22 de junho de 2012

Uma crônica fiel

Os 25 anos chegaram e a escritora foi embora. Como irmãos que se detestam por culpa de suas visões de mundo diferentes, ambos parecem indispostos a compartilharem o mesmo lugar. Desde 04 de junho não escrevo uma letra sequer e minha cabeça passa pela estação da seca. Então pensei: Mas não preciso ser uma escritora o tempo todo no Bonjour Circus. Pelo contrário, é aqui o único lugar onde não há imposição. Eu não preciso acertar nas vírgulas nem me fazer entender - basta desabafar. E eu preciso, confesso. Ando sobrecarregada, só esperando a primeira oportunidade para trovejar. Sempre soube que essa idade me traria a sensação excessiva de comando e auto controle, se quer saber, eu não sabia que sobreviveria até os meus vinte e muitos anos. O que eu não esperava era essa falta de traquejo, essa inexperiência para lidar com a vida, tão própria, que me assusta ao surpreender.

Meu meio-irmão faleceu. Não, não estou de luto. Era um dos quatro filhos do primeiro casamento de meu pai. Nunca o vi e desconhecia seu nome até a notícia da morte. As lágrimas, portanto, seriam hipocrisia de minha parte. Mas existe aquele negócio chamado sangue e, vou te contar, o desgraçado é forte e persistente. O cara não deixa de ser meu irmão, ter o mesmo sobrenome que o meu e, infelizmente, o mesmo pai também. Apesar d'ele ter sido agraciado com a sorte de não crescer ao lado desse homem, ainda dividimos o bendito DNA. Junto com o código vieram os problemas familiares, que não são poucos. Entre suicídios e desvios comportamentais, está a bebida - a culpada pelo fim do rapaz. Não tenho a mínima vergonha de admitir que todos os homens da família paternal tem um fraco pelo álcool. Reconhecer isso deve servir de algo; senão para conscientizar as pessoas, ao menos para fazê-las parar de perguntar "mas por que você não bebe?" Por incrível que pareça, não beber é um insulto sociológico para muita gente.

Na pré-adolscência eu estava convencida de que morreria antes dos meus 25 anos. Olha que graça, cá estou! Digamos assim, somente parte de mim, mas posso afirmar que estou - de um jeito ou de outro. Assoprei as velas do bolo e já me esqueci do que desejei. Com certeza algo bem trivial, levando em consideração minha superficialidade costumeira. Eu adoraria ter a coragem de pedir algo em nível mundial, mas quero que o mundo se exploda. Desculpaí. Poderia ter pedido o fim das dores nas minhas costas, que estão me matando desde o acidente, mas na hora devo ter achado um desperdício de pedido. A saúde, convenhamos, não vai com a minha cara de jeito nenhum. O meu bolo (de nozes) favorito, contudo, não me deixou cair na depressão em plenas boas vindas à metade do caminho aos 30 anos de idade. Pensa bem: vinte e cinco. Vale alguma coisa ou foi acúmulo destemperado?

Já posso ser mãe. Não sou mais chamada de mocinha. Posso casar. Minha mãe não precisa mais saber sobre minhas consultas ginecológicas. Ninguém, na verdade, nunca precisou saber porra nenhuma a meu respeito. A autonomia sempre me pertenceu, eu só optei por ignorá-la. Agora não. Agora eu tenho 25 anos e muita história nas costas, por mais que milhares de outras estejam na soleira da porta, esperando na fila enquanto passam os olhos por um jornal. Quando comi o primeiro pedaço de bolo, não fiquei feliz, apenas pensei: "Estou viva, e agora?" O que faço com isso aqui? Por que não posso mais brincar? Quem foi que me catalogou como adulta, afinal de contas? Essas pessoas não entendem nada, são simples aprendizes quando se trata de mim. Eu não sou adulta. Eu não tenho 25 anos, se querem saber. Minha idade está estacionada em seu cadillac cor de rosa nos 18 anos de idade, onde eu acreditava em uma dúzia de coisas e ainda me importava com outras três ou quatro. Sou uma confusão tão grande, que nem eu mesma sei o que de fato sou. Como podem carimbar meu título de eleitor assim, sem critério algum? Mal sabem a besteira que posso fazer com esse poder em mãos - eu, uma criança débil, posso afundar o país.

Opa, isso já está acontecendo.

O que eu faço com 25 anos? E ao chegar nos 30, terei feito o quê? Não conheço minha família, jamais vi o rosto dos meus meio-irmãos, também desconheço o caminho que tomei e me trouxe para cá. É uma vida estranha, embora na maternidade tenha sido dada como minha, e de mais ninguém. Às vezes tenho vontade de reencontrar o bebê que ficou ao meu lado no bercinho do hospital, só para ver que rumo o coitado tomou. No fim das contas, ele é mais íntimo do que meus próprios laços sanguíneos, que sou obrigada a chamar de parentes. Preciso mudar meu guarda-roupa. Tenho que começar a usar cremes. Salto alto, preciso comprá-lo. Sou mulher? Pois é, parece que a sociedade espera isso de mim. Não posso mais fingir que sou escritora, daqui para frente, até meus 30 anos, terei que ser uma ou qualquer outra coisa. Nem que seja inadequada. É, acho que no fim sempre serei inadequada.

Quer saber? Eu não quero saber.

14 comentários:

L.H.C disse...

Ter 25 anos tem sido bem complicado, tipo, quando eu me pergunto o que eu já fiz afinal, percebo que não é lá grande coisa, parece que eu já estou na crise dos trinta, afinal daqui pra lá é um pulo, pra que esperar para sofrer depois; queria resolver minha vida pra logo, pra hoje, mas isso parece ser realmente difícil, anyway. Desejo que você tenha sorte a partir dos 25, Del, que alguma luz possa aparecer no final do túnel.

Ana Luísa disse...

Essa história de virar adulta é complicado. Parece que o mundo espera coisa demais da gente. E que a gente acaba sendo ensinado a esperar coisa demais da gente mesmo.

Monique disse...

Todos nós sofremos crises, e eu teimo em dizer que são sortudos aqueles que, de fato, passam por elas, porque sou das que permanece. Ainda não cheguei aos 25, mas a responsabilidade tem sido cobrada de mim - em especial nesse período que estou vivendo - então acho que posso afirmar minha solidariedade a você. Mas, quero dizer que boa parte das pressões que você sente são impostas por você mesma. Tente ficar tranquila - isso já é metade da solução.

Mayra disse...

Delzinha linda do meu coração, esse texto falou comigo em todas as vírgulas. Fantástico. Estou prestes a fazer dezoito anos e já estou com essa neura de ficar adulta e cara, deve ser uma barra essa coisa dos seus meio irmãos e da sua família em geral e olha, eu nunca vou beber por basicamente os mesmos motivos e nunca vou entender porque raios a sociedade vê como algo errado não beber, ao mesmo tempo que vê como errado beber demais. Irk. Pessoas... Impossível de entendê-las. Enfim, meu amor, gostaria apenas de dizer-lhe que escreves bem e que eu não senti escassez alguma em seu blog desde o seu aniversário. Espero que Helena fique pronto logo, morro de vontade de ler!
Um grande abraço, viu? <3

Nick Soad disse...

Tenho crises todo ano. Sou uma pessoa que não gosta de fazer aniversários. Me sinto mal, me sinto velha, me sinto inútil. Enfim, é um dia extremamente difícil para mim. Os próximos são seguidos de lamentações, pensamentos cruéis que me mostram onde falhei para não chegar em lugar algum.
Sou cheia de planos, sonhos, desejos e quanto mais o tempo passa, mas eu deixo de acreditar em algum deles. Por isso, não gosto.
Mas, eu sei que a culpa é minha. É uma questão de atitude. Sair da zona de conforto, dar a cara a tapa, enfim tentar de verdade.
Muitas vezes, quem consegue o que quer não é aquela pessoa que tem sorte e sim aquela que não tem medo de tentar. Aquela que tem coragem.
Só que ainda não me formei em "coragem", mas quero. Tenho vontade de dar um salto sem medo de cair. E esse não é um desejo, é um objetivo.

Del, sempre falo demais de mim. Não sei porque. Dá vontade de desabafar toda vez que entro aqui. E me sinto péssima, pois o que queria mesmo era ajudar você de alguma forma.
Olha, sabe o que faz com 25 anos? Viva ele. Curta ele, aproveite! Você precisa dele e de muitos outros anos para fazer tudo o que quer. Quem sabe não é com esses 25, que conheceremos "Helena". Quem sabe, não é nesse 25 que você encontrará as respostas que procura.
E não se limite! Não devemos nos limitar pela idade. Devemos fazer tudo aquilo que nos deixa feliz ou deixou um dia. Quando crescemos e tentamos ser como a sociedade quer, passamos a não viver de verdade. Passamos a não ser nós mesmos. Passamos a ser como eles. Tudo aquilo que não queríamos ser.

E olha, posso não gostar de fazer aniversário, mas perceber que se passou mais um ano, ter esse presente de estar viva é ótimo. É o que eu preciso para fazer o que eu quero. É uma oportunidade única e maravilhosa. Que devemos valorizar e agradecer diariamente. Pois, essa oportunidade de viver não é eterna. Nada é. Por isso, eu digo: Aproveite sempre! Todos os anos, todos os meses, todos os dias.
Aproveite cada segundo, Del.
Coisas boas sempre batem a nossa porta, depois de um momento difícil. Esteja preparada para elas.
Boa sorte e um abraço bem apertado.
Beijos:*

Blank Space disse...

Gostei muito desse texto, adoro o jeito irônico e direto que você usa quando escreve.
Tenho que admitir que vi muitos dos meus pensamentos refletidos nele, mas essa minha ~crise~ já está durando há um bom tempo.
Como diz a música, "And then the one day you find /Ten years have got behind you /No one told you when to run /You missed the starting gun"
Além disso, inadequada é meu nome do meio.
Enfim, boa sorte e que coisas boas venham para você nesse ano e nos próximos :)
Beijos

Fran Carneiro disse...

Gostei muito do texto... Nunca tinha parado pra pensar sobre o rumo que tomou o bebê que estava do meu lado, rs. Acho que essa foi a parte que mais me chamou atenção!

De resto... Acho que em idade nenhuma temos certeza do que estamos fazendo ou do que fazer "daqui" pra frente...

Karina Azevedo disse...

Fico encucada de pensar o que vai ser de mim quando eu fizer 25, o que vou fazer da minha vida depois disso ou o que já terei feito até lá. Não sou lá muito otimista. Acho que vou estar praticamente na mesma, nem maior, nem menor, nem mais gorda. Mas fico curiosa. Só curiosidade não basta e eu não sei o que fazer, e aí?
E morando onde moro acho que posso perguntar pra minha mãe e ela ainda vai saber quem é que tava do meu lado no hospital. Mas é provável que eu já conheça a criatura. E não goste dela.
Beijo, Del!

Natalia. disse...

Estou tendo crises com 18 anos, imagino daqui a alguns. Acho que consigo entender um pouco o que você está passando e nem vou me atrever a dar conselhos porque acho que não tenho muito o que "ensinar" para as pessoas, rs. Eu adorei o texto e espero que tudo dê certo pra você!

Beijo Del!

Mia Sodré disse...

Acho que "ser adulto" (o que eu gosto de chamar de "ser crescido") é algo muito subjetivo. Sabe, quando eu completei 18 anos o Facebook mandou um aviso falando que agora eu já sou adulta e tal e que tenho de me cuidar com várias coisas lá. E eu ri por meia hora. Sem parar. Sério. Adulta, eu? hahaha
Mas a vida passa, as responsabilidades vêm e a gente "tem" que crescer e virar adulta. O problema é que por dentro a gente ainda se sente como aquela menininha que lia a seção de dicas sexuais da Capricho escondida dos pais por vergonha de que alguém soubesse que ela já se interessava por essas coisas...

É complicado e não é. É apenas uma transição. Você é nova ainda, e essa coisa de "ter" de ser crescida agora é muito forçada. As coisas acontecem quando têm de acontecer. Apenas relaxa, take it easy. Let it be... ♪
E desabafe escrevendo. Isso sim faz bem.

Beijo!

Camila disse...

AH, tô com uma crise parecida, só que com dois anos adiantados. Eu gostava de ter pra sempre os dois patinhos :|

Sabe que temos um "problema" semelhante... Eu não bebo também e acho que pelo mesmo motivo, meu pai destruiu a vida dele por causa desse lixo, meu tio também. Não gosto de ter contato com a protagonista disso tudo. Ah, diretamente sou taxada de chata por não beber. Quer saber, dou risada, sou é esperta ^^

Acho que essa crise passa, você JÁ É uma escritora, e das boas. Você tem que se convencer disso porque é verdade. Estamos cá, só esperando seu primeiro de muitos livros, eu sinto isso! rss Sério!

Parabéns atrasada :)

Pri Bragança disse...

Del, é foda. O tempo não para, ele passa, e passa rápido. Me dei conta de que meu tempo estava sendo perdido quando era 07 da manhã e eu queria que chegasse logo às 17, e quando era segunda, queria que fosse 17 de sexta. O pior? Isso aconteceu aos meus 25. Daqui a pouco 26.

Eu tenho que fazer algo, urgente.

Camila Faria disse...

Espere só até você fazer 30... ;)

Dea Carvalho disse...

A cada visita que faço aqui me espanto com as semelhanças em nossas vidas. Detalhes absurdos e igualmente assustadores.
Não fui agraciada com a precisão emocional do seu verbo, entretanto... mas ainda assim, consigo descarregar um pouco, só de te ler.

Desejo que você tenha mais sorte, que você VIVA e não apenas sobreviva.

Beijo sincero.

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