14 de maio de 2012

Procura-se moça vestida de palhaço

Branca, cabelos castanhos claros, olhos sem vida. 1,70 de altura e sorriso de quem não entende nada do mundo. Favor contatar o Manicômio da Cidade.

Foi abandonada pela família após o indício de que não cabia mais na sociedade. Era demasiada grande para o espaço pequeno, populoso e deveras disputado. A cabeça frágil e ávida pelo outro lado não acompanhou o tempo. "Ela deve ser separada de nós antes que contamine a todos"! E ponto final. Camisa de força e dois enfermeiros a levaram para o lado que sempre tanto a interessou, fazendo feliz uma alma já morta. O olhar vidrado, os dedos rijos, todo o corpo querendo tocar o ar. Sempre fantasiada, a fisionomia da nova moradora era desconhecida e até mesmo já esquecida pelos pais. Ninguém mais sabia, ninguém mais se importava em saber quem era ela. "Só uma louca, e nada mais". O rosto encoberto por uma pasta branca, os olhos rodeados por tinta preta com pequenas lágrimas pingadas nas maçãs do rosto, uma boca vermelha com os cantos encurvados para baixo. Vestimentas improvisadas por tecidos coloridos rasgados em tiras, uma blusa estufada branca esburacada, os pés descalços e sujos. Seu nome era Palhaça. Seu adjetivo também.

Mas aconteceu, certo dia nublado, um lapso de misericórdia na moça atordoada. Deitada na grama do jardim do manicômio, os pés para cima apoiados em uma árvore, Palhaça fitou a copa repleta de flores em botão. "Logo, logo, vai nascer", ela pensou em reticências. "Logo, logo, vai sair pra fora, pro mundo... que coisa, que coisa... Como salvar a plantinha tão bonita do mundo? Dos outros? Daquilo? Disso?" , ela entortou a cabeça para um lado e para o outro. "Só os burros são felizes", constatou se levantando devagar e sentando na grama, ainda com o olhar a observar a copa da árvore. "Só os burros são felizes, só os felizes podem ser burros... tem que ser burro pra poder ser feliz, então eu sou burra porque eu posso tudo, até ser feliz"... de repente, pareceu ouvir o botãozinho de flor chorar. Aflito, ele não queria conhecer o lado de cá. "Ele tá achando feio, tá achando cheio. Tadinho, tadinho... calma, eu vou consertar"! Palhaça se ergueu do chão, a mente nova, e correu para os muros altos que cercavam seu lar. "Tá alto. Pobrezinhos dos homens ali, tem medo da gente que não tem cabresto", ficou um bom tempo parada observando a fronteira branca e descascada. Então, de relance notou que o portão grande de ferrugem estava aberto enquanto um moço cheio de espinhas mantinha o carro estacionado para entregar remédios.

— Vou salvar a plantinha do mundo. Vou poupar o mundo da plantinha - e saiu murmurando, a maquiagem dos olhos escorrendo pelos cantos.

Quando o entregador e o porteiro perceberam, ela já estava virando a esquina correndo sem tocar os pés no chão. Os trapos coloriam o ar e se embaçavam com a velocidade das pernas magras e pálidas da pequena palhaça. A inocência de criança, tão insistente nessa menina sumida da consciência, percorreu o trânsito com os olhos arregalados - duas jabuticabas gozando primavera. Olhou para cima, olhou para um lado e para o outro, olhou para o chão. A atenção dos transeuntes foi sugada pela palhaça indecisa à beira da calçada. No horário de almoço, a cidade estava sendo invadida por um dos leprosos de sua margem. Tinha barulho, cheiro ruim, gosto amargo, água suja e estampa desbotada. "Podre, podre"... Ao seu lado parou um moço jovem, terno e gravata, maleta em uma mão, celular de última geração na outra. "Fala sem dizer nada", ela sussurrou para si passando as costas das mãos na boca; sentia nojo. Decidiu, por pura necessidade, cutucá-lo:

— Tem uma plantinha assim - ela demonstrou o tamanho da planta afastando um dedo do outro. - Ela tá nascendo no jardim de casa, mas não dá agora porque o mundo tá ruim. As pessoas vão pensar que ela é veneno e vão matar ela, vão matar... me ajuda?
— Sai daqui, garota, antes que eu chame o policial! - o rapaz rosnou.

"É tudo assim", ela pensou. Homens com pressa de se enterrarem a sete palmos debaixo da terra. Mulheres estressadas com a aparência e fazendo de conta que o interior não existe; só aquele em casa, que merece a mobília mais cara. Os humanos não entendem o que é nascer, mas são peritos na morte. "Matam achando que não vão ser matados", Palhaça suspirou. O povo habitante do mundo que ela desconhecia, se importava com o que os olhos enxergavam se esquecendo daquilo que só a alma via. Uns ignoravam os outros mesmo sabendo que todos precisavam de cada um. A estrutura estava partindo ao meio - a moça escutava! O chão tremia, o céu balançava. Ao seu redor, todos permaneciam martelando os sapatos no asfalto. "Corre, corre!", ela brincou; o moço ainda ao seu lado esperando o sinal de pedestres abrir. "Tão fugindo do quê?", ela gritou. Deles mesmos, querida. Que companhias insuportáveis, eles são. Projetam-se nos outros se esquecendo de que são eles os odiáveis. Acusam sendo eles o réu, sufocam sendo eles a fumaça, brincam sendo eles a coisa séria, torturam sendo eles os torturados, não fazem nada sendo eles o problema, criam sendo eles a destruição... "Pára, pára!", choramingou. "Mistura, mistura... tem que desmisturar!", e tornou a olhar para o moço.

Bruscamente, puxou a gravata do pedestre, que de sobressalto largou o celular. Os pés descalços e sujos pisotearam o aparelho até chutá-lo sem querer para dentro do bueiro. Ele surtou! Colocou as mãos na cabeça e atacou Palhaça com o cuspe do terror. Ela não entendia, porém, por que ele gritava "sua louca"; os braços erguidos, as veias saltadas, o animal selvagem pulsando, fervendo, se contraíndo, os dentes caninos escapando pelas palavras. "É tempo perdido... não tem mais a alma", ela descobriu tardiamente. A plantinha, coitada, estava perdida. Juntaram três, quatro, cinco, seis homens para segurarem o pobre desorientado que perdeu o celular. Quem seria ele sem status? Só mais um. "Um mais um dá onze", o mundo estava explodindo e só Palhaça sentia as vibrações. Os religiosos diziam que aquela fantasiada moradora do manicômio era o câncer da humanidade, mas "não, espera... essa é a Bíblia errada!" Os dedos inquisidores surravam dizendo que uma raça imprópria não podia viver espalhada, mas "são vocês que se multiplicam sem olhar pra frente!" As vozes condenavam, clamavam por um quarto branco para ela, mas "eu só queria salvar uma plantinha de vocês!"

Palhaça sofria de uma doença incurável, cujo principal efeito colateral eram os olhos abertos. "Já tentei fechar, mas o médico se assustou com o sangue. Gente não gosta de sangue, acham triste. Não sei por que, é bonito, fino, forte, dá vida, constrói cidades, se apaixona, se perde, se encontra... mas muita gente lá fora não sabe que não tem mais sangue, eles só tem vinagre no corpo". Azedos, todos eles, não sabiam de mais nada. Inventaram tantas verdades, que se perderam entre as próprias mentiras; não confiavam, não segredavam, não existiam. Tornaram-se mudos, surdos, cegos - discretos macacos fugindo da ciência e a reinventando para ter do que ter medo. Viciados na desgraça, no desamparo, na catástrofe - intrépidas máquinas querendo roubar o sol do próprio céu. Derrotados exibindo prêmios roubados na estante do ego e forjando heróis de um cotidiano estilizado pelos vilões - egoicos. Palhaça compreendeu que não havia lugar para a plantinha também, "por isso ela vai nascer do meu lado do muro"! Brilhante conclusão. As gotas da garoa chacoalharam os sentidos da moça, que saiu correndo se afastando dos homens loucos. Livres? Não. Eternamente aprisionados em um sonho profundo e indolor.

Ela correu, correu, correu sentindo a chuva, o ar, as células e todas as pessoas, todos os mundos dentro daquele único planeta. Por um instante, se sentiu feliz e aliviada por saber que o botãozinho estava a salvo, protegido, distante das mãos loucas por apertá-lo até a morte. Palhaça estava segura, finalmente sabia, de todo o mal e incompreensão que tomaram conta das ruas enquanto as casas dormiam. "Todo mundo vai morrer, mas eu não!", e de fato era eterna. Seu coração jamais irá parar de bater na memória daqueles que compartilham sua sensibilidade e estão perdidos, deslocados, desse lado do muro. Lembre-se, sempre haverá um e outro que sabe das coisas erradas e fora do lugar. Por mais que os valores estejam invertidos, vez e outra alguém irá pular o muro para nos avisar que o caminho é outro. Os palhaços irão ocupar a cidade berrando a plenos pulmões: Ouçam, o circo chegou! Num piscar de olhos, a chuva será de confetes e a loucura será normal.

Palhaça não foi longe. Passou voando por um, dois, três carros e um ônibus, mas antes de alcançar o cruzamento sentiu os braços da prisão agarrarem sua cintura. Apagou. Despertou, novamente, no quarto do manicômio. Leve, linda, nova. Lar, doce lar. Pela janela, avistou a copa da árvore, os botões alegres e prontos para estourarem; sorriu, a maquiagem escorrida por toda a cara: "Vem pra cá! Tá tudo bem agora!"

Conto enorme, mas se não fosse tão grande seria apenas mais um texto blogueiro e não é minha intenção. Foi inspirado na música "Esse Mundo Não Vale o Mundo", d'O Teatro Mágico. Dedico à todos os loucos!

6 comentários:

Dea Carvalho disse...

A palhaça me carregou na sua maquiagem borrada e vivi cada instante junto com ela. Adoro quando um texto me transporta assim, me fazendo sentir o cheiro do cenário. Ah! Os botões são mesmo lindos!

L.H.C disse...

Que ótimo, Del, eu adoro quando você escreve contos, sem mais; simplesmente brilhante, profundo, realmente.

Nick Soad disse...

De tudo que já li nessa vida, nada me emocionou tanto como esse texto.
Por diversas vezes, quis chorar. Me coloquei mentalmente naquele lugar, no lugar dela, naquela rua, naquele momento. E pensei, pensei muito. A minha conclusão? O mundo está cego. Ao contrário. Está surdo, está mudo. O mundo não anda. As pessoas não andam mais, já não vivem mais. Só respiram.
Não fazem nada além de respirar.
Mas, existem pessoas que realmente vivem e enxergam. Existem aqueles que observam atentamente a tudo. Ao caos, a falta de alma, a falta de vida. E estes que são chamados de loucos, são lúcidos. Os derradeiros lúcidos da face da terra. Aqueles que estão em extinção.
Pobres humanos. Não são ninguém. Não sou ninguém...
Ninguém é ninguém.

Ótimo conto, Del. Perdão se falei demais.
Um beijo.

Thay disse...

Contos enormes são os melhores! Nesse tópico sou adepta da filosofia de 'quanto mais, melhor'! E o que dizer da Palhaça? Que criatura mais doce! Dá vontade de dar a mão a ela e sair juntas nessa correria. Gosto quando você escreve contos, me faz viajar facilmente nas suas palavras. "O povo habitante do mundo que ela desconhecia, se importava com o que os olhos enxergavam se esquecendo daquilo que só a alma via" - perfeito!
Beijo!

Gleanne Silva disse...

Nossa! Nunca li algo assim na minha vida, um conto tão suave de uma forma diferente, estranho de uma forma boa, de como a vida é simples e nós a complicamos. É meio inexplicável, só posso dizer que amei. Beijos.

Scarlat Assunção disse...

Meu Deus! Impossível descrever todas as sensações que tive ao decorrer do texto!
Lindo, incrível, doce, intenso e tão, mas tão real. Real de doer e sorrir ao mesmo tempo!
Um viva aos loucos! o/

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