21 de setembro de 2012

Sinfonia em Branco

"A história de duas irmãs é o fio condutor do romance de Adriana Lisboa. O enredo desenvolve-se através de breves relatos vividos ou imaginados, de descrições que se intercalam entre a vida e a memória, de diálogos e silêncios, o leitor se envolve no mundo de medos e pequenas maravilhas que cerca Maria Inês e Clarice. A infância na fazenda, os amores, a presença marcante do pai, os casamentos, as viagens, os descaminhos, as dolorosas tentativas de entender, tudo se entrelaça numa história carregada de intenso lirismo".

Adriana Lisboa 
★★★★



Eu não sei resenhar. O que eu sei, é comentar artificialmente sobre os livros e filmes dos quais gostei (ou não). Como o Bonjour Circus não é um blog literário nem cultural, acho que isso não tem problema. Quero que os leitores saibam exatamente o que eu senti enquanto lia, assistia, e o que eu achei da experiência como um todo. Eu sou uma leitora comum, portanto, minhas "resenhas" não podem ser nada além disso - comuns. Na verdade, eu estava interessada em ler Azul-corvo, da mesma autora, Adriana Lisboa, mas na falta de sorte só encontrei o Sinfonia em Branco que, no fim das contas, acabou por me deixar apaixonada da mesma forma. Ultimamente, tenho lido alguns autores portugueses e brasileiros por estar cansada da literatura americana e seus best sellers manjados. Toda estante chega a uma altura em que necessita de novidades, ou enfim, dos clássicos mais rebuscados e dos enredos ignorados, porém, ótimos. Desde que lancei Helena, estou curtindo essa mania de achar que as coisas boas estão sendo ofuscadas pelo marketing arrebatador das grandes editoras. Tenho até uma semi-resenha de Senhor dos Gatos; um livro tão independente quanto o meu.

Quando tinha vinte anos (antes de tudo), Tomás ficou obcecado em desenhá-la, a vizinha que gostava de ensaiar passos de ballet diante do espelho da penteadeira, secundada pelos cabelos escuros e grossos, compridos, que eram como um espírito. Desenhá-la, capturá-la, retê-la. Amá-la. Mobilizou os melhores papéis, os melhores lápis e tocos de carvão e giz pastel e começou a se aventurar naquela empresa: conhecer Maria Inês. Que estava fadada a nunca chegar ao fim.

Adriana Lisboa me lembra muito Clarice Lispector. Calma, eu não estou fazendo comparações! Tudo bem que a Lispector não é essa Brastemp toda, mas tem certo mérito. Adriana tem aquele jeito invasivo de descrever os personagens. Foi possível sentir, digamos assim, a pulsação de Maria Inês e Clarice - as protaginistas - e o calor dos dias ensolarados na fazenda, a melancolia do cachorro dormindo, a crueldade do azul do céu. É o tipo de leitura que ambientaliza o leitor, e eu me senti parte da história das irmãs que, muitas vezes, se misturam e se confundem entre si. Acho que Adriana tem um estilo parecido com Clarice Lispector, sim, mas bem menos chato. Ela usa de metáforas mais realistas e visíveis; uma leitura nua e crua, passando do presente para o passado das irmãs em um movimento sutil.

Uma, com cicatrizes gêmeas em ambos os braços, a outra, com uma cicatriz de cesariana e apendicite - Clarice e Maria Inês acabam se afastando ao longo dos anos e dos acontecimentos, sendo separadas por um segredo e uma árvore de dinheiro que não nasceu. Os homens de suas vidas, que não lhe trouxeram vida alguma, costuram o passado. Após muitos anos, elas se reencontram. Mas preferem não reelembrar o que se passou. E eu fiquei pensando: quantas possibilidades existem em uma vida só? Quais são os fatores que mudam para sempre o futuro de uma pessoa? Seria diferente? Tem como ser diferente? "Sinfonia em Branco" me surpreendeu do começo ao fim, revelando um passado desconhecido, por mais que eu estivesse dentro da história tanto quanto as protagonistas. Com um final singelo e de uma suavidade linda, eu terminei de ler o livro querendo mais.

Clarice foi procurar o que fazer. Beber um copo d'água. Olhar a comida que a Fátima, tão gentil, deixara pronta para o jantar. Lavar o rosto que o calor tornava oleoso e lavar as mãos. Olhar a si mesma no espelho e pacificar aquela consciência de que ela passava pela vida deixando muitas marcas e poucas sementes. Sair de casa pela porta dos fundos e tomar o caminho do curral e visitar aquelas esculturas velhas que estavam guardadas lá, no fundo de um armário, como num museu. Depois fechar o armário e deixá-las lá, suas antigas esculturas, até um outro momento, esperando. Deixando sua própria condição trancada num canto da alma, como num museu. Esperando.

7 comentários:

Maíra disse...

concordo com vocês ^^
Os best sellers sempre invadem as prateleiras de milhares de pessoas, e esses livros que são ótimos tanto quanto, ficam esquecidos :D

adorei a história do livro, bem diferente, romance e um pitaco de vida real, isso é bom :D

adorei! beijos :*

L.H.C disse...

não vou negar que gosto de alguns best sellers, mas o mercado atualmente está abusando, quer dizer, qualquer fanfic tá virando best seller, mas isso se deve muito ao péssimo gosto dos leitores também, mas enfim. Eu não gosto de Clarie Lispector, apenas comecei um livro dela mas achei chato demais, não sou nada culta mesmo, e prefiro as 'resenhas' assim como a sua do que as 'profissionais' que de tão batidas já dá pra saber o que o resenhista vai dizer a seguir.

Flá Costa * disse...

eu concordo super com esse papo de livros escondidos por best-sellers. de verdade. li uma vez um chamado "Desenganos" do Carlos Nascimento Silva, um livro escondidíssimo nada a ver com nada da atualidade mas que amei. estou sempre querendo me redescobrir na literatura, mas de vez em quando me vejo sugada pelas prateleiras e resenhas literárias dos livros famosos.

enfim, uma delícia os trechos que você selecionou aqui. o nome e a capa são lindos também. já estou toda com vontade de ler rs...

Jessica disse...

Agora você me fez sentir-me culpada; pois esses dias eu peguei "Expurgo" da Sofi Oksanen pra ler. A capa era roxa, tinha a palavra "Finlândia" e a história da orelha me intrigou. 'Cê sabe que a minha carne é fraca pra melancolia desse povo. ;___;
Sinceramente; eu comecei a e 'pegar gosto' por livros assim, mais pé no chão. Talvez seja pela fase que minha vida esteja passando.
O último trecho que você postou me pareceu um pouco interessante, mas ainda tenho o seu livro pra ler; que ainda não consegui comprar ._.
Então não espere que eu vou ler "Sinfonia em branco" tão cedo.

:*

Blank Space disse...

Hm, deu vontade de ler. Mais um para a minha looooooooonga lista...
Beijos

Gleanne Rodrigues disse...

Eu gosto mais daqueles livros esquecidos, que nem fazem mais sucesso.
Gostei muito do que você disse sobre esse livro, me deu uma vontade enorme de ler.
Beijo.

Ana Flávia Sousa disse...

Tenho mania de buscar livros em bancas de liquidação, aqueles que ninguém nunca ouviu falar, ou que ninguém se interessou, até ser rotulado em: promoção.
Consegui grandes façanhas com isso, li romances fofos e marcantes, e minha estante ficou mais rica assim.
Tenho e leio vários best sellers, mas diversificar tem só me trazido surpresas boas.
Assim como um bom passeio na biblioteca e num sebo, pescar uns livros esquecidos e deixar que eles surpreendam! :)

Fiquei com vontade de quero mais nesta sua resenha, imagina com este livro?
Já vai pra prateleira do "Desejado" no Skoob. hehehe

Beijos Del. :)

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