9 de outubro de 2012

Um desabafo

Quem acompanha o Bonjour Circus há um tempo, deve saber um pouco a respeito do meu relacionamento com o meu pai e o quanto ele foi filha da puta comigo ao longo desses 25 anos. A bem da verdade, a missa é muito mais comprida do que venho relatando aqui, mas acho que vocês já captaram a essência do meu ódio com um ou dois textos. Bom, resumindo para você que é um leitor estreante: eu não tenho um pai, para ser mais exata. A minha mãe, de alguma forma desconhecida, conseguiu ter relações com um exu e eu nasci. Meu pai, desde que eu me entendo por gente, vem sabotando minha vida e todos os meus planos de ser alguém. Minha psicóloga acha, com base em meus relatos, que ele é perverso. Eu prefiro acreditar que ele é um filho da puta profissional. Mas o assunto não é ele.

Existe essa tal holandesa, que é madrinha de casamento dos meus pais (culpa maior não há). Eu mal conheço essa mulher, consigo contar nos dedos das mãos quantas vezes conversamos em todos esses anos. Ela vem para o Brasil vez e outra; a cada três, quatro anos. Não há vínculos sanguíneos e muito menos afetivos. Eu adoraria conversar com uma parede ao invés de perder uma hora tentando suportar o sotaque europeu dessa senhora doutora em psicologia. Dialogar com salsichas, por exemplo, deve ser mais interessante. Em uma última ilustração do caso: prefiro dactilografar a Bíblia do que passar um tempo na companhia de dona (vaca?) holandesa.

Daí essa senhora chegou no Brasil nessa semana e entrou em contato com minha família, como sempre. Chegou chegando, fazendo perguntas (interrogatório inquisitivo) e, veja você, cobranças. Esse ser humano, que nunca levantou um dedo por mim, que sequer sabe o que acontece entre o meu pai e eu, me atirou uma pedra bem no meio da testa querendo saber por qual razão, motivo ou circunstância eu:

1. Não estou estudando.
2. Não estou trabalhando em uma multinacional.
3. Não comecei a minha vida.

Em uma entonação indignada, se como eu tivesse esbofeteado sua face com uma luva de couro legítimo, essa pessoa cagada e andada se insultou com minha leviandade. Porque, olhe só, eu não quis estudar. Não estudar foi uma escolha minha. Não ter a porra de uma especialização aos 25 anos é fruto da minha preguiça. "Não ter começado a minha vida", seja lá o que isso signifique, é consequência da minha irresponsabilidade. Eu, Del Lang - bolsista da faculdade de Direito da Universidade São Judas (que foi sabotada pelo próprio pai na hora da entrega de documentos), escritora publicada, autora de uma revista independente, blogueira, desgraçada que foi deixar o couro na Suíça de tanto trabalhar porque o pai nunca pagou um puto pelos estudos, membro premium do Transtorno de Ansiedade coligado a Síndrome do Pânico e Depressão LTDA. e que ainda aprende francês e alemão sozinha. Eu, caros companheiros do júri, estou sendo cobrada por uma pessoa que nunca se importou o bastante para perguntar como eu estava indo. Estou sofrendo retaliações de um cerumano desconhecido que, olhe só, ainda tem o apoio de quem? Do meu pai. Sim, ele! Papai acha que dona (vaca? vaca!) holandesa tem todo o direito de me metralhar.


Isso é vida, meu bom Senhor, ou castigo? Não seria mais fácil tacar fogo em mim de uma vez por todas? Está divertindo para quem? Eu adoraria saber isso. Quem, afinal de contas, está às gargalhadas com essa minha tragicomédia? São muitas perguntas, de fato. A maioria, infelizmente, sem respostas. Eu só sei de uma coisa: está na cara que essa mulher não se preocupa de verdade com o rumo que estou tomando. Se assim fosse, ela seria - no mínimo, hein - mais presente no meu dia a dia. Ela teria pago um ano de curso pré-vestibular para mim, como outra amiga da família fez e nunca me ligou para cobrar alguma coisa. Ela não quer saber. Simples assim. Ela compra uma passagem aérea para o meu país, senta, liga para a minha casa em um horário extremamente esdrúxulo (às 14hrs de um domingo ensolarado, como da última vez) e começa a soltar as maiores injúrias sobre uma garota a qual ela mal conhece e não quer conhecer.

Percebam o tipo de gente que anda habitando esse planeta. Notem a espécie com a qual eu tenho que lidar. Vejam vocês com o que ela anda a perder seu precioso tempo. Uma doutora em psicologia, mãe, avó, com a vida feita na Europa, decidiu gastar sua energia comigo. Não foi bem esse tipo de fã que eu pedi à Deus.

Desculpem o desabafo.

14 comentários:

Pablo disse...

ai del, que situação horrível! mas assim, acredite... ando passando poucas e boas também, me sinto sozinho no mundo, consegue entender?
meu irmão começou à fazer análise na semana passada, e estou pensando seriamente em começar também! a coisa não tá fácil pra ninguém... não mesmo!
boa sorte aí com suas coisas, e espero que "essazinha" volte logo pro lugar dela! = P

Dea Carvalho disse...

País - sempre nos dando um empurrãozinho. Direto pro abismo mais próximo.

Gleanne Rodrigues disse...

Estou vendo que a vida dos escritores não anda nada fácil, não nesses últimos meses. :/
Cada um leva a vida que quer. Viver já não é fácil e ter uma mulher dessas buzinando no ouvido direto, ê meu Deus. Boa sorte!

Jana disse...

é assim mesmo, Del.
Convivo com uma pessoa que é mescla do seu pai com a vaca holandesa. :)
Pra ajudar, não aparece alma viva, mas de cobrar, todo mundo gosta! Difícil, mas vamos trabalhar na paciência porque não tem outra escolha ><

Aline disse...

Ai, Del, que saco. Muita raiva de gente assim! É cada cerumano, como você disse, que a gente se depara! Não sei se é pior receber esse tipo de tratamento ruim, mas já sabendo que isso é o mais provável de acontecer, ou receber um tratamento horrível de alguém que te amava tanto (uma história que aconteceu comigo e me persegue até hoje). Desculpa o desabafo da minha parte também? rs

Olhe, a ajuda que está ao meu alcance é esse quadrinho aqui de comentário. Vou falar o que eu sei: você é uma linda (eu vejo pelos textos), você escreve maravilhosamente bem, você é bastante admirável e seu blog é um prazer de leitura, mesmo quando apresenta esses perrengues (pois me faz refletir bastante).

Boa sorte com esse impacto quase desnecessário na sua vida. Eu não entendi muito bem a ligação que essa senhora tem com você, mas se ela não te ajuda em nada, porque não simplesmente ignorá-la?

Um beijo bem grande :*

Henry Alfred Bugalho disse...

Atire a primeira pedra que nunca teve problema com os pais. Teses e mais teses foram escritas sobre este assunto...

O fato é que não é fácil querer converter-se no que você é. Toda a sociedade luta contra isto, pois devemos nos enquadrar em rótulos pré-definidos: o professor, o engenheiro, o médico, e assim por diante. Fugir destes rótulos é bater-se de frente contra o mundo inteiro.

Por exemplo, meu relacionamento com minha mãe passou por duas fases: até os 13 anos, quando eu ainda era um "filho de ouro", e daí em diante, quando tornei-me motivo de vergonha. Cursar Filosofia não ajuda nem um pouco para que os outros se orgulhem de você, disto tenho certeza.
Ela nunca apoiou meus sonhos de escrita, odeia a minha esposa e deve ter pensado que eu estávamos loucos quando resolvemos ir embora do Brasil com uma mão na frente e outra atrás.
Para ela, escrita é um hobby, que ninguém sério paga as contas com isto.
Faz 2 anos que vivo somente com a renda dos meus livros e somente agora, depois que uma amiga dela indicou meu livro para ela ler, que minha mãe me ligou toda orgulhosa por ter um filho escritor. Isto porque já haviam falado do meu livro em quase todos os jornais do Brasil, na rádio e na TV...

Por isto que lhe digo que não é fácil tornar-se o que você é. Não tenho emprego fixo nem salário garantido no final do mês, não tenho endereço fixo e mês que vem vamos por tudo dentro do carro e nos mudar para outro país sem noção do que vai acontecer, não tenho filhos, não tenho garantias nenhuma nesta vida. Mas a felicidade é algo tão particular, que não se funda nas normas tradicionais da sociedade. Para uns, é ter um carrão do ano, para outros, tentar ser livre.

Se você não morar com seus pais nem depender deles, mandá-los tomar no cu (mesmo que não seja verbal) de vez em quando pode ser a maior terapia...

Abraços.

Andreia disse...

Infelizmente, tive o desprazer de conhecer um cerumano assim. Graças a Deus não são os meus pais, eles sempre fazem de tudo para que eu seja melhor. O cerumano é a minha avó paterna, que consegue ser tão carinhosa como uma cobra.

Acho que o único remédio para esse tipo de "pessoas" é a nossa completa indiferença.

Pelo menos comigo tem funcionado. \o/

Beijokas

Dea Carvalho disse...

Só pra deixar claro: Pais e não País. Maldito auto-correct.

L.H.C disse...

Tem jeito não, Del, o mundo tá infestado de cerumanos assim, que podemos fazer, até ignorar essas criaturas é dificil né? Só rindo mesmo.

Paloma disse...

Com essa gente desnecessária, o melhor mesmo é explodir a raiva e depois deixar para trás. Pelo menos ela deve passar um bom tempo sem aparecer agora, né? Tenho certeza que ela está feliz da vida, com a "consciência tranquila" por ter orientado uma jovem transviada. Pense nisso como sua boa ação do ano, aquilo que você preferia não fazer, mas já que foi obrigada vai pelo menos contar a seu favor no dia do "juízo final". Ou qualquer coisa do tipo. O importante é que todo o sucesso que você alcançou e ainda vai alcançar é mérito única e exclusivamente seu.

Você está lendo 'Senhora da Magia', certo? Acabei de terminar esse livro, também. Se quiser trocar umas ideias depois, estou às ordens!

Beijos.

Thay disse...

Confesso que enquanto lia Helena eu me lembrava de algumas coisas lidas aqui, sobre o seu pai no caso. Não deve ser fácil crescer com uma pessoa que deveria te incentivar ao máximo, e não minar seus sonhos e te boicotar. Ainda mais trazendo encostos como essa senhora. Faça-me o favor! Não tem gente suficiente pra ela perturbar na Holanda? Tem que vir até aqui pra fazer isso? Infeliz dessa mulher, vixe. ¬¬

Nina disse...

Del, em alguns aspectos, acho que você está errada.
Compreendo que o seu pai é um mala e que essa holandesa tampouco se torna importante. Mas ao longo do texto, fica parecendo que você precisa de um pai e uma madrinha para "lhe bancarem".
Eu tenho 20 anos e fui procurar emprego, mesmo sem formação alguma. Tudo bem, não sirvo de exemplo para a maioria. Nem irei julgar você. que tem 25 e outros planos na cabeça, não duvido. Mas a mudança tem de ocorrer de nós, Del. Tem gente que ainda mora na casa da mãe, mas consegue bancar os estudos com um salário mínimo. Se você sabe como o seu pai age, porque sentar e esperar que ele tome uma atitude de pai? Isso não vai dar certo. Apesar da família que temos, quem faz o nosso futuro somos nós mesmos. Basta querer. Você está com um livro publicado, olha que sonho! Mas ainda é preciso sair um pouco desses sonhos e cair na real. Estude, se forme. Seja alguém. Mas por você. E também, para sambar de salto alto na cara do recalcado que te pôs no mundo. Desfaça vínculos, Del. Tem gente que não nasce para ser pai. Não adianta tentar.
Abraços.

del disse...

@Nina
Ah Nina, é uma pena eu ter lhe passado a impressão errada. Eu sempre trabalhei, nunca precisei de ninguém, e justamente por isso essa senhora mencionada no texto não tem o direito de cobrar alguma coisa. Sim, eu trabalho, mas unicamente pra pagar as contas. Eu até poderia ir morar sozinha, mas é difícil sobreviver em Sampa com um salário mínimo, e além do mais, eu não teria um namorado pra me ajudar com as despesas. Se eu esperasse por uma fada madrinha ou por um pai, pode ter certeza de que eu não estaria aqui agora, escrevendo esse comentário :)

Nathy disse...

Del, quero apenas dizer que li todo seu desabafo e fiquei com raiva por vc. Sem palavras, viu?!

Toda energia positiva pra vc!

Beijos

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