O que faz você suspirar satisfeito quando se deita a noite para dormir? Eu me fiz essa pergunta ao olhar o teto do meu quarto. Não gosto da cor dele. As paredes são da cor pêssego, uma delas é vermelha. O teto é cor de gelo. Apático e sem personalidade, é o que não me deixa esquecer de que estou no lugar errado. Nunca fui boa em decorar meu quarto, deixá-lo com minha cara, mas talvez seja culpa do deslocamento do meu espírito. Ele nunca esteve no mesmo lugar que eu. O danado sempre voa para muito além do que consigo alcançar, me deixando sozinha em uma realidade anormal. Tudo isso se resume no teto. Quando deito à noite para dormir, a única coisa que meus olhos enxergam é a luminosidade da indiferença em plena escuridão. "O que estou fazendo aqui?" pergunto a mim mesma. "Olhando para mim" o teto responde, "e é assim que ficará por toda a eternidade".
Se a Del com onze anos de idade aparecesse, iria arregalar os olhos, abrir a boca, olhar em volta e chorar em posição fetal com o dedo na boca. Não estou orgulhosa de mim. Não estou satisfeita com os últimos anos. Descobri que querer não é obter. Eu quis ser professora, fisioterapeuta, veterinária e um milhão de outros sonhos. A vida é palpável, mas escorregadia. Os meus amigos e colegas parecem caminhar do jeito certo para atingirem seus objetivos. Parecem felizes. Meus primos e primas não demonstram tanta satisfação, mas ainda assim se sentem contentes, conformados, e bem ou mal enxergam a luz no fim do túnel. O pessoal da minha geração, ao que tudo indica, conseguiu construir suas próprias carapuças e escudos. Eu? Não sei. Rolando de um lado para o outro na cama, não sei se atingi algo ou se fui atingida. Ainda não sei o que é de fato correr atrás e almejar. Contudo, eu quero uma coisa ali e outra acolá; tenho me esforçado para ganhar, merecer e conquistar.
A gente cresce, deixa tudo para trás, renova o guarda-roupa, manda os brinquedos embora, muda de amigos. Subimos a escada, degrau por degrau, em busca... Do quê? Depende da pessoa. O meu problema é simples: o que fazer quando a escada é maior do que a vontade de subir? Complicado filosofar sofre isso. O meu medo é chegar ao topo e putz, o que eu faço agora? Preocupo-me em querer, mas me esqueço do sempre. Sempre querer. Tanta manutenção a ser feita nessa vida dos vinte e tantos anos! Dizem ser o começo, mas a impressão que dá é de termos a corda no pescoço. "Estude!" as pessoas cobram. "Trabalhe, ganhe, leia, compre!" elas empurram goela abaixo. Eles já tiveram vinte anos, já passaram pelos trinta e hoje se comportam se como nunca tivessem saído da sabedoria dos mais de 40. Nasceram assim, esculpidos e pintados. Ninguém modelou, nenhum fator externo transformou. As pessoas tem o péssimo hábito de acreditarem ser eternas e invencíveis.
As regras nos levam ao campo de centeio - lá recebemos uma foice, um chapéu e um prato de comida. Porém, não é revelado para onde vai o que colhemos e como, afinal de contas, o centeio foi parar no campo. Maquinalmente, somos ensinados a colher. Como todo adulto burro diz: e ponto final. Fim de conversa porque a humanidade não faz ideia do que vem a partir desse ponto. Ou você se satisfaz com o que tem nas mãos, ou morre insatisfeito. Apesar do mundo estar lotado de mães, não adianta, há quem morrerá chorando de fome. Então, eu paro e me pergunto: mas por quê? O que estou fazendo e para onde isso irá me levar? O que há depois do fim do caminho? Outro caminho? Terei de construi-lo? Só se for com as próprias mãos. Alguns dizem que a única certeza da vida é a morte. Eu afirmo que isso não deixa de ser verdade, mas há também a certeza de que ninguém além de nós irá abrir esse novo caminho.
Daí a gente consegue; seja lá o que for. Erguemos os braços, sorrimos e comemoramos. "Tudo bem" os convidados suspiram, "mas e agora? A gente escuta música, come, bebe ou o quê?" se entreolham. Confesso que sou uma péssima anfitriã, por isso nunca dou festas. Aquele sentimento ansioso escala sua garganta, você engole seco e ok, para que eu venci? Pode parecer uma pergunta tola, admito que são grandes as possibilidades de ser, mas vencer pode causar um certo vazio. O importante é preencher com outro desejo. O que é importa é distrair-se enquanto guarda em um lugar especial aquela vitória. Não importa o que vem depois, continue em frente olhando para todos os lados na esperança de não perder nenhum detalhe. Procure a importância em continuar querendo, continuar correndo, continuar secando o suor e suar de novo. Às vezes o que faz a diferença para os outros é indiferente para você. Vença, é isso que importa - sem ter medo do que existe a seguir, do outro lado do muro.
O importante é que...
Desculpa, não sei o que é importante.




13 comentários:
Uau. Isso me lembrou de um ex e um atual meu: o atual não faz ideia do que quer ser na vida e do que fazer com ela, porque depois de querer tanto descobriu que a luz do fim do túnel desligou, e ele não aproveitou ou não correu rápido o suficiente para alcançá-la.
O ex costuma frequentemente me ligar no meio da madrugada perguntando o quê fazer da vida agora que ele atingiu o tal do objetivo. Eu costumo ser bem direta: consiga outro objetivo e vá atrás dele; se acomode nesse e viva o tédio de estar vivo e alcançar o que se quer ou pula no abismo e pára de me ligar. Ele não pulou no abismo.
Eu também tenho esse medo de não saber o quê fazer quando chegar lá. Lá onde? Sei lá. O que incomoda mesmo é o vazio que se sente, é aquele buraco no peito que se abre no meio da noite enquanto encaramos um teto insosso e uma vontade de viver sem saber exatamente quê tipo de vida e o quê fazer. É o buraco negro que vive dentro da gente.
26 de maio de 2012 13:11
Quero muito dizer um palavrão aqui, mas não acho que seja adequado, então substituirei-o por um "WOW", porque cara, eu adoro esses seus textos de auto-ajuda. Adoro a perspicácia com que você ao mesmo tempo que se ajuda ajuda a todos os que se dignam a ler suas belas palavras. Porque a vida é tudo isso aí mesmo, é todo esse mar de incertezas e essa escada infinita da qual temos que tirar força nào sei da onde para finalmente podermos subir. Você pegou tudo direitinho. Sempre pega. Ai Del... nem sei o que dizer, estou embestiada aqui.
Um grande abraço, grande grande grande!
26 de maio de 2012 13:34
Adorei esse texto. De verdade, me tocou fundo. Me fez pensar mais do que já penso. E olha, eu penso muito.
Minha mente é cheia de perguntas, milhões, rodando para lá e para cá, quase me deixando louca.
Mas, é pensando que encontramos a resposta.
Como no texto, no final, você acabou encontrando respostas para você e para nós.
Eu digo que sou muito sonhadora. Muito, mesmo! Para muitos, isso soa idiota. Mas, o fato é que um sonho atrás do outro me mantém viva e acesa. E se eu conseguir realizar um, vou correr atrás do outro. É uma luta sem fim. E isso não é ruim. É bom. Ruim seria se eu não tivesse que lutar por nada nessa vida. Pois, se esse fosse o caso, porque viveria?
Parabéns pelo texto, Del.
Fico cada vez mais encantada com a sua capacidade de se expressar da melhor maneira possível. Admiro muito isso. Meus parabéns mais uma vez.
Um beijo.
26 de maio de 2012 17:37
Olá, olá. Como vai? Apresento-me como sua mais nova leitora. E, como nova leitora deste lugar encantador, preciso dizer que adorei a forma da sua escrita. Real e detalhista, fez com que eu imaginasse toda a cena e parasse para refletir sobre as dúvidas do seu texto. Na verdade... Tenho pensado muito sobre isso ultimamente, tem me assombrado bastante. Trabalhamos, estudamos, saímos... E é só isso? Um ciclo vicioso do mundo dos adultos que trilham carreira? E depois de de carreira feita? Viver como nossos parentes mais velhos, reclamando da vida a torto e a direito? É complicado, eu sei. Mas devemos não deixar essas dúvidas tomarem conta de nós. De algum jeito, isso tem que começar a acontecer.
Bem, gostei de tudo por aqui e voltarei mais vezes! Você pode também invadir meu mundo literário e se gostar do ler, deixar um singelo comentário. Volto mais vezes.
Um beijo, @pequenatiss.
26 de maio de 2012 20:14
Ai Del, parece que assim é a vida! Atingir um objetivo para simplesmente criar um novo, sempre repetindo o ciclo. Sei lá, algo mais ou menos como a vida estudantil: você quer se formar no ensino fundamental, depois no médio e lá vem a faculdade! E depois especializações, mestrado, doutorado...! A vida é feita disso, né? Criar novos obstáculos somente para atravessá-los e criar novos. Mas, sabe, se eu não tive esses objetivos se sobrepondo (ou dá pra dizer que são até mesmo pequenos sonhos) eu não conseguiria seguir adiante. Acho que a vida sem planos ou objetivos não passa de uma perda de um tempo precioso. Mas sei também que não se deve viver só disso, paro tudo há de se ter um equilíbrio. E nem sei se ainda me faço entender, haha, sono me faz ter ideias. XD
Beijo!
26 de maio de 2012 20:52
THIS! É isso mesmo! Sinto cada pedacinho do que você escreveu. As pessoas ficam cobrando objetivos da gente e eu costumo suprir as expectativas colecionando objetivos. Mas quando você consegue alcançar algum dos seus sonhos, o que fazer depois? Pior: e se quando você conseguir, vir que sonhou o sonho errado, que não era aquilo, que perdeu tempo se enganando?
O importante é que eu não faço a mínima ideia do que é importante e admito isso.
Palmas pro seu texto, Del! (não é novidade bater palma pros seus textos, mas é verdade)
Beijo!
27 de maio de 2012 12:39
eu tenho sofrido tanto por não saber o que quero, ou também por saber exatamente o que eu quero mas o mundo não está de acordo, ou a sociedade não está de acordo ou nada de está de acordo, enfim, outro dia estava me perguntando como é que eu faço para ser feliz, se nada parece me satisfazer, quando eu consigo o que eu quero percebo que não é o bastante, talvez eu esteja buscando a coisa errada, ou talvez não esteja dando o valor merecido, ou simplesmente talvez eu não saiba o que quero. Viver é complicado demais. :D
28 de maio de 2012 08:39
Digamos que, se eu não tivesse alguns objetivos (que nem sei se darão certo ou não) eu já teria desistido de tudo. Aliás, rs, já quase desisti de tudo várias vezes que nem gosto de lembrar. A gente tem que ser forte, eu só estou começando a minha "batalha", mas posso afirmar isso, ninguém será forte por nós. Temos, apesar de tudo, de continuar se não nada terá valido a pena de verdade, e o que vale a pena? Não sei, temos que buscar o que vale a pena para cada um. Seu texto me deixou sem palavras, tentei expressar o que senti, acho que ficou confuso, mas enfim.
Beijos!
28 de maio de 2012 12:11
Já senti tantas vezes essa angústia, essa sensação de estar perdida, sem rumo... Acho que todo mundo passa por essa fase. É tão difícil descobrir exatamente o que a gente quer da nossa vida, às vezes eu acho que nós nunca teremos 100% de certeza. O importante é.... pois é, também não sei o que é importante no final das contas...
Lindo texto!
28 de maio de 2012 15:56
Eu também não sei o que fazer ao chegar no topo da escada. Eu tentei zilhões delas e em todas elas os degraus quebraram no meio do caminho...
Daí que me tornei uma balzaquiana de trinta e poucos que simplesmente tá cansada de cair da escada e que de madrugada fica encarando um teto também branco, mais cheio de rachaduras, prestes a quebrar também, assim como as escadas.
Teus textos são a conversa franca que eu gostaria ser capaz de ter.
29 de maio de 2012 01:21
Oh Del. Eu já sei o que me faria (faz?) suspirar, mas não achei a escada pra subir... Pode? Ou ainda, no meu caso, não é uma escada. É um pau-de-sebo em plena festa junina!
29 de maio de 2012 10:49
ai del, nem sei o que dizer. hoje sei o que me faz suspirar no fim do dia, mas não sei se esse vai ser sempre o motivo. sou uma pessoa muito inquieta, vivo procurando algo pra fazer, algo que me mova, sabe? acho que assim é a vida! para completar a sua frase de fim de post, vou usar uma que foi meu subnick por muito tempo no MSN! "porque o importante é ser feliz!" = D
beijos, desculpe por demorar tanto pra passar por aqui.
P.S. quer mudar e/ou renovar energias? pinte seu quarto. se precisar de dicas de cores, contacte-me! = B
29 de maio de 2012 11:41
Fiquei meio sem palavras com esse texto. Realmente ótimo!
Percebo que pra mim falta a vontade de subir a escada justamente por saber que depois que conseguir subi-la não vou me sentir satisfeita. Sempre vai faltar alguma coisa, e buscar essa coisa nem sempre é bom, porque a gente sempre sabe qual vai ser o final...
29 de maio de 2012 17:06
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