12 de novembro de 2012

Planos plainos

Eu tenho vários planos. Adoro fazê-los sem o compromisso de cumpri-los, se você quer saber. Além da isenção de responsabilidade, planejar a vida sem o menor risco de algo dar errado é um dos poucos privilégios dos adultos. Então, eu sento na varanda, abro um livro, e enquanto finjo que estou lendo, minha cabeça range as engrenagens e é a única de nós duas que trabalha de verdade. Os planos se fazem, mágicos, como teias de areia que, na primeira chuva, serão cobertos por orvalhos ou, exercitando o meu pessimismo, irão arrebentar e não deixar nenhum vestígio de existência. É esse descompromisso que mata aos poucos a humanidade. Mas, convenhamos, para quem inventou a roda, vale a pena morrer por esse tipo de preguiça.

Por exemplo, volta e meia me sinto seduzida pela vontade de ter filhos através de uma produção independente. Nada de homens. Nada de toalha molhada em cima da cama. Nada de discussões cansativas para a escolha do nome. Nada, veja você, de compromisso. Numa bela manhã, eu acordo disposta a ser mãe. Vou à clínica, faço meus exames, recebo cartilhas, folhetos e recomendações. Recebo, também, um arquivo com todos os doadores e suas especificações. Escolho um finlandês? Um italiano? Judeu. O que as pessoas tem contra os judeus? Posso escolher até um anão; imagina que louco montar um circo! O problema é que existe aquela peste sem vacina nem cura - o depois. Depois, a criança cresce. Depois, vai querer saber de onde vem os bebês, se peido pesa e cadê o papai. Eu, que não tenho o menor jeito para administração, vou me enrolar e fazer do meu plano, um pesadelo.

Talvez seja melhor continuar sendo mãe de cachorro.

Existe aquela velha ideia de fazer a faculdade de Letras (português - alemão) e me mandar daqui. Ser tradutora, professora, ou lavar pratos na Europa. Não, eu não sou o tipo de brasileira que faz pouco da pátria. Eu sou o tipo de brasileira que acha que todo ser humano tem o direito de morar na porra do território que quiser. Continuando: Após conhecer Dornach, não quero outra coisa na vida senão enraizar lá. Sou eu em forma de lugar. Mas se não for possível, ok. A vida é sempre impossível mesmo. Eu, o meu alemão e a minha dupla nacionalidade vamos para outro lugar, não tão desejado, mas igualmente tranquilo.

Daí que tem aquele quadrinho (acho que da Mafalda, não sei) que é a respeito de planos com um trocadilho mei'porco sobre planícies. Sabem qual é? Já que comecei o texto falando sobre preguiça, não me dei ao trabalho de procurá-lo. Enfim, as pessoas tem essa mania de dizer que a vida não tem o aspecto plano; que há a montanha e o tal do Maomé, numa história onde os dois jamais se encontram por pura falta de interesse. Fico sem saber qual a moral da história. Montanhas não se deslocam, e o Maomé é um puta coçador de saco que espera pelas coisas cairem no colo. O cara é tão malandro, que espera avistar uma montanha no horizonte acenando para ele. Veja só. A gente inventa umas coisas muito curiosas, né verdade?!

Os planos que fazemos, porém, tem sim essa aparência monótona. Não é uma vantagem unicamente minha preencher as horas de ócio com coisas que jamais realizarei. Está no DNA. De quem? Da história. Por mais ridículo que seja, a gente espera sim pela montanha. A coitada aparece no horizonte, a barra levantada por uma mão até as ancas, na outra mão um lencinho secando o suor do topo. Ela acena, ofegante. "Que trânsito! Todas as montanhas resolveram sair ao mesmo tempo". A imaginação não trabalha como o coração, com seus picos e arritmias. Por mais criativos que sejamos, ela segue uma linha lógica, focada na luz no fim do túnel e com o único intuito de nos levar a continuação da espécie. Tem a preguiça, claro, porque caminho sem pedra não tem a menor graça. Sabe, não é ruim planejar o futuro, por mais utópico ou impossível que seja. O problema é essa paisagem plaina.

Descobriram a roda. Bacana.
Mas e o tempêro dos planos?

5 comentários:

Pablo disse...

Também sou assim... vivo fazendo mil planos e não mechendo uma palha pra que eles de fato se concretizem, mas acho que é mais importante fazer planos e não sair do lugar, do que não fazer planos e continuar parado!

Sofia A. disse...

Acho que todo mundo é meio assim, volta e meia se pega, horas a fio olhando pro nada, imaginando o futuro. Eu, particularmente, adoro fazer isso dentro do ônibus.
Gostei muito do jeito que você escreve, esse texto cheio de imagens e alegorias, inteligente e até em certa medida cortante.
Beijo!

Carolda disse...

Pois minha cabeça também parece ser a única que trabalha por aqui. Trabalha tanto aqui dentro que esquece que preciso funcionar aqui fora.
Imaginar e formar tudo dentro da cabeça é lindo. Só falta fazer.

Carolda disse...

Não, não é fazer. E sim AGIR.

Carlos disse...

sou um completo fracasso com todos os meus planos. talvez por isso eu tenha tentado fazer cada vez menos. e, quando faço, sei que eles tão mais pra ficção que qualquer coisa.

Postar um comentário