29 de junho de 2012

Por que eu gosto de arte circense?


É o que mais as pessoas perguntam para mim: "Por que você gosta de circo?" Na verdade, eu não entendo muito bem essa dúvida já que, para mim, é o mesmo que gostar de Beatles ou Renoir. Eu sei, é incomum descobrir alguém que goste tanto de uma coisa tão... como posso dizer? Comum. O circo passa batido por muitas pessoas. Algumas nem se lembram da existência dele ou acham que está extinto desde o século 19. Tenho colegas que acham brega, outros rídiculo e ainda aqueles que tem medo de palhaços. Nada disso me tira do sério porque não sou do tipo que defende as predileções com unhas e dentes. Não acho que todo o mundo deveria voltar a atenção para o circo, pois entendo que compreendê-lo é coisa para poucos (ou para os dispostos). Por outro lado, sinto falta de ter com quem compartilhar as conversas sobre o assunto, por isso, vou tentar explicar por qual motivo, razão, causa e circunstância gosto tanto da arte circense.

Tentar explicar porque o motivo é complexo até para mim. Não existe uma explicação sucinta, que deixaria todos satisfeitos. São vários fatores ocorridos através do tempo, desde minha infância, que foram amadurecendo e se cultivando dentro de mim. Começou, mais precisamente, quando vi um outdoor promovendo o Cirque du Soleil no Brasil. Lembro se como fosse ontem, eu no carro dos meus pais olhando para fora e lendo tudo o que aparecia na minha frente. De repente, vejo um anúncio enorme do espetáculo Alegría, que se instalou em São Paulo para uma temporada. Fiquei imediatamente encatada pelas cores, e depois, pelo circo. Em seguida, não podendo ir ao Cirque du Soleil por causa do preço, meu pai me levou a um mais simples, modesto, que teria a apresentação da Eliana, se não me engano. Se me perguntarem como foi a apresentação, não vou conseguir respondê-los; eu não me lembro de nada. A única coisa que ficou na minha memória foi a tenda, os trailers e a parte de trás do campo onde a companhia estava. Naquele dia eu soube que o meu lugar sempre seria ali.

Eu gosto muito de comparar a logística circense com a vida em geral. Após tantos anos fazendo isso, é impossível separar um do outro. Por fora, na superfície, existe a beleza, o encantamento, a facilidade em confrontar o perigo. Por dentro, profundamente, há a verdade ofuscada pelo brilho dos olhos, o feio, o difícil, o trabalho árduo e não recompensado. Existem os palhaços, os equilibristas. Um dos meus exercícios preferidos é convencer as pessoas que de fato vivemos em um circo! Basta observar.

Outro fator, mais complexo ainda, é o amor que nasceu comigo. Eu sempre carreguei essa paixão circense, só precisei da minha primeira visita ao circo para descobri-la. Era como se eu estivesse voltando para casa - aquela sensação gostosa de chegar ao lar e ser recebida pela energia e pelos cheiros reconfortantes. Por mais que eu me esforce, fora da tenda me sinto deslocada e incomodada. Tem sempre algo errado, até eu adentrar uma companhia circense e tudo dissipar se como nunca tivesse existido. "É coisa de alma", como diz minha mãe. Inexplicável para muitos, perfeitamente compreensível para os espíritas. Não que eu seja do Espiritismo, na verdade, não sou de ninguém, mas há muitas coisas nessa doutrina que são as únicas capazes de me dar explicações. Assim como a Maria Fumaça em exposição no Memorial do Imigrante, que me arranca lágrimas antes mesmo de eu perceber que estou querendo chorar. Ou o Mercado Municipal que abraça meu coração de uma forma que nenhum ser humano consegue imitar. O circo, que me recebe de braços abertos como a mãe que deixei sozinha em outra vida, e morre de saudades.

Pois é, não existe a explicação. Infelizmente, apesar de tentar, meu coração não fala. As palpitações dele, sinto muito, ainda não consigo traduzir de todo. Eu adoraria poder abrir os olhos das pessoas e dizer: "Olhe, veja, sinta!" Mas estas sensações pertencem a mim. São lindas, emocionantes, e só minhas. O circo desperta cada pedaço meu, até mesmo aqueles que eu nem sabia existir, acorda o lado emocional do meu coração e adormece o meu racional. Eu gosto de circo porque é nele que eu me sinto completa e capaz de tudo. Até de viver, no sentido lato da palavra. Eu gosto de circo porque é impossível não me render a gentileza dos artistas, as cores, sabores, aromas e ao esforço que essa gente itinerante se presta só para levar a arte até as pessoas. Gosto porque nele existe a pluralidade, como diria Fernando Anitelli, existem as possibilidades sem fronteiras, o sonho sem o medo, o medo com amor, o amor repleto de paixão. Este texto está longe de terminar...

Eu gosto porque eu sou o circo.

13 comentários:

Erica Ferro disse...

Cara, que post lindo!
Sabe, eu sinto exatamente o mesmo amor e o mesmo encantamento que você, não pelo circo, e sim pela natação.
É extremamente difícil dizer o por que de sermos apaixonados por algo. Mas é porque na verdade não precisamos explicar o amor que sentimos por uma determinada coisa/pessoa, basta sentirmos dentro do peito. Amar basta.

Ah, nem sei o que eu digo mais... Fiquei encantada por esse post, Del!

Beijo. ;)

Sacudindo Palavras

L.H.C disse...

Lindo texto Del, sinto muita admiração pelo seu amor pelo circo; não é algo que eu sinta, na verdade pertenço mais ao grupo dos que sentem antipatia por palhaços, mas, guardadas as devidas proporções, concordo com você, nós vivemos num circo.

Monique disse...

Posso ter o atrevimento de dizer a você que sei como é? Me senti assim quando cheguei ao universo do teatro. Senti que toda aquela poesia sempre fora minha, o abstracionismo do mundo dos artistas que compunham a classe dos palcos era o mundo que eu havia, por tanto tempo, procurado. Foi lá que fui apresentada a Fernando. Sim, o Anitelli. O gênio, poeta. Hoje já não presencio as aulas dessa arte, porém sei que ela faz parte de mim, e que sem ela provavelmente não teria me construído de tal forma como sou hoje. Abençoadas sejam as artes - que iluminaram a minha vida (e, ao que parece, a sua).

Beijo. :)

Ana Luísa disse...

Ahh, Del! Paixão não se explica, e por isso é mágica! Como eu e o teatro! E eu já falei que AMO ler/ouvir sobre as paixões dos outros! AMO ler seus textos sobre circo, mesmo que você escreva um trilhão deles! Sempre vou ler com o olho brilhando.
Beijo!

Flá Costa disse...

Del, verdade. Eu sempre quis saber porque você gostava tanto de circo. Achava que tinha alguma coisa de família, sei lá. Mas você falou tudo: quem é que disse que precisa de uma razão. E é bem verdade que a vida parece um circo e vice e versa. É mesmo uma metáfora das mais completas, dá pra passar dias comparando.

Eu particularmente não tenho nada especial com circo, até porque a última vez que visitei um devia ter uns 7 anos. Mas sempre achei a atmosfera, o visual muito bonito.

Beijucos

Fran Carneiro disse...

Eu já estava emocionada... Aí ao ler "é coisa de alma" duas lágrimas caíram dos meus olhos.
Concordo com seu ponto de vista sobre a doutrina espírita e partilho do amor pela Maria Fumaça.
Gosto muito de circo, mas não posso me atrever a dizer que é um amor tão bonito quanto ao seu, ainda que possa dizer que acho que entendo. É amor e não dá pra se explicar amor.

Lindo texto, Del. Acho que um dos mais bonitos que já vi!

Natalia. disse...

Que texto lindo, Del!
Me emocionei muito com o último parágrafo.
É tão bom ter um lugar onde a gente se sinta em casa, se sinta completo de verdade. Eu não sou tão fã de circo, até gosto mas não tanto quanto você, mas entendo perfeitamente a sua relação com ele!

Beijo!

Mariana M. disse...

Não existe uma razão. Você simplesmente gosta. Você descreveu exatamente o que eu sinto. Só que aquilo que você sente pelo circo eu sinto pela veterinária. E como esse mundo seria fantástico se todo mundo soubesse do que gosta e se soubesse aquilo que os fazem mais felizes. <3

Mayra disse...

Lindo!

Thay disse...

Ai, essas paixões avassaladoras que nem sabemos bem de onde surgem! Mas assim é que é bom, né? Quem disse que tudo nessa vida tem que ter razão de ser e fazer sentido? Não sou das maiores fãs de circo e tenho medinho desses palhaços de feirão de carros, mas fico encantada com seu carinho por esse mundo. É especial saber que tem um lugar no mundo aonde nos sentimos completos. ^^
Beijo, Del!

Antônio LaCarne disse...

não sei, mas procuro entender o porquê de eu nunca ter gostado de circo, nem de palhaços. talvez uma das coisas mortas que se penduram à vida. :)

Pri Bragança disse...

Oi, linda.
Lindo texto.

Sim, tem coisas que não tem uma explicação aparente ou racional. Isso é sentimento. As pessoas seriam, de fato, mais felizes se cada um descobrisse o seu circo.

Gabriela Freitas disse...

Nossa, os móveis ficaram lindos! Sério! Adorei, também estou reformando o meu quarto, mas estou meio indecisa. :/

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