10 de maio de 2012

A outra Helena da minha vida

Quando meu pai ainda trabalhava com reformas de casas, eu sempre o acompanhava nas visitas aos clientes. Como era uma empresa de porte pequeno, ele sempre encabeçava os orçamentos, e já que a maioria era composta por famílias alemãs, tudo acabava em amizade. As senhoras adoravam aquela menina pequena que fui porque podiam fazer de mim o que quisessem. Ensinavam alemão, presenteavam com bonecos alemães e ofereciam centenas de biscoitos e gostosuras alemãs. "Tomara que ela se torne alemã por associação!" Mas não deu certo. Digo, a amizade ficou, eram todas e todos muito atenciosos, mas continuei brasileira e odiando sauerkraut. Odiava, também, passar horas sem nada para fazer naquelas casas sem filhos nem netos. Quintais enormes, cheios de plantas. Casas cheirando aos alpes. Para qualquer lugar que eu olhava tinha algum objeto delicado demais para dividir um cômodo comigo ou algo que era óbvio, até para uma criança, ser profundamente amado pelos donos.

De todas essas pessoas, a que mais ficou guardada na minha memória foi a casa da Dona Helena. Uma alemã da raiz, sozinha até o último fio de cabelo, com a casinha mais confortável que já conheci nesses 24 anos. Não tinha mais família, jamais havia se casado e não tinha nenhum filho. Nem um sobrinho para contar história, acho. A única coisa que ela tinha era a casa, um cachorro e a família do meu pai. Ele, minha mãe e eu, que fui o mais perto de "criança" que ela conseguiu chegar. Então, toda vez que nos víamos, Dona Helena me enchia de atenção. Mostrava as recordações da terra dela, fotos, trabalhos manuais que fazia como hobbie, os truques que ensinava para seu cachorro ou ficava simplesmente sentada com meus pais conversando, e me bisbilhotando de soslaio.

Também me lembro, infelizmente, da forma como meu pai a tratava ou falava pelas costas. "A Helena isso, a Helena aquilo!" Eu cresci o observando desmerecer as pessoas. Ninguém era o suficiente para ele. Ninguém fazia a coisa certa. Nem eu. Aliás, muito menos eu; a menina quietinha e educada que era mais querida do que ele pelos clientes. Todo mundo aceitava os trabalhos do meu pai por causa da minha mãe e eu. Caso contrário, ninguém se sentiria obrigado a aguentar aquele sujeito. Palavra dos próprios. Mas a Dona Helena, idosa e sozinha, era quem mais sofria. Eu, pequena, ficava sem entender nada. O mesmo pai que falava horrores dela, tanto na cara quanto pelas costas, era o mesmo funcionário que lhe entregava o orçamento, mês após mês, e realizava o trabalho. Dona Helena foi a única que continuou pedindo os serviços dele mesmo após todos os outros clientes terem lhe virado as costas porque "ele já estava velho".

Ainda assim, meu pai reclamava muito dela. Até que ele resolveu cortar as relações e ignorá-la para ficar em casa sem trabalhar e encher a cara o dia inteiro; destruindo assim, minha juventude inteira.

Dias atrás, soube através de minha mãe que Dona Helena está em um asilo e sofre do Mal de Alzheimer. Foi então que abri meu armário, minha caixa de acessórios, e encontrei o anel que ela havia me dado. O anel mais especial da vida dela, que se não ficasse comigo, não ficaria com mais ninguém já que ela não tinha para quem dar. Um anel azulado, muito antigo, que ela ganhou de seus pais em seu aniversário de 15 anos. Olhando, ninguém diz que o anel envelhecido tem valor, mas tudo depende do ponto de vista. É o maior presente que já ganhei, tão cheio de história, sentimentos e lembranças boas. Também encontrei o relicário que ela me deu de presente. Dentro, ainda estavam as fotos de seus pais, um de cada lado, bem apagados pelo tempo e má qualidade das fotografias naquela época tão distante. A única coisa que Dona Helena me pediu foi para que eu guardasse as fotos se caso quisesse tirá-las, mas que não as jogasse fora porque seus pais foram as pessoas mais importantes em sua vida.

E eu, a neta que ela nunca teve.

Agora, Dona Helena sequer lembra dos rostos conhecidos. Sua casa tão confortável e perto de um dos melhores shoppings está em mãos estranhas. O último cachorro que ela comprou antes de adoecer, não sei com quem está. Meu pai, tempos atrás, só foi procurá-la por pura curiosidade e não se abalou nem um pouco com a notícia. Como eu disse antes, nem foi pela boca dele que fiquei sabendo. Mas de nada adianta querer visitá-la. Dona Helena pode estar viva, mas há muito sua memória foi embora; gosto de pensar que voltou para a Europa e lá vive muito feliz com seus pais, quem sabe usando aquele anel tão lindo e gozando da leveza de seus 15 anos.

Gosto de pensar assim, mas é algo que ao mesmo tempo me traz tristeza. Uma senhora que me deu tanto, recebeu tão pouco, e agora passa o resto de seus dias sozinha, sem nenhuma recordação material porque estão todas aqui comigo. Será que ela se lembra do anel, do relicário? Para quem os deu e por qual motivo? Eu queria, sinceramente, que o calor do meu coração pudesse atingí-la sem importar a distância ou as leis da Ciência. Sem importar quantas vezes a tristeza o abrace tentando esfriá-lo, e sorrisse querendo o convencer de que seu lugar é a solidão. Eu queria, muito, enfrentar todos os sorrisos que a tristeza me mostra hoje e não ter medo de chorar ao ver uma Dona Helena diferente da que conheci. E que Deus um dia me perdoe por eu ter desejado que meu pai ocupasse o lugar daquela senhora no asilo para colher toda a miséria que plantou, e morresse no eco do esquecimento.

13 comentários:

L.H.C disse...

Nossa Del, que lindo, embora triste foi uma história incrível; algumas pessoas não precisam ser "família" para fazerem parte da nossa história não é? Enfim, mesmo que a Dona Helena não guarde mais as lembranças, você foi importante em um momento da vida dela e isso certamente valeu muito.

p.s
postei no blog.

Dea Carvalho disse...

Queria uma Dona Helena na minha vida...

gabriela m. four disse...

Confesso que seu pai ganhou quase mais espaço que a Dona Helena no seu texto. Pelo lido, você não morre de amores por ele. E isso é triste. Igual ao Alzheimer. Acho uma doença tão triste, mas tão, tão, tão... Porque poxa, lembrança é a única coisa que a gente tem da vida que levou. E assim, nem dá pra dizer que elas não se vão, né? =/

Ana Luísa disse...

Fiquei com o coração apertado um tanto.. Dei muitos abraços mentais em você e na tão querida Dona Helena. As lembranças podem fugir de sua mente, mas estarão para sempre marcadas em seu coração. Beijo, Del.

Pri Bragança disse...

Oi Del. Lindo texto... Tudo o que leio relacionado ao Alzheimer me deixa profundamente entristecida. Minha vozinha teve essa doença horrível. :(

Um beijão pra você.

Natalia. disse...

Me emocionei muito lendo esse texto. Imagino como você tenha se sentido e essa doença é muito triste, como mencionou a Gabriela, a lembrança é a unica coisa que nos resta da vida que levamos, e você tem a lembrança da Dona Helena e vai guardar com todo o carinho, tenho certeza.

Beijo. (não sei comentar em textos que me deixam realmente emocionada, desculpe o comentário confuso)

Letícia Pacheco disse...

Essa Helena, parece a outra Helena, só que mais velha.
Acho que não vou mais conseguir não associar uma a outra...

Lindo texto Del.

Thay disse...

Enquanto lia seu texto foi me batendo uma melancolia! E fiquei imaginando a pequena Del passando por todas essas coisas... Alzheimer é uma das piores doenças, mesmo. Nem posso imaginar como deve ser o sofrimento de perceber todas suas memórias se desvanecendo com o tempo. Quer dizer, nem ao menos sei se a pessoa consegue ter noção de que suas memórias estão lhe escapando. É um final de vida muito triste... a mãe de uma das minhas tias mais queridas sofreu com Alzheimer ao final de sua vida. Era de partir o coração vê-la naquele estado. Ain, tô segurando lágrimas! Acho que a combinação de season finale de The Vampire Diaries com seu texto me deixaram abalada. XD

Ahh, sem problemas quanto à forma de comentários aqui! É que eu só fiquei em dúvida mesmo, mas não tem problema algum comentar via conta do Google. Enfim, bom final de semana! Beijo, Del!

Gabriela, disse...

Del, fiquei com o coração pequeninho.
Gostei da Dona Helena, quis conhecer ela, saber como era. Eu tenho certeza, que apesar da doença, as boas lembranças sempre ficarão, se não na mente, no coração. Como a Ana disse. :)
Um beijo Del.

Tali disse...

Revivi cenas da minha infacia agora Del..
Sei bem o que é isso, infelizmente conheço o tal do alemão como dia minha Mãe..o Alzheime. Meu vô tem é mesmo angustiante..desesperador e até frustante para nós que estamos 'de fora' vivenciando e não podemos fazer nada para acabar com nossas angustias. Mas o bom nisso tudo que até eu tento me convencer é que ele (meu Avô), e a Dona Helena não sofrem.. os momentos para eles ficaram guardados em algum lugar.. sabe o que mais me doeu foi quando meu avô viu minha prima pequena logo quando começou o alzheime ele dizia e chamava ela, como se fosse eu rsrsrs.. foi tenso amiga.
Mas temos que aprender a sempre ver o lado bom das coisas e guardar com a gente os melhores momentos, pois são eles que vão ficar na nossa memória para toda a vida.

Bjs Del, MySinapse.blogspot.com

Karina Azevedo disse...

Ai, Del. Fiquei com os olhos a ponto de transbordar. Talvez dona Helena não se lembre mais, mas alguma coisa de você vai sempre ficar nela.
Beijo!

carlos massari disse...

essas histórias são fascinantes. sempre penso nas pessoas que passam pela terra com as memórias se apagando. como essas fotos. em alguns anos, será como se nenhum deles nunca tivesse existido. por mais triste que seja, é incrível.

Liz Rodrigues disse...

Nossa que texto lindo!!!

Parabéns!!

Liz Rodrigues

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