25 de outubro de 2012

Lolita

"Irreverente e refinado, este é um dos romances mais célebres de todos os tempos. É também uma aventura intelectual que não deixa ninguém indiferente, um relato apaixonado de uma sensualidade alucinada, uma autópsia implacável do modo de vida americano. De um lado, um homem de meia-idade, obsessivo e cínico. De outro, uma garota de doze anos, perversamente ingênua. A química se faz e dá origem a uma obra-prima da literatura do nosso século. 'Lolita' é chocante, desafia tabus, escandaliza".

Vladimir Nabokov
★★


Eu nem ia fazer resenha desse livro porque achei que vocês estavam de saco cheio, mas a Andreia pediu, comentando que as últimas que havia lido careciam de sinceridade. Eu concordo com ela. Também achei (sem generalizar) que faltou um toque pessoal em algumas resenhas que li por aí. As opiniões são praticamente as mesmas, se resumindo em cinco estrelas e no frisson que o nome do autor causa. Não sou louca de negar que o livro é um clássico, uma obra renomada, que merece o lugar que conquistou. Mas Lolita não é essa Coca Cola toda...

É um livro difícil de ler. Fato. Não é um prazer passar por todos os parágrafos milimetricamente escritos, com poucas pontuações e muitas explicações. Mas como não sou professora de português nem estudante de Letras, vamos ao enredo: eu não sei que parte da história o pessoal perdeu, mas se trata de um homem maduro querendo comer uma menina de doze anos. Não tem segredo, não tem poesia, não tem romance - Lolita é isso.
Compreendi, de repente, que lhe podia beijar, com absoluta impunidade, o pescoço ou o canto dos lábios. Sabia que ela consentiria e até fecharia os olhos, como Hollywood ensina. Um sorvete duplo de baunilha com creme quente de chocolate - seria algo pouco mais invulgar do que isso.
Humbert é um cara com nome idiota, que ficou preso para todo o sempre no seu passado com Annabel e começou a projetá-la em todas as meninas, mesmo após atingir uma idade inadequada para se relacionar com elas. Lolita é uma criança mal criada, que não gosta de tomar banho. E não se enganem em dizer que é uma história de amor, pois Humbert não amava Dolores, mas sim o fato d'ela ser uma ninfeta. O que foi comprovado em trechos onde ele anseia passar todo o tempo possível com a menina, antes que ela se transformasse em uma Lolita jovem, adulta, universitária; enquanto ela era uma menina inocente o bastante para acreditar em príncipes encantados.

Nabokov escreveu Lolita para horrorizar os leitores, provocá-los e consequentemente gerar discussões. Obviamente, nos dias de hoje isso é um pouco mais difícil - a gente não se escandaliza com qualquer coisa - mas ainda assim a obra continua produzindo discórdias. Eu, pessoalmente, não tive estômago e sequer prazer em ler as cenas em que Humbert se casa e deita com Haze, imaginando em seu lugar a filha; tirando proveito da viúva cristã e fazendo chacota da pobre coitada. Está mais para um relatório psiquiátrico feito para pesquisas e TCCs do que para um romance. Isso só poderia acabar em discussões e mais discussões, que não nos levam a lugar algum.

Para ser sincera, não tenho muito o que dizer a respeito da história como um todo. Humbert é um cara doente, que manteve Lolita debaixo de sua asa pura e simplesmente por motivos sexuais. Viajou com ela por todos os Estados Unidos (a parte mais chata do livro) e depois a matriculou em uma escola que dava vista ao seu escritório e a possibilidade de vigiá-la (até construírem algo na frente tampando suas observações). Assim, viviam em uma relação onde ele entregava dinheiro e presentinhos à menina em troca de carícias e beijos, enquanto Lolita se mantinha visivelmente desinteressada naquele tipo de vida e desenvolvia uma profunda melancolia. Também pudera! Uma garota em plena flor da idade, no topo do desenvolvimento intelectual, conviver com um filha da puta esnobe, egoísta, paranóico e prepotente feito Humbert, só podia acabar em merda. Eu não entendi o que as pessoas quiseram dizer ao mencionar "amor" em 80% das resenhas que li. Amor?! Um pedófilo privar a menina de uma vida social, ficar a vigiando de longe dentro do carro, a proibir de tudo e ainda dar dinheiro em troca de carícia é amor? Vão tomar no cu?! Obrigada.
Mas nessa altura já eu fizera descer drasticamente os preços, obrigando-a a conquistar, de maneira dura e desagradável, a autorização necessária para participar no programa teatral da escola - pois o que eu mais temia não era que ela me arruinasse, e, sim, que conseguisse juntar dinheiro suficiente para fugir. Creio que a pobre e impetuosa criatura se convenceu de que, se tivesse uns míseros cinquenta dólares na bolsa, poderia chegar à Broadway ou a Hollywood (...)
O livro inteiro é escrito de forma a colocar o leitor como júri. O que enche bem o saco já que ele poderia simplesmente contar a história assumindo seus erros porcos, sem a necessidade de se explicar demoradamente nem detalhar superficialidades (falei bonito). Mas acho que o objetivo era esse: dividir os leitores e escandalizar. A obra tem o seu valor, mas não serve para mim. É um pé no saco esse pessoal que acha ser obrigatório gostar de clássicos da literatura ou determinados autores, como o próprio Nabokov. Que se dane o Nabokov. Lolita é um livro chato, que não agregou nada em minha bagagem literária. É um clássico, ótimo, mas não funcionou para mim - o que não quer dizer que não vá funcionar para o mundo.
Que será que me excita quase até às lágrimas (quentes, opalinas, grossas lágrimas que poetas e amantes vertem)?
Lolita, Seu Vladimir. Lo-li-ta.

9 comentários:

Ana Luísa disse...

Gosto da ideia da história de Lolita por ser esse 'chocante' e fugir do lugar comum. Gosto da ideia de tê-lo lido, mesmo para ter uma opinião a respeito. Mas certamente não foi um livro de leitura agradável não. Demorei horrores pra ler, é uma leitura pesada. Concordo com muito do que você disse, principalmente que aquilo não é amor, de forma nenhuma. É a obsessão de um pedófilo por uma menina.
Apesar de todos os efeitos, acho que Lolita é uma obra incrível!
Beijo!

Luciana Brito disse...

Eu não sei explicar muito bem, mas gostei tanto desse livro. Talvez o meu lado psicóloga amante de loucos tenha falado mais alto, mas eu gostei. O livro realmente é pesado, mas a forma da escrita não me desagradou também. O que não vi realmente foi o tal amor que o povo fala. Não existe amor ali, de jeito nenhum. Humbert é doente, ok. Mas eu não consigo enxergar a Lolita apenas como uma criança mal criada. Para mim, ela era maldosa também. Foi a impressão que tive ao ler. Ou seja, para mim, ela não é apenas uma vítima.

Gostei da tua resenha, afinal de contas, opiniões sinceras são sempre bem vindas. ;)

Fabiana C. disse...

Na época que eu li esse livro não sabia desse 'crédito' todo do autor. Já faz alguns anos e lembro que fiquei doida pra acabar logo, primeiro pela curiosidade em saber o que daria o 'rolo', segundo porque não achei muito agradável... Mas, talvez devido a menina não ser essa inocência toda, não fiquei tão 'enojada' como poderia esperar da história de um pedófilo. Pelo contrário, admito que em alguns momentos fiquei um pouco 'na expectativa' de as coisas acontecerem logo. O ponto alto da obra para mim foi justamente esse desafio aos meus valores. Na minha opinião é o que o torna o um clássico.

Mayra disse...

Demorei a vida pra ler Lolita, mas eu sou super fã do livro. Li sem saber quem era Nabokov ou o que fez para ser/porque ele é importante e não sei disso até hoje. Mas pra mim é sim uma história de amor. Um amor doentio e psicopata, que vira várias outras coisas ao longo da história, mas ainda assim, amor. Eu morri de pena do Humbert e, enfim, gostei bastante do livro, tanto que pretendo relê-lo. E pra mim a parte mais legal foi a das viagens, isso e o final, claro.
E o ato de os leitores serem juris é explicado no final, então nem acho que seja motivo de desqualificação da obra.
Na verdade, Lolita virou um dos meus livros preferidos e eu queria que existisse outro livro contando a versão que ela tinha sobre a história toda.
Abraços Del <3
(fui fazer uma aula experimental de circo hoje, lembrei de você o tempo todo)

Anna Vitória disse...

Del, terei que discordar de você categoricamente. Acho que esse é um livro que provoca muitas sensações e impressões nas pessoas, e acho que é uma coisa 8 ou 80: ou você fica fascinada ou você odeia fervorosamente. Eu amei, amei, amei DEMAIS. Não acho que a história da Lolita com o Humbert seja uma história de amor, mas não consigo dizer que não havia amor - da parte dele - ali. Eu pelo menos, enxerguei dois lados do Humbert: o primeiro e mais óbvio do louco, psicopata, pedófilo, etc. E tem o lado humano. Vejo ele muito como o Dexter, do seriado, não sei se você conhece. O Dexter é um serial killer, e ele costuma dizer que sente que existe um monstro dentro dele que inspira essa urgência por matar. Vejo a mesma coisa no Humbert. Tem trechos que ele briga com ele mesmo porque ele sabe que ele faz mal pra caramba pra ela e isso deixa ele cheio de remorso mas, ao mesmo tempo, ele não consegue parar. Não estou defendendo, de forma alguma, só não enxerguei as coisas tão preto no branco assim.

Qual edição que você leu? As mais recentes vem com uma carta que o Nabokov escreveu par ao público esclarecendo o propósito de ter escrito Lolita: um dia essa história surgiu na cabeça dele, que foi lá e escreveu. Ao menos segundo ele, não teve nada disso de querer causar, chocar e discutir os paradigmas das relações amorosas e seus limites. Sabe-se lá se foi um discurso falso só pra galera largar do pé dele, mas acredito nos seus argumentos. Se o seu livro não vem com esse apêndice, dá uma olhada no Google, é bem bacana.

Enfim, eu acho um livro sensacional, etc, mas entendo completamente as suas impressões. Quando eu comecei a ler pensei que fosse achar a mesma coisa, mas o livro acabou me surpreendendo de um jeito bom. MInha mãe, por exemplo, quis me bater quando eu indiquei o livro pra ela, hahaha

Beijos, Del

Paloma disse...

Dessa vez tenho que discordar de você e da Anninha em uma tacada só. Acho que, realmente, falar de amor em Lolita é sacanagem.

O enredo do livro é repulsivo e doentio, é verdade. E não está entre os meus favoritos. Mas, ainda assim, não vou dizer que desgostei de todo. Mesmo sem saber porque, achei a história suficientemente envolvente, e consegui ler até o fim sem precisar fazer uma força sobrenatural.

O que eu gosto em livros desse tipo, em primeira pessoa e "defensivo", é tentar imaginar o que está além da versão contada. Eu acho que o Humbert faz o joguinho de todo homem em julgamento, tentando se justificar com sentimentos e conquistar a simpatia quando, por trás do discurso, a história é completamente diferente. Para mim ele é realmente um homem "doente", e o amor não tem nenhum lugar na trama.

A história toda não é linda ou romântica, mas dá um livro interessante.

Beijos

L.H.C disse...

Nossa, eu até gosto de temas polêmicos na literatura, clássico que causaram em sua época e tal, mas a ideia de um cara mais velho querendo comer uma menininha me causa repugnância, mesmo na ficção (ai como sou moralista e blá blá blá, sou mesmo, acontece que pedofilia é algo nojento demais, acho que deverei ler Lolita para poder reclamar do enredo com propriedade.

Henry Alfred Bugalho disse...

Li "Lolita" há 3 anos e, apesar de não ter se tornado um dos meus livros favoritos, lembro-me de ter me impressionado bastante com o estilo literário de Nabokov.
É impressionante que um dos maiores clássicos americanos seja de um russo que levou mais de 20 anos morando nos EUA para começar a escrever em inglês.
Li o original em inglês e, infelizmente, muito do estilo do autor, incluindo as aliterações, não tem como ser traduzidas com propriedade.
O protagonista é um sujeito doente, mas qual pessoa apaixonada também não é?

Ler clássicos nem sempre é fácil, pois cada época tem suas exigências literárias. Um livro como "Lolita" hoje iria muito mais ao ponto, e com certeza teria cenas bem mais picantes.

Escrevi, à época da leitura, uma resenha sobre o livro, acho que um pouco em desacordo com as impressões da Del.

http://www.revistasamizdat.com/2009/01/lolita-de-vladimir-nabokov.html

Abraços.

Flá Costa * disse...

olha, Del, eu sempre tive a impressão de que Lolita é um livro dificilimo de ler e que as pessoas o cultuam muitas vezes por falta de conhecimento, mas nunca o li, então este é praticamente um pré-julgamento. mas le-la hoje, quase que me disse que no fundo, minhas ideias estão indo justamente pelo caminho certo.

é o tipo de livro que eu sei que não vou gostar, mas vai me chocar e que eu tenho que ler. vamos ver...

beijoca

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