2 de março de 2012

Veja os macacos que somos!

Pensem o que quiserem pensar, mas comecei a ler Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, por causa d'O Teatro Mágico. Isso mesmo, sou uma irrevogável raruxa. Influenciada por meu palhaço, adicionei este e também o Sonho de Uma Flauta na minha lista de livros. Não somente por Fernando Anitelli ter citado, mas principalmente por querer conhecer cada vez mais autores. Tudo se torna oportunidade para acrescentar minha lista e, consequentemente, minha bagagem literária; seja por influências ou por curiosidade.

Infelizmente não comprei o livro, mas o baixei. Passei a acreditar que alguns ebooks tem qualidade inferior se comparados com os livros físicos, por isso tenho frequentado bem mais os sebos da cidade. Além do mais, a internet (ainda?) não nos oferece o cheiro dos livros! Mas tudo bem, me conformei com o é o que tem para hoje e li o ebook mesmo.

Este será um texto difícil de ser escrito. Não faço a menor ideia de como irei fazer para não colar uma citação após a outra, pois o livro inteiro me encantou como um reflexo no espelho. Sim, eu me identifiquei com tantas passagens, que não sei o que escrever aqui senão o que Hesse escreveu no livro. Talvez eu apenas imite aqui o que Harry Haller foi. Provavelmente, portanto, este texto será uma maçada! (como diria o Jacinto)
Mas intimamente, na alma, esse homem nos perturbou e prejudicou, tanto à minha tia quanto a mim, e, a bem dizer, até hoje ainda não consegui me libertar dele. Às vezes, ainda sonho com ele, e sinto-me profundamente perturbado e inquieto por sua causa e pela simples existência de um ser assim (...)
Ler o Lobo da Estepe e participar de uma oficina de texto ao mesmo tempo foi a melhor coisa que fiz. O livro levou minhas narrativas como folha em água de chuva! Eu nunca tinha sentido tamanha facilidade para me expressar e romancear meus contos. Harry Haller não só fez com que eu me identificasse com ele como também me ajudou absurdamente nos textos, que agora tem muito mais corpo e variedades. É, sem dúvidas, um personagem que ficará marcado para o resto da vida; casto e inteligente, porém, na medida errada. Harry leva as coisas muito a sério e sofre por isso, pois não consegue experimentar e aproveitar os simples prazeres. Tão pouco consegue se encaixar dentre as pessoas, já que todas vivem entorpecidas ao estilo da burguesia; o qual o protagonista foge como o diabo da cruz.

Não pude deixar de sentir certo incômodo durante a discussão sobre a estátua de Goethe, que decorava a casa de um amigo. Harry sentiu-se extremamente puto com a falsa apresentação do poeta, que nada tinha de simpático e subalterno, demonstrando a pura característica de um lobo da estepe: a dura e crua realidade dos fatos desprotegida do dom de ser um devotado burguês. Portanto, ele luta ferozmente contra o lobo que o habita e se sente um traidor ao gozar dos mesmos prazeres triviais que mantém os outros adormecidos. Essa culpa, a fuga de si mesmo e a caça pela perfeição humana couberam como luva em mim, que desde muito cedo me imponho cobranças inexistentes. Assim como Hesse descreve no livro, o lobo arreganha seus dentes pontiagudos e ri ironicamente do homem tentando se sobressair ao selvagem, tentando se manter nas rédeas do pensamento claro e objetivo, e se esquivar da brutalidade do lobo; um animal feroz e corajoso, que não teme as consequências de seus atos, tão pouco se importa com o certo e errado impostos pela sociedade.

Um livro fantástico! Não tenho outra coisa a dizer. Perfeito do início ao fim, o Lobo da Estepe descreve minimamente o conflito espiritual de um homem velho, aquém da vida comum e às margens da insensível existência. O maior medo de Harry era se transformar em um homem mundano (creio eu, medo de gostar da coisa, se me permitem). Este livro é o meu divisor de águas na literatura, sem a menor dúvida! Jamais imaginei encontrar tantos pensamentos íntimos meus descritos em detalhes numa leitura fácil e gostosa. Até mesmo Mozart, meu amado, volte e meia é citado como o preferido do personagem. Acompanhei um intelectual cheio de si e mimado ter suas convicções arrebatadas pela simpleza da vida. Isso não tem valor!
E assim para tudo o mais, Harry Haller se atribuíra um prodigioso papel de idealista e desprezador do mundo, de melancólico solitário e de profeta tonitruante, mas no íntimo era um burguês, capaz de censurar uma vida (...)
Talvez seja impressão minha, mas o escritor perdeu um pouco do tom ao incluir Hermínia na história. Apesar de achá-la interessante e de ser, no fim das contas, uma ótima base para a mudança de Harry, sua presença e o final que teve foram desgostosos. Digamos que Hesse tenha deixado algo em aberto mais acentuado do que o pretendido. Mesmo assim, Hermínia serviu de contra ponto para Harry, e equilibrou os dois mundos. Além do mais, foi através dela que o protagonista conheceu, por fim, o que mais lhe importava!

Então, descobri do que realmente se trata o teatro mágico; não a trupe de Fernando Anitelli, mas as raízes de sua inspiração! Um lugar de fato mágico, com todas as possibilidades e até mesmo aquelas inventadas, que não se sobrepõe no nosso mundo inóspito de realidade. É um teatro físico, porém ilusório, que - como o autor mesmo afirma - trata-se de redenção e crença, ao invés de morte e desesperança. Muitas pessoas podem interpretar o livro de diversas maneiras, mas creio que ao final dele todos concordamos em uma única coisa: no humor!

Você também quer conhecer o verdadeiro Teatro Mágico?
A entrada é só para raros, só para os loucos!

2 comentários:

Larissa L. disse...

Também li este livro por conta d'O Teatro! Mas fiz questão de ler alguns outros do Hesse, por causa daquela coisa de trilogia da construção da alma, rs... Quando peguei O Lobo pela primeira vez foi como se sentisse que ainda não estava pronta para ele... mas quando estava, simplesmente foi de uma identificação com tudo...
E também senti como se fosse um divisor de águas, mas na minha alma... desde que tinha lido Sidarta, do Hesse também, nunca tinha sentido algo parecido...
Interessante como só alguns livros fazem isso com a gente! Mas é ótimo poder 'esbarrar' com eles pelo nosso caminho!!
Beijosss

L.H.C disse...

eu me identifiquei com a descrição do personagem no quarto parágrafo, acho que vou querer ler também esse livro ai, em e-book também por que a crise econômica é grave

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