comermos o pão de cada dia.

Infelizmente, o espelho da hipocrisia brasileira provocou grande reflexo nas escadas da Sé. Os intransigentes que tentaram abortar a manifestação isolada de Elisa são dignos de pena. Sim, pena perpétua de ignorância. Foi inútil a falsidade do bispo em dizer que "tudo bem, calma, estamos em uma democracia", posto que se deu ao trabalho de juntar um considerável número de estúpidos em uma tarde (que deveria ser de trabalho) na cidade de São Paulo. A proibição do aborto envolve centenas de dificuldades na saúde, educação, mercado de trabalho, moradia, saneamente básico... ou você acha que as mulheres obrigadas a levarem adiante uma gravidez tem todos os recursos necessários para parir uma criança? Não, elas tem somente a opção de criar meninos de rua, abandonados ou criminosos. Um país sem estrutura jamais será um pai de família. Os cristãos anestesiados pela doutrina do gado de corte (vivemos em um eterno abate) irão sofrer de demasiada preguiça em lutar cinco vezes mais para prolongar o direito de viver. Sequer nós, adultos, temos tal direito. O que diremos dos fetos indesejados!

É preciso rever o conceito de Vida no Brasil. O que é isso? Como se brinca? É coisa católica? O corpo feminino é um assunto urgentíssimo a ser discutido por terceiros, menos a quem convém. Enquanto uma mulher desesperada chora sem saber como agir diante de um momento tão delicado, manifestantes de olhos tampados se preocupam em cobrir o cartaz da causa de seu próximo. Irmãos? Não em um país sem pai. Como eu disse anteriormente, não cabe afirmar aqui se sou ou não a favor do aborto. Para mim, é uma questão a ser respondida quando acontecer comigo. Mas eu quero e exijo ter minha opção respeitada, até mesmo porque ninguém irá cuidar do meu filho senão eu. No caminho que o Brasil continua seguindo, nem o Estado se responsabiliza pelo cidadão, quanto mais pessoas egoístas que insistem em seguir um ideal utópico.

O pior aborto, caros assassinos (da democracia), é o da liberdade de escolha.

4 comentários:

Laura K. disse...

A questão é que o Estado defende a vida do nascituro (possível detentor da personalidade jurídica e do direito à vida como pessoa que será). Enfim, a mulher que engravida escolhe engravidar. Esta é a opinião do Estado e grande maioria das pessoas. Esquecem, porém, que o Estado não dá educação, não têm criado seres humanos com dignidade... Ainda não tenho opinião definida quanto ao aborto. É questão de saúde pública para as mulheres miseráveis, sem informações, sem qualquer educação ou expectativa de melhora de vida. Mas e as meninas "riquinhas" que o fazem por irresponsabilidade anterior?

L.H.C disse...

isso é realmente uma questão polêmica; acredito que seja fácil para alguém que nunca precisou tomar uma decisão desse porte dizer-se contra ou a favor; particularmente não tenho uma opinião formada a esse respeito, a discussão envolve temas religiosos, filosóficos, psicológicos, enfim, vai muito além de achismos sobre o que é certo e errado, mas sem dúvida, a ausência de uma base cultural sólida dificulta o processo.

Ba Moretti disse...

A questão deixou de ser o assunto em si e sim a falta de respeito das pessoas. Exatamente como disseste, estão mais preocupados em demonstrar seu nível intelectual no que na defesa da causa. Vi isso ainda essa semana em um post no meu blog (Indicando Ira Chernova, caso seja de interesse).

Adorei seu post, argumentou muitíssimo bem e fiquei admirada com a atitude da Elisa.

Thay disse...

Esse pessoal que participa de manifestações contra o aborto nunca se colocaram no lugar das mulheres que estão passando por uma gravidez que não desejaram. É muito mais fácil se dizer contra e fechar os olhos para o que acontece aos outros do que colocar a cabeça pra pensar no que realmente tudo isso significa. E você tem toda a razão quando diz que nosso país está estagnado na cultura e educação. De que adianta crescermos economicamente se nossa sociedade continua a mesma de antes? =/

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