11 de abril de 2012

A arte do tempo

Tudo começou quando encontrei três fios de cabelo brancos. Eu não disse um nem dois, eu disse três. A família por parte de mamãe sofre de uma maldição cigana, que começa a deixar os cabelos brancos aos vinte e poucos anos. Na verdade não é uma maldição cigana, mas a história fica bem mais circense desse jeito! Seja lá qual for a razão, motivo, causa ou circunstância, todas as minhas primas já estão tingindo suas jubas há bastante tempo. Estou a beira dos meus 25 anos e até o presente momento somente os três supracitados tiveram tal despudor em aparecer. Um trio de sem vergonhas, respeitável público!

Não sou dessas que dão piti com a idade. Ao menos me esforço bastante para não transparecer. Eu empino meu nariz, rebolo os quadris e sou a mulher mais segura de si a caminhar pela calçada. Por fora, destemida. Por dentro, uma moça sofrendo antecipadamente sua crise dos 30. Para ser sincera, sofro dessa crise desde os meus 19 anos. Para você ver... Comecei este parágrafo afirmando que não dou showzinho etático. Pra puta que pariu o que eu afirmo! Estou ficando velha, chata, ranzinza e não quero ser obrigada a tingir meu cabelo da cor "cereja pisada nos alpes da Cidade de Deus". Quero meu tom mel-achocolatado durante todos os anos que a ciência me deu por direito. Que mané herança genética!

Sou uma menina de quase 25 anos, hein. Voltem aqui quando eu soprar 60 velas. Será um grande desafio, a convivência, tenho plena certeza.

"Mas você veio até aqui só pra surtar, moça circense?" Calma e senta que lá vem história: Todas as minhas primas estão casadas, algumas primas até separadas, mas de um jeito ou de outro todas tem filhos. Nasci em uma época que provocou um grande vácuo na minha existência: não deu tempo de ser daminha de honra porque estava grande demais, e também não pude namorar/casar juntamente com os outros porque isso seria caso de pedofilia; eu era nova demais. Fiquei chupando o dedo. Restou-me curtir com a cara dos namorados e noivos que caiam de paraquedas nos almoços familiares - e mais tarde, restou curtir as barrigas que pipocaram em determinada fase. Os priminhos de segundo grau começaram a chegar. Foi divertido, já que eu não havia acompanhado a gravidez de ninguém antes. Era uma novidade para minhas primas e para mim também. Não senti nenhum bebê chutar, não aprendi a tricotar sapatinhos só para levá-los na maternidade nem fiz massagens nos pés, mas fui uma das primeiras a visitar o quartinho recém decorado, vi um ultrassom e outro, passei a mão na barriga (morrendo de medo de machucar porque sou cagona mesmo) e coisas do gênero.

Os priminhos nasceram. Peguei nos braços, achei fofinho, morri de amores - guti guti, bebezinho! - levei gorfada e outras coisas envolvidas pela plenitude maternal. Então, os pacotinhos com cheirinho gostoso da Johnson's Baby começaram a crescer ao redor da prima desengonçada, estranha e cujo nome ninguém na família sabe pronunciar até hoje. Eu fui vivendo minha vida e eles, a deles. Quando dei por mim - opa!, quem são essas crianças tão bem resolvidas? Com biquinhos nas fotos, me adicionando no Facebook, fazendo luzes no cabelo, usando batom rosa chiclete (eu nem sabia que existia essa cor). Informações demais que provocaram um chacoalhão espontâneo em mim. Em que mundo estou? Como eu caí aqui? Aliás, caí de madura?

Como assim madura?

Sim, querida. Madura. Na vida é assim, nós amadurecemos sem perceber. Os bebês crescem, aprendem a falar, caminham e se tornam gente grande bem devagar, que é para não assustar. Apesar de demonstrar o contrário, a vida não quer intimidar ninguém. Portanto, ela chega assim, de mansinho, sem bater na porta nem fazer alarde. Acordamos um belo dia e não queremos mais brincar de boneca nem de carrinho, queremos mesmo é namorar e ter uma casinha de verdade!

É assombroso observar uma nova geração florescer bem debaixo do nariz. São pequenas pessoas que nasceram bem depois de eu ter passado por alguns perrengues. Não viram o que eu vi, não viveram os problemas da minha década e irão experimentar coisas que serão inapropriadas para a idade que eu tiver no momento. Enquanto estou aqui me preocupando com os meus três fios brancos, eles estão se preparando para a escola, desejando os brinquedos da moda e planejando a festinha de aniversário. Não é perfeito? Somos uma ampulheta. Um montinho de areia que escapa. Estou vivendo experiências que eles são jovens demais para compreender, enquanto eles vivem delícias que sou velha demais para aproveitar. Somos grãos, sem sombra de dúvida, em um interminável desencontro. Só espero que no meio dessa correria desenfreada nada se perca. Que todas as chances sejam aproveitadas, todos os romances sofridos e todo o presente desenhado risco a risco. Espero que o futuro deles e o meu sempre arranje um jeito de se encontrar por aí.

Pois é, o futuro... A quem ele pertence?

13 comentários:

Ana Luísa disse...

Ei Del! Minha família é enorme, e eu acho até que fiquei em uma posição confortável, meio no estilo OLHO DO FURACÃO, se é que o furacão da minha família tem um olho. Veja bem. Minha última tia nasceu depois do meu primeiro primo. Então as gerações se misturam, e tem bisnetos mais velhos que netos. O NETO mais novo, por enquanto, é o Pedro, que vai fazer 9, enquanto o mais velho tem quase 40. E eu, que faço 20 sábado, estou bem aí na meiuca, com mais um monte atrás de mim e mais um monte na minha frente. E o legal é que dificilmente tem algum que nasceu 'sozinho'. Nós temos nossos primos duplas, tipo eu e Rafaela, que nasceu 6 meses antes. E nossos primos grupos, que são os com 5 anos de margem, tipo a Laís e a Jéssica, uma com 25 e a outra com 22. Enfim, é divertido. E enquanto os mais velhos já casaram e estão providenciando rebentos, o mais novo deita no meu colo e pede para eu ler pra ele, e eu ajudo a trocar fraldas dos filhos dos meus primos, tipo a Anna Beatriz e a Marina, figurinhas constantes no meu blog!
Resumindo: Nasci a tempo de ser dama-de-honra de uma, madrinha da outra.. hahaha
Beijo!

Paloma disse...

Ih, Del, eu me sinto assim mesmo quando olho pros meus primos, e olha que a diferença nem é tão grande assim. Eu sei que tudo aconteceu gradativamente, mas parece que em um momento, éramos todos pequerruchos, e agora todo mundo cresceu (menos eu, né rs). É estranho se deparar assim de repente com a passagem do tempo, né? Ainda mais pensando que, se você eles não passam pelo que passou quando tinha essa idade, eles também não vão passar nunca pelas coisas que você passa agora. É o mundo girando.

Quanto ao comentário no meu blog: tenho que confessar que pensei nos velhos quando escrevi, mas achei que podia ser taxada de preconceituosa! HAHAHA

Beijos!

ternoazul disse...

acho que essa crise deve começar aos 19 anos pra todo mundo, porque eu nunca liguei pra idade, mas quando chegou perto de completar meus 20 anos, eu dei várias surtadas. sabe, minha família mora em outra cidade, então vivi isso de ver o tempo passar de outra forma, mas é o mesmo sentimento, ou pelo menos parecido. eu moro no mesmo condomínio desde muito nova, fui feliz e corri com as outras crianças por aqui, inventado mil e uma brincadeiras. com o tempo cada um foi tomando seu rumo e hoje sou eu que vejo pela janela outras crianças, que na minha cabeça estão apenas fazendo barulho e atrapalhando minha paz, enquanto que na verdade elas estão apenas fazendo o que eu fazia. é bizarro o tempo. beijos

Alien disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alien disse...

Uau, que incrível seu texto. Adorei saber um tico da sua vida e da sua agonia com a idade - sorry, eu me identifiquei. E pior, comecei aos 18 anos. Estou com 21 mas já me sinto uma idosa, tenho que mudar. Minha irmã de 13 faz questão de salientar todo dia, com suas vontades e desejos que não são mais tão infantis assim. Estou numa fase de assombração com minhas irmãs. Tenho outra de 15, mais regrada e fria. Um exemplo nos dias de hoje. Elas só querem saber de festa e de maquiagem, e eu fico besta em como, na minha época, eu estava parando de brincar de Barbie e meus seios ainda estavam a aparecer - tardios -, assim como a menarca, na casa da melhor amiga - vexame. Com meus 15 eu ainda estava naquele clima de paquera esporádica enquanto minhas irmãs, hoje, estão num clima eterno de paquera - facetalk que o diga.

Enfim, adorei ler você.

E ah, sua maturidade é invejável :)

Jessica disse...

Eu tenho uns fiozinho branco também, mas é por estresse. Mas nada que umas mechas loiras não ajudem.
Falando em cabelo, é engraçado, que um dos motivos que eu não me sinto tão "parte da família" assim é justamente a cor do cabelo. E e dos olhos. A maior parte da minha família tem cabelos loiros puxados pra algum tom de amarelo. E olhos claros. Já eu tenho olhos escuros e o cabelo loiro tb, -segundo um cabeleireiro- mas era puxado pro castanho. Se me colocarem do lado dos meus primos, ninguém fala que é da mesma família. Até porque sou uma das mais novas da minha geração; se é que não sou a mais nova. Pra você ter uma ideia, eu tenho primos de segunda geração da mesma idade que eu; ou até mais velhos eu, acho. Tanto que eu tenho uma prima que ela quando fala de si pra mim, ela fala "tia", pq nossa diferença de idade é quase 20 anos.
Então em vez de eu ajudar a cuidar dos menores, eu que fui cuidada pelos maiores... acho. Pq minha família só se une quando alguém morre. Ou quando tinha Natal ou Ano novo na casa da minha vó. Milagrosamente esse ano eu consegui reunir alguns aqui em casa no meu aniversário, mas não chega nem na metade da metade da metade da metade da minha família.
Não vou negar que a idade não me preocupa, mas não é no setor família, até porque não tenho vontade nem de namorar. Tão pouco ter filhos. Como disse uma vez a ti, sou meio alérgica a essas coisas. Tenho medo de segurar bebês de colo e não sinto um pingo de vontade de alisar a barriga de uma grávida. Nem concordo com isso, pois tem gente que parece urubu quando vê carniça dando sopa.
Acho que não tenho nem como finalizar esse texto seguindo o raciocínios de ti e do pessoal que comentou, pq como eu falei, sou uma das mais novas. Até há parentes mais novos do que eu, mas em nada eu ajudei enquanto cresciam e tão pouco posso ajudar agora.
O tempo parou em mim. E pra mim.

Pri Bragança disse...

Eu sempre busco referência na minha avózinha, que vai fazer 93 anos em maio. Ela é uma florzinha, cheia de histórias. Ela tem essa idade toda, e, acredite, não tem cabecinha de algodão, ainda tem fios escuros, naturais. Por essa genética, eu cheguei aos 25 sem fios brancos, no entanto, a idade que chega já dá o seu recado.

Amei³ essa analogia: "Somos uma ampulheta".

Nina Vieira disse...

Del,
ano passado fiz uma mecha branca linda, bem na frente do meu rosto, na franja. Virei a vampira que pedi pra ser. E adorei. Respeito muito teus cabelos brancos. Beijo!

Jessica disse...

Chegando agora por aqui e fazendo reconhecimento de campo... rsrs

Primeiro, amei seu jeito de escrever. Segundo, entendo bem esse seu dilema dos cabelos brancos, sofro do mesmo mal. Também me revolto com essa possibilidade da escravidão das tintas pra cabelo, acho consativo e muito chato! ¬¬
Sou a neta do meio, mas também senti esse 'baque' do tempo quando peguei pela primeira vez no colo o filho da minha prima apenas quatro anos mais velha do que eu.
É bem como você falou, a vida passa de mansinho sem a gente perceber.

Pablo disse...

del, não se preocupe... encontrei meu primeiro fio de cabelo branco aos 20 anos! tudo bem que, depois dele, até hoje não encontrei nenhum...!
me vejo na mesma situação que você, mas no meu caso são com meus primos. sou o neto mais velho da minha vó paterna, logo TODOS os meus primos são mais novos que eu! fico tão assustado quando vejo que cada um está trilhando os próprios caminhos, vivendo suas próprias vidas... cada um com sua personalidade! lembro de quando eram todos crianças! essas coisas me assustam, de certa forma! = S

gabriela m. four disse...

Mas olha, estou fazendo 21 e já tive mais de 3 fios brancos. E pior que eles sempre aparecem na região acima da orelha, então alguém aleatório sempre os vê primeiro do que eu^^

O tempo passa, e nós, as uvas passas =~~

Thay disse...

Olha, eu ainda não cheguei aos vinte e cinco, mas meus primeiros fios de cabelo branco já surgiram! E lembro direitinho que fiquei totalmente horrorizada, saí correndo atrás da minha mãe, surtando mesmo! Acho que eu nem tinha dezoito ainda. Mas como era época de vestibular e tal, acho que pode até ter algo relacionado. De vez em quando ainda encontro um fio ou outro, mas sem os episódios de surtos. XD

Não tenho tantos primos, mas os que são mais novos do que eu não param de me surpreender. E não que isso seja positivo. Minha prima fica colocando fotos dela fazendo bico pra câmera, tipos e poses. Ai, vergonha alheia, falo mesmo! Seria bom se eles só absorvessem as coisas boas da vida...

Beijo Del, bom final de semana! o/

Camila disse...

Nossa, sabe que ultimamente eu ando me vendo bem velha. Umas meninas que eu lembro criancinhas estão tudo moças arrumadinhas como você falou, de luzes, batom rosa e tudo mais que a "modernidade" oferece. Eu, não sei se parei no tempo ou se acelerei demais, me sinto titia delas :S
Pior é que nem me lembro de ter vivido meus dias de diversão jovem...

PS: Minha família é o contrário. Minha vó morreu com quase 80 anos e raros fios de cabelo branco, e minha mãe ainda parece uma mocinha!

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