13 de agosto de 2012

Certeza

Engulo a comida nas refeições com pressa não sei do quê. Acordo cansada. Talvez, parafraseando Mia Couto, cansada de não morrer. Aliás, Mia Couto tem sido agradável na minha ficção verdadeira. Se acaso não conhece o meu termo: Ficção verdadeira é uma categoria que reúne todos esses personagens magníficos e interessantes, que são vistos apenas através de uma tela; no computador ou na televisão. Pessoas impossíveis de existir, devido suas habilidades, que meus olhos não conseguem acreditar, mas vivas e reais. Minha mãe reclamou da minha forma de comer.

— Vício do século - eu respondi.

A minha geração tem pressa em se enterrar a sete palmos para não levantar mais e, finalmente, mandar a sociedade à merda. "Fiz o que pude e o que não pude, agora fodam-se vocês e me deem o direito de apodrecer". Mais ou menos isso. Eu sei, ando azeda. Minha cara, bem aquela de quando chupamos limão. Meu espírito, em posição fetal. Já pensei em começar um diário, um relatório até. Pensei em comprar 1.001 moleskines para desabafar todos os pormenores da rotina dos meus fantasmas. "Hoje, o fantasma Medo limpou as vidraças para me deixar contemplar o futuro nublado". Seria triste, sem dúvidas. Deixei de lado, por enquanto, a ideia do diário. Comecei contos. Fiquei espantada com a quantidade de coisas bonitas que sou capaz de escrever. Parei no meio de uma frase.

— De onde vem tudo isso? - me perguntei assim, em voz alta, tentando chamar a minha atenção.

Por que não tenho acesso direto a essas coisas boas? Onde a escritora em mim esconde o cartão? No dia a dia, sou um porre. Na frente de um papel em branco, porém, sou minha melhor companhia. Pois foi decidido sem meu consentimento, que eu não escreveria mais. Assim, sabotei a solidão. Se me perguntarem o que está acontecendo, logo respondo, num rosnado, para falarem com a outra parte de mim - essa deve saber do caso. Ando fugindo do divã. Desde que meu pai cortou minha terapia pela metade, não tenho mais a menor vontade de encarar minha terapeuta. "De nada adianta", eu pensei com meus botões quase caídos da blusa velha, "enquanto meu pai continuar me esbofeteando com os olhos".

E olha, eu tenho razão.

Ter razão é o mesmo que cortar o próprio braço, por exemplo. Ou arrancar um dos olhos. Em tempo, se por um acaso você ainda não entendeu, é se mutilar por diversão. Tem gente que estufa o peito quando está certo. Eu abaixo a cabeça, coloco a mão na testa e lamento. Como eu queria estar errada!

7 comentários:

Gleanne Silva disse...

Nossa Del, esse texto foi tão profundo que me deixou sem palavras, sério. Eu sei como é essa sensação de medo do futuro e de estar certa mas querer estar errada, não é nada fácil...
thousandl.blogspot.com.br

Jessica disse...

Del pra uma das maiores escritoras do mundo já!
Sua forma de escrever é única, Del! *-*
Não sei se ti sabe, mas foi pela sua forma de escrever que eu te achei aqui no tumbrl, depois de te "encontar" lá no Black Beans, Ok!
Já que a vida não da tal oportunidade, flutue e sorria pelas histórias que escrever.
Se de fato for algo que você amar com todas as forças; você irá longe! \o/

Andreia disse...

Adorei o texto. Bom, o futuro ainda não chegou. E ninguém se chegará realmente. O jeito é aproveitar o presente, ou melhor: o dia. Amanha logo se vê. ;)

Adorei o post. (:
Beijokas

Ana Luísa disse...

Essa pressa que a gente tem sempre, né? Realmente, pra que?

L.H.C disse...

É sério, Del, não tem mais como te elogiar, está começando a ficar chato e redundante, por que cada vez você consegue se superar e sempre que eu leio um desses textos em que você fala se si mesma mas é como se fosse de mim, pow, eu fico com medo . eu sei que fugir não resolve nada, mas tem hora que é a única coisa que se pode fazer.

Karina Azevedo disse...

"Como eu queria estar errada!" Exatamente isso.
"Acordo cansada." Exatamente isso.
Esse post foi uma delícia de ler.

E eu ia adorar se você me enviasse panfletos daí, Del!!!! Tipo, muito mesmo.

mayra disse...

Esse texto mexeu comigo. As coisas realmente são assim, rápidas e sem explicação. O final do texto foi maravilhoso, sempre penso no quão gostaria de estar errada e ai Del... Sou apaixonada pela tua escrita. Não vejo a hora de ler Helena! Um grande abraço, viu? <3

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