Meus adoráveis desastrados

Sem delongas.

Aos vinte e cinco dias de fevereiro do ano 2012, The Rasmus lançou em um evento o primeiro single do novo trabalho da banda: I'm a Mess! Após uma longa e gélida espera, Lauri Ylönen resolveu parar com a brincadeira de New World, e voltou a pintar o sete com seus velhos companheiros de estrada. Recentemente, os quatro rapazes viajaram para o Japão e gravaram o clipe deste single mantendo, porém, o mais absoluto sigilo sobre a direção e arte. O que eu tenho a dizer sobre tudo isso?

PUTA QUE PARIU, até que enfim!

Eu já estava perdendo minha identidade com tanta espera. Ok, antes de continuar meu texto, quero logo avisar que será altamente dramático e influenciado pela groupie que habita meu ser. Essa garota de minissaia é um perigo! Quando abro a gaiola, ela sai correndo descabelada sem rumo nem apreço pela própria integridade física (tão pouco a dos outros). Enfim, é ela a escrever aqui hoje, no Bonjour Circus. Pode ficar sentado(a) ai reclamando que mimimi, mas você tem o The Rasmusologia para isso, que eu não ligo.

Na verdade, eu havia me esquecido por completo que dia 25 era a estreia do novo single. Ando meio... hum, seria ambíguo usar a expressão "atolada", ainda mais com o funk em alta. Ando abarrotada (algo me diz que isso não mudou muita coisa) de trabalhos e me ocupo com tais tarefas praticamente o dia inteiro. Esqueci, pronto, assumo minha blasfêmia! Mas heis que o twitter do The Rasmus Soldiers (@TR_Soldiers) lembrou minha cabeça senil do dia comemorativo, e eu corri enlouquecida para todas as fontes que tenho. Encontrei vídeos, letras (de uma tradução terrível, mas...) e até a música para download. Veja você, faz um ano ou algo assim que eles não lançam nada! Eu estava na seca, subindo pelas paredes. Eu sei, para quem se preocupou tanto com ambiguidade antes isso não deve ajudar muito, mas foda-se.

"Mas que inferno! Diga logo o que achou de I'm a Mess, garota!"

Ando ranzinza nesses últimos dias; ou melhor, em toda esta encarnação. Nunca saberemos até onde isso atua em minhas opiniões, mas digamos que a música não atingiu minhas expectativas. Talvez I'm a Mess tenha causado uma minúscula frustração. Como fã de The Rasmus, sofro da irremediável doença Dead Letters; também padeço dos ataques de Hide From The Sun, mas não é este o caso. Eu ainda espero, mesmo após 10 anos, que a banda volte a lançar músicas como In The Shadows ou que faça um trabalho parecido, inspirado neste álbum. Isto, obviamente, não irá acontecer. Ainda mais agora, após conferir o som modificado do novo trabalho! Ao que tudo indica, Lauri resolveu esticar sua carreira solo e introduzí-la no projeto, que parece levar o nome da banda. Uma lástima, certamente, já que The Rasmus jamais teve cara de quem gosta da experimentação do tunz tunz. É cedo para dizer que eles realmente resolveram se aventurar em um novo estilo, mas I'm a Mess - apesar da forte descarga de adrelina - me obrigou a dar um meio passo para trás.

Opa, vem merda por aí?

Será? Este pesadelo chamado Black Roses não acabou? Fui condenada ao déjà vu e ninguém me avisou? Posso estar exagerando (com certeza estou, levando em consideração meu histórico), sei disso. Apesar da minha opinião, o single causou grande euforia e até mesmo certa nostalgia. Fiquei com meio pé atrás, mas estou ansiosíssima para conhecer o álbum por completo, a música na versão de estúdio, e aí sim dar meu veredicto com prazer e sabedoria, oui tranquilidade! Porém, já posso afirmar que "Won't you fall asleep right next to me when my hands are cold?" promete, senão um álbum perfeito, a poesia Ylönen de volta.

A frescura do Não Fico

Eu sempre fui meio underground; simplesmente por ser do contra. Por mais que eu tente (e eu tento!), não consigo gostar das coisas e pessoas que todos gostam. Veja bem, essas coisas não são ruins só porque não gosto delas. Não é nada disso. A discussão sobre gostar ou não fica para outro texto. Só estou dizendo que as coisas e pessoas "pouco" conhecidas sempre me agradaram mais. Talvez porque não há milhões de seguidores enchendo o ego e fazendo com que tudo estrague. Porque olha, as pessoas são perecíveis. Se você não conserva do jeito certo, elas estragam. E quanto mais gente suspirando em cima, mais bactérias. Logo, mais insuportável a pessoa fica.

Isso piora quando certa celebridade tem uma fama de 5 pixels; aquela da internet. Um blog que oferece freebies, um tumblr que oferece freebies ou um vlog que oferece... freebies. Alguns dizem o que os outros querem ouvir. Alguns oferecem o que os outros não conseguem fazer (por mais simples que seja). Não importa o conteúdo ou a troca de favores, os famosos se valem à base de comentários, retweets e seguidores. Logo, o "ídolo" fica insuportável. Uma FAQ aparece, uma impaciência desponta e respostas curtas ou monossilábicas brotam, até que o seguido começa se achar bom demais para conversar com seus fãs. Tudo é motivo de Humpf! Já respondi isso! ou Humpf! Outro plágio! e também Humpf! Falta tempo para dar atenção à vocês! Mesmo que ele não tenha nada para fazer. Mesmo que seu tempo seja ocupado somente pelo ato de limpar a bunda após ir ao banheiro.

De repente, não mais que de repente, a sub-celebridade internética arranja o que fazer em sua vida offline. Ou melhor, fica de castigo sem computador, vai passar alguns dias na casa da vovó ou precisa terminar o importante TCC sobre a problemática do ponto e vírgula, que há muito foi extinto da língua portuguesa. Seja lá qual for o motivo (que até pode valer alguma coisa), tal dilema chega a parar a bolsa de valores e ninguém mais sabe o que fazer! A pessoa não publica mais nada, as perguntas se acumulam, os preguiçosos não conseguem mais montar um simples HTML e a internet, apodrecida, começa a despencar. Pedaços e mais pedaços caem, mas o Famoso está firme em sua decisão: Stol sem tempo rs bjos.

Então, a novela mexicana começa: de um lado, o Famoso dizendo que está ocupadíssimo ou que não pode suprir a falta de energia positiva alheia. Do outro lado, os seguidores e fãs e admiradores e sanguessugas choramingando que mas ti adoramus tanto s2 naum vai imbora! Quando você pensa que o cara (ou garota) está partindo dessa para a offline, heis que ressurge das cinzas mais uma mensagem de mesmo conteúdo e desculpa: Calma kkkkk tô sem tempo meixmu!

Eu, infelizmente, comecei a seguir um perfil no tumblr de um cara, até então, super bacana. Nada, nadica de nada em especial, mas bacana. Não sei que caralhada houve, mas por duas longas semanas e muitas páginas na dashboard esse cara ficou se despedindo de seus súditos. Eu disse duas semanas e muitas páginas. Ask atrás de ask com respostas e rasgação de seda. Claro que eu não deixei por menos (não que isso faça diferença na vida de alguém); mandei para ele e seus seguidores uma mensagem gentil: Se você quisesse mesmo ir embora, já teria ido! Pronto. Sou o tipo de pessoa que se sente mais leve após dar esporro em alguém. Não sei qual foi a resposta, desconfio que meu tumblr esteja crucificado no alto de um morro, mas de nada tenho certeza porque cliquei feliz e contente no Unfollow. Fazer o que se na internet não podemos bater o telefone na cara da pessoa?! Só restou dar um clique miserável no quadradinho...

A conclusão é simples: carência afetiva. Não bastasse os mais de 1000 imbecis puxando o saco, a sub-celebridade de 5 pixels ainda precisa de muito amor e companhia forjando assim, uma despedida cheia de lágrimas e pesares por semanas a fio, como se não houvesse o amanhã, como se fosse morrer ali e naquele instante. Cinco dias depois, tudo volta ao normal se como nada tivesse acontecido. Os súditos acham mesmo que conseguiram convencê-lo a ficar. O Famoso acha mesmo que essas pessoas só querem sua companhia e não percebe que seu fim chegará assim que outro ter algo melhor do que ele para oferecer. Usurpando assim, sua latrina dourada.

Só tava de brinks, pode dizer à todos que fico (otários!)

O barulho da porta 15

O cara do 15. A única coisa que conheci desse cara foi o topo da cabeça começando a ficar careca quando o vi sair do prédio uma vez. Não, mentira, também conheci seu gosto musical. Todo sábado e domingo de manhã ele colocava Chico Buarque para tocar. As músicas eram repetidas várias e várias vezes. Eu, deitada na minha cama, ficava olhando para o teto e escutando. Virei fã de Chico Buarque por osmose, digamos assim. Também descobri que ele pedia pizza toda sexta-feira à noite. O motoboy subia ao nosso andar, tocava a campainha do 15 e sempre falava muito alto. "Sua pizza, senhor!". O andar ficava lotado com a voz do motoboy e com o cheiro da pizza. Só não sei o sabor; toda pizza tem cheiro de queijo quente, mesmo que seja de catupiry. Tirando esses detalhes, vejamos, acho que não sei mais nada sobre ele. Ah, sim! Os bilhetes.

Todo dia, ao acordar e ir para minha cozinha, eu encontrava um papel rosado na soleira da porta. Dobrado ao meio, o papel tinha cheiro de Bom Ar. No primeiro veio escrito "Bom dia!". É claro que eu não entendi de onde o recado vinha, quem havia escrito e qual era o motivo. Poderiam ser as crianças que moravam no mesmo andar que o meu, o porteiro sempre muito galanteador (apesar do bigodinho ridículo) ou engano. Minha autoestima, de prontidão, levantou a mãozinha e disse que era engano. Joguei fora. Mas a entrega do bilhete anônimo se repetiu na manhã seguinte e na outra. Reapareceu na soleira da minha porta frequentemente e quando vi, estava incluído na minha rotina. Quando dei por mim, levantava de manhã e corria para a porta de entrada do meu apartamento ansiosa para ler a mensagem do dia. Se quer saber, as entregas não falharam nem um dia sequer.

Sim, fiquei preocupada, curiosa, ressabiada. Queria descobrir e não queria ao mesmo tempo, porque se fosse realmente o porteiro... poxa vida, que tragédia. Caligrafia e mensagens tão doces não combinavam com aquele maldito bigode. Não que fosse algo extremamente poético, mas "você é linda, tenha um bom dia" e "se você sorriu agora, saiba que meu sol raiou" são frases mais lindas e sinceras do que qualquer rima. Não acha? Eu achei. Desvendar o mistério, então, não era simplesmente matar a curiosidade. Saber de tudo e todo era mudar minha vida. Era incluir alguém tão importante que se fez presente através de um pedaço de papel. O bichinho curió, porém, cutucou tão forte que um dia bem cedo acordei e fiquei de guarda na minha porta. Ela fechada, eu de braços cruzados sem saber exatamente o que estava fazendo.

Foi então que, em um domingo de inverno com o dia lá fora banhado em neblina, que assisti pela primeira vez o papel entrar pela soleira. Não, não abri a porta. A sensação gigantesca engoliu qualquer reação. Foi como ver meu coração entrar, se como alguém estivesse o devolvendo. Peguei o bilhete e ouvi os passos. Tênis. Ouvi a porta fechar e Chico Buarque tocar. Segui com o mesmo plano dias seguintes e não tive dúvida: sabe-se lá por que meu vizinho, o cara do 15, mandava em anônimo aqueles recados para mim. "Nas entrelinhas moramos você e eu" ele mandou uma vez, mas e explicação? Por que entrelinhas e não um parágrafo? "Do céu ao mar, teu olhar mergulha e voa em mim". O rosto! Eu tentei imaginar o rosto, e nada.

Tentei ver o rosto, e nada. Toquei, bati, chamei à porta do 15; o vizinho nunca estava e sempre fingiu não estar. Na portaria. De prontidão no corredor. Nada. Não me fiz de detetive para não me afundar no poço escuro da falta de respeito próprio. Não parei em frente ao prédio escondida. Ok, eu tentei, mas o porteiro veio puxar conversa e jogar seu olhar 42 e meio para cima de mim. Tática falha. Sim, claro que eu também mandei bilhetes por debaixo da porta dele! Uns ele respondia, outros não. "Por que não fala comigo?", eu escrevi. "Se a Humanidade te tocar é capaz de fugir, serena pombinha". Sempre assim, aéreo, perdido no mundo dele.

Em um dia de verão, quente, escaldante, havia um papel branco. Nele, nada além de "Devo ir. Levo você no bolso da camisa, do lado esquerdo. Ponto final". Fiquei pendurada na tênue linha do vou/não vou. Não fui. Esperei pelo dia seguinte. Nada de mensagem, e mais nada pelo resto da semana. Foi em uma tarde que o porteiro chegou e me pegou empurrando um bilhete por debaixo da porta 15. Ele perguntou, lógico, eu respondi (fazer o quê?). O porteiro retrucou "mas ele se mudou", e eu gelei. A felicidade fez as malas e foi embora. Fiquei sem entender. De todas as coisas que precisavam ser entendidas, não entendi nenhuma. O apartamento vazio, chave na minha mão. Procuravam um novo locador, e eu procurava tudo. Chico Buarque, caixas de pizza, uma mesa repleta de amor e pedaços de papel rosado. Um recipiente vazio de Bom Ar esquecido em qualquer espaço. Como sempre, nada. Um nada dentro do tudo que senti e sinto.

E não esqueço do barulho do papel deslizando para dentro do meu apartamento, o mísero 13. A canção. Dos barcos dele nos bilhetes, que sempre navegavam para "o bravo sorriso de menina corajosa". Muitas perguntas ficaram e machucam, é verdade, mas machuca - principalmente - o barulho que a porta 15 fez ao você sair da minha vida.

Texto grande, eu sei. Dá preguiça de ler tudo isso e, provavelmente, está bem chato. Não gosto de publicar histórias assim, mas essa achei valer a pena. Escrevo tão pouco dessa forma, não custa nada registrar no BC. Caro leitor, não tenha vergonha de dizer que não leu tudo, é melhor do que fazer um comentário genérico. A única coisa que exijo de quem comenta é a sinceridade. Pense nisso!

A arte do Cordel


Comecei a me interessar este tipo de literatura após conhecer o blog A Voz do Cordel. Como cheguei a este blog continua um mistério, mas sei que gostei logo de cara! Então, aos poucos comecei a me interessar pelo gênero literário como um todo.
Remonta ao século XVI, quando o Renascimento popularizou a impressão de relatos orais, e mantém-se uma forma literária popular no Brasil. O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal. No Nordeste do Brasil o nome foi herdado, mas a tradição do barbante não se perpetuou: o folheto brasileiro pode ou não estar exposto em barbantes.
Normalmente os folhetos são ilustrados com xilogravuras, que se tornaram outra paixonite minha por associação. Logo de cara encontrei o 100 anos de xilogravura e comecei uma pequena coleção com imagens encontradas no Google. Tornei-me fã de J. Borges, que até agora parece ser o melhor. Muitas vezes acabo me distraíndo com os desenhos e esqueço da leitura! O nordeste, infelizmente, é pouco explorado dentre a cultura brasileira, mas sempre me interessei muito pelas tradições, músicas, cozinha e tudo o mais. Acho que não custa nada compartilharmos mais sobre ele.

Meu primeiro cordel foi Amôr de Perdição, de João Martins Athayde, publicado em 1951. A história se passa em uma cidade de Portugal (chamada Viseu), e gira em torno do casal Simão e Thereza, sendo acrescentada ao decorrer do enredo a Mariana, que se apaixona por Simão formando um triângulo amoroso.
Aqueles dois corações
em pleno viço e frescor,
se enlaçaram fortemente
nos élos do puro amor
um pulsando outro pulsava
pois sentiam a mesma dor.
É uma delícia ler em rimas e notar a simplicidade das palavras. Por enquanto li folhetos com histórias de amor porque os cordelistas tem uma visão menos, digamos assim, enlatada. O Brasil parece importar romances americanos ao invés de criar suas próprias artes; com exceção de Lisbela e o Prisioneiro, O Alto da Compadecida e alguns outros que se destacam da montanha de puro lixo. Nos cordeis encontrei muitas brigas entre famílias, juras de morte, fugas e a mais casta vida nordestina!

Logo depois li Amor em Face do Destino, o melhor até então; cheio de piadinhas, ironia e um ótimo enredo estruturado. Foi este que me convenceu a escrever um texto aqui, no Bonjour Circus. Após terminá-lo, não restou dúvidas de que eu deveria dividir a Literatura de Cordel com os visitantes do blog! A leitura rimada pode ser desconfortável para muitos, mas grande parte dos folhetos são pequenos. Vale a pena ao menos tentar. Na Casa Rui Barbosa estão disponíveis todos os cordeis de poetas e cantadores tanto da 1ª quanto da 2ª geração. É um acervo de encher os olhos!

O Cara

Toda mulher deseja namorar um cara extraordinário. Um super herói. Acho que, muito mais do que um príncipe encantado, mulheres buscam um homem que ofereça possibilidades enquanto elas esperam somente um conto de fadas. Aquela maçada: castelo, felizes para sempre e animais que cantam. Mas você nem sabe cantar! Você não sabe organizar suas gavetas, quanto mais um castelo! Felizes para sempre? Por que, se o gostoso é procurar pela felicidade e no caminho encontrar diversas outras sensações? Para que se limitar, se o cara certo pode oferecer o frio na barriga? O que é o "para sempre" quando o cara oferece um dia após o outro, todos completos e preenchidos pelo amor que você merece? Graças a esse cara, o "para sempre" se torna uma sensação ao alcance de suas mãos. Assim como a alegria e o sorriso espontâneo, essa sensação será a conquista de cada segundo.

Não estou falando de príncipes ou modelos que ilustram capas de revistas. Não. Estou falando da beleza radicada no brilho dos olhos do cara. Aquele brilho que te chama porque está nele o seu lugar. A beleza instintiva, que simplesmente existe, sem precisar ser explicada ou medida. Uma beleza sua, que você sabia existir muito antes de encontrá-lo. A beleza quebrada, que se completa com você. A beleza do Inexplicável, que não possue razões, mas faz todo sentido quando seus corpos se enlaçam.

Estou falando daquele cara que todas procuram e nunca encontram por medo do conhecido. Sim, isso mesmo. Por medo de saber que com ele a plenitude é certa, e tamanha é a oferta, que temem não saber o que fazer com tanta festa. Falo do cara que sabe o que fazer e dizer, não do modo como as mulheres esperam, mas entre as supresas de palavras sinceras. Nada de lirismos, somente um "eu te amo e amo, amo, amo... O cara poeta, criativo e corajoso, que fala de mulher como se fosse o Criador, que escreve poesia bruta e implora para que sua amada a lapide da forma como quiser.
Que faça da minha poesia, nossa prosa
Desfaça minhas rimas, se assim convier
E que me implore, suspirosa
"Faça de mim, tua mulher"
Ilustro um cara simples, de gestos firmes e mente ágil. O cara que constrói edifícios sem papel nem lápis. De caráter humilde, mas sorriso prepotente. Aquele cara que sabe, por mais que a mulher esconde. Por mais que o mundo duvide e por mais que a Ciência complique, ele simplesmente sabe que, para algo existir e ser, basta ele e sua mulher. Quando há os dois, há o Tudo do qual ele precisa para fazer da mulher a primeira e única cultura.

Mas nada muda. O cara continua com seus defeitos e contratempos. Ele ainda esquece e se desculpa. Ainda quebra e desarruma. Coloca ponto final onde antes havia vírgula, e você reclama "mas onde foi parar a lógica da minha rotina?" enquanto ele balança a cabeça e diz "agora, somente eu sou o vício da sua vida!" E os relógios caem das paredes. A cidade pára, depois recomeça cantando uma nova canção.

O cara, como todos os outros, anda de mãos dadas. Com a outra mão, porém, ele aponta as descobertas. "Você sabia que..." e a mulher finge não saber de nada! Só para gozar daquela curiosidade infantil e jocosa que ele supre, entre um piscar e outro dos olhos profundos e coloridos. Mas não pense que ele é perfeito. Pelo contrário, ele está muito longe da perfeição! O cara ainda troca sua mulher pelo futebol, joga coisas molhadas em cima da cama e prefere o feijão feito pela mãe. Ele não gosta das mesmas músicas, dos mesmos livros e nem sempre se interessa pelas mesmas coisas. Não gosta de falar sobre decoração nem cores de tons pastéis. Mas ele está lá, discordando e reclamando, fazendo com que a mulher se sinta cada vez mais feminina.

Ele tem o horror de cultuar a amada como uma deusa, mas preza o respeito humano e verdadeiro de quem quer compreender melhor sua companheira. Jamais sustenta por 24hrs o romance meloso, mas sim a espontaneidade revigorante dos tapinhas inesperados abaixo do quadril. Quando não sabe, assume isso ao invés de preencher as reticências com qualquer coisa, só para justificar o posto de ser O Cara. Não, ele nunca diz o que uma mulher deseja ouvir em determinada situação, já que apenas o silêncio dele casa com o silêncio dela. Há discussões, brigas e desintedimentos. Graças à Deus, cada um pensa de um jeito! E se alimentam assim, com visões diversas que se combinam. O cara pinta, escreve, compõe, inventa e acrescenta. Artista? Não, sonhador. Modula esculturas? Não, só o amor. Para o cara, o amor existe em infinitas dimensões, transborda as mais severas crenças e reinventa a mais amarga pessoa. O amor para esse cara, é extraordinário porque lhe foge das mãos. É indomável, assim como sua amada. "O amor, meu amor, é fulgor! Você dá uma piscadinha, e já o perdeu de vista!"

Não adianta querer que todos os caras sejam o cara. Isso, infelizmente, é para poucos homens. E a mulher que o encontrou sorri a mais absoluta certeza de que ele só pode ser dela, e de mais ninguém!

Para HP, disque 190

Interrompemos nossa programação normal para o Momento PROCON.

Em 2009 ganhei um HP Pavilion dv5-1160br dos meus pais. Na Lua de Mel, tudo funcionou muito bem. Dois anos depois, posso dizer que me afoguei no mar de rosas. O notebook começou a apresentar defeitos; superaquecimento e ruídos. Começou a demorar para iniciar e muitas vezes ficou "preso" em uma tela preta sem dar sinal de vida. No verão é impossível usá-lo! O aparelho começa, literalmente, a ferver e desliga sozinho devido o aquecimento. Sou obrigada a parar tudo o que estou fazendo para esperar que Vossa Excelência esfrie (uma demora considerável). Quando tenho muitos textos e exercícios para finalizar, chego ao ponto de sentar no chão para o magnífico HP não esquentar até explodir desligar novamente.

Eu fiz uma rápida pesquisa no Dr. Google e descobri que o problema não era somente meu, mas sim de toda a série dv5. Muitas pessoas em praticamente todos os fóruns estavam reclamando dos mesmos defeitos; "Estou totalmente decepcionado com a HP", os usuários dizem. Infelizmente, eu também. Há uma singela lista no Reclame Aqui, com páginas e mais páginas contra o dv5-1160br; a maioria de notebooks com apenas dois anos de uso, igual ao meu. Após a pesquisa, liguei para a autorizada e expliquei meu problema. Tive a seguinte resposta de uma atendente chamada Cíntia:

Segundo ela, a visita é cobrada em R$110,00. Ao entregar meu notebook na loja, eu deveria deixar como sinal 50% desse preço. O aparelho ficaria lá de 7 a 10 dias úteis, e o orçamento seria enviado para o meu email. Como eu receberia esse email, sem notebook, realmente não sei. Caso eu não aceitasse o orçamento oferecido, deveria pagar o restante do valor da visita para ter meu aparelho de volta. Ou seja, sou obrigada a pagar o conserto de um erro provocado pela própria empresa! No Fórum HP mais clientes reclamam e são aconselhados a comprar aparelhos de outra série; a empresa sabe muito bem que sua linha dv5 está completamente condenada.
O Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 10, estabelece que: O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança.
PROCON
A HP já foi autuada em 2010 por atrasar o recall de aparelhos defeituosos, e parece que não aprendeu a lição porque até hoje não fui informada sobre a série do meu notebook; pelo contrário, descobri o defeito por conta própria e ainda tenho que pagar para que consertem. Agora, só me resta entrar em contato com a empresa e tentar solucionar isso numa boa. Mas se quiserem criar caso, é caso que darei à eles.

 "HP, bom dia. Isto é um assalto!"

Jane Austen me persuadiu

Estou participando de um clube da leitura no Facebook, e o primeiro livro votado por todos os membros foi o Persuasão, da senhora Jane Austen. Achei muito legal, muito chubiruba, porque queria mesmo ler alguma obra dela; a moça romântica e elegante que conquistou muitas mulheres com seus livros e - sem querer - com seus filmes também. Decidi recomeçar meu vício por leitura em 2012, o ano excêntrico, e nada mais perfeito do que uma escritora aclamada, que oferece promessas de suspiros profundos e muito cu doce amor. Por mais que eu repudie moças indefesas, que sofrem de paixonite crônica, não posso negar que tenho um lado cor de rosa cheio de querer mimos e desmaios fictícios. Não que eu esteja coligando a persona de Austen as mulheres com baixa imunidade a oxitocina. Não que eu não esteja.

Que seja.

A Del Santana indicou, via Twitter, que eu falasse sobre Dona Austen. Calma, gente! Eu também fiquei mei'assim quando descobri que haviam outras Del por aí no mundo. Ainda não descobri o plural de Del, mas minha convenção de especialistas da Marvel está trabalhando arduamente nisso. Aceitei a sugestão dela por dois motivos: 1) eu adoro quando leitores sugerem textos; e 2) Eu preciso começar a falar de livros (se como entendesse do assunto) para me sentir mais na moda. É tendência resenhar livros em blogs agora, né. Apesar do Bonjour Circus ser um blog démodé, necessito levar o leite para as crianças todos os dias. Resumindo: porque sim.

Comecei a ler Persuasão bem animada, incentivada e com boa vontade. Uau! Estou conhecendo Jane Austen! Bem aquela coisa de desavisados mesmo. Logo de cara percebi que a linguagem culta inglesa não condiz com minha falta de atenção no momento. É aquela velha máxima do Transtorno de Ansiedade roubando o resto de dignidade das pessoas. Mas continuei lendo e fui conquistada por algumas citações aqui e ali.
Metade da atração sentida por cada uma das partes teria bastado, pois ele não tinha nada que fazer, e ela não tinha praticamente ninguém para amar, mas a confluência de tão abundantes qualidades não podia falhar.
Isso foi para o meu livro de citações sem eu saber ao certo a razão. Mas foi. Depois disso, prestei ainda mais atenção na narrativa que engloba todos os pormenores de Anne. Gostei do fato d'ela não estar gozando de plena juventude, desmistificando o clichê de que só as jovens virgens de bom coração se apaixonam. A coisa começou a desandar, porém, quando ela se enrosca em um Bem me Quer, Mal me Quer com o chuchu Wentworth. Infelizmente sou da banda que assistiu Orgulho e Preconceito antes de conhecer as obras literárias, ou seja, estou obviamente condenada. Estou obviamente presa a imagem de Matthew Macfadyen para qualquer personagem masculino dela. Matthew não tem expressões, logo, Wentworth não conquistou meu desarranjo intestinal amoroso.

Tsc, ingleses...

É uma lástima, com certeza, estar castrada antes mesmo de saborear a supremacia Austen, mas acho que assim quis a Providência. Sei que li a obra com olhos modernos, e que isso simplesmente não funciona. Mesmo assim, foi inevitável não me irritar com o joguinho sútil entre o mal sucedido casal. O arrependimento de Anne, sua fraqueza diante dos fatos e claro, a persuasão rondando todo o enredo.

O segundo volume do livro fica um tanto melhor; com discussões mais proveitosas, que descrevem detalhadamente os pensamentos da época. Pude perceber melhor a ironia da autora e consegui me divertir com isso. É um grande diferencial para um escritor, ainda mais em sua época. Mas, com um cotidiano trivial, Persuasão não cativou minha atenção. Só terminei de ler o livro por causa do clube de leitura; se não fosse isso, eu teria o abandonado logo na metade do primeiro volume. É trágico, sei disso. Vocês ficariam surpresos se eu dissesse que estou curiosa para ler outras obras dela? Acho que não. Já devem saber que adoro dar murro em ponta de faca. Finalizo minha análise (ah tá!) com a citação que deveria ter encerrado a história, mas Jane foi teimosa e fez mais águas rolarem com o desenrolar da trama, até que o casal resol... ZZzzzzzZZzZzZz
Não diga que o homem esquece mais depressa que a mulher, que o amor dele morre mais cedo. Eu não amei ninguém, se não a ti. Posso ter sido injusto, posso ter sido fraco e rancoroso, mas nunca inconstante. Vim a Bath unicamente por sua causa. Os meus pensamentos e planos são todos para si.
Gostando ou não, isso é o que todo mulher quer ouvir. Ponto positivo, Menina Austen!

Ill Circus fala sobre Ill Niño

Tudo começou no Ensino Médio, com R$5 pagos em um CD pirateado pela colega de classe. Eu tinha um computador, mas com internet discada. Você quer mesmo discutir sobre download de MP3? Não. Para você ter ideia, tenho esse CD até hoje. Quantos anos se passaram? 10 ou 11 anos, minha gente boa. É, quem diria! Ill Niño passando na frente do The Rasmus. Vocês mal sabem que essa banda, ainda hoje, passa na frente de muitas coisas...

O meu primeiro CD foi o Revolution Revolución, de 2001. Eu simplesmente pirei ao ouvi-lo pela primeira vez no meu discman (percebam que vocês acabaram de entrar em um museu). Aliás, eu comprei um discman só para ouvir esse CD. Meu pai não deixava eu ouvir músicas, mas quando o Revolution Revolución chegou naquela casa, meu amigo, eu caguei para o meu pai. Nossa, como eu escutei merda por causa daquele aparelho! Mas nada disso me impediu de conhecer uma das melhores bandas de new metal que já existiram no mercado. Todos os dias, depois do almoço, ao invés de escutar meu pai completamente bêbado arrajando briga com os vizinhos e estourando bombas dentro de casa (sim), eu colocava os fones de ouvido tocando o álbum RR e ficava na frente da televisão ligada para disfarçar. Pois é, se ele percebesse que eu estava ouvindo música, era capaz de me agredir física e verbalmente.

Mas o meu pai é um filho da puta que não merece menções nem na lápide da cova, portanto, vou logo ao que interessa.

Ill Niño é uma banda americana surgida em 1998. Não sei até que ponto os visitantes daqui me conhecem, mas devem saber que para eu gostar tanto de uma banda, ela deve ter um diferencial. No meu conceito, claro. O vocalista, Cristian Machado, é um brasileiro carioca que não fala sequer uma palavra em português, mas domina o espanhol. Eu acho isso muito autêntico, sinceramente. Adoro pessoas perdidas tanto quanto eu. Além dele há também o Daniel Couto, que fala português normalmente, e o Jardel, ex-baixista, que saiu da banda porque achou que a vida não teria mais graça se ele não seguisse a doutrina cristã ao pé da letra (sério). O que chamou minha atenção, porém, foi a batida latina misturada ao arranjo pesado do metal e o idioma espanhol encaixado no inglês. Foi uma experiência sensacional ouvir Rumba pela primeira vez! Para vocês terem uma ideia, eu arrepiei. Agora mesmo, escrevendo esse texto e ouvindo Rumba, eu solto um Puta que o pariu! e volto a ser uma adolescente.
The Gods want something (...) Everything that you find inside you will regret. Read all the fucking signs, choke on your own sweat! The right thing would be us to be, reunite nothing. (...) Baila la Rumba Latina!
Minha outra paixão pela banda também são suas letras. Temas políticos ácidos na medida certa e todas as problemáticas paternais que Cristian ilustrou muito bem em muitas de suas músicas e, naquela minha época que já exemplifiquei, caíram como luva. Ele também teve problemas com o pai e transpassou seus monstros mais imundos para o metal latino, que me conquistou até o lançamento de Confession, em 2003.

O Confession merece um texto a parte. Além de ter sido o álbum que lançou Ill Niño de uma vez por todas ao público, é o melhor de toda a carreira deles. Para mim, é o encerramento prematuro da banda que musicou minha adolescência. Eu queria muito, mesmo, colocar aqui todos os vídeos e citações que mais gosto, mas são tantos, e acho que vocês abandonaram esse texto já no quarto parágrafo. O que é uma pena, Ill Niño é digno de cada sílaba que escrevi aqui. Lembro até hoje que How Can I Live? foi uma das primeiras músicas que, finalmente, baixei no meu computador. Assim como foi a música que esteve no meu primeiro layout personalizado, de um dos meus primeiros blogs! Pois é, o El Blogacion, nome inspirado no Revolution Revolución. 


Essa música também me proporcionou uma das frases que vivem ao meu lado:
I am your mirror image. I'm all you left behind. You made me what I am. Then who the hell am I?
Após a saída da banda de sua gravadora, a Roadrunner, o sucesso e a qualidade começaram a cair vertiginosamente. Quando dei por mim, Ill Niño estava lançando o álbum One Nation Underground (2005) e demonstrando que não era mais o mesmo. Estava tudo errado. Pior, estavam todos vendidos. Então, vieram o Enigma e por último o Dead World. Cristian Machado ainda não conseguiu recuperar o seu alter ego, e eu não tive a menor vontade de ir ao show deles quando visitaram o Brasil, acho que em 2009. Eu já era uma mulher e não tinha muita coisa sobrando dos anos de adolescência, tão pouco o Ill Niño sobreviveu aos anos que passaram e levaram embora toda a essência latina da banda (aliás, eu estava na Europa, e pagar passagem de avião por causa de um show também me desanimou).

Mesmo com toda essa decepção, eles continuam firmes e fortes nos meus ouvidos, e baixo qualquer trabalho novo que lançam, na vã esperança de que um dia eles retornem. Nem se eu quisesse muito conseguiria separá-los do que fui um dia, do que pensei e da raiva juvenil que sofri.
Why do you tell me all these lies? I just want to live my life. I don't want to leave my dreams behind. Tell me, why am I only getting older? My patience is getting shorter. I'm running out of time and I hope that I get what I wanted.
— This Time's for Real, Ill Niño
Ill Niño: a banda que nomeou meu melhor apelido; Ill Circus. A banda que me fez descobrir centenas de outras bandas. Descobri amigos. Muitos! Importantíssimos e queridos, que me deram a responsabilidade de alimentar o primeiríssimo site oficial do IN no Brasil. Amigos que cataram dois integrantes à unha e arrancaram, depois de uma bela entrevista excluvisa, um "beijo para a Del!", que veio lá dos Estados Unidos através de vídeo. Passávamos horas no msn discutindo sobre eles e o escambal.

Cara, eu tinha muitas preocupações, muitos medos, e o que mais doi é olhar para trás e constatar que eu era só uma menina. Uma menina ingênua que só queria ouvir música e colecionar fotos de circo. Uma menina que só queria estudar e sair com os amigos. Ou melhor, eu queria ao menos ter o direito de fazer amigos. Mas eu não podia. Mesmo com tudo isso, existe somente uma coisa que consigo dizer ao olhar para as fotos antigas do Ill Niño...

Poxa, bons tempos!

Crise existencial

Sentei na janela do ônibus toda esbaforida porque tive que fazer aquela corridinha típica paulistana para alcançar o Seu Motorista, que estava doido para sair do corredor e ultrapassar os ônibus parados à sua frente. Mas pensei: Não será hoje que o senhor me deixará aqui, sozinha em meio a desértica cidade em férias! O cosmo não triunfará! Então, corri. Até onde consegui porque, como eu já disse no twitter, há uma teoria rondando Sampa. Se eu estivesse afim de perder tempo procuraria a frase, mas foi algo assim: "A calçada é como a vida: sempre haverá alguém na sua frente para te atrasar." Olha, tão verdade.

Do nada apareceu na minha frente uma moça de vestidinho, sandália e sem bolsa. Bem aquele estilo não sou paulistana. Ela desceu do ônibus na minha frente e lá ela ficou com todo o tempo do mundo nas mãos, sem saber ao certo que destino tomaria: se para trás ou para frente; a calçada não proporcionava as opções laterais. Eu, sempre muito elegante, dei uma cotovelada e rosnei "com licença". Empinei o beiço e fui catar o ônibus à unha. Estiquei meu braço dando aquela corridinha miserável, enquanto o motorista virava o volante se preparando para a fuga. Fiz cara de quem correria atrás dele até ser atropelada em plena Vereador José Diniz, e ele parou meio a contra-gosto; a porta se abriu e entrei.


Sentei e lamentei muito ter esquecido meu bom e velho MP3 em casa. O caminho para a terapia sem As Claves da Gaveta ou Hide From The Sun não é a mesma coisa. Enfim, pelo menos comemorei o fato do ônibus estar vazio (alegria da plebe). Minhas preocupações, porém, murcharam quando presenciei uma cena e tanto no cruzamento com a Bandeirantes. Preocupações, hunf!, agora sinto vergonha delas. Por entre os carros andava uma menina segurando uma boneca em uma das mãos. A menina tinha, se muito, quatro aninhos. A mão livre ela usava para pedir dinheiro aos motoristas. Logo depois, quando o farol abriu, mais duas crianças se juntaram a ela: um menino ainda menor e outra garota de, talvez, 10 anos. Eu sei que isso não é novidade na cidade, mas a menininha com a boneca realmente mexeu comigo.

Ela serviu de estopim para uma série de pensamentos que me levaram, quase inconscientemente, para a terapia. Quando cheguei e cumprimentei minha terapeuta, disse: Olha, estou sem vontade nenhuma de deitar nesse divã e reclamar das mesmas coisas de sempre. Nenhuma vontade. Não comentei sobre a menina do farol porque isso seria o cúmulo do egoísmo. É muito fácil sentar em um divã e falar da pobreza alheia. Não, eu me sentiria a pessoa mais suja do mundo se tivesse feito isso; usado do sofrimento da menina para ser ainda mais fraca e hipócrita. Pagando ainda por cima. Quando aquela menina terá a mesma soma de dinheiro que vale uma sessão de terapia? E o que ela faria com esse dinheiro (se nenhum adulto filho da puta tirasse antes das mãos dela)? Senti que um saco de lixo reciclável valeria muito mais do que eu naquele momento.

Mas como disse antes: a menina serviu de estopim para meus pensamentos. Após descer do ônibus e caminhar pela calçada, passei por uma moça com uniforme de hospital ou qualquer firma que o valha. Não notei. Ela andava com os ombros caídos para frente, os cabelos ao vento; metade presos, metade soltos pelo rosto. Os olhos apagados, de quem há muito tempo se esqueceu que um dia foi jovem. Um rosto sem expressão alguma, de quem já se esqueceu da última vez que riu até perder o ar. Fiquei bagunçada, por assim dizer. Fiquei realmente bagunçada com aquela moça. Olhei para trás e ela seguia como um robô, só Deus sabe para onde e por qual razão. Só espero que ela saiba o que está fazendo. De verdade.

As pessoas perderam suas personalidades. Perderam a sede das perguntas e vivem, simplesmente, porque são condicionadas a isso. Felicidade: às custas do quê? Olhando para aquela menininha no farol, suja e com uma boneca sem cabelos e desnuda nos braços: felicidade às custas de quem? Nos sobrepomos uns por cima dos outros tentando alcançar a cereja do topo, mas gente, à troco de quê? Não pude deixar de lembrar da música O Mérito e o Monstro. Para onde essas pessoas estão indo e o que, afinal de contas, estão fazendo com suas vidas? Chegamos ao ponto de barbarizar vidas que sequer são nossas. Chegamos ao ponto de nos escondermos por trás da resposta "Mas eu não pedi para nascer". Já não sei mais se as pessoas estão caminhando para algum lugar ou fugindo de alguma coisa.

Felicidade? Para quem?!

Preguiçosos e ridículos por natureza

No aniversário da minha grande Sampa, as sacolas de plástico antes oferecidas gratuitamente em supermercados, passaram a custar centavos. Então, todo mundo começou a correr em círculos. As pessoas achavam que o mundo acabaria com meteóros ou zombies, mas não esperavam que suas vidas fossem resumidas a sustentabilidade. O fim do mundo, portanto, foi bem mais simples do que se imaginava. Não tivemos tempo de levantar um fort nem de enrolar nossos corpos com plástico bolha. Agora com as sacolinhas plásticas sendo vendidas ao invés de distribuídas, estamos tão longe e tão perto do que um dia foi nossa liberdade de escolha.

Isso é um drama do caralho!

No ano em que morei fora das terras tupiniquins, aprendi muito sobre a preservação do meio ambiente. Aprendi sobre limpeza, para ser mais exata. Comparar o Brasil com países europeus é ignorância, e eu odeio quem faz isso. A razão é simples: praticamente metade da Europa cabe dentro do nosso país, logo, é no mínimo burrice querer que aqui funcione como o grupinho de cabeças de alfinete europeias. Para vocês terem uma ideia, o país onde me hospedei é composto por mais de 7.000.000 de habitantes enquanto São Paulo passou longe dos 10 milhões! Uma única cidade brasileira é capaz de ultrapassar grande parte do continente "perfeito e cheiroso", segundo brasileiros frustrados que nunca viram a neve. Mas estou tentando dizer que não é impossível viver sem plástico! É difícil de acreditar que a população se tornou tão dependente de uma sacolinha mequetrefe que vive rasgando. Não é possível que todos estejam tão desesperados a ponto de fazerem centenas de perguntas cuja resposta é única e sucinta: Se vira!

Pense! Não deixe o Fantástico ou as revistas "femininas" dizerem tudo o que você deve fazer com sua vida. Existem sacolas retornáveis, sacos de papelão, caixas, carrinhos, mochilas, bolsas, MÃOS. Vocês tem mãos! Assim como tem cérebro também, apesar de se esquecerem frequentemente disso. Larga dessa preguiça crônica - que assola metade da população brasileira - e pare de reclamar de uma coisa tão trivial. É vergonhoso ver solteiros sem saber o que fazer. O que gente solteira compra? Pão, ovos e... pão?! Idosos, em sua infinita sabedoria (not) deixam o bingo de lado e debatem sobre isso, alucinados por terem algo novo para conversar (estão cansados de reclamar das filas, coitados). Outro dia, assistindo a TV, vi em uma reportagem uma mulher completamente indignada com a nova lei.

— Como eu vou catar a sujeirinha do meu cachorro? O que eu vou colocar no lixo do meu banheiro? Como eu carrego minhas compras se não tenho carro?!

Eu, pacientemente, mesmo sabendo que ela não me ouvia, respondi que deveria usar a boca. "Abre a boca e joga lá dentro". Porque, olha, não vejo dificuldades em comprar sacos próprios para lixo. Não sei no que é difícil carregar as compras em outros lugares senão na sacola plástica. Tão pouco sei que moda é essa de recolher os dejetos dos animais porque brasileiro NUNCA faz isso. Agora que a corda apertou, ora essa, todo mundo começou a se preocupar até com a bosta dos cachorros! Enquanto antes todos cagavam e andavam para qualquer limpeza que fosse, hoje "os índios" realmente acreditam que precisam colocar a mão em conchinha debaixo do cu de seus cães já que o Sistema amputou a rede de comodidade.

Existe jornal, sacos para lixo, papelão e uma infinidade de opções para cada tipo de preguiçoso. Porém, principalmente, existe vida após a sacolinha plástica!