9 de abril de 2012

A Columbina sempre amou o Pierrot

Ouvi um choro baixo, aquele vindo d'alma, que intercalava e calava a palavra paixão. "Minha paixão, minha paixão"... Assim, tão doloroso e solitário, que quase eu comecei a soluçar. Aproximei-me das folhagens ao canto da rua e vi, não um ser humano, mas um pedacinho tão amuado de gente, que restou-me rezar. Oh, coitada da moça! Tão deserta de si mesma, sentada à beira da vida e com ambas as mãos no que sobrou de rosto. Branca, feita de cisco de estrelas e porcelana, sequer me viu chegar. Cutuquei uma, duas vezes em seu ombro trêmulo e nada d'ela me olhar. Continuava ali, lamuriando o coração para fora e inspirando pouco ar.

— Pierrot foi embora, foi embora, foi embora...

O lencinho asfixiado entre os dedos pedia clemência. As lágrimas desbotavam os lábios opacos da pobre moça; arrancavam-me o pensamento aos suspiros, e eu não sabia o que falar. Pierrot! Onde está Pierrot? Por que abandonou esta trágica senhora? Pierrot, onde está? Deus, acode cá esta pena ao vento! Mas que desalento. Nunca vi uma flor assim despetalar. Sentei-me ao lado do fiapo de existência e calado fiquei. De sobressalto, a pequena amedrontada olhou-me de soslaio, levou o lencinho ao nariz e caiu novamente a tormenta. Paciente, ofereci meu próprio lenço e aconselhei que desabafasse.

— Posso não ser tão estranho assim - defendi-me ao ver que lhe causei espanto. - Afinal, todos somos passíveis de sofrimento.

Apreensiva, e sabemos, com nenhuma outra opção para se desfazer de tamanha tortura, seus olhos ganharam a calmaria do céu sem nuvens e sua boca dançou conforme as palpitações do coração. Heis que ela narrou:

— Pierrot, meu grande e único amor, foi embora para muito longe. Oh, senhor! Antes fosse a distância que aplicam as terras, mas sofro do afastamento de afeto. Uma separação com a qual não posso lutar, cuja eu dei por cavar. Aqui, veja - ela apontou para o coração aquietado em seu colo nervoso. - Bem aqui está meu fim, que eu mesma fiz questão de plantar. Oh, pobre homem! Nenhum compromisso tem com isto, meu bom ouvinte, mas não sabe quão bem me faz compartilhar meu desespero.

Como não dizia mais nada, fiz um gesto a encorajando novamente. Já estava dos pés a cabeça envolvido com a tristeza.

— Amei Pierrot mais do que a mim. Um sentimento tão avassalador, que da minh'alma nada restou. Sinto que arrancaram-na de mim sem a menor clemência e colocaram-na nos olhos de Pierrot, que foram junto com ele, para a desgraça de minha escuridão. Eu o amei, juro que o amei! - ela suplicou. - Por todos os continentes desta Terra e cada gota de nossos oceanos. Se eu pudesse ao menos gritar à todos os ventos, mas nem mesmo isto há em registro de minhas faculdades. Não estou machucada, entretanto, sou pura dor.

Éramos dois atrapalhados buscando pela razão. Encontramo-nos ao acaso e ambos ficamos assombrados com o reflexo um do outro nas pupilas, naquele dia, da cor do fogo. Paixão, paixão! Crua paixão presa eternamente pelo nó, que formava-se através de nossas vozes. O dia ensolarado, lembro-me bem, à beira do lago e mãos distanciadas pela incerteza do momento. O cheiro de meu Pierrot, o sinto em minha pele como tatuagem. Oh, bom senhor! O mais pleno amor apossou-se de mim por completa, tornei-me cega! Ah, o sorriso de Pierrot...

Mas no mesmo dia o sol se pôs, ferido e choroso, por detrás dos horizontes acinzentados. Pierrot sequer chorou. Eu disse a ele: "É com Arlequim que devo ficar!" O rosto do meu amado apedrejou cada parte minha. Rezei à todos os deuses que ele compreendesse minha decisão, mas nada assim findou. Sou fraca, mortiça, alienada! Como conseguiria eu enfrentar Arlequim? Dizer-lhe a verdade e preenchê-lo de mágoas?! Não, jamais. Eu não posso. Não pude. Perdi Pierrot. Ganhei de meu adorado as costas, gélidas e impiedosas. Nunca mais voltei a vê-lo...

— Mas corra atrás dele, sua tola!

— Eu respeito seu espaço, sua escolha. Sim, tola. Ingênua, atingi o fundo do poço e aqui estou morrendo de pouco em pouco. Morrendo, sim, às lágrimas! Todas elas, conto cada qual que cai salgando esta maldita boca, que jamais mereceu pronunciar: Pierrot! Meu estimado Pierrot! Foi embora, foi embora... Deixou-me a paixão, somente a paixão, a paixão...

O desaguar da melancolia interrompeu novamente o relato da abatida Columbina. Ora, que miserável mulher! Compreendi que a loucura roubou-lhe a luz dos olhos e a lucidez da mente. Ela estava no mais profundo escuro do ser, encolhida entre os ventos frios que sobraram do que antes fora sua vitalidade. Finito, esta moça não vive mais. O melhor que tem a fazer é chorar até o corpo finalmente absorver a letal falta de alma, e então expirar.

Acaso alguém leia este meu relato, por favor, faz-me um benefício; antes, faça-o à moça: diga lá ao senhor Pierrot que sua senhora está revogando a si mesma. Digam, meus senhores, que na Terra anda exânime uma leve e muito bonita pombinha de asas cortadas. Não faça isto a si mesmo, Pierrot, não carregue contigo o luto do seu único amor!

6 comentários:

Pablo disse...

texto lindo! o que mais me agrada é conseguir viver o momento através de cada palavra cuidadosamente escolhida.

confesso que não entendo muito bem esse negócio de sofrer por amor, espero nunca entender! = P

Letícia disse...

Pobre Columbina.
Afinal, morreu de amor a tadinha?

Thay disse...

Poxa vida, mas por qual motivo Columbina escolheu o Arlequim? Agora fica a chorar pelo amor perdido... Sofrer pela falta do amor é uma das piores dores, pq não há remédio e nem nada que faça passar o desconforto além do tempo. O jeito é torcer para que o Pierrot possa perdoar a pobre moça. =]

Pri Bragança disse...

:) AMO.

Acho que a Columbina escolheu seu próprio sofrimento. Ela tentou ser generosa com Arlequim, no entanto, foi egoísta com ele, com Pierrot e com ela própria.

Triste e linda.

Jessica disse...

*-------*#
Palaaavras! Cadê vcs? *berra*

Ba Moretti disse...

Que vergonha, não tive tempo pra ler o post.
Passando aqui pra avisar que tem selinho pra você lá no blog :)

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