16 de outubro de 2012

A caixa de bombons

Tentei por várias vezes colocar em palavras o que venho sentindo, mas todas as expressões e metáforas falharam. O dia terminou mais cedo, e elas foram embora cabisbaixas, carregando suas marmitas vazias e os bolsos cheios de pedras. Fui obrigada a admitir que aqui não tem mais serviço. Fechamos. Lamentei que não sou mais uma escritora (se como fosse possível deixar de ser eu mesma), que tudo foi um erro, sou uma farsa, vou fazer minhas malas e me mudar para Cuba. Os vilões vão para o Caribe no último capítulo, os escritores ruins vão para Cuba.

É uma regra.

Mas as minhas sensações se esclareceram de repente, em uma terça-feira, após abrir uma caixa de bombons (não necessariamente nessa ordem). Eu amo chocolate. Não sou igual a minha mãe, que chega a entrar em lojas só para sentir o aroma, quando inventa em alguma dieta de doces, mas posso dizer que amo mesmo assim, pois cada um tem seu jeito. Quando compro, ou ganho, uma caixa novinha repleta de bombons sortidos, volto aos tempos idos de manhãs natalinas onde presentes se materializavam debaixo da árvore sem nenhum dinheiro ter sido terrivelmente jogado fora para tal. Bombons! Eu olho ao redor, pego o primeiro escolhido e saboreio como se fosse o último na face da Terra. Existe a hierarquia, logicamente. Tudo precisa de uma hierarquia, até o chocolate. E, mais uma vez, como tudo na vida, restam aqueles que não agradam ninguém. Hoje em dia chamam a isso de bullying, eu continuo achando que é uma questão de seleção natural.

Terça-feira, porém, eu abri a caixa de bombons crente de que havia guardado os melhores para o final. Os fortes fazem isso. A gente não sai devorando assim, sem respeito, os chocolates encontrados no caminho. Lembre-se da hierarquia. Nós levamos para casa, separamos por ondem de sabores, os brancos de um lado e os ao leite do outro, e então metodicamente começamos a degustá-los. É uma religião, se você ainda não percebeu. Você sai por aí mastigando hóstia de boca aberta, sem um ritual precendente nem a devida importância? Não. Então pronto. Nós não comemos chocolate como quem come biscoito. O que eu quero dizer, é que ao ver a caixa com apenas dois ou três exemplares de bombons negados pela seleção natural, eu descobri a descrição perfeita para o que venho sentindo:

Eu sou uma caixa de bombons vazia.

Não é o caso de não ter bombons dentro de mim, mas a expectativa. A gente se abre, se explora, e nos achamos pessoas boas e completas, mas no fundo não tem nada ali dentro. Nada aproveitável, pelo menos. E o que tem, você não quer. O que acontece não é segredo para ninguém: as sobras. Você se torna o acúmulo daquilo que restou. Uma montanha de coisas que não servem para você, ou que você despreza e não quer que sirva de jeito algum. O que fazer? Comer os bombons "não tão bons" mesmo assim? Passar adiante na esperança de que a pessoa saiba o que fazer? Eu optei pela reciclagem. Estou fazendo outras coisas com o que não quero, reaproveitando e transformando. Pode parecer brega, mas separar bombons é uma arte milenar.

9 comentários:

gabriela m. four disse...

Para evitar a sensação de expectativa que deu merda, eu não espero nada. No máximo me sinto como o embrulho do bombom, no máximo... Sou bem ruim nessas coisas de auto-estima (nem sei se tem/tinha hífen), aí parei de expectativar as coisas, incluindo eu mesma.

Nós somos muito diferentes em várias coisas Del, mas nós compartilhamos essa mesma visão.

L.H.C disse...

sabe que eu adoro esses post 'divã', mas também é meio assustador, sabe, parece que é comigo.

Edgar disse...

Gosto desse seu jeito de passar exatamente o que tá sentindo sem tentar fazer isso abertamente. E daí você escreve tudo de um jeito simples, e pontua tudo de uma maneira que dá ênfase sem dar ênfase, e eu acho isso foda. A impressão que eu tenho é que você vem contando algo e de repente desemboca naquele assunto. Só que geralmente você não conta história nenhuma. E eu tenho a impressão que você já tinha falado a respeito antes, mas você não tinha, e mesmo não explicando muita coisa fica tudo muito claro. :D

Pablo disse...

Ai Del, espero que dê tudo certo nessa fase de "confeitar" os bombons não tão gostosos.
Estou numa fase que sinto que minha caixa de bombons ficou muito tempo no sol, e todos eles foram derretidos e amassados. Sei que tem coisa boa ali, mas preciso de uma geladeira para deixá-los por um tempo e então, degustar cada um... começando do mais "ruinzinho" pro melhor de todos!

Flá Costa * disse...

del do céu mas é triste, triste de doer, simplista e sensível mas tão bom! que texto lindo! que descrição maravilhosa! as vezes é exatamente assim como eu me sinto - para ser sincera, na grande maior parte do tempo.

vou sempre olhá-los com a compaixão que eu queria que tivessem por mim a partir de hoje e por sua causa! (oh, pobre de mim!)

beijoca

Rick disse...

Mais a verdade sempre foi essa, no final de tudo nós somos apenas as sobras. O que sobrou de uma vida onde a gente andou, seguiu, rastejou, pra conseguir só um pouco de dignidade.
A vida é assim, feito uma caixa surpresa de bombons sortidos. Os mais espertos comem os bombons em ordem, mais os mais felizes, comem o que pegarem primeiro. Não dá pra esperar e deixar os melhores sempre pro final, vai que alguém ache essa tal caixa...

Bjws, lindo blog!

Fabiana C. disse...

Adorei a analogia, senti uma pontada de tristeza pois me fez refletir que o mundo é cheio de pessoas que são os próprios bombons ruins que ninguém quer...

Definiu muito meu estado de ânimo nesse momento, sem enxergar nada de realmente interessante na vida. Penso que no meu caso o problema é ausência de amor, de paixão pela vida.

Cat Campos disse...

Comparação perfeita, Del. O segredo é transformar essas sobras em algo 'usável'.
Beijos, Cat.
doceilusao.com/

Anna Vitória disse...

Acho que você fez o melhor que poderia, Del. Até porque a gente sempre se esgota vez ou outra, e se não der um jeito de reconstruir, o que será feito da vida, não é mesmo?
beijos

Postar um comentário