— Você percebeu que está correndo mais atrás do que quer para sua vida? - foi a pergunta que minha psicóloga fez.
Eu disse a ela que sempre sonhei em estudar, mais precisamente, desde a época em que entrei no ensino médio. Meu pai me matriculou em uma das piores escolas do bairro, onde não havia professores e os que sobreviveram davam aulas só para cumprir o protocolo. Os alunos eram aprovados ou reprovados por faltas e não notas; e em sua maioria eram do tipo que se tornam pais aos 16 anos, soltam bombas caseiras dentro da escola pela diversão da coisa, pulam o muro e outros comportamentos do tipo. Eu, completamente perdida, fiz o que pude. Infelizmente, não foi o suficiente para nenhuma universidade ou emprego decente. Quando me formei, estava sem rumo nem objetivos. A única opção que sobrou foi trabalhar atrás de um balcão. Não desmereço nenhuma profissão, feio é não trabalhar, mas o tombo da expectativa foi dolorido. Acho que uma botina militar na bunda seria melhor.
Eu sempre quis escrever, fazer dezenas de cursos e aprender milhares de coisas. Foi a única coisa que eu almejei, deixando de lado o dinheiro e uma carreira profissional brilhante. Sucesso para mim é algo solúvel e depende muito do ponto de vista das pessoas. Já o conhecimento e a satisfação oferecem uma paz de espiríto mais autêntica. Aos 18 anos de idade tive que abandonar os estudos e me encontrei sem ter nada a oferecer para os outros. Eu sabia pouco, não podia correr atrás do atraso e comecei a sofrer com os primeiros sintomas depressivos; o que só cavou meu buraco com mais rapidez (ou seria avidez?). Comecei a procurar qualquer coisa e nisso de está bom assim fui vivendo e sentindo que eu realmente era qualquer uma.
Daí meu pai comprou um carro novo. Depois sofremos um acidente, que deu PT. Então, com o dinheiro do seguro, eu pensei: Agora vai! Temos dinheiro para minha universidade. E não é que eu tomei outro tombo?! Ele comprou outro carro. Fui covarde o suficiente para não dar nomes aos bois e assim tudo ficou. Um carro na garagem e eu trabalhando para sobreviver. Estudo? Eu mal consigo me sustentar, quanto mais estudar. Mas temos um carro na garagem! Por isso, quando vejo propagandas de automóveis ou pessoas economizando (e deixando de comer) para comprar um carro, meu sangue ferve e queima minhas têmporas. Ou é muita burrice, ou o Capitalismo atingiu seu limite. Algo me diz que nunca saberemos. É uma corrida desenfreada pelo status que, acredita-se, nos levará para algum lugar melhor. Reza a lenda que um carro do ano na garagem, ou mesmo um popular 0km, é tiro e queda para o fim da impotência do caráter e o câncer da alma.
Pois bem, voltemos a psicóloga. Ela reparou que finalmente estou em busca daquilo que me dá prazer. Aos trancos e barrancos, mas enfim atrás de alguma coisa que me tire do atoleiro. Sigo um caminho longo, cheio de buracos, pedrinhas que entram no sapato e cercado por um matagal de dar medo. Não é o que escolhi, mas é o Plano B. Isso mesmo, Plano Bosta! Todo dia, quando chego em casa, me deparo com o carro estacionado na garagem. Ele não sai de lá. Meu pai, após o acidente, só usa a Máquina do Status para fazer compras (e de muito mau humor). Minha mãe e eu não queremos mais entrar com ele dentro do automóvel porque percebemos que seus reflexos não são mais os mesmos. Prezamos por nossas vidas, apesar de demonstrarmos o contrário. Na terceira idade, ele não se tocou que não consegue mais dirigir, e se prendeu a um bem material para justificar a ausência de conteúdo e sabedoria.
É uma coisa que machuca, esta displicência paternal. Estou acostumada a me virar sozinha desde cedo, já que nunca tive uma figura paterna ativa, mas uma ajudinha não cairia mal! Afinal, o ser humano está aí para isso: descomplicar. Não é? Deveria ser, caro leitor circense. Este ano começo um curso pré-vestibular. É, pela terceira ou quarta vez; parei de contar. Aos 25 anos, terei que me sentar entre os adolescentes para futuramente conseguir uma bolsa integral ou uma universidade pública. Caso contrário, não irei estudar mais uma vez. E mais uma vez as quatro rodas irão ligar os faróis altos e rir desgraçadamente da minha cara. O carro tem a sonoridade do escárnio do meu pai. Ambos curtem com minha cara, mas é no rabo deles que enfiarei o canudo do meu diploma. Valerá o desperdício!
— Percebi, doutora! - respondi. - Vai ser difícil, mas vou conseguir fazer meu valor como pessoa atingir a importância de um carro!




10 comentários:
Del, muitas vezes venho aqui, leio os teus posts e não comento, mas dessa vez não pude deixar de comentar.
Ontem fui à primeira consulta com uma psicóloga, ela já me deu logo um tapa na cara (figura de linguagem, é claro) e, claro, eu chorei muito. Posso dizer que me vi inteira dentro desse texto. Poucos textos fizeram isso comigo mas tenho que falar que quase sempre me vejo nos teus.
Estou nessa situação: 5 vestibulares, 5 fracassos. Eu quero estudar, mas simplesmente não tenho ânimo. Estou na fase do está bem assim e sendo qualquer uma, procurando um 'emprego temporário' e que, mesmo assim, está difícil de encontar. Resultado: o buraco tá ficando maior. E venho cavando-o desde os 18 também (separadas ao nascer? haha).
Quando a psicóloga perguntou se meu pai não podia me pagar um cursinho, eu simplesmente chorei mais ainda. Tive vontade de dizer "Aquele bosta só quer saber do próprio umbigo" , porém deixei pra lá (não deveria, mas...). Enfim, uma ajudinha não cairia mal mesmo. Mas fazer o quê? O "engraçado" é que também fui trocada por um carro. Como eu costumo dizer: é showzis! :D
7 de março de 2012 13:57
del, te desejo muito sucesso! realmente deve ter sido muito complicado pra você, e ainda é! mas estou torcendo pra que tudo dê certo na sua vida.
se depender da forma que você escreve, com certeza vai conseguiu muita coisa boa!
qualquer coisa, estamos aqui para ouvir (ler) se precisar desabafar!
7 de março de 2012 13:59
del, que textão.
digo textãom não por ser comprido, mas por tudo que ele diz. acho que precisava escutar isso tudo, até pra ver que nossos problemas podem ficar pequenos quando comparados aos outros. que bom que força de vontade não lhe falta. isso é o mais importante.
beijos
7 de março de 2012 14:47
Não vou usar aquela frase estereotipada "eu entendo-te", porque bem, só estando na pele da pessoa é que dá para saber com exactidão aquilo que está a passar.
Eu não sei o que é querer ajuda dos pais e não a ter, porque para a minha vergonha o meu sempre preferiu me dar dinheiro do que me ver a trabalhar num empregozinho (desculpa a expressão) de merda. Sei lá.... Talvez porque mesmo 23 anos ele ainda me veja como uma criança? Ou talvez seja excesso de sobreproteção.
Mas acho que são as dificuldades as que nos fazem crescer, e mesm ele me protegendo tanto, ainda assim me deixa dar os "tombos da vida", pois sabe que preciso deles para crescer.
Acho que não te deves desanimar. Sempre vem o amanhecer depois de uma noite muito escura. E a verdade, é que há sempre uma luz ao fundo do túnel.
O importante mesmo é viver um dia de cada vez; porque do resto a vida lá se encarrega.
São os meus conselhos. (Péssimos eu sei. <.<)
Beijokas
7 de março de 2012 14:48
Oh Del, cada vez eu tenho mais certeza que você poderia ser minha melhor amiga de infância, tipo, já vivi um bocado de coisa parecida, e ainda vivo. A escola onde eu terminei o ensino médio era um caos e eu tive que me virar sozinha para estudar pro vestibular, cursinho, nem sei o que é isso, são apenas aqueles filihnhos de papai usando as camisetas das escolas particulares onde eu nunca entrei, mas enfim, mesmo estudando por conta própria consegui entrar numa universidade pública, e aos trancos e barrancos terminar o curso e começar outro, e blá-blá-blá. Eu tenho certeza que você vi conseguir, sem aquela baboseira de augusto Cury, você tem um objetivo e sabe o que fazer para alcançá-lo, just do it!
7 de março de 2012 19:20
Adorei o texto! Vi algumas semelhanças com a minha vida, não exatamente quanto às mesmas pessoas e situação, mas a ter que enfrentar dificuldades para conseguir seu espaço e não ter muita ajuda dos que te cercam. Porém, não nos resta muita alternativa a não ser tentar. Espero que nesta tentativa você consiga alcançar seus objetivos mesmo com essas dificuldades e ter sucesso no que quer que você decida fazer. Beijos
7 de março de 2012 23:02
Del,
penso que você é uma guerreira por ainda correr atrás daquilo quec quer. E não pense em desistir, o melhor exemplo que temos para nós é o reflexo no espelho, nao procure ficar amargurada. De forma alguma. Quem faz o seu futuro é você. Digo isso porque tambem nao tive uma figura paterna presente, mas pude superar tudo. Um beijo enorme e abraço apertado!
8 de março de 2012 11:51
Ai Del, é por essas e outras que a admiro! E muitíssimo! Mesmo com todas as pedras no meio da caminho, você continua seguindo em frente. E se você sabe qual é o seu objetivo e o que tem que fazer para alcançá-lo, metade dos problemas estão resolvidos. E, assim, mesmo que você não tenha o apoio paterno, acredito que existam outras pessoas torcendo por você, não é? É só ver pelos comentários acima, hehe. Beijão!
8 de março de 2012 20:49
Posso saber o que queres cursar Del? Queria MUITO ter me graduado em letras. Mas por obrigação estou graduada em direito. Faça o que vocês gosta, pois agora estou perdida, sei nem por onde recomeço. Não tenho vontade nem ânimo de trabalhar em nada na área, está cada dia mais difícil estudar pra passar em algum concurso público (é a única saída pra liberdade e poder escolher estudar algo que realmente me faça feliz).
9 de março de 2012 17:50
Tô muito orgulhosa de você, e torcendo muito para que você consiga o quer. Você merece muito!
Para o que precisar, pode contar comigo!
beijo
10 de março de 2012 23:17
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