23 de maio de 2012

Voar, cair e levantar

Tem alguém ligando aqui em casa e desligando o telefone quando atendemos. Falamos alô, mas ninguém responde. Eu, que sou hipocondríaca e (provavelmente, se caracterizada) a nerd imbecil da turminha do barulho, já conspiro teorias de que estamos sendo vigiados. Deve haver alguém do outro lado da rua com uma câmera a nos monitorar e anotar em um caderninho preto os horários que saímos e voltamos para casa. Essa pessoa quer nos fazer mal. Seja quem for, deseja vingança! Existe a possibilidade de ser a esposa da segunda família do meu pai. Eu tenho certeza de que ele sustenta trinta famílias pelo Brasil. Pode ser um namoradinho de adolescência da minha mãe. Alguém que quer plagiar meus textos. Um fantasma. Um ex meu que não se conformou. Pode ser qualquer um, menos um cidadão querendo vender aspirador de pó ou uma senhora idosa querendo saber como estamos. Imploro para que meus pais instalem um identificador de chamadas, mas a preguiça os impede.

Eu sou assim, catastrófica. Alguma desgraça irá acontecer. Tem que acontecer porque a vida não está de brincadeira. Já percebi que estou nessa merda para levar sustos e nada mais. Calada, compenetrada, fico acariciando as preocupações como se fossem gatos manhosos no meu colo. Sou perturbadora. "É mais forte do que eu" choramingo para a terapeuta, "não consigo sair desse estado automático de atenção". Os olhos dela dizem: bitch, please. O profissionalismo obriga a coitada a ter paciência e dizer que iremos curar isso com o tempo. Tento me convencer de que não estamos mais em uma guerra, mas minha Ansiedade não me escuta. Com pressa, ela sai correndo de um lado ao outro usando farda, a cara pintada de preto, capacete militar e uma pistola d'água com pimenta dentro. Só me conheço dessa forma, portanto, é difícil me apresentar a alguém diferente dentro de mim mesma. Entendeu?

Nem eu.

"Em 2009 comecei a sonhar com acidentes aéreos" contei para minha psicóloga ao chegar no divã. No começo achei que era medo de voltar para casa. Alguns meses antes de embarcar de volta ao Brasil, houve aquele acidente com a Air France. Logo depois, o vulcão resolveu foder com minha vida também, fechando os aeroportos na Europa. Eu sonhava com boings caindo sobre casas, incendiando bairros, caindo sobre morros ao longe e eu assistindo a tudo da minha janela. Agora em 2012, comigo em casa sem precisar me preocupar com as máquinas voadoras do diabo, os sonhos continuam. O último deles foi o mais estranho. A polícia havia sido avisada sobre a queda de um boing, e veio para meu bairro na tentativa de levar o avião para um local seguro através de sinalizações. Estacionaram carros de tetos luminosos dos dois lados das ruas e homens uniformizados faziam gestos com as mãos, como em uma pista de pouso no aeroporto. As pessoas saíram de suas casas para olharem a tragédia iminente. O avião cairia sobre nós e não havia o que fazer senão tentar diminuir o estrago. Os homens morreriam, os carros morreriam, a rua morreria.

— Vejamos se você consegue visualizar - minha psicóloga se ajeitou na poltrona. — Essas pessoas na rua, os carros estacionados indicando o local certo para o avião cair, estão protegendo a queda.
— ... Hã?
— Os sonhos são uma manifestação do seu subconsciente, e ele está acolhendo o seu avião em queda. No caso, algo em você está querendo morrer. Entenda que a morte nos sonhos nem sempre significa desencarnar, e não se preocupe, seu caso não é uma premonição! Algo em você está querendo "morrer" para dar lugar a uma nova coisa, abrir espaço para uma nova você. Porém, existe uma parte sua que não quer se desfazer disso, ainda está apegada a zona de conforto. Então, seu subconsciente protege "o acidente". O avião: a mudança interior. A queda: o medo de mudar.

Eu quis dizer que ela é uma pessoa muito foda, mas acho que ela já sabe disso. Preferi balançar a cabeça, meio boquiaberta, e mudar o foco do meu olhar para a estante de livros no fundo da sala. Sempre faço isso quando não sei o que dizer; acontece frequentemente. Ela ainda explicou que nosso subconsciente usa o sonho para nos mandar mensagens ou decodificar o que aflige nosso instinto. Todos somos uns animais, por mais que a gravata e o salto alto demonstre o contrário. Temos instintos e eles entram em ação quando acuados. De forma moderada, é claro, já que fomos presos em gaiolas pelos sistemas econômicos, mas eles continuam se manifestando através do que acreditamos ser mensagens subliminares. Eu jamais chegaria a essa conclusão da minha terapeuta sem sua ajuda. Continuaria achando que iria morrer em um acidente terrível como aquele envolvendo a TAM nos anos 90. Lembram? Acho que foi no Jabaquara.

Não tive mais sonhos desse tipo desde a tal consulta, mas ainda fico ansiosa quando escuto o ronco das turbinas passando pelo meu bairro. "Deixe morrer" digo para mim mesma na madrugada de insônia. Os aviões seguem a rota diretamente para Congonhas e eu fico deitada de barriga para cima, os olhos fixados no teto, a cabeça travando as engrenagens. Existem muitas coisas em mim em transição. Dezenas. Acumulei muito lixo nos últimos vinte anos. É difícil dizer, apontar com determinação o que estou tentando salvar. É óbvio que não tem a menor serventia agora, mas sinto um apego emocional ao que estou acostumada a ser. Ora essa, quem não se apegaria a si mesmo? Eu estou no meio do oceano e não sei nadar, no que vou me apoiar? Na boia. Quem é a boia? Eu sou a maldita boia. Estão tentando tirá-la de mim com a promessa de me entregarem uma melhor, ou até um bote, mas como sobreviverei durante a troca? Eu não sei nadar! Um segundo pode valer minha vida.

"Deixe cair" é meu mantra. Deixe o avião cair, arder em chamas, virar cinzas. "Chegará o dia em que eu te direi: você pode voar" a terapeuta diz, "e você irá acreditar em mim". Acho que o segredo não está em acreditar ou não nisso. O verdadeiro segredo é voar sem o medo de cair. Deveriam mudar o discurso: Um dia, eu lhe direi que você não irá cair.

E eu espero acreditar.

7 comentários:

Alessandra Rocha disse...

wow Del... wow
to sem palavras aqui, sério, só... por favor, aplaudindo de pé!

Camila Faria disse...

Maravilhoso o seu texto. Aliás, todos eles. :)

Thay disse...

Às vezes penso em me consultar com um terapeuta, mas acho que leva algum tempo para que seja criada esse tipo de convivência. Pelo menos ao ponto de ele poder me dizer coisas assim, como sua terapeuta te diz. Mas a curiosidade por esse tipo de consulta é grande, só fico imaginando o quanto esse profissional conseguiria me fazer falar. Meus problemas e caraminholas tendem a ficar aqui dentro, sem nunca ver a luz do dia. XD Enfim, dizer que seu texto é ótimo já se tornou rotina, hehe! Mas eu digo mesmo assim: ótimo!! =*

Ana Luísa disse...

Muito bom, Del. E nem comento sobre esses psicólogos.. Sabem tanta coisa que até assusta!!
Beijo!

L.H.C disse...

Essa história de subinconsciente me intriga demais, esse é um dos motivos para eu querer ser psicóloga, tentar entender o que se passa na mente humana.Eu tenho super vontade, pra não dizer necessidade, de fazer terapia, mas, enfim,um dia eu faço.

Nina disse...

Não confio em psicólogos, já te contei? Não consigo confiar em alguém que nada sabe da minha vida e me aconselha segundo teorias de uma disciplina medíocre que nega, por exemplo, a espiritualidade da pessoa. Psicologia nem ciência é.
Eu sou astróloga (vocês precisam acreditar em mim, eu sou astróloga e conheço a história do princípio ao fim). E, por isso, confio nos sonhos que tenho, e prefiro eu mesma tentar interpretá-los.
Deixei de sonhar com tragédias.
Abraços.

Pablo disse...

nossa, eu também tenho sonhos repetidos de vez enquando, mas não é nada muito catastrófico. sonho carregando um bebê, abraçando como fosse meu filho... o mais incrível é que sinto um amor de pai, algo que não sei explicar, mas é um amor puro! se dia desses faltar assunto durante sua consulta, pergunte o que significa por mim... eheheh! = D

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