10 de setembro de 2012

Maria Metade

Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade.
— O Fio das Missangas, Mia Couto

Eu detesto histórias sobre superação. Não me levem a mal, não sou arrogante nem coisa do tipo, apenas não gosto da comparação (inevitável, ok) entre um sofrimento e outro. As pessoas, para mim, são individuais demais para "olhe Fulano. Ele teve a atitude X e está em situação muito pior do que a sua". Fulano, para começo de conversa, jamais será a mesma pessoa que sofro para ser. Resumindo, é uma questão de quadrado - cada um no seu. Mas existe a tal da dotôra. Eu amo a minha doutora. A psicóloga sabe o momento certo para compartilhar, não ensinamentos baseados em quem nunca vi mais gordo, mas em histórias com cara de alguma antiga dinastia chinesa, que tem um efeito atemporal. Reparando uma leve queda na evolução do meu tratamento, ela resolveu me apresentar a águia.

É, o pássaro. No divã, escutei que quando velha (em torno de 35/40 anos), a águia sobe no topo da montanha. Eu adoraria contar tão bem quanto ela, mas vou fazer o meu melhor. Lá em cima, existe uma parede para se escorar. Então, começa todo um ritual de sobrevivência, ou ainda, um ritual para renascer (como quiser). Para viver mais 40 anos, a águia precisa arrancar todas as suas penas velhas, suas unhas, e por fim, ela bate a cabeça na parede até perder o bico. É um processo dolorido, triste, mas há uma recompensa. "Você já passou pelo mais difícil e falta muito pouco. Por que parar agora"? Ela finalizou. Segundo a psicóloga, já arranquei minhas penas, unhas, e apontou para o livro, que levei de presente em forma de agradecimento. Eu olhei para Helena, e ela olhou para mim. Por que eu não estava feliz? O que faltava para ter a sensação de dever cumprido?

Por que, diabos, tudo fica pela metade?

Daí eu me lembrei de um conto do Mia Couto - Maria Metade, que inicia este texto com uma citação. Não, eu não matei ninguém, mas ainda assim me identifico com Maria e os seus tantos incompletos. É claro que o problema sou eu. Sempre eu. Essa garota que me acompanha desde a maternidade, insistente, querendo porque querendo ser minha melhor amiga. Ela só me traz problemas, se você quer saber. Suas frases mortas em reticências são o que mais me irritam, pois a vida fica assim, um texto súbito e ruim da Clarice Lispector. A culpa sendo minha, com quem discordar? É isso, e mais nada. Ou discuto comigo mesma, ou engulo os sapos e peço para repetir.

Existe essa mazela coletiva chamada sociedade. O pombo, todavia, cagou em mim. É mais ou menos assim que me sinto na maior parte do tempo. O pior, é ter a responsabilidade disso como sombra. Antes fosse refletindo minha silhueta no chão, mas na verdade ela tampa o sol. Ser pela metade é um defeito de fábrica ou adquirido no uso? É uma escolha? Preguiça?! Acho que deve ser preguiça. "Ah, segunda-feira eu serei corajosa. Na próxima segunda-feira, não nessa". Ou seria medo? "Se eu for corajosa, vou ter que viver". Meu Deus, que pesadelo deve ser viver. A gente prefere o muro. Lá em cima, os cachorros não alcançam, as formigas não incomodam, temos a ilusão de estarmos mais perto do sol e não sujamos os pés.

Eu estou feliz com o lançamento do meu livro e tudo o que isso está trazendo. Só que falta aquilo. Estou transbordando de "não seis". Ao mesmo tempo, vazia deles. É uma coisa que ocupa um espaço desgraçado, mas não mata a fome. Um paradoxo, que tampa meus olhos na melhor parte do filme. Maria Metade. Aquela que recebe a metade de tudo e reclama pela metade. Que nem com muito esforço consegue completar o que quer que seja. Esforço? Será?! Tenho minhas dúvidas, mas taí um pensamento que jamais irei concluir.

Por agora, prossigo metade, meio culpada, meio desculpada. Por isso lhe peço, doutor escritor. Me ajude numa mentira que me dê autoria da culpa. Uma inteira culpa, uma inteira razão de ser condenada.
— O Fio das Missangas, Mia Couto

7 comentários:

Mayra disse...

Caramba. Que texto. Sensacional!!! Eu já sabia da história da águia, mas em todo o contexto ficou lindo! Também sofro de maria metadisse e acho que é de preguiça mesmo, nada além disso.
Abraços!
P.S.: Quero te conhecer pra ganhar um beijo estalado :)

Gleanne Rodrigues disse...

Que lindo, Del.
Eu sempre me sinto pela metade, sempre parece que está faltando alguma coisa.
Acho que está chegando a hora de eu impor ordens a mim mesma. Pena que não é tão simples...
Beijo!

Ana Flávia Sousa disse...

sabe que me vi tanto neste texto que agora não sei o que te dizer?!
É essa história de cheia de "nãos seis", cheia e vazia ao mesmo tempo. Tô assim faz tempo.
E pelo jeito, tenho bastante penas, porque faz tempo também que ando arrancando elas, uma a uma.
Se me chamasse Maria, seria essa, Metade. Certeza, certeza!

Um texto maravilhoso que eu precisava ler, pra quem sabe descer deste muro (tão seguro que eu acho.)

Um beijo Del! :)

Andreia disse...

Acho que no fundo é tudo questão de insatisfação. Nunca estamos contentes com o que temos; queremos sempre mais e mais. E na maior parte nem sabemos o que é esse 'mais'. Nós mal sabemos como sermos felizes realmente, quanto mais o que queremos. :/

Nunca tinha ouvido falar dessa história da água. Quer dizer, eu já sabia que quando fica velha ela sobe até ao pico de uma montanha, mas não sabia do que acontecia 'depois'.=O Muito interessante! *___* (Mas pessoalmente, prefiro a história do fenix. xP)

Beijokas



Fabiana C. disse...

Ah eu já conhecia a história da àguia, sempre senti fissura com essa coisa de 'arrancar', mas é uma bela metáfora. Ouvi dizerem uma vez que mesmo as coisas ruins, quando nos apegamos são dolorosas de deixarmos... a tal da área de conforto! Tenho muitos problemas com isso, às vezes não consigo fazer o esfoço do primeiro passo que é sempre desconfortável, ou quando chego a dar este passo, não 'chego lá', morro na praia. Isso é frustrante, mas nós somos um amoutoado de padrões nem sempre positivos mesmo e cabe insistirmos para mudá-los. Perseverança!

Luciana Brito disse...

Meu deus, rolou uma identificação monstra com esse texto, com a Maria Metade.
Fiquei até meio perdida diante de tudo isso.

Mariana disse...

Talvez você ache que é uma comparação idiota, mas seu texto me lembrou muito a história de um anime chamado Onegai Teacher. O personagem principal sofre com uma doença misteriosa (que ele chama de "taitei"), numa tradução meio porca é algo como "inércia". Ele não pode parar. Não pode porque se não seguir adiante o corpo dele cede a "taitei" e ele fica em estado de dormência. Bizarro, não acho que eu esteja explicando direito... Mas é mais ou menos assim: ele sempre tem que seguir adiante, porque se parar ele para definitivamente. É meio assim que me sinto. Não Maria Metade. Mas se eu não continuar em frente eu paro definitivamente e eu luto com isso todos os dias. Também não aceito metade porque sempre quero tudo ou nada. E se eu não consigo, fico nessa inércia.

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