19 de março de 2012

Violeta

Era uma vez, uma menina pálida como a mais nova rosa branca de primavera. Desabrochada sobre o parapeito da janela, sua ocupação era sonhar. Com a ponta dos dedos, arrastava as nuvens no céu e formava castelos, cavalos, coelhos e lindos campos de flores, todos ensolarados pelo maior sol do mundo! Seus lábios, da cor de sua pele, tremulavam vez e outra uma canção muda e isolada. Não podia, a pequena menina, cantar a plenos pulmões, pois temia acordar do sono o Grande Monstro.

Imaginemos, caro leitor:

Havia em um vasto campo seco uma única torre coberta por ervas venenosas. Ao redor desta torre, habitava uma árvore magrinha, tão doentinha, que já não brotava mais vida. Muito bem. No topo ficava nossa protagonista, descrita como a flor enraizada à beira da janela. No pé da fortaleza vivia um monstro! Olhos vermelhos em fogo, uma boca repleta de dentes sanguinolentos, corpo de dragão e cabeça de touro. Chamado de O Grande Monstro pela menina, ele permanecia todo o tempo adormecido na saída da torre. Nada entrava, nada saía. Às vezes era possível ouvir seu ronco de longe, muito longe, em terras que nossa personagem jamais imaginou visitar. As pessoas, aterrorizadas, rezavam fervorosamente a cada ronco ouvido e temiam o fim dos tempos. As senhoras faziam o sinal da cruz, as crianças escondiam-se debaixo das saias, os homens afiavam suas espadas e bravos cuspiam no chão. Ninguém imaginava que sob o poder de terrível criatura sobrevivia uma bela flor.

Violeta!

A menina chamava-se Violeta. Desde o dia em que viu passar aos pés de sua morada uma trupe de circo, ela rodopiava e rodopiava e rodopiava ao redor de seu quarto, fingindo ser uma bailarina ou estar sobre a cabeça de um elefante. Ah, como o tempo parou após a passagem de toda a alegria que a companhia circense lhe proporcionou! Os ponteiros do relógio pareciam velhos e encurvados, tentando com toda a força ir para frente, enquanto a vontade era deitar-se e afundar. Não preciso contar-lhes que esta também era a vontade de Violeta, que definhava a cada dia presa naquela torre. Porém, a fantasia da impossibilidade na arte do circo a mantinha viva! Ela queria e almejava fugir para assistir ao espetáculo, qualquer dia desses. Se Deus quisesse, Grande Monstro dormiria além da conta e ela correria e seria empurrada pela rachada de suas ventas diretamente pela porta; para o outro lado onde o mundo estava aberto e vivo.

Embora tivesse medo dos espinhos que ladeavam a torre, nossa pequena menina desejava voar a plenas asas de encontro ao topo da tenda, que erguia-se diante do horizonte fazendo vista para os olhos serenos da pombinha. Certos dias ouvia-se a música, outros ouvia-se o tilintar da sobrevivência da trupe, e ainda em alguns momentos abalados via-se ao longe um palhaço dançar. Ele dançava ao cortar batatas. Dançava ao dar banho no cavalo, e enquanto limpava os sapatos, maquiava-se dançando e também ao colher maçãs exageradamente vermelhas das árvores próximas. Violeta, sentindo-se infeliz, curtiu o gosto da fruta pela imaginação. Dava-lhe água na boca; o palhaço e a maçã, pois ambos gritavam saúde e alegria, sem a menor pretensão. Visivelmente, nada havia sob os domínios do homem de rosto pintado senão uma tenda furada de cores desbotadas e um cavalo velho. Entretanto, a menina pensou amargamente, ele possuia muito mais do que ela própria.

Um dia, o sol escondeu-se todo envergonhado da chuva. Estes dois foliões há muito se enamoravam! Chovia, o sol sumia. Ensolarava, a chuva minguava. O que é o amor senão um chove e não molha? Neste dia, Violeta acordou com um estrondoso ronco do Grande Monstro; tão alto, que seus ossinhos encolheram-se na insignificância. "Oh, Deus! Mas que diabos!" Levantou-se dentre blasfêmias embirradas e desceu as escadas de mármore enregelado. Pé ante pé. Pé ante pé. Pé ante pé. O coração e a ponta dos dedos fizeram música. Pé ante Pé. Tumtum tumtum. O monstro dormia o sono dos justos! Angelical como o próprio Lucifer, após cair na Terra. Era de dar gosto! "Corra!", e a menina correu. Os pés não tocavam o chão, que diluiu na velocidade. Os cabelos, os braços, a respiração - tudo perdeu controle; a porta abriu-se. O campo sorriu. Violeta aproximou-se da tenda. Aproximou-se do palhaço. Aproximou-se de si mesma. E caiu sem forças na grama molhada.

Ao abrir os olhinhos aflitos, o palhaço assoviou. "É em pé que se vive, moça!", ele brincou ao ajudá-la a se levantar. Violeta olhou para traz e vislumbrou a torre desmoronar pedra sobre pedra; a menina perdeu-se no mundo e não tinha mais onde ficar. Por um segundo, ouviu o rugido feroz do Grande Monstro, que sentia sua falta; e nunca mais olhou para trás. "Não sei de onde veio, mas isto não é lá problema meu. Só sei que parece uma flor que o vento tirou para dançar!" As bochechas de menina que jamais sorriu doeram com o firme e abrangente sorriso. "Posso ficar?" O palhaço olhou de contramão. "De onde veio?", perguntou. Violeta, de prontidão foi sincera - "Do inferno!" Reparou, então, que no rosto do palhaço haviam alguns pontos de lágrimas secas. "É um bom lugar.", ele retrucou, "Faz calor e somos isentos da responsabilidade de nossos maus atos. Eu gosto! Tudo justifica-se no inferno, bonita flor."

Violeta riu com a normalidade e simpleza do homem pintado com todas as cores. Era elegante, a sua maneira, desprendido do material e rico de espírito. Tinha as mãos calejadas, não pelo trabalho, "mas pela arte de viver! Cada calo tem uma história e alguns até gostam de contar, eles próprios, as aventuras. Aumentam um bocadinho aqui e outro ali, é verdade, mas história sem lupa nunca é boa." Nossa amável flor despetalou-se. Refez-se, porém, em seguida e aromatizou toda a companhia com sua fragrância. "Heis que é mesmo viva!", o palhaço comemorou. "E respondo vossa pergunta", ele gracejou com tiradas de chapéu e pulos, "que és bem vinda aqui nesta família", aproximou-se e sussurrou - "sem pudor!", e continuou "Chamo-me Aço, o palhaço cujo destino é navegar e ao mesmo tempo derivar mar afora. Sequestro uma roupa de varal aqui e acolá, chamo meu cavalo de Valo por pura preguiça de pensar, mas acredite, eu jamais serei outra coisa senão palhaço. Ladrão, não. Perdido, nunca. Preguiçoso, também não. Só palhaço!" Violeta, sentindo dever a ele uma apresentação, murmurou - "Sou só uma menina." Aço, o palhaço, enlaçou o magro braço pálido e piscou. "Não, mademoiselle. Agora tu és primavera!"

A trupe levantou poeira e da cidade fugiu. Contam os camponeses, que foram em busca de entretenimento gratuito e sonhos de padaria. A menina, montada no lombo de Valo, cantou a plenos pulmões as músicas que conhecia e aquelas, que inventou. Apresentou-se sobre a cabeça do elefante, rodopiou e rodopiou. Há muitos segredos nesta história, caro leitor, posto que a maioria dos acontecimentos foram relatados pela brisa da memória de quem os viu passar. Dizem todos, porém, que o sorriso da moça era como o raiar do sol após a tempestade: lindo, vívido e bruto como uma pedra preciosa. Às vezes ela ria tão alto, que o povo de aldeias distantes reunia-se nas igrejas, colocavam-se de joelhos e agradeciam vosso Senhor pela graça alcançada. Portanto, na falta de um fim mais verdadeiro imaginemos, leitor, uma florzinha delicada de mãos dadas com um palhaço, ambos estão rindo, e suas sombras são acolhidas pelos braços do amor.

Dizem que Violeta nunca mais voltou, e foi feliz para sempre.

Texto participante de um meme mafioso (porque faço parte de uma "máfia" blogueira, um grupo de meninas supimpas), baseado na minha vida e em homenagem ao Fernando Anitelli. Caso você queira saber como foi o show de ontem da trupe, no Carioca Interlagos, postei uma nota na página do blog!

10 comentários:

Ana Luísa disse...

Nem preciso falar sobre o nome escolhido, né? Era o que eu ia usar! Arrasou muito, e eu já mudei o meu, que também vai ter cheiro de flor, aguarde! HAHAHA.
Adorei que Violeta fugiu com o circo! E amo essa frase da borboleta!
Beijos!!

Pablo disse...

que história linda. não entendi direito esse lance do meme mafioso, mas li e fiquei encantado com a escrita! alegrou meu dia! ^^

Andreia disse...

Bom, cada um é que sabe como há-de ser feliz. Que bom que a Violeta descobri isso. *-*

O texto ficou lindo; como o esperado de ti, Del! <33

OBS: não entendi isso do 'meme mafioso'. o.o

Fabiana Clara disse...

Nossa, que lindo Del... Gosto do jeito como você mistura circo a tudo, é original. A 'moral' da história é muito bonita e até emocionante, gostei muito mesmo, parabéns!

--Clara

L.H.C disse...

que lindo! Estou começando a ver os palhaços com outros olhos a cada vez que alguma referência a eles é feita aqui viu.

Thay disse...

Terminei de ler seu texto com um sorriso bobo nos lábios. História delicada e muito bonita, com ares de conto para crianças. Não sei bem explicar, mas imaginei seu texto como um bom livro infantil, com ilustrações coloridas em tons pastéis. Ficaria lindinho!

Ah, e não precisa me agradecer por nada não. Todo o sentimento que deixo aqui é o mais real possível. ^^

Beijos!

Nina Vieira disse...

Há uma personagem no livro A Solidão dos Números Primos com esse nome: Violeta. Porém, a de que falo tem espinhos. E não é protagonista de fábula alguma. Prefiro a sua. Abraços.

Mayra disse...

Você devia ir passar um tempo com um circo algum dia. Garanto que seria a experiência mais memorável e engrandecedora da sua vida! Amei o texto! Amei, amei, amei! Violeta é linda, assim como o circo e os palhaços! Assisti "água para elefantes" outro dia e fiquei morrendo de vontade de subir num elefante também! Você é demais! Abraços! (p.s.: me passa seu endereço depois, quero mandar uma carta)

Pri Bragança disse...

Amei. Seus textos são ótimos acalentadores. Viajei junto com Violeta.

nothingbutasong disse...

magina del !! você tem um super potencial, e eu acredito piamente que vai dar tudo super certo pra você e que seu talento como escritora será reconhecido ! poxa eu que agradeço por todos os textos que expressavam em palavras tudo o que eu estava sentindo e por me mostrar coisas que tinham passado despercebidas !

brigada mesmo ❤

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