1 de maio de 2012

Amanhã é um novo dia

Assim como é o que tem para hoje, venho me convencendo de que amanhã é um novo dia. O Transtorno de Ansiedade me ensinou isso. A vida em si, digamos, acaba dando este mantra de presente para todos nós. Se não o aceitamos, se insistimos que tudo é duradouro e nada irá mudar, fazemos com que a vida dê errado de propósito. Apanhei bastante para aprender. A custo de muito suor eu percebi que a cada raiar do sol o mundo se transforma. Uma noite é o suficiente para ideias serem esquecidas, assim como pessoas importantes, e casais se separam enquanto outros traem. Durmo, e acordo envolta por novas sensações, sinto um vazio onde antes houvera profundas reflexões e minhas preocupações já não tem o mesmo valor; algumas nem existem mais ou foram renovadas por certos eventos. Os meus pensamentos amadureceram, abriram em flores, cairam do pé. O amanhã guarda mais coisas do que imaginamos.

Sou extremamente imediatista; todo adolescente, creio eu, desenvolve isso. Mas ao invés de crescer e constatar que nem tudo acontece quando e como queremos, eu aprendi a lidar de forma diferente com o meu "quero agora, para ontem, já!" Com certeza não é um jeito melhor e menos agressivo para o emocional. Continuo sofrendo com a espera. As pessoas me dizem que calma, uma hora vai dar certo, mas não entendem que para mim as coisas custam um preço altíssimo para funcionarem. Para mim, a expectativa da bolinha girando na roleta russa é quase sufocante. Eu sei que ela vai cair no número errado, mas alimento a esperança de ter um pingo de sorte entre um nanossegundo e outro. O resultado, normalmente, é um tombo que dói mais do que o necessário. E quem vive caindo acaba desenvolvendo um grande medo, pois não sabe quando será o próximo tropeço, qual sua intensidade e quão grave será o ferimento.

Criei um personagem no meu livro (Helena) cuja função é reger a sensatez. Por mais estranho que possa soar, estou absorvendo grande sabedoria dele - o avô de Helena. Na falta de alguém experiente e saudável mentalmente para conversar comigo, que apesar dos meus 24 anos sou uma simples criança, dei nome e vida para um pedaço que estava adormecido em mim: a alma. Esta sabe de tudo. Existe um estudo onde a ciência separa nossa memória em quatro grupos. Isso mesmo, eu - e mais algumas outras pessoas - não consigo sequer comandar uma memória, nada faz com que ela funcione direito, me esqueço das coisas mais banais, e agora descubro que existem outras três!

Pois bem, estou falando da Memórida de DNA. Independente de sua crença, religião, Deus ou qualquer coisa que o valha, essa memória grava as informações da sua vida, assim como de existências passadas. A minha se esforça muito para que eu acredite que a situação irá mudar e se resolver como melhor convir. Só que minha luta contra o otimismo é tão inflexível, que meu espírito se esgota. Adianta ir à terapia e se mostrar com vontade de vencer desse jeito? Não. Portanto, quando meu dia está difícil de ser vencido e sinto meus ombros cansados, eu mentalizo o dia seguinte. Ele virá. Trazendo não sei o que de surpresas, mesmices e rotina, mas ainda assim será tudo novidade. É um fenômeno que não posso adivinhar tão pouco prever. Talvez este seja um dos milagres que percorrem a Terra; o desconhecido.

Estou separada de inúmeras possibilidades por apenas algumas horas de sono, ou insônia. Não saber o que espera por mim, além do sol, é ao mesmo tempo reconfortante e maldoso. Um dia saberei lidar com ambos os lados. Enquanto isso, vou tentando derrubar barreiras que construi para ninguém chegar. Vou deixando as horas oferecerem, bem devagar, o futuro embrulhado e com um laço vermelho bem bonito e vistoso. A lua vai chegar e depois ir embora dando lugar ao sol, e tudo irá recomeçar como se nada tivesse acontecido antes. Vou respirar. Parar de levar tão a sério e fazer um pouco mais de conta. Tudo é de conta, mas nem tudo devemos pagar. Isto também serve para você, que anda de mãos dadas com a angústia, amargando o desânimo e maldizendo a nuvem negra sobre sua cabeça.

— Acredite em uma única coisa, Helena...
— No quê?
— No amanhã.
Helena.

11 comentários:

Deb disse...

Eu acredito no amanhã, no que ele me reserva, no que me trará - embora eu saiba que nem sempre ele vá se diferir do 'hoje'. Mesmo assim, continuo acreditando que a cada novo dia, novas esperanças surgirão, novas oportunidades...um novo começo.
Tudo o que disse é profundo...Me faz refletir, mais uma vez.
Beijo!

Mayra disse...

Tudo que consegui pensar enquanto lia isso era na voz do Chico Buarque me dizendo "amanhã vai ser outro dia, amanhã vai ser outro dia", mas esse texto me fez ter vontade de ler todos os outros linkados, como estou sem tempo no momento, voltarei assim que possível! Abraços <3

Ana Luísa disse...

Lindo demais, Del. Demais. Me emocionei, principalmente com esse final. Eu também acredito demais no amanhã. Sempre que estou passando por um momento ruim eu penso: Calma, logo vem o amanhã.
Não que me faça parar de sofrer, mas me lembra, que, lá no fundo, eu tenho certeza que vai passar.
Beijo!

Thay disse...

Que lindo, Del! Acreditar no amanhã é o que faz muitas pessoas continuarem em movimento, com a certeza de as coisas irão melhorar no próximo nascer de Sol. É certo que quando estou passando por alguma dificuldade, respiro fundo e mentalizo que os dias vão passar e, junto com eles, esses problemas. Claro que não fico sentada só esperando que eles passem, mas continuo a batalha. Adorei a frase final, mal posso esperar pra ler Helena.
Beijo!

Natalia. disse...

Eu já me decepcionei muito, mas sei lá porque, continuo acreditando. Já tive uma fase que quase saí e larguei tudo, porque as coisas não estavam dando certo do jeito que eu queria, nem de um jeito que eu aceitasse, mas parei pra pensar e continuei e continuo acreditando. Não que as coisa não deêm para mim, mas todos nós temos nossos problemas, nossas angústias, e eu acredito que tudo vai melhorar!

E eu havia lido sobre seu livro e como a Thay disse, mal posso esperar para ler!


HAHA Não tem como eu te chamar de louca por gostar de um personagem que eu criei né! Mas fiquei muito feliz que tenha gostado! Ele, como Helena, é personagem do meu livro, porém nunca havia falado sobre ele assim, no blog, só para os meus amigos da "real life", rs; ele é como se fosse tudo que eu tenho de ruim reproduzido de uma maneira melancólica, sei lá, em 2010 quando comecei, ele era o mal, o perverso (não que agora não seja), mas agora acabou se tornando quase o personagem principal e o que mais se parece comigo. Nossa me empolguei!! haha Chega, parei de falar.

Beijo!

Monique disse...

Visitei hoje pela primeira vez esse blog e só de ler o seu "quem sois vós?" já fiquei extremamente inquieta. Aqui tem coisa boa, pensei. Fui ler a página "a circense" e me identifiquei tanto com você! É sempre ótimo encontrar espaços que não são nossos mas onde a gente se sente em casa na internet.

Aliás, lindo texto. É sempre renovador ler algo como isso que você escreveu.

Beijo!

Erica Ferro disse...

Eu poderia comentar uma infinidade de coisas, mas não consigo. Emocionei-me com esse post. É triste quando você se decepciona com o hoje, se decepciona muito mesmo, tanto que não tem forças pra esperar mais nada do amanhã. Eu tô assim. Mas essa fase passa, sempre passa.
Logo volto a acreditar que o amanhã pode, sim, ser melhor que o hoje. Ou pelo menos diferente. Uma chance de fazer as coisas de outro jeito, com mais êxito.

Beijo.

L.H.C disse...

Ai, Del eu fico sem saber o que dizer quando você escreve um etxto assim, tão, tão fodão. Muito do que você falou no post eu acho que faço uma ideia de como é; sabe, tenho muita dificuldade de acreditar no amanhã, minha filosofia está mais para "pra que deixar pra amanhã se as coisas poderiam estar dando certo para mim hoje?" Mas no fim das contas a gente tem que acreditar, se não fica mais dificil ainda acordar todos os dias.

Del Santana disse...

Tenho pensado demais no amanhã, torcido muito p/ ele aparecer cheio de coisas boas. Mas às vezes esse amanhã bonito e legal parece estar ainda tão distante. Eu só queria controlar mais os meus sentimentos, ficar livre de uma vez dos momentos de pânico.

Sabe, vou tentar ser mais amigável com o hoje; quem sabe assim o amanhã fique mais animado comigo? :)

Ah, Del, lindo texto (e emocionante). Quero demais ler o seu livro.

Beijo

Clara disse...

Muito profundas as coisas que você disse, praticamente uma filosofia de vida! É muito bom acreditar em alguma coisa, mesmo que isto seja o amanhã, que sempre vem, aconteça o que acontecer. Obrigada, precisava ler algo positivo nesse dia tenebroso!

*Lusinha* disse...

Você disse que é normal os adolescentes se sentirem assim e eu fiquei preocupada comigo... rs
Já passei da adolescência, mas sou assim: urgente, imediatista e embora a vida já tenha me mostrado que as coisas devem funcionar de outro jeito, aqui dentro funcionar de outro jeito naturalmente não é tão fácil assim.
Bjitos!

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