4 de março de 2012

A problemática do casamento

Faz um bom tempo que ninguém me convida para um casório. Todos os primos se casaram e estão na fase dos filhos pequenos. Irmãos, sejam lá quantos forem (meu pai teve tanto filho que nem ele sabe quantos), estão na crise dos 50 anos de idade. Acredite se quiser. Há 1 milhão de anos-luz entre meu pai e minha mãe; os primeiros filhos dele tem a mesma idade que ela. Ou seja, eu sou o brotinho de feijão da família. Sou "a toda errada" porque cheguei tarde demais, cujo pai não queria mais filhos. Depois reclamam quando digo que nasci de chocadeira, mas o povo pouco se importa em saber da verdade.

Enfim.

Não tenho muitos amigos, e os gatos pingados não estão senis o suficiente para cometerem tal erro fatal. Estamos, todos, nos achando muito jovens e serelepes para pendurarmos nossas cabeças degoladas em plena praça pública. Esperemos. Inevitavelmente, as festas se esgotam no mais profundo mar de tédio. Mas nem por isso (ou justo por isso) vou deixar de comentar sobre essa comemoração religiosa ou civil. Terminei agora de fomentar minha decrépita coleção matrimonial; veja você, não tenho uma aliança em meu dedo nem mesmo uma argola de chaveiro que seja, mas mantenho guardadas fotos de vestidos, decorações e o escambal. Não é deprimente? Eu acho. É mais forte do que eu. Mais forte do que qualquer mulher, na verdade, porque esta é a única bosta de sonho que conseguimos alimentar sem pagar impostos ou dar para algum filho da puta.

Resumindo: fiquei com dor de cotovelo, dor de tia velha, e vou meter o pau.

De repente, você se depara com um convite em cima da mesa na sala. "Oh, céus! Fulana vai se casar, benhê!" Aquele convite enorme, não se sabe por qual motivo, com letras douradas provindas do curso de caligrafia do Steve Jobs. Nome do pai, da mãe, da parteira, do cara que entrega leite e o nome dos noivos: grandes e pomposos berrando nos seus olhos. Talvez para que ninguém tenha dúvida de quem está casando, no caso de famílias enormes, ou para todos ficarem consternados em uníssono ao verem um cara no altar que não seja o noivo, mas sim um morador de rua; arroz de festa nas horas oportunas. Deu para perceber que meu desagrado já começa no convite, né? E termina naquele pedaço de papel preso por um clips minúsculo, que leva sua imaginação dali para muito longe em uma morte terrível por engasgo - a lista de presentes. Tal lista facilita muita coisa, muita procura. Sei disso porque já ganhei dois presentes iguais e olha, é o mesmo que ganhar meias. Mesmo assim, eu teria muita vergonha de mandar isso para meus convidados; é possível que por conta disso eu coma no chão e cozinhe na fogueira por muitos meses, mas sem a lista ao menos todo mundo daria panos de prato, e eu teria com o que me vestir.

Então, começa a Corrida Maluca: as mulheres, ensandecidas, correm para a loja de aluguel mais próxima e pegam o primeiro tomara-que-caia-verde-musgo. Sabe aquele tecido assim, como posso explicar?, parece que alguém passou ferro quente e a roupa ficou com aquele brilho opaco horroroso. Esse tecido, por razões misteriosas, é o mais procurado e o mais visto. Mas de qualquer forma, #todoscorre atrás de vestimentas e acessórios parecendo que vão para uma tribo e não uma igreja. Só falta pintar duas listras em cada bochecha. Os homens, obviamente, ficam prontos antes das mulheres, que estão ocupadas escolhendo o sapato que mais aperta e a meia-calça rasgada. O cara liga e desliga o carro, faz um lanchinho na cozinha, confere os emails, dá um tapa no cabelo, mas não adianta querer matar o tempo: a mulher só irá aparecer quando ele sentar no sofá, ligar a TV e começar a assistir a final do Brasileirão. Fato.

Eu sempre fiquei mei'assim quando íamos para um casamento. Era pompa demais para uma criança, e mesmo depois de crescidinha isso teve um peso diferente. É aquela coisa, todo mundo se veste com roupa de missa ou para pegar o exame de fezes. A gente vai ao dentista fazer limpeza de tártaro, compra perfume novo, tira as bolsas de mão e as gravatas dos sacos plásticos e coloca no sol, dá aquela bronca básica no Santo Antônio (que vai direto para o freezer) e marca hora no salão de beleza. Trabalhamos a etiqueta que não temos, vivemos o comportamento social adequado do qual não entendemos lhufas, começamos a amar novamente os parentes que não se lembram da gente. O maridão lava o carro com os produtos certos ao invés de Omo. Até as pernas depilamos não é, meninas?! Coisa fina. Vamos animados para o enlace matrimonial esperando encontrar isto:


Não adianta, é a primeira coisa que vem à cabeça porque assim nos criou o senhor Walt Disney. Portanto, é normal a decepção no âmago da alma. Eu sei que dói encontrar as mesmas pessoas de sempre, muitas vezes com roupas do dia a dia (como o tio bêbado de camisa aberta, que toda família tem). A igreja está repleta de rosas murchas e colunas de mármore falso (que alguma criança irá derrubar), o tapete poído no chão, o padre coçando um olho, as tias se abanando com leques cheios de strass, e todo mundo reclamando que não tem onde estacionar! Sua expectativa de uma singela obra de arte vai para uma apresentação de Power Point. Uma lástima, certamente.

Eu até gostaria de descrever as festas, mas acho que tudo acaba se resumindo na noiva, que parece um borrão de chantilly. Você sabe que terá bem-casados, e que alguém colocará uns 30 na bolsa. Daí a nova moda é comprar brinquedinhos que brilham e que, em um piscar de desatenção, achamos que são objetos do Sex Shop. Os noivos ensaiam uma dança "diferente", que com certeza acometeu na primeira grande briga deles, já que o noivo não quer parecer gay. "Você é mesmo um insensível!", a noiva vocifera. "Mas o insensível te ama!"

Ah, os pombinhos...
Tão previsíveis.

12 comentários:

Ana Luísa disse...

Ah, hahaha! E esse é um dos meus maiores sonhos, desde pequenina!

Laura K. disse...

A festa toda é uma delícia, mas os preparativos um só terror. Porém, com casamento ou sem o melhor de tudo é a companhia do amado.

Blank Space disse...

Nunca tive vontade de me casar e até hoje rejeito a idéia - creio que por muito observar casamentos que não geraram histórias muito felizes, digamos assim - mas também não digo que nunca vou me casar porque nunca se sabe, não é. O que mais me incomoda é que em pleno 2012 as pessoas ficam CHOCADAS e acham a coisa mais bizarra do mundo quando digo que não tenho vontade de me casar e coloco outras questões como prioridade. "Mulher que não sonha com casamento de véu e grinalda? Joga no hospício!". Infelizmente a sociedade brasileira ainda é muito conservadora e machista para aceitar opiniões "absurdas" como a minha.

Carlos disse...

o casamento é uma coisa que só existe ainda pelos resquícios religiosos da civilização. de resto, não tem nenhum sentido. é ridículo, uma farsa sem fim.
pelo menos raramente surgem convites pra um. pessoas próximas parecem estar aprendendo...

Nina Vieira disse...

Nunca fui para um casamento. Até fiquei feliz com a primeira oportunidade, quando minha irmã mais velha convidou-me para ser sua amdrinha. E eu vestiria um lindo modelo que parecia um espartilho vermelho e, ainda por cima, era curto. Mas não rolou. E hoje, eu casei (entende-se como juntei) e minha irmã, quem diria, ficou para a titia. Abraços!

Pri Bragança disse...

Eu casei. Casei há quase um ano depois de um namoro de 8. Sempre sonhei em casar e meu marido me acompanhou nessa jornada árdua que vai dos preparativos aos "Sim". Tive cerimônia ecumênica, pois sou espírita e meu marido não tem religião - mas casei de branco. Tive festa e tive lua de mel em Paris. Mas o casamento em si, não tem nada a ver com nenhum momento precedente à cerimônia. É um aprendizado diário de paciência, respeito e liberdade. Eu gosto muito de estar casada e espero permanecer assim, pelo menos até que um dos dois não esteja mais feliz.

Nick Soad disse...

Acho que não querer casar por medo de não dar certo, é melhor nem tentar.
Esse é erro!
A pessoa é pessimista antes mesmo de ter um anel no dedo.
Algumas pessoas, hoje em dia, já casam pensando em se separar. Em quem vai ficar com a casa, com o carro, com as contas.
O fato de alguns casamentos não darem certo, não significa absolutamente nada. Muito menos, significa uma farsa.
Não deu certo, porque não era pra dar, poxa!
Assim, como no 'namoro'. Não deu certo com esse ou com aquele, porque não era a pessoa certa.
O fato é que já é difícil entender a nós mesmos, e aceitar os nossos próprios defeitos. Então, fica mais difícil ainda quando você tem que entender e aceitar a outra pessoa com seus defeitos. Com suas manias de jogar a toalha molhada em cima da cama, não colocar a roupa suja no cesto... E assim por diante.
Para mim, quem se une a alguém, acredita que dará certo, se esforça para isso, é muito digno de admiração.
Pois, é muito fácil se separar. É muito fácil começar uma briga. Mas, é difícil 'manter' uma relação estável, sem aqueles 'eu sou assim e ponto'.
Quem consegue 'viver bem' após o casamento, tem meus sinceros parabéns.

PQP, escrevi um texto. Desculpa aí, Del.
Mas, é meu sonho. #Sacomé né

Um beijo:*

L.H.C disse...

Eu nunca fui convidada para um casório, quer dizer, uma vez fui, ms não deu pra comparecer, mas quer saber, eu acho estas convenções sociais tão enfadonhas e não tenho a menor vontade de me meter num vestido longo e ter trocentas pessoas me encarando e comentando sobre a fatídica vestimentas

Thay disse...

Quando você mencionou Walt Disney no seu texto lembrei de uma coisa que sempre digo: os maiores culpados por eu ser essa romântica incorrigível são, sem dúvidas, os clássicos Disney. É, eu sei, mesmo que o casamento já seja uma coisa ultrapassada e que, ao meu ver, acontece mais para que os outros participem (vai dizer, que noiva aproveita tudo da sua festa?) eu ainda o quero. XD Mas também não quero essas super festas para 800 convidados, meu casamento ideal é bastante minimalista e com vestido a la Gracy Kelly. Não tem o que fazer, é mais forte do que eu.
Beijo, Del!

Nick Soad disse...

Acabei falando da vida de casado e não da cerimônia. Agora que eu percebi. Acho que foi muito sol na cabeça. rs

Duda - @cha_para_dois disse...

Não sou casada, tenho namorado, mas não sei se irei me casar... mas olha, acho que quero, pois sou filha unica, nem pra tia poderei ficar.

Mas tenho algo em mente... não convidarei parentes! Só pai e mae... e se duvidar nem meu pai iria... (só obrigado). Não sei se é trauma de todos os casórios que fui... sempre a mesma coisa. E a maioria fica lá fazendo aquela cara que esta adorando... ai ai...
todo esse resultado seria culpa dos pombinhos?

Andreia disse...

Pois é! EWsperamos encontrar um conto de fadas - como o casamento da Cinderela - e tropeçamos com um filme de terror.

Eu nunca hei-de gostar de casamentos. Para mim, casório só quer dizer uma coisa: muitos pindéricos juntos no só local.

Sei lá... não consigo achar a piada a este ritual que tanto enlouquece os outros. :/

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