5 de dezembro de 2012

I don't love rock n' roll

Faz uns bons dois ou três anos que não visito o meu fiel cabeleireiro. Um belo dia acordei, me espreguicei, e decidi que cuidaria de mim sozinha. Esse negócio de terceirizar o serviço estava me custando caro. Entrei numa vida feminista de me amar do jeito que eu sou, mergulhei na onda esquerda de quem não quer alimentar o Sistema e decidi torcer o nariz para as burguesas. É isso mesmo: eu estava sem dinheiro.

Porque nessa situação esse tipo de ideal funciona.

Para falar a verdade, acabei tomando gosto pela coisa. Nunca fiz minhas unhas em uma manicure, tão pouco depilação. O que faltava para ver meus cabelos livres de tesouras profissionais? Vinte e cinco reais para cortar as pontas e fazer uma escova. "Sério mesmo?!" perguntei para mim mesma. "Você é aleijada por um acaso"? Não, eu não sou. Meu cabelo, sempre rebelde, adorou a ideia. Espantada, percebi que ele estava muito mais bonito desde que comecei a cuidá-lo. O bichinho se sentia mais leve sem as regras do cabeleireiro. Eu me sentia mais rica e mais dona de mim sem precisar ir ao salão de beleza só para cortar dois dedos de comprimento. Foi, enfim, uma das melhores decisões que já tomei - no setor capilar, porque eu sou um desastre em qualquer outro.

Mas sabe como é. Não seria eu se a coisa não tivesse sido elevada ao ridículo por vontade própria. Decidi que não estava feliz com as minhas habilidades limitadas e resolvi aprender novas técnicas. Assisti vários vídeos no Youtube, li alguns artigos no Google, peguei a tesoura e fui para a frente do espelho. Deu certo nas primeiras vezes, para o espanto da plateia. Descobri uma forma de tirar o comprimento e ainda repicar as pontas, que leva menos de dez minutos. Fiz uma, duas, três, dezenas de vezes. Meu cabelo começou a enrolar timidamente nas pontas, o que me deixou cada vez mais satisfeita - era o resultado que eu queria. O que eu não sabia, é que a confiança (no meu caso) pode ser fatal. Se eu não posso ter uma coisa, essa coisa é confiança. Eu perco o freio.

Num belo sábado, sozinha em casa (o que é perigosíssimo: confiante e sem a supervisão de adultos), decidi que não seria mais a LANG, Del se não mudasse o meu cabelo de uma vez por todas. "Vinte e cinco anos", eu pensei, "está na hora de mudar esse visual de quem acabou de sair da escola". Nada muito radical, ponderei. Apenas mais curto. Na minha cabeça limitada, usando da mesma técnica, a única coisa que mudaria seria o bendito comprimento - eu ficaria com o cabelo um pouco acima dos ombros e encaracolado nas pontas. Ok. Penteei o cabelo para frente, prendi em forma de rabo de cavalo, cortei rente ao elástico que o prendia deixando apenas um cotoco na altura da minha testa. A cara de felicidade. Eu me lembro da minha cara de felicidade. Soltei meus cabelos e agora não só me lembro, como sinto no espírito a minha cara de terror. Ficou mais ou menos assim:

 Essa sou eu, de bigode, diretamente do álbum "MoMeNtOs" no Orkut.

O que eu fiz? Liguei para a minha mãe, ora bolas! Falei que havia feito uma pequena cagada irreversível e que não sairia de casa pelos próximos seis meses. "Mas não dá para arrumar?", ela perguntou otimista como toda mãe. Respondi que podia ficar pior, que era melhor deixar quieto e andar, sei lá, de peruca. Antes de desligar o telefone, choraminguei "confiança nunca mais e mimimi". O meu sábado estava exterminado.

Lembram do papo de me amar do jeito que eu sou? Pois é. Isso não é possível (ou mesmo recomendado) enquanto o seu cabelo sofre uma crise existencial. Não que eu tenha me trancado no quarto para chorar na cama, que é lugar quente, mas digamos que eu evitei o contato social por alguns dias. As pessoas não estavam preparadas para o meu despreendimento. Nem eu estava preparada, se você quer saber. Porém, após algumas semanas e alguns milímetros a mais, eu comecei a me acostumar com aquela Runaway aparecendo todos os dias no espelho. Decidi que usando batom vermelho e botinas de couro, a sociedade me ignoraria; eles adoram um pré conceito, né verdade? "Ah, é metida a roqueira. Ah, é metida a gótica. Ah, é só mais uma estranha da Av. Paulista. Tem problema, não!" Deixe todos pensarem que você sempre foi assim, e seu visual estará automaticamente consertado.

  Essa sou eu, sem bigode, no dia em que fugi com as Runaways.

12 comentários:

Jessica disse...

*----------------------------------------*~
Ta lindo o seu cabelo, Del!
Queria ter essa coragem também; mas a importância do meu cabelo pra mim é quase a mesma do pênis pro homem. Se algo der errado, o mundo acabou.
Alem de eu não ter habilidade manual alguma. :x

lilian alipio disse...

eu sou filha de cabeleireira e digo que o corte não ficou feio, eu tbm me cuido sozinha, nunca fui na manicure e tbm sou eu que faço a depilação, as vezes quando é necessário, eu mesma corto as portas do meu cabelo e tbm faço as sobrancelhas, talvez você não tenha gostado do resultado, mas tente usar alguns acessórios no cabelo ou fazer um penteado diferente e talvez você aprenda a gostar do corte.
Adorei o texto beijos

Larie Ribeiro disse...

Posso dizer que amei muito seu cabelo?

Morro de vontade de cortar o meu cabelo exatamente do jeito que você cortou o seu, mas estou convicta de que não daria nem um pouco certo. Acontece que meu cabelo é cheio e ondulado, portanto ele correria sérios riscos de parecer um blackpower no final das contas. Triste. E, ao contrário de você que tem uma Av. paulista cheia de gente se vestindo diferente, aqui o povo ainda fica com aquela 'cara de taca' quando vêem uma pessoa diferente dos demais.
(pois é, não tenho coragem pra enfrentar a sociedade. ainda.)

Beijos :)

Mia Sodré disse...

Sim, poderia ficar pior. Sério, quando abri a foto do nadador, dei gargalhadas altíssimas aqui, hahaha!
Eu gostei do corte. Sempre quis ter um corte mais assim, com "atitude", franja e essas coisas. Mas, como meu cabelo é aquela coisa linda, maravilhosa e indefinida, nunca pude fazê-lo, nem deixá-lo mais curto sem que ele se revoltasse contra minha pessoa.
Mas o fato é que eu gostei do seu corte. Está igual ao de uma amiga minha - que achou um horror também após cortá-lo, haha.

:*

@jana_keanuloka disse...

Del, não tem comparação nenhuma da primeira foto com a sua, viu? EU AMEEEEEEI O SEU CORTE! Parece que foi cortado em camadas, sempre achei bonito.

Aliás, preciso dizer que me identifiquei bastante com a postagem pois também já fiz isso. Da última (e primeira) vez, quase morri de arrependimento pois cortei curto demais, mas meu cabelo cresceu, é óbvio, e já estou pronta pra me arrepender novamente! o/

Beijos!

Nina B. ☂ disse...

A gente mesma cortar o cabelo é algo libertador, eu corto o meu sempre, e não entendo esse apego que as mulheres tem com o cabelo, talvez seja sindrome de sansão (será que existe essa sindrome [se não existir esqueçam]) onde sintam que ficarão fracas e nuas sem as melenas emoldurando a face...adorei o blog.

Dea Carvalho disse...

"Essa sou eu, de bigode, diretamente do álbum "MoMeNtOs" no orkut" - HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH! Del, obrigada! Há muito eu não ria assim!

Ó, pois é só lembrar que Joan Jett é musa, que o vexame passa, garanto. E seu cabelo não tá feio, não mesmo!

Olha, menina, te digo uma coisa - não comprei Helena ainda porque tô envolvida num furacão, mas você poderia rabiscar o alfabeto fora de ordem num papel de pão e ainda assim eu iria querer comprar!

Beijo.

Ana Luísa disse...

HAHAHA, que ótimo, Del! Eu dei risada, porque cortei meu cabelo hoje. Mas fui no cabeleireiro, porque eu sou um desastre completo com qualquer coisa que envolva habilidades manuais. E adorei meu cabelo novo! Eu achei o seu descolado! E de mais a mais, cabelo uma hora cresce, né? Se todos os problemas do mundo fosse assim..

Julie Barros disse...

JOAN!
Menine, eu sei BEM como é isso. Eu que pinto e bordo com meu cabelo, não deixo ninguém mexer no dito cujo.
Eu não achei que tu fizestes uma cagada gigantesca não, mas para todos os efeitos, teu cabelo vai parecer bem cool quando ele crescer um tiquinho mais :)
Quando tu quiser repicar ele, depois de usar a técnica do "rabo de cavalo inverso" [?] experimenta usar um barbeador pra dar uma desfiada na juba depois de solta \o/

Andreia disse...

Acontece nas melhores famílias. A boa noticia é que o cabelo cresce, então quando fores a ver, o cabelo está outra vez grande (e a precisar de atenção).

Eu sou péssima em manualidades e se cortar o meu cabelo sozinha - mesmo que seja só a franja -, sou bem provável de criar um monstro! rs Talvez por isso que só corte o cabelo se for no cabeleireiro. xP

E ficastes bonita. E de um certo modo, diferente. :)

Beijokas

gabriela m. four disse...

Aaaah, minha querida, poderia ter sido beeeem pior. Eu também já tive desses ataques de pânico depois de um corte que não saiu como a minha imaginação previa, mas depois de olhar e olhar, a gente acaba "desodiando" ou acostumando.
O fato é: cresce. A Julie tem razão: quando cresce um pouquinho, vai lá a Del Lang de cabelo Vogue.
E para mim, você continua uma graça com seu cabelo de "Kiki Jett".
;*

gabriela m. four disse...

(E ah, só no fim do texto pude entender esse título dizendo que não gosta de rock. Como assim, né? haha)

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