18 de novembro de 2012

Inquisição trabalhista

Enquanto o mercado cobra R$500 para você aprender a passear com cachorros e ensino superior completo para testar produtos eróticos, ninguém parou para perguntar o que você quer da vida. A única coisa que dizem é: "Seja lá o que você quiser, vai ter que trabalhar para conseguir". Não importa o que seja. Mesmo se você quiser ser um eremita, terá que trabalhar em call center durante uns dez anos. Você precisa ter telemarketing no currículo para ser um eremita de respeito. Uma pessoa sem atendimento ativo ou receptivo em "qualificações" é um zé ninguém. Ou você se submete a um emprego mesquinha por R$500 na escala 6x1, ou é um vagabundo que merece viver à margem da sociedade. A dignidade não tem valor. O que vale, hoje em dia, é trabalhar loucamente nem que seja como colocador de saquinhos de tempêro dentro do pacotinho de macarrão instantâneo.

Aquele que não trabalha é automaticamente desvalorizado. Ninguém quer saber se, na realidade, você é autônomo ou blogueiro, que ganha seus ricos R$200 com anúncios do AdSense ou vendendo suas apostilas de boca em boca. Se não sai de casa às 6hrs para voltar só às 18hrs, não é classificado como cidadão de bem. Se não tem carteira assinada, horário de almoço, não precisa bater ponto nem conta os milhos pingados no final do mês, não tem direito a opinião. Eles não querem saber o que pensa um desempregado. Trabalhar por conta própria, então, é um insulto quase maior do que não ter emprego, porque é "impossível". Ah, isso não existe! Trabalho "de verdade" é aquele que você se mata para chegar, espremido no ônibus/metrô/trem, sofre repreensão do chefe (que quanto mais filho da puta, melhor heroi você será) e se mata, literalmente, em troca de um dinheiro que jamais será o bastante devido os altos impostos e outros roubos menos visíveis aos olhos dos pebleus.

O mercado de trabalho se supera a cada ano com suas exigências e formas de contratação. Um garçom só é contratado se obter inglês, no mínimo, básico. Outro dia, assisti na televisão um empresário reclamar que não encontrava funcionários qualificados para seu restaurante. Eu perguntei em voz alta, se como ele pudesse me ouvir, quais seriam os requisitos necessários para equilibrar copos em uma bandeja e anotar pedidos em um bloquinho? Onde está o segredo? As profissões que citei no início deste texto não são ilusórias, mas sim bem verdadeiras, por mais absurdo que pareça. Hoje em dia, existem trocentos cursos para as tarefas mais triviais encontradas no mercado. Cursos demais com salários e experiências de menos, devo ressaltar. Não contratam sem experiência, sem flexibilidade de horários, sem certificados, sem especializações, sem o que mais eles conseguirem encontrar.

Então, você fica nesse jogo de João Bobo. Sem dinheiro para estudar, sem trabalho por não ter estudado. Não consegue estudar porque não tem dinheiro, não tem dinheiro porque não consegue trabalho, sendo o resultado final a sua desqualificação como pessoa. Não estou transferindo a culpa, se é que há alguma nessa história, só estou tentando ilustrar o cabresto no qual nos metemos. Percebem? Dinheiro, dinheiro, dinheiro, relincha, e mais dinheiro, coices, dinheiro, dinheiro, dinheiro. O seu valor foi capturado e capitalizado no banco. Cultura? Bom senso? Boas intenções? Não. Emprego, emprego e emprego. Trabalhe e não olhe para os lados, não sonhe, não questione, não acorde. Deixamos de ser pessoas dotadas de espírito para nos tornarmos mãos de obra barata.

8 comentários:

@jana_keanuloka disse...

estou nessa sinuca de bico :B

Andreia ♔ disse...

O ultimo paragrafo não poder ser mais perfeito! Principalmente as ultimas frases.

Eu estou desempregada, então meio que entendo o que queres dizer. A juntar o que dissestes, coloca o facto de que com quase 25 anos ainda vive na casa dos pais? (Só continuo a viver na casa deles porque como não tenho trabalho, tampouco tenho forma de ser independente. x.x)

Mas sabes o que é pior nisto tudo? Aqueles que tem trabalho - mesmo que ganhem só o salário mínimo - andam se a dar ao luxo de os deixar. Como se houvesse uma chuva de empregos no centro de emprego. Até chorava, se gostasse. mas acho que as coisas ainda vao melhorar. Uma dia quem sabe. -.-

Beijocas.

OBS: Saudades daqui. :(

Israel Bonfim disse...

Concordo com tudo!

L.H.C disse...

Ai, Del, tenho que concordar com tudo que você falou! Sei exatamente do que se trata. Até seis meses atrás eu não trabalhava, e estudava para concurso, e não faltava alguém para dizer "você só estuda?" como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo, ou jogar na cara que 'fulaninho tá trabalhando em tal canto ganhando super bem. E mesmo trabalhando você ainda tem que coisas que lhe deixam com vontade de estrangular o seu interlocutor, as pessoas tem um tendência muito grande a achar que tudo que faz tem mais valor do que o que outra pessoa faz. E não há muito o que a gente possa fazer, tem que meter um sorriso falso no rosto e ir para a entrevista de emprego, rezar pra conseguir ao menos pagar as contas, por que a maioria das pessoas não está nem um pouco preocupada se você tá fazendo o que gosta ou não, contando que você tenha dinheiro. Só que eu sou muito quixotesca, sabe, ainda alimento a ilusão de ter uma bem sucedida carreira, ganhar dinheiro, sim, fazendo alguma coisa que eu goste e que seja útil de alguma forma.

Gleanne Rodrigues disse...

"Não consegue estudar porque não tem dinheiro..."
Como é que fica a minha vontade de fazer 2191899903 cursos e não ter dinheiro para pagá-los?
Concordo com tudo. Até pra ser coveiro tem que ter ensino médio e inglês básico. Isso pra quê? Pra falar com as almas estrangeiras?

Dea Carvalho disse...

Eu sei bem o que é isso. Sou graduada em letras, trabalhei por 3 anos em sala de aula, pegando turmas do ensino regular e médio. Nunca foi minha vocação, mas já que você tem que pagar as contas e fazer o dinheiro circular (eles dizem), sempre me dediquei e fiz cursos e mais cursos. Perdi o emprego. Durante 4 anos tentei em tudo que é buraco e minha graduação não servia mais pra nada. Pra participar de um projeto de alfabetização exigiram mestrado ou doutorado. Ensinei minha sobrinha a ler e escrever perfeitamente sem nenhum dos dois.

Agora sou portadora de uma doença incapacitante e que só piora com o tempo, não tenho mais a mínima condição de encarar uma jornada de trabalho e o INSS não reconhece a minha condição. Só pra resumir: sou um pária, ocupando lugar neste mundo feito para "gente de bem e produtiva".
Money Rules.

Fabiana C. disse...

Por coincidência, estou justamente passando por uma crise de identidade graças a esse 'ciclo', que você descreveu tão bem. No hall dos assalariados, sem expectativas e com a auto-estima bem reduzida. Li algo essa semana sobre 'ser produtivo'... Se você não é produtivo, você não existe e básicamnete não tem direito às dignidades humanas tão empurradas pela mídia. Não me conformo que as pessoas sejam transformadas em mercadorias e peças de xadrez, sem utilidade se por acaso estiverem fora ou à margem da máquina de dinheiro. É triste, triste e insensível demais. :(

Helen Araújo disse...

Passei um ano trabalhando nove horas diárias com gente estúpida e gritaria,correria, etc. Foi meu primeiro emprego. E foi a pior experiência que já tive, primeiro porque não é minha vocação (era pra custear a faculdade), segundo porque exigia demais, por todos os lados, todos querendo mandar e chamando ao mesmo tempo. Resultado: gastrite e desgaste psicológico. Tenho medo até de lembrar dos meus amigos de lá, porque já me sinto mal pensando que não saí ainda daquele pesadelo. Isso porque é primeiro emprego, e com certeza mais "leve" que muito trabalho por aí. Isso me deixou em dúvida quanto ao que eu gosto de fazer, se quero mesmo ser chefiada e passar por maus bocados com algo da minha área, penso que destroçaria o prazer do labor por conta dessa sede doentia de dinheiro.
Texto maravilhoso *-*
"Money, so they say
Is the root of all evil today."

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