A teoria da mesa

Abri uma votação na página do blog para os leitores escolher o próximo texto dentre três títulos. Com incríveis 0.000.004 votos, é este o tema publicado. O texto não foi muito desenvolvido, como vocês podem ver, isso devido a uns problemas pessoais que venho passando. O próximo será melhorzinho, prometo :)

Na mesa de jantar, escuta-se os talheres raspando nos pratos e os copos sendo repostos à mesa. Alguém tosse de leve, a geladeira chia, uma moto desce e um carro com som alto sobe a rua. O suco é servido preenchendo o espaço meio vazio. É assim que eu e meus pais fazemos nossas refeições - ninguém conversa, puxa assunto ou comenta sobre o clima. Eu mantenho meus olhos no prato, me consentro na comida e eles fazem o mesmo. Quando alguém termina, pega o prato juntamente com os talheres, o copo, levanta e vai embora se como estivesse sozinho.

Não é uma reclamação, é uma teoria.

Já almocei e jantei em muitas casas diferentes. Em cada uma delas, os moradores se comportavam de forma adversa - alguns conversavam bastante, outros davam risadas, brincavam ou apenas faziam comentários aleatórios para não deixar o silêncio predominar. Na minha casa não. É possível ouvir o barulho da comida caindo no estômago, fazendo um baque surdo de saco de batata. A gente ouve o gole de suco. A salada sendo triturada. Quando pequena, cada um comia em seu canto predileto - eu no meu quarto, meus pais no deles. Crescida, meu pai resolveu me obrigar a comer na mesa "igual uma família". Tudo bem. O problema é que a família unida e amorosa não solta um miado durante a refeição. Eu e minha mãe somos obrigadas a assistir de camarote a cara de bunda dele e nada além disso.

Então, esta é a minha teoria: a mesa de refeições personifica a família. É ali que toda a verdade fica exposta, aproveitando a distração da fome. Essa bendita acaba por abrir todas as jaulas dos instintos! Se está tudo bem, tudo bem. Se algo vai mal, as pessoas emudecem com a desculpa de não falar com a boca cheia - de comida, talvez, mas eu diria que em 99% dos casos a boca está cheia de verdades destrutíveis. "É melhor dar uma bela garfada nessa carne, antes de mandar esse desgraçado enfiar a faca no próprio pescoço". Coisas assim, razoáveis. Não adianta, família precisa passar a maior parte do tempo distraída, caso contrário, uns pulam por cima dos outros querendo matar à grito. Ótimo terem inventado esse ritual para satisfazer tal necessidade! Juntou a fome com a vontade de comer (se me permitem o trocadilho infeliz).

9 comentários:

L.H.C disse...

Na minha casa nunca houve esse negócio de comer na mesa, cada um no seu lado, eu gosto de comer à mesa pela comodidade de colocar o prato; hoje em dia mal dá tempo almoçar, quanto mais esperar que todos estejam sentados, dá tempo não, acho que essa história de "como uma família" é maquiagem.

Pablo disse...

deeel, como sempre arrasando nos textos! confesso que fiquei um 'cadinho' preocupado. tá tudo bem por aí?

Elizia Cavalcante disse...

De pegar o prato e ir olhar a Globo a jogar prato no chão, lá em casa já saiu de tudo nas refeições, mas vez em quando ainda acontece um 'almoço em família', o problema é só que as pautas divergem muito.

Anna Vitória disse...

Del, apesar de revelar uma coisa muito triste, sua metáfora é muito certa. Eu, pelo menos, analisando a mesa aqui de casa e as outras mesas nas quais tive a oportunidade de comer, pude observar que o clima e as conversas (ou não conversas) na hora do almoço ou na janta refletem bastante como aquela casa funciona.
Aqui em casa somos só eu e mamãe e nenhuma das duas almoça em casa, e como não temos o hábito de jantar, acaba que não sentamos à mesa de jeito algum. Só nos fins de semana, que sentamos juntas pra tomar café-da-manhã, nossa refeição predileta. Também um reflexo da nossa vida.
Só torço que logo logo você possa escrever um outro texto como esse, mas contando que você finalmente conseguiu ter em casa uma mesa tão bacana, interessante, e querida, que mal dava pra saber o que era melhor, comer ou jogar conversa fora.
beijo grande

Lilica disse...

Nossa...aqui em casa é o oposto! Falamos de tudo, desde coisas sérias até sobre o Reality Show do Momento! aliás se tem algo que me deixa feliz é o almoço de domingo na minha casa! é uma delícia sempre!! beijos

Mia Sodré disse...

Eu nunca havia pensado nisso. Mas faz muito sentido, realmente.
Aqui em casa a coisa é caótica: sabe o filme "Casamento Grego"? Então, é basicamente aquilo ali. Minha família é praticamente igual à família da Toula e qualquer mínima reunião - nem que seja um simples almoço ou jantar - se torna uma discussão sobre algo genérico. O assunto não importa tanto, o importante é falar e ter opinião.
Vai ver é por isso que sou tão tagarela. :p
Mas fiquei pensando: deve ser tenso viver em extremos. Quer dizer, pra mim é. E pra você - com o silêncio das refeições na sua família - deve ser também. Ou não. Pessoas se acostumam com as coisas.
Falei demais de novo. :p
Beijo!

Natalia. disse...

Uma vez meu irmão trouxe a namorada para nos conhecer e teve um almoço em família. Eles falaram falaram e eu fiquei calada porque se abrisse a boca ia discordar de tudo que eles falaram e eu seria a decepção da família, não meu irmão. Assim, eu prefiro não ter esses almoços, eu sou muito igual ao meu pai no gênio, mas as ideias são completamente diferentes e sempre acabo ouvindo um sermão. Geralmente almoço com a minha mãe que aceita mais o que eu tenho a dizer, não fica competindo, rs.

Espero que as coisas fiquem bem com você viu?

Beijos!

Mayra disse...

Muito boa sua teoria Del! Boa mesmo! Na minha casa as refeições são na mesa, em conjunto e olha... eu amo! É super divertido, mas é bem assim como você falou, infelizmente...
Um grande beijo, viu?
<3

Liz Rodrigues disse...

Como sempre amei o texto!!! E acho que os "almoços em família" reflete por demais como é cada família...

Vc escreve muito bem... Opa já disso isso aqui!!

Bju grande moça chata!!

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