26 de setembro de 2012

Inércia

Se um dia você adoecer de palavras, coisa que acontece com todo mundo, e ficar farta de ouvi-las, de dizê-las; se qualquer uma que escolher lhe parecer gasta, sem brilho, deficiente; se sentir náusea ao ouvir um "horrível" ou "divino" sobre qualquer assunto, não será com uma sopa de letras, claro, que vai se curar.
— Livro de Receitas Para Mulheres Tristes, de Héctor Abad.
O trecho continua pela descrição de um prato composto por macarrão al dente e ainda livros de poesia. A conclusão não poderia ser mais simples e acertiva: "Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula". Ainda não li o livro (mas está na lista de leitura), peguei este trecho no blog Carambolas Azuis, que sem dúvidas merece sua visita! E esse pequeno pedaço calhou tão bem no que ando sentindo. Ultimamente venho sofrendo de uma ressaca literária, se é que isso existe. Se é que eu existo, pois a crise anda séria. 

Tive de reduzir minha terapia. Antes, eu ia todas as semanas. Agora, vou uma vez a cada quinze dias. Não foi uma mudança para melhor, tão pouco decidida por mim e minha terapeuta - mas sim por terceiros. Como sempre. Aliás, por esses dias li dois textos que me atingiram de uma forma pessoal. Não, ninguém estava me provocando, leitor que só quer saber de UFC. São textos que tratam de um problema muito íntimo, profundo e ao que parece, crônico. Aquela velha mania de depender dos outros, não cortar o cordão umbilical e deixar a felicidade para amanhã, ou para quando ela quiser cair no colo. Será que posso chamar isso de mania?

Será a inércia, um vício? 

Descobri que não sei lidar comigo mesma. Privada de muitas coisas ao longo do caminho, só agora aprendo o que quero e como quero. Sim, pois há diversas formas de querer algo. Tantos jeitos e opções, que eu me encontro perdida no meu próprio mapa. Posso afirmar: não há sentimento mais desesperador. Eu escrevo, e desabafo, e me importo, mas por dentro persiste a sensação de que estou errada. "Você já disse isso antes" - e eu me repito uma vez mais. Eu reclamo das reclamações. Eu brigo com as brigas. Eu sonho os sonhos. Eu, marasmo. Ando estagnada. Assim mesmo, no paradoxo. 

Estou me deixando para amanhã. Infelizmente, não há receita para a controvérsia do tempo. "Eu adoraria" um milhão de coisas, mas me recuso a enumerá-las. Nada vale a pena, senão o voo.

6 comentários:

Gleanne Rodrigues disse...

Sim, ressaca literária existe. E estar com essa ressaca é desesperador.

Ana Flávia Sousa disse...

Ressaca literária fiquei depois de ler isso aqui.
Dá vontade de ler mais e mais e mais, pra ver se encontro mais alguma palavra que encaixe tão bem com o meu momento também.
Esse brigar com as brigas, sonhar o sonhar, reclamar das reclamações... e a i.n.é.r.c.i.a, essa doida varrida que insiste em me levar com a vida, quando vejo, também me deixei pra amanhã, o que é uma pena pro hoje.

Serviu como uma luva pra mim. tudinho.
Beijos procê.

L.H.C disse...

"descobri que não sei lidar comigo mesma". Ah Del, isso é sobre mim. Lidar comigo mesma é uma questão das mais delicadas.

Andreia disse...

Como sempre, um texto perfeito. Adorei cada palavra que li. *----*

Nunca tinha ouvido falar de "ressaca literária", mas é sempre bom ouvir novas expressões. x)

Penso que não és a única que não sabe lidar consigo mesma. Eu mesma não me entende na maior parte do tempo. :/ E acho, na questão do que se quer para o futuro ou para vida, só há uma solução: viver um dias de cada vez. E conquistar cada pequena batalha um dia após o outro, sem pressas.

Acabei de reparar que estás a ler "Lolita". Espero que faças uma resenha, porque ultimamente as resenhas que tenho lido nos outros blogs carecem de sinceridade - o que eu francamente não entendo.

Beijokas

OBS: Tu não fazes troca de links ou fazes? :(b *Se puderes, responde-me pelo Twitter. ^^*

Luciana Brito disse...

Só tenho uma coisa a dizer (e vou estar sendo repetitiva, pois já disse isso antes): rolou a identificação.

(E você está lendo Lolita! Que lindo!♥)

Flá Costa * disse...

ah, sabe querida, eu também não sou boa de lidar comigo. eu me esforço mas as vezes é difícil e vejo o quanto que eu as vezes cobro dos outros o que eu mesma não consigo dar para mim mesma. e sim, existe o eu marasmo, o eu inércia. acho que é normal. desde que um impulso venha logo depois - e essa é a parte difícil!

beijoca

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