7 de maio de 2012

99 não é 100

Valter trabalhou no lixão por 26 anos, mas morreu pouco tempo depois do início do projeto de Vik; é dele a frase deste texto e ela lhe dirá muito mais do que agora, quando eu terminar de escrever tudo o que senti após assistir Lixo Extraordinário.

Confesso que me interessei pelo documentário só porque o mesmo artista, Vik Muniz, fez a abertura da novela Passione, escrita pelo meu amado Silvio de Abreu. Achei inovador e muito bonito, então resolvi pesquisar um pouco mais sobre o tal brasileiro tão criativo. Logo de cara encontrei o documentário dele falando sobre o lixão de Jardim Gramacho (RJ), mas não dei atenção porque tinha certeza de que seria puro sensacionalismo; um brasileiro que se deu bem no exterior voltando para cá e fazendo favores para pessoas pobres em troca de uma massageada no ego através de um documentário. Não sei o que me levou a baixar o arquivo dias atrás, mas acabei assistindo. Para provar que eu estava certa? Para me indignar com a cara de pau das pessoas se promovendo com o sofrimento alheio?

Errei tanto, que até fiquei com vergonha de mim.

Muniz é o tipo de artista que não tem ego, só alma. Ele tem aquele olhar puro e desprentencioso que não encontramos em qualquer um hoje em dia. Mais do que um brasileiro que deu certo, Vik lutou bastante para ser um dos homens mais cultuados na atualidade. Sua intenção ao visitar o Jardim Gramacho não poderia ser mais genuína: ele queria ajudar aquelas pessoas usando da própria arte. Queria invadir aquele mundo, desconhecido por mais da metade da população brasileira, e mudá-lo de alguma forma.

O documentário começa tímido, sem pressa, mostrando todos os pontos importantes da vida do artista e também do lixão no Rio de Janeiro. Ninguém se preocupou em florear a opinião que tinham sobre o projeto, e o medo que aquilo causava. A primeira imagem que todos formam é triste, de pessoas que não tem o que perder, doenças e desolação. Não é preconceito, é o pensamento natural sobre um lixão, o lugar de uma rotina inimaginável. Corajoso, Muniz continuou com a viagem e a ideia inicial. Visitou a antiga casa onde morou quando adolescente, antes de ir tentar a vida nos EUA, mostrou sua família, sua vida no exterior com a esposa e filha e rapidamente, com certeza timidez, comentou sobre seu trabalho - o importante ali não era o artista, mas sim o homem que estava disposto a desvendar a vida no maior aterro sanitário da América Latina.

Não vou contar em detalhes o que se passa entre as montanhas assombrosas de lixo para não perder a graça, mas posso adiantar que Lixo Extraordinário abriu meus olhos para pessoas que eu sequer imaginava existir. O que encontramos naquele lugar não é nada daquilo que imaginamos, muito pelo contrário, é uma grande surpresa e duvido que seja possível encontrar visões de vida como as que sobrevivem em meio ao que não serve mais para a população. Não são catadores que se igualam ao lixo, mas sim trabalhadores que deram outra cor à coisas que cansamos de olhar. Foi incrível descobrir que eles encontram livros (até mesmo de autores como Maquiavel e Nietzsche) inteiros, intactos, no meio de tudo aquilo. Não só encontram como leem e citam e discutem, tendo como sonho abrir uma biblioteca para a criançada só com o que arrecadam sob o sol forte e os urubus.


Muniz entrou ali esperando encontrar o último suspiro de vida da cidade, mas encontrou todo um bairro em atividade, lotado de sonhos e histórias comoventes de superação. Eu, que deixei de lado o documentário por um tempo, acabei descobrindo que realmente ninguém é descartável. Podemos topar com a esperança em qualquer canto, sem precisar procurar muito ou escolher um lugar em especial. Não sou do tipo que comparo minha vida com alheios, mas o Jardim Gramacho de fato me ensinou muitas coisas e me fez rever outras. Com o documentário aprendi que cada um precisa fazer sua parte e jamais desistir de lutar. Noventa e nove não é cem! E as pessoas extraordinárias estão logo ali, basta querer enxergá-las.
Comecei a me sentir arrogante ao querer ajudá-los. Quem sou eu para ajudar alguém? Foram eles que me ajudaram!
— Vik Muniz.

9 comentários:

Ana Luísa disse...

Nossa, que emocionante, Del! São pessoas como essas que fazem a gente acreditar que o mundo realmente vale a pena!

Natalia. disse...

Lindo Del, ainda não vi o documentário, mas depois do que lí aqui no Bonjour, não tenho nem o que dizer, irei ver o mais rápido possível.

Beijo.

Mia Sodré disse...

Ainda não assisti ao documentário; na verdade acho que nem havia ouvido falar sobre ainda. Mas realmente, pessoas não são descartáveis. E basta olhar com atenção e deixar o umbiguismo de lado para tal.
Com certeza eu assistirei ao documentário.
Beijo!

Andreia disse...

Certa vez li não-sei-a-onde que se as pessoas soubesse a quantidade de coisas deitam para o lixo e que ainda serve - e que mais tarde vão vir a precisar - pensaria duas vezes em deitar o quer que seja fora.

Também li não sei onde que um vagabundo ficou rico porque foi encontrando moedinhas - dessas mais pequeninas e que nós olhamos e dizemos: "O que é um cêntimo comparado a um euro?!" - no lixo. Interessante? (De qualquer forma, não sei como é que alguém pode deitar dinheiro - literalmente - para o lixo. o.O)

Eu não vi o documentário - pela razão mais óbvia -, mas não descrimino quem trabalha em lixeiras. Eles encontraram tesouros mais valiosos - como livros - que nenhum tesouro por mais bem guardado que esteja nalguma ilha perdida pode ser comparado.

Pronto. Obrigada por me inspirares e me obrigares a escrever um testamento em forma de comentário! >:(

Monique disse...

Muito bom. Já ouvi falar do documentário - porém ainda não assisti - e da função social que ele exerce. Gosto muito de ler as impressões de outras pessoas antes de assistir documentários ou filmes, para depois juntá-las com as minhas e perceber as semelhanças e diferenças. Fiquei curiosa, você o mandou pra minha lista de "preciso assistir", rs.

Beijos!

L.H.C disse...

Interessante essa visão; já escutei muito falar desse documentário, mas ainda não vi. Parece que de vez em quando é bom ter algo que desperte nossa atenção para algumas coisas né? Gostei, depois vou ver se assisto.

Thay disse...

Adorei a frase com que encerrou o texto! "E as pessoas extraordinárias estão logo ali, basta querer enxergá-las" - muitas vezes essas pessoas especiais estão diante de nossos narizes, mas temos medo de tentar vê-las com suas cores reais. Li sobre esse documentário na época de seu lançamento, mas ainda não o assisti. Acho que por ter ficado com o mesmo conceito pré-definido que você. E depois de tudo o que li aqui, vou assisti-lo assim que possível - mesmo que eu não goste tanto assim de documentários.

E você pediu que te indicasse uma biografia, então, indicarei logo duas! Esse é, digamos, uma biografia romanceada, mas eu achei muito interessante. Não sei se fui eu que fiquei absorta com a história, mas "Helena de Tróia", da Margaret George, me cativou muito! O cuidado aos detalhes de época, aos modos e rituais deixa a leitura muito gostosa. "As Memórias de Cleópatra", também da Margaret George, são três livros enoormes, mas que eu devorei muito rápido. Esses livros desmistificam um pouco a imagem da Cleópatra e se apegam mais àquelas coisas que são mais próximas da realidade. ;D

Enfim, esses foram os que mais gostei de ler. E o da Antonieta também, mas esse é biografia mesmo, sem romancear nada. Se você os ler, depois me diz o que achou! Fiquei feliz quando você pediu por indicações, eu sou meio "forever alone" nessa coisa de figuras histórias. Pra não dizer totalmente "forever alone", eu e meu pai somos os loucos aqui de casa.

Desculpe o comentário enorme!!
Beijo!

Anônimo disse...

Adorei!!!

Vou ver esse documentário.

Bjus,

Liz Rodrigues

edmoulrik disse...

Esse filme tem um diretor brasileiro e não ganhou oscar e nenhum filme brasileiro ganhou oscar é igual a seleção da holanda tem um uniforme lindo o uniforme mais bonito de todos e nunca foi campeão

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